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Na pesquisa realizada por sociólogos contratados pela Eletrosul (1981), feita junto ao setor econômico de Itá para subsidiar a relocação na cidade, detectou-se expectativa generalizada entre os empreendedores locais no sentido de expandir seus negócios com a barragem. Foram aplicados questionários junto a todos os empresários locais e, segundo a Eletrosul, “as aspirações da classe empresarial local” são, entre outras:

a) mudar o quanto antes (21 manifestações); b) obtenção de facilidades financeiras para a mudança; c) manutenção das empresas em funcionamento durante o período de mudança (serrarias e olarias); e) preservação, tanto quanto possível, das posições relativas das empresas no que diz respeito às suas localizações na cidade; (...) Observou-se que de um modo geral, os empresários locais não temem a mudança. (ELETROSUL, 1981 p. 22).

Uma das olarias estava inclusive, no período que foi feita à pesquisa em 1981, implantando nova tecnologia no processo de produção de tijolos, esperando vendê-los para a construção da nova cidade. Araújo e Vainer (1989) ao analisarem as lutas contras as barragem na bacia do rio Uruguai, constataram que na cidade de Itá, não se institui um pólo de resistência, uma vez que os comerciantes, que seriam a classe social mais importante do grupo social da cidade de Itá, viu a obra como uma oportunidade de serem beneficiados. Araújo e Vainer também chamam a atenção, no caso dos núcleos urbanos atingidos, para o peso exercido pelas organizações políticos-institucionais, como câmara de vereadores, prefeituras

etc. Em 2006, registramos o seguinte depoimento do atual presidente da Associação Comercial e Industrial de Itá:

Minha família sempre morou na cidade, meus pais são oriundos do RS, vieram desde o ano 49 pra cá, sempre tivemos hotel, comércio, restaurante e junto a isso tinha a rodoviária, tinha central telefônica, o primeiro telefone foi na nossa casa. Então tinha todo essa parte aí, meu pai tinha granja também, lavoura