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A RRANJOS FAMILIARES E DINÂMICAS PRODUTIVAS

No documento U NIVERSIDADE DEB RASÍLIA I NSTITUTO DEC (páginas 152-157)

A CONSTRUÇÃO DAS SUBJETIVIDADES RAÇA E GÊNERO

A RRANJOS FAMILIARES E DINÂMICAS PRODUTIVAS

Observando principalmente o cotidiano das mulheres marisqueiras, percebem-se dinâmicas particulares, as quais precisam ser compreendidas por meio das interfaces entre arranjos familiares e dimensões da produção. Conforme explicado na introdução, a pesquisa se concentrou em comunidades ribeirinhas, localizadas às margens de rios. No caso do Rio Mataje, situado na exata fronteira entre o Equador e a Colômbia, a equatoriana localidade de Palma Real, onde trabalhei, encontra-se em áreas de manguezais e praia. No caso do Río Patía (Salahonda/Tumaco), realidade similar se apresenta. Nesse contexto, as principais atividades produtivas são a mariscagem e a pesca.

Em Palma Real, Salahonda e Tumaco uma combinação de fatores permitiu a mulheres trabalhar coletando conchas nos manguezais e concomitantemente construir estratégias de cuidado e atenção aos filhos. Segundo Arocha (1986), são fatores ecossistêmicos, que facilitaram a redução da jornada extrativa e a utilização de tecnologias manuais, e fatores sócio-históricos, que entendo serem especialmente a matrifocalidade e as redes relacionais que as mulheres nutrem em torno de si. Elas saem para conchar em locais próximos à residência. Em geral o fazem no horário em que filhos/as estão na escola ou, quando necessário, podem levar as crianças para os manguezais. Uma possibilidade extra é a criação de arranjos solidários com outras mulheres, enquanto umas saem para trabalhar, outras ficam

153 em casa com as crianças. Trata-se de uma rede basicamente feminina que engloba vários lares ligados por relações de parentesco, mas também de amizade e laços matrimoniais, realidade similar com a descrita por Carol Stack sobre uma comunidade negra urbana dos Estados Unidos (1974). A existência dessa rede permite às mulheres desenvolver a mariscagem, ou concheo.

Nesse contexto, lar e local de trabalho se imiscuem. Não há uma rígida separação entre ambos, como se percebe na economia capitalista. Assim, as mulheres não são donas de casa, tampouco assalariadas. Como coloca Lozano, “a tradicional divisão sexual do trabalho no Pacífico não permitia traçar uma linha definitiva entre trabalho doméstico e o agrícola ou produtivo” (Lozano, 1996: 185). Moore (1991) chama atenção para o fato de que, em situações como essa, há uma combinação especial de relações produtivas e reprodutivas, que pôs ao alcance das mulheres uma fonte de renda, sem implicar ausência da casa. Ela ressalta que tal configuração não significa necessariamente a ruptura da divisão sexual do trabalho e a transformação das relações de gênero.

A família de Targelia Micolta, por exemplo, é composta por mulheres concheiras, que vivem direta ou indiretamente da extração da piangua nos manguezais de Palma Real. No derradeiro momento em que estive convivendo com a família, entre o fim de 2013 e o início de 2014, vivia cada uma em sua residência: a mãe, Targelia, e duas de suas filhas, Eneida e Leo. Leo estava casada com um rapaz de Palma Real que também vive da mariscagem. Ela diariamente sai para a jornada de trabalho com seu marido. O filho mais velho vai à escola, enquanto o mais novo fica com Eneida, que também se encarrega de cuidar de seus oito filhos. Targelia trabalha produzindo mechones, instrumentos feitos de fibra vegetal da Rhizophora mangle, árvore dos manguezais, usados para espantar mosquitos durante a jornada de extração da piangua. Então, antes de sair para conchar, as mulheres crianças e homens se dirigem à casa de Targelia para comprar seus mechones. Ao retornar da labuta, por vezes, Eneida compra de Leo as conchas para revendê-las. Nesse sentido, entre elas, constitui- se um circuito produtivo-econômico e doméstico, que envolve os encargos de cuidado com a descendência e geração de renda.

