O primeiro período da história do MAB defini-se pelo formato que assume sua organização nacional, como um espaço de articulação das lutas regionais e de troca de experiências. De fato, além da fundação do Movimento, o I Congresso deliberou que cada grupo local ou regional guardaria absoluta autonomia política, organizacional e financeira. A Coordenação Nacional criada no Congresso, teria representação igualitária das regiões e cumpriria as tarefas de articulação. Uma pequena secretaria, sediada em São Paulo com uma ou duas pessoas em tempo integral, apoiaria o trabalho da Coordenação.
Assim, as organizações regionais dispunham de grande autonomia, constituindo movimentos dentro do Movimento, como a Crab no sul, a Coordenação Regional dos Atingidos por Barragens do Rio Iguaçu (Crabi) no Paraná, a Coordenação dos Atingidos por Barragens da Amazônia (Caba), o Pólo Sindical no São Francisco, o Campo Vale no Jequitinhonha (MG) e o Movimento dos Ameaçados por Barragens (Moab), reunindo populações quilombolas do Vale do Ribeira em São Paulo, entre outras. Além destas, participavam organizações de assessoria, especialmente ONGs e centros de educação popular, que trabalhavam com os atingidos em regiões específicas. Dessa forma, a organização nacional do MAB assumia uma forma parecida com uma federação de movimentos e entidades regionais, com pouca interação e identidade comum entre si. O MAB Nacional, como era conhecido, resumia-se a estrutura da secretaria mantida com recursos da cooperação internacional, encarregada de assessorar o trabalho de um grupo pequeno de dirigentes, que
7 Para marcar a importância do I Congresso, o dia 14 de março foi afirmado como dia nacional de luta contra as
conformavam o núcleo executivo da Coordenação. Estes tinham a tarefa de percorrer o país e contribuir nas organizações regionais, além de representar o MAB frente às articulações nacionais e internacionais que este fazia. Já as organizações locais eram bastante heterogêneas, com diferentes graus de identificação ou sentimento de pertencimento ao MAB.
Tanto no movimento nacional, como na maioria das organizações locais, havia um tensionamento permanente relativo à forma organizacional que daria corpo ao MAB. Ao mesmo tempo em que o movimento popular de massas se efetivava em momentos específicos em determinadas barragens, quando da realização de manifestações públicas e ocupações, a organização permanente do MAB e na maioria das entidades locais se mantinha num formato semelhante à estrutura de Organizações Não Governamentais (ONGs), quando não eram exatamente isso. O MAB Nacional era identificado, não pelo movimento em si, mas pela atuação dos dirigentes e tinha como ponto referencial à estrutura física da secretaria. Havia grande prioridade para a tarefa de articulação, em detrimento do trabalho de base nas regiões atingidas. Durante os primeiros anos, o MAB Nacional se limitou a coordenar pautas reivindicatórias, construir relação com os demais movimentos populares. A organização de viagens de militantes de uma barragem a outra expressava, neste período, a preocupação em promover o conhecimento mútuo e troca de experiências. Já a nível regional, é importante levar em conta que os grupos atingidos constituem em sua maioria, populações tradicionais e trabalhadores com baixíssimo nível de renda. O analfabetismo é uma realidade que até hoje, ultrapassa índices de 80% em algumas comunidades atingidas, assim como a falta de eletrificação nas áreas ribeirinhas. Deste modo, as organizações locais apresentavam níveis de dependência variados em relação a grupos de assessoria, a igreja, sindicatos, ONGs e a grupos acadêmicos. Atingidos e assessores viviam uma relação permeada por diferentes interesses, que muitas vezes criava situações contraditórias, já que, ao mesmo tempo em que o papel dos assessores era extremamente importante na constituição da organização dos atingidos, a transformação desta em movimento popular parecia depender da participação efetiva dos atingidos diretamente na direção e definição de seus rumos.
Os congressos nacionais realizados na década de 1990, o 2° em 1993, realizado em São Paulo, o 3° realizado em Brasília em dezembro de 1996 e o 4° Congresso Nacional realizado em Belo Horizonte em novembro de 1999, refletiam os diferentes graus de sentimento de
pertença e adesão ao MAB. Constituídos por encontros de dirigentes regionais, os congressos nacionais contavam com a participação de cerca de 100 lideranças na maioria das vezes. Algumas, notadamente as da Crab tencionavam pela dissolução das organizações regionais e constituição do Movimento unificado. Outras, mais ligadas aos grupos de assessoria e entidades de atingidos já constituídas com identificação própria, priorizavam as tarefas de suas organizações específicas em detrimento do trabalho do MAB.
