CAPÍTULO IV: Romeiros em peregrinação a São Severino do Ramos
4.4. Os benditos do caminho
4.4.2. Os benditos que cantam os símbolos rituais
Como podemos perceber, logo na primeira estrofe do canto – Maria, valei-me – ou seja, Nossa Senhora, me livre disso ou me proteja, os romeiros pedem a intervenção da mãe do Bom Jesus contra às agruras da própria vida cotidiana. É um pedido de socorro desses sujeitos, que como todos os seres humanos, estão sujeitos à dor, à aflição, à miséria e a toda sorte de adversidades que marcam, também, a nossa existência no mundo.
4.4.2. Os benditos que cantam os símbolos rituais
Além dos benditos que pedem proteção, os romeiros da romaria do chefe Sr.
Elias também cantam vários benditos que, pelo seu conteúdo poético, classifiquei como
54 Os romeiros da romaria do Senhor Elias têm uma versão do Maria, valei-me gravada e disponível no site youtube. Eis o link da gravação: https://www.youtube.com/watch?v=Jtp47u1fmiE.
benditos que cantam os símbolos presentes nos rituais romeiros. Como vimos no capítulo II desta pesquisa, a partir do conceito de ritual trazido por Turner (1974; 2005), esta gama de símbolos é fundamental para se produzir uma atmosfera ritual nas romarias.
São chapéus55, rosários, ex-votos, andores, cadernos de benditos, blusas confeccionadas especialmente para as romarias e, sem dúvida, a própria música, representada, sobretudo, pelos benditos.
Um dos símbolos marcantes nos transportes de romaria é o andor trazido em frente ao ônibus ao lado esquerdo do motorista (rever figura 12). Este símbolo é um dos que melhor identifica os transportes de romaria, justamente por ser o mais perceptível, podendo ser visto por qualquer indivíduo que aviste o ônibus ou outro transporte de romaria de frente.
O bendito Saia da frente embaraço é um desses benditos que sintetiza bem o que foi discutido até então neste subtópico:
Saia da frente embaraço E deixe o carro passar Este carro é de romeiro E não pode se demorar Não pode se demorar No meio da trevessia
55 O uso do chapéu de palha é muito frequente entre os romeiros nas romarias de Juazeiro do padre Cícero Romão. Segundo os próprios devotos, o chapéu é a identidade dos romeiros do padre Cícero.
Quem vai guiando este carro É nossa senhora da guia
O bendito, formado apenas por duas estrofes estruturadas em quadras, chama a atenção logo nos dois últimos versos da primeira estrofe. Há, claramente, uma afirmação de identidade: o carro que está na estrada é um carro de romeiro, um carro de romaria e, justamente por isso não pode demorar. A peregrinação não pode ser interrompida, pois é preciso que os romeiros consigam cumprir o objetivo mais importante da romaria: chegar próximo ao santo, acessar à sua morada e, para isso, a travessia deve ser feita sem embaraço, sem obstáculos.
O andor trazido pelos romeiros da romaria do Senhor Elias traz sempre como ícone símbolo a imagem do nossa Senhora. Não por acaso, os romeiros trazem à representação de nossa senhora da guia. Este título é um dos vários atribuídos à Nossa Senhora e, nesse caso, esta representação traz a mãe de Jesus Cristo como a padroeira dos navegantes, dos viajantes, assim como os romeiros os são. A alegoria produzida pela imagem do andor e ratificada pelo canto é que o próprio ônibus e os sujeitos que nele estão são guiados por nossa senhora, na sua representação simbólica de nossa senhora da guia.
Em diversos momentos de meu trabalho de campo, não em peregrinação, mas apenas dentro do santuário de São Severino do Ramos, me defrontei com diversos ônibus de romaria e, por muitas vezes, tive a sensação de que o ônibus de fato chegava em São Severino do Ramos sob a guia do santo que estava no andor dos ônibus. A imagem de nossa Senhora não é uma regra nos andores de romaria. Durante o trabalho de campo pude ver ônibus com a imagem de Padre Cicero, São José nossa senhora Aparecida entre outros santos.
Outro bendito voltado ao andor cantando pelos romeiros foi o chamado Andor de Nossa Senhora:
Meu Deus que andor é esse?
Meu Deus que andor será?
Andor de Nossa Senhora Ela mandou me chama Ela mandou me chamar Pra igreja de Belém
Vai um anjo em nossa frente Nossa Senhora também Meu Deus que andor é esse?
