O Pacífico colombo-equatoriano é uma região de bosque tropical, com clima úmido e cálido, de temperaturas que oscilam entre 20º e 32º e umidade entre 80 e 95%. Segundo West (2000), as terras baixas do Pacífico colombiano são a parte mais chuvosa das Américas, com média anual entre 3 mil a 10 mil milímetros, ainda que na região foco da pesquisa diminua a precipitação total no ano e haja um período seco.
As terras baixas do Pacífico são entrecortadas por centenas de rios que nascem nas montanhas da Cordilheira Ocidental26e caminham em direção ao mar. Segundo West, “os rios são os corredores para o transporte humano e suas ribeiras os principais lugares de habitação humana” (2000: 8)27. De acordo com a descrição geográfica do autor, percebemos que os rios Patía, Mira, Mataje e Santiago formam as principais bacias hidrográficas entre o extremo sul da Colômbia e o extremo norte do Equador. Conforme explica González (1995), no
26 Um dos três ramos dos Andes colombianos. Chega a ter 3mil metros acima do nível do mar (West, 2000: 15). 27 Tradução livre.
31 departamento de Nariño, as bacias que se destacam são as do Rio Patía e do Rio Mira. Segundo Novoa (2010), na Província de Esmeraldas, os três sistemas hidrográficos principais são: Mira, Santiago e Esmeraldas, sendo que o último recorre às águas das cadeias montanhosas dos Andes até chegar ao Pacífico28. Entre eles, ressalta West (2000), o binacional rio Mira é o que possui o maior delta, ou planície deltaica, como diz o autor, cuja deposição aluvial cobre uma área de 25 a 50 km. Os deltas e planícies baixas dos rios se unem e desenham a faixa costeira aluvial do Pacífico.
Às margens do mar, predominam manguezais, que são respaldados por pântanos de água doce. O autor explica que são quatro faixas geográficas situadas uma atrás da outra partindo do mar em direção à terra: 1) uma faixa de águas pouco profundas e terrenos de lodo antes da costa; 2) uma série de praias de areia descontínuas interrompidas por boqueirões, estuários e amplos terrenos de lodo29; 3) uma zona de manguezais que em geral tem a largura de 0,8 a 5 km; 4) uma faixa pantanosa de água doce, situada imediatamente detrás da água salobra dos manguezais (West, 2000: 30-31). É característica dessa região do Pacífico a grande variação das marés, cuja média oscila entre 2,5 a 3 metros e 3,4 a 4 metros em época de lua cheia ou nova. Ao longo da costa aluvial a maré pode entrar no curso dos maiores rios por muitos quilômetros.
Os esteiros fazem a conexão entre rios e mar; percorrem áreas posteriores a praias e manguezais e seguem paralelamente à costa, conectando-se com as partes baixas dos rios. Eles formam um complexo sistema de canais curtos e sinuosos, uma via aquática quase contínua no interior dos bosques de mangue. Ademais, separam grandes áreas de humedal (chamadas ilhas) da terra firme. Os esteiros, às vezes, estreitam-se até formar pequenos riachos, os quais, durante a maré alta, se enchem e regam os manguezais de água salobra. Na maré alta, os esteiros são fluxo de transporte costeiro para canoas e lanchas de pequeno porte, em alternativa à turbulência do mar aberto. Já na maré baixa, os menores esteiros se secam enquanto os mais fundos se transformam em pequenas quebradas. De todo modo, a navegação por eles não é viável (West, 2000: 36-37).
Nessa pesquisa, trabalhei principalmente em três municípios da costa pacífica: Tumaco e Francisco Pizarro (Salahonda), na Colômbia; San Lorenzo, no Equador.
28 A bacia do Rio Esmeraldas está mais ao sul da província homônima, não sendo tão importante para a região de
San Lorenzo, foco da pesquisa.
29 Vale ressaltar que as praias cobrem de 40% a 45% da costa. O resto é lodo e manguezais em baías protegidas e
estuários (West, 2000: 31).West ressalta que, como a maioria das costas aluviais baixas, o litoral colombiano coberto por manguezais é instável (Idem, ibidem: 39).