O concheo é uma atividade extenuante e que expõe as mulheres a enfermidades decorrentes da picada do peixe-sapo e eventualmente víboras; quedas acidentais, problemas ósseos, ginecológicos e dermatológicos a médio/longo prazo, em função da umidade do ambiente. Ademais, o contexto socioeconômico de Palma Real é bastante precário. Manoela Salazar descreve as mulheres concheiras como “las mujeres de la pesca, que son las que

154 capturan la concha, que son mujeres viudas, mujeres que son cabeza de familia, mujeres que han perdido sus hijos y sus esposos, esas mujeres son de la pesca, ¿no? También no tienen ayuda, nada. Mujeres que quedan en la frontera con Ecuador, ¿no?”. Assim, parece existir uma associação entre o concheo e as mulheres sem cônjuge. Quando encontram parceiros conjugais, as mulheres podem contar com a complementariedade do trabalho masculino e, assim, tem a possibilidade de “descansar”.

O depoimento de Martha acena para o fato de que há uma cooperação, mulheres mariscam e os homens pescam. Não necessariamente ambos o fazem ao mesmo tempo, mas complementarmente:

O sea por ejemplo yo cuando ya me junté con él ya no concheé más. Me quedé descansando en mi casa porque era mucho lo que había conchado, yo conchaba cuando estaba sola, pero cuando se trabaja en el Bajito por lo menos, las mujeres conchan y los hombres pescan, ahí están compartiendo el hogar, están ayudando al hogar todos dos. Por que cuando el hombre deja de pescar, la mujer concha y con esa plata están comiendo esos días mientras llega la plata del marido o ayudando a los hijos pa‘colegio p‘alguna cosa - Martha García.

Ao longo da convivência com a marisqueira família de Targelia, a pauperização é explicitada a todo o momento. São constantes os diálogos entre ela e suas filhas sobre como conseguir recursos para pagar as despesas cotidianas da casa ou como aumentar a renda da família. Targelia Micolta também fala sobre a possibilidade de descansar quando se tem um marido:

Paula: Cuando una mujer busca marido, ¿para qué es? ... ¿marido sirve para qué?

Targelia: ¡Para uno descansar! Uno no... por lo menos yo aquí. ¡Mire, la casa se me quiere caer! Mire, aquí tengo que hacer este trabajo de ahí. Tengo que tener plata para que me lo hagan. Porque si no tengo la plata, pues ninguno me lo hace. Usted con un marido…

Pensando no caso de mulheres como Martha e Targelia, compreendo sua posição nos arranjos familiares como estratégias por elas aplicadas para sobreviver e otimizar seus recursos e oportunidades nas circunstâncias em que vivem, que envolvem, além da dimensão produtivo-econômica, dimensões sociais, políticas e ideológicas.

Quando acompanhamos mulheres mais jovens, a dinâmica pode ser um pouco diferente. Leo saiu de casa, de Palma Real, San Lorenzo, Equador, aos sete anos de idade. A avó materna, María Magdalena, levou-a para Guayaquil. “Ella me llevó por allá y me dejó como compañera de la señora, pero no sabía que me iba a poner de empleada”. Desde que

155 saiu da casa dessa senhora, Leo trabalha180. Aos dezesseis anos ela ganhou a primeira filha, fruto da união com seu primeiro “compromisso”, de quem posteriormente se separou.

Paula: ahí te separaste ¿y qué hiciste con esa niña?

Leo: ¿con mi niña? Andaba conmigo. Yo trabajé en una camaronera, una empresa de camarones

Paula: ¿allá en Guayaquil?

Leo: sí. Ahí trabajé en esa camaronera un buen tiempo Paula: ¿en eso tenías cuantos años?

Leo: ya tenía mis veinte años. Entonces él [el papá de la niña] ya se fue, estaba yo trabajando ahí mantenía a mi hija, cuando necesitaba la niña algo yo mandaba la niña donde él, él la tenía. Cuando me tocaba trabajar de noche, él iba a dormir con ella, porque él después se hizo de otra mujer, entonces ahí yo trabajaba y él la cuidaba.