Meu Deus que andor será?
Andor de Nossa Senhora Ela mandou me chamar Ela mandou me chamar Pra igreja de Belém
Vai dois anjo em nossa frente Nossa Senhora também Meu Deus que andor é esse?
Meu Deus que andor será?
Andor de Nossa Senhora Ela mandou me chamar Ela mandou me chamar Pra igreja de Belém
Vai três anjo em nossa frente Nossa Senhora também
Este bendito é também respondido a cada dois versos, como demonstrado na partitura. A resposta se dá em uníssono. O bendito é estruturado em duas estrofes cuja a forma obedece a dos benditos de incelência, com três estrofes repetidas com a alteração apenas das palavras um, dois e três. As estrofes também são estruturadas em quadras com as rimas nos versos pares, perfazendo a forma A-B-C-B.
A construção poética desse bendito é assaz interessante. Na primeira estrofe, o canto faz menção direta ao símbolo do andor perguntando ao próprio Deus sobre sua identidade nos dois primeiros versos e em seguida; nos últimos versos da estrofe, responde-se que o andor é de nossa senhora, pois traz como símbolo icônico a sua imagem. Finalmente, no último verso da mesma estrofe revela-se o sentido mais profundo suscitado neste canto: a peregrinação romeira como um chamado. O bendito traz a romaria como um chamado do sagrado, consubstanciado, sobretudo, pela figura dos santos.
Ouvi várias vezes nas diversas conversas que tive com os romeiros esta ideia da romaria como um chamado e também como uma missão: É, meu Padre Cícero [ou outros santos] chamou, minha Nossa Senhora chamou eu vou, costumam dizer alguns romeiros quando pergunta-se o porquê de estar indo à romaria.
A noção de romaria como missão é também trazida nas narrativas dos romeiros.
Conseguir ir às romarias é manter e reatualizar os pactos devocionais firmados com os santos através do voto. Pactos esses que são, na grande maioria das vezes, herdados pelos romeiros de seus entes queridos, sobretudo pai e mãe.
Figura 20: Romeira Nena puxando os benditos no caminho
Fonte: acervo pessoal
Outro bendito que faz menção aos símbolos rituais durante a viagem na romaria é o Bendito do rosário de Maria56. Este bendito foi entoado durante o momento da reza do terço, um dos ritos que ocorrem tanto na viagem de ida quanto no retorno para casa.
Bendito e louvado seja O rosário de Maria
Se Deus não viesse ao mundo Ai de nós o que seria
Oh alma que anda triste No mundo sem alegria Tu acha sempre o amparo No rosário de Maria
56 Assim como o bendito A luz que mais alumeia, o bendito do rosário de Maria também tem alguns versos bastante interessantes disponíveis na internet. Por exemplo, a versão do coral Trovadores do Vale.
Nesta versão o bendito se apresenta com algumas diferenças, tanto na prosódia quanto na letra. Eis o link disponível no site youtube: https://www.youtube.com/watch?v=jtobDTW6XBE.
Oh alma que está perdida peregrinações, principalmente porque trata-se do instrumento utilizado na reza do terço que os romeiros fazem durante as peregrinações. Alguns romeiros trazem o rosário no
pescoço, como pode ser identificado na fotografia mostrada anteriormente; outros trazem no pulso na forma de pulseira e outros costumam enrolá-lo sobre a própria mão.
A riqueza poética deste bendito é algo que chama bastante a atenção. Com um jogo de palavras repletas de metáforas, como podemos notar na nona estrofe – Deus quando andou no mundo / por sua boca dizia / que subisse na escada / do rosário de Maria. Prosopopeia, como percebemos facilmente na décima estrofe nos dois primeiros versos – As estralas no céu / fazem sinal de alegria / das mesmas estrelas forma / o rosário de Maria, tanto o rosário quanto a sua reza é colocado como um instrumento de amparo e libertação para os devotos.
O bendito é bastante longo, estruturado em onze quadras. A forma A-B-C-B também é constatada nas estrofes que rimam entre os versos pares. A forma poética bendito e louvado seja dá início ao bendito, mas o oferecimento não aparece neste canto. O canto está no modo de fá# frígio. A melodia é curta com um âmbito que compreende um intervalo de sétima menor (ré4 – fá#3) e é constituída por saltos de segundas, terças (maiores e menores), quartas e quintas justas. Em sua estrutura fraseológica, o bendito é formado por um período formado por quatro frases.