Esta relação marca a história do MAB nos anos 1990. Neste período, também tomou destaque a participação do Movimento nas discussões da ECO-92, onde o MAB foi um dos principais atores da sociedade civil brasileira no tema energia, sendo também fundador do Grupo de Trabalho sobre Energia – GT Energia, dentro do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – FBOMS, criado no âmbito da ECO-92, e até os dias de hoje, principal congregação das entidades ambientalistas brasileiras. O debate sobre meio ambiente no MAB toma corpo nos anos 1990, não só nos aspectos e argumentos que diretamente constituíam oportunidades para questionar as barragens, mas sim, numa visão integral voltada para a preservação ambiental como um todo.
Em março de 1997, o MAB promoveu o 1º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens8, na cidade de Curitiba, no Paraná. O Encontro Internacional contou com a participação de 20 países, dentre eles, atingidos por barragens e organizações de apoio. Do encontro, resultou a “Declaração de Curitiba”, que unifica as lutas internacionais e institui o Dia 14 de Março, como o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens. Fruto da articulação internacional e por pressão dos movimentos de atingidos por barragens de todo o mundo, ainda no ano de 1997 é criada na Suíça, a Comissão Mundial de Barragens (CMB), ligada ao Banco Mundial e com a participação de representantes de ONGs, movimentos de atingidos, empresas construtoras de barragens, entidades de financiamento e governos. A CMB teve o objetivo de levantar e propor soluções para os problemas causados pelas construtoras de barragens a nível mundial, bem como propor alternativas. O MAB foi um dos protagonistas deste debate que durou aproximadamente três anos, resultando no relatório final
8 O 2º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens foi realizado em dezembro de 2003, na
da CMB que, a partir de um abrangente estudo a nível mundial, mostra os problemas causados pelas barragens e aponta um novo modelo para tomada de decisões.
Em 1999, a realização do 4° Congresso do MAB marca o início de mudanças na constituição do Movimento que se manifestariam com mais clareza nos anos seguintes. A dicotomia existente entre a permanência do MAB como uma federação de organizações regionais e o desejo de consolidação de um movimento popular unificado vai se resolvendo no processo, principalmente pela crescente hegemonização dos grupos mais afinados com a idéia de movimento unificado sobre o MAB nacional, já que os demais, concentravam suas energias no trabalho regional. Dessa forma, o congresso de 1999 aponta uma resolução clara na forma organizativa do MAB no Brasil, recomendando a todas as regiões que a principal instância do Movimento deveria passar a ser os “grupos de base”, reunindo pequeno número de famílias cada um, em todas as comunidades atingidas por barragens. As lideranças do Movimento deveriam ser escolhidas nos grupos pelo conjunto das famílias, que por sua vez formariam uma coordenação local, enviando representantes a uma coordenação regional que por fim, enviaria representantes à coordenação nacional do MAB. O 4° Congresso também marca uma definição ideológica mais clara do MAB que reflete um afastamento progressivo, que só viria a se efetivar definitivamente anos mais tarde, da concepção sindical cutista e do Partido dos Trabalhadores, com os quais mantinha relações estreitas. Para tanto, o MAB reafirma o compromisso de lutar contra o modelo capitalista neoliberal e ergue a bandeira da construção de um novo modelo energético dentro de um projeto popular para o Brasil, proposição construída conjuntamente com vários movimentos populares brasileiros, alicerçava-se sobre os pilares da democracia, soberania nacional, solidariedade, desenvolvimento e sustentabilidade. Esta proposta reflete um estreitamento de relações com movimentos sociais como o MST, as pastorais da igreja e com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que surge em alternativa a concepção sindical no campo da CUT e da Contag, vistas como institucionalizadas e com papel histórico ultrapassado.
2.2.1 – O MAB DEIXA SER ARTICULAÇÃO E SE TORNA UM MOVIMENTO POPULAR