Vemos, pois, que Leo contou com apoio do pai da criança para cuidá-la, o que parece ser um aspecto relevante para a possibilidade de seguir trabalhando na empresa de cultivo de camarão. Desde que retornou a Palma Real, sua atividade principal é a mariscagem. Ela assumiu uma nova relação conjugal. Seu atual companheiro também é conchero, mas Leo não deixou de mariscar:

Yo tengo que aprender le decía yo a ella [la hermana Eneida], a mí me gustaba ir a conchar y tenía que aprender a mantener a mis hijos. Ahí ya me hice un compromiso. A mi hijo mayor tampoco le gusta que yo vaya a conchar. Pero yo no puedo estar en la casa, no puedo, no me gusta. Me da flojera estar solo encerrada en la casa sin hacer nada, me canso más en la casa que en el conchero - Leo Micolta.

Vários depoimentos indicam que há um corte geracional no tocante às expectativas sociais direcionadas a mulheres e homens. O depoimento de Martina Granja anteriormente apresentado também indica que há mudanças contemporâneas nesse quesito. O mesmo é colocado por sua sobrinha, Ana Karina Granja: “Antes se enseñaba que el marido no puede lavar un plato. Las madres no permitían que un hombre hijo de ella salga a lavar en la casa. Yo discuto eso con la mamá de mi novio. Ella dice que no. El hijo de ella no. Yo tampoco voy a ser empleada de su hijo, yo le digo. ¡Nunca!”.

Elvia Micolta fala sobre essa questão, referindo-se à equidade de gênero, tema que estudou no curso dedicado à formação de jovens líderes afro-equatorianos/as, em San Lorenzo181:

180 Para Lozano (1996), a mobilidade feminina no Pacífico é uma das mudanças trazidas pela entrada do grande

capital e pela perspectiva do desenvolvimento.

181 O curso desenvolvido no Centro Binacional Martin Luther King, que é também sede da Federación de

Artesanos Afroecuatorianos Recolectores de Productos Bioacuáticos del Manglar, chamou-se Ciclo de Formación de Líderes y Liderezas. Consistiu em cinco encontros presenciais, de dois dias cada um, entre os meses de outubro e dezembro, encerrado com conferências (“diálogo de saberes”) e um ato de formatura. A

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Me gustó eso y también sobre la equidad de género, que tanto los hombres como las mujeres, así como ellos tienen derecho uno también lo tiene, así como ahorita ellos trabajan uno también trabaja, yo hago esto tu también lo haces, porque ahorita tiene que haber una equidad de género entre los dos. No es que porque tu trabajas me vas a humillar, no, los dos trabajamos, los dos tenemos ese derecho, los dos nos vamos a compartir todo, tu a mí no me vas a maltratar ni yo a ti, los dos para que allá una equidad, ni tu más arriba ni yo más abajo, los dos estamos ahí en el centro (…)a partir del 2010, del 2012 ya ha habido más la equidad de género, ya no hay más como antes que existía un capricho que los hombres le podían hacer de todo a las mujeres, ahora no. Si es posible una mujer lava la ropa y él va lavando los platos, hay esposos que te ayudan a barrer, ayudan cocinando. Entonces ahorita hay una equidad de género, tanto como allá [Palma Real] tanto como algunas partes de aquí también [San Lorenzo]. Por acá ahorita hay un poco más, para lo de antes que era machismo, capricho, ahora ya no - Elvia Micolta.

Marlene trouxe o tema no contexto de uma reflexão que envolvia várias mulheres negras na “Mesa de Género”, do Pre-Congreso Departamental Nariño, Etapa preparatoria al Primer Congreso Nacional de Consejos Comunitarios y Organizaciones Étnicas Afrocolombianas, Palenqueras y Raizales182. Marlene argumentava que as mudanças seguem a direção de desconstruir opressões de gênero, começando dentro do lar: “los hijos que nosotras criamos ya no son machistas. En mi casa, todos limpiamos platos. Hay que desaprender determinadas cosas y volver a construir‖. Nesse contexto, à fala de Marlene foi contraposta uma perspectiva de que papéis sociais femininos e masculinos estão consolidados e que não cabe às mulheres intervir nessa construção. Edna Padilla, liderança que faz parte da Mesa Departamental de Mujeres de Nariño, foi quem trouxe tal perspectiva.