32 Figura 1 - Mapa de localização
Na Colômbia, a divisão político-administrativa seccionou o país em 32 departamentos e um distrito capital (Bogotá, que é também a capital do departamento de Cundinamarca). Os departamentos são divididos em municípios, por sua vez subdivididos em corregimentos. Esses são compostos por uma cabeceira e veredas, unidades comunitárias da zona rural. Os municípios vizinhos de Tumaco e Salahonda situam-se no departamento de Nariño, que tem uma caracterização peculiar. Pasto, a capital desse departamento, é uma cidade andina, com concentração de populações indígenas e “mestiças”, assim como os demais municípios de Nariño, à parte da região amazônica do departamento. Nesse sentido, Tumaco e Salahonda destacam-se no contexto departamental por serem municípios costeiros, tropicais, úmidos e cálidos, e especialmente pela majoritária população negra. Francisco Pizarro, ou Salahonda, como é mais conhecido, já foi um corregimiento de Tumaco e depois se autonomizou. Trata-
33 se de um município de pequeníssimo porte, ou um pueblo, como se diz localmente. Sua população é de 11.029 habitantes30, segundo dados do Censo Geral de 2005 (DANE) e a infraestrutura é precária, estando a população muito vinculada a Tumaco. Já esta última cidade é de médio porte. Segundo dados do Censo 2005, a projeção da população tumaquenha para o ano de 2010 era de 179.005 habitantes, entre os quais, 97.547 estariam na cabeceira municipal e 81.458 nas chamadas veredas, unidades comunitárias da zona rural, em sua maioria ribeirinhas31. Também há debilidade de infraestrutura em Tumaco. O mesmo Censo Geral de 2005 indica que 77,4% das residências de Tumaco têm energia elétrica; apenas 5,7% têm rede de esgoto; 29,2% têm aqueduto; 12,9% têm telefone. No total, metade da população de Tumaco (50,7%) acessa a educação formal em um estabelecimento de ensino.
No Equador, as unidades da divisão político-administrativa são as províncias, que somam 24, agregadas em 4 regiões: Serra, Costeira, Amazônica e Insular. Cada província se subdivide em cantões. São 219 cantões ao todo, que, por sua vez, se subdividem em paróquias, classificadas como rurais ou urbanas. As paróquias podem ainda conter dentro delas recintos. San Lorenzo é o cantão do extremo norte da província de Esmeraldas, cujo território se encontra com o de Tumaco, no extremo sul da Colômbia. Segundo dados do Censo de 2010, a população total de San Lorenzo é de 42.486 pessoas; entre as quais, 19.221 vivem na zona rural. Na homônima cabeceira do cantão, área urbana, vivem 23.265 pessoas; entre as quais, 37,8% consomem água sem o devido tratamento, 5% residem em casas em mal estado, 12% não contam com destinação pública para o lixo, 9,68% da população têm menos de 10 anos e 10,85% da população acima de 15 anos é de analfabetos/as. Nota-se que, assim como em Tumaco, os índices de San Lorenzo indicam uma precariedade de infraestrutura e prestação de serviços sociais básicos.
Trabalhar em dois países representou um desafio na medida em que são dois referenciais político-administrativos, jurídicos, legislativos, entre outras dimensões. Por outro lado, as dinâmicas sociais são fluidas entre San Lorenzo e Tumaco, de modo que a fronteira entre nações por vezes demonstra ser apenas uma linha imaginária. Há uma rede de pessoas, ideias, discursos e empreendimentos que conecta paróquias e veredas entre o Equador e a Colômbia. Essa região é povoada por populações pendulares, famílias que se distribuem entre San Lorenzo, Esmeraldas, Tumaco, Cali, extremando-se em Quito e Bogotá. A organização
30 ¿Cuántos habitantes tiene Francisco Pizarro (Nariño)?. Disponível em:
http://www.venio.info/pregunta/cuantos-habitantes-tiene-francisco-pizarro-narino-16452.html. Acessado em 9 de outubro de 2014.
34 em redes opera mediante uma identificação dos sujeitos com sua origem e procedência. Pelas tramas dessa rede, busca-se o reconhecimento de formas ancestrais de ocupação territorial e respostas a anseios por melhores condições de trabalho e vida. A contemporânea fluidez na região de encontro entre Equador e Colômbia reflete a gênese comum desse território.
Para compreendê-la, iniciaremos com um retorno à formação histórica dessa região, retomando os marcos da escravização de africanos e seus descendentes, bem como, e principalmente, dos processos de resistência negra. Compreendo que as reflexões em torno da agência e da busca por autonomia negra são fundamentais. O processo de escravização configura uma condição imposta à população africana e seus descendentes dada a assimetria de poder entre Europa, de um lado, África e América, de outro. Nesse sentido, uso o termo escravização em lugar de escravidão, já que o primeiro remete a essa assimetria de poder. Nessa seção, o Brasil aparece em breves palavras.