Nuestro lugar debe ser con los hombres no como ellos. Culturalmente, somos hombres y somos mujeres y hay lugar para cada uno. Yo en mi casa hago todo para mi hijo. Si le soltamos a los hombres a la cocina, ¿yo qué hago? Es compartido el quehacer de la casa. Están trabajando los dos (el hijo y la hija) pero cada uno en su espacio: el lava el patio, ella barre y trapea. El límpido mariquea, el ajo también183- Edna Padilla.

seguir descrevo os temas e facilitadores de cada módulo: Módulo 1: Realidade Nacional e Global – Pablo Vergara (13 e 14 de outubro de 2012); Módulo 2: Democracia e Participação – Liliana Suárez (27 e 28 de outubro de 2012); Módulo 3: Poder Cidadão – Katherine Chalá (10 e 11 de novembro de 2012); Módulo 4: Políticas Públicas e Ações Afirmativas – Jhon Antón (24 e 25 de novembro de 2012); Módulo 5: Identidade Cultural – Juan García y Pablo de la Torre (8 e 9 de dezembro de 2012).

182 O evento ocorreu entre os dias 9 e 10 de agosto de 2013, no Liceo Max Eidel, Tumaco, Nariño, Colômbia.

Foi organizado em nível local por RECOMPAS, ASOCOETNAR e CONDICOC, com apoio da comissão de organização do congresso em nível nacional.

157 Fernández-Rasines ajuda-nos a compreendê-la. Em diálogos com mulheres afro- equatorianas da costa e da serra, a autora observou uma dinâmica disciplinar por meio da qual as mães dividem tarefas do lar que eram comuns para filhas e filhos em idade mais jovem. Isso ocorre especialmente a partir da puberdade, quando se faz necessário dar “caráter de homem” aos meninos (Fernández-Rasines, 2001: 163). O depoimento, portanto, afirma o entendimento de que, ao realizar tarefas domésticas de limpeza e cozinha, o homem perde sua virilidade, aproximando-se da mulher.

Edna Padilla estava isolada na defesa de seu argumento no contexto da Mesa de Gênero e sua fala destoa das vozes de mulheres com quem dialoguei processualmente. Ana Karina Granja, por exemplo, dizia “mi papá se metió a la cocina, mi papá no es marica”. A maioria das narrativas aponta o machismo como um problema cultural, cuja raiz se encontra também na educação doméstica dentro das famílias afro-pacíficas, que pode sedimentar papéis masculinos e femininos gerando uma condição de desvantagem para as mulheres.

Novamente, retomamos Machado (2010) e sua reflexão sobre as tensões no processo de ressignificação cultural que envolve a defesa simultânea de direitos das mulheres e direitos à diversidade cultural de suas comunidades e povos. A autora ressalta que arranjos familiares ancorados em tradições culturais devem se adequar ao acordado em relação aos direitos humanos das mulheres: “os direitos coletivos devem ser preservados desde quando não forem contrários ao que foi acordado como direitos individuais” (Machado, 2010: 73). Para Asher (2009), os papéis de gênero, moldados por estruturas de passado, estão se reconfigurando e se reformulando, ainda que com tensões e dificuldades, em contextos políticos contemporâneos dos movimentos negros ou afro-colombianos.

Percebo, então, que as mulheres com quem dialoguei priorizam, nesse tocante, os direitos das mulheres, comprometendo-se com a transformação social desde suas próprias famílias, como diziam na Mesa de Gênero: “hay que construir en el proceso pero también en la casa. La primera escuela es el hogar”.

No documento U NIVERSIDADE DEB RASÍLIA I NSTITUTO DEC (páginas 152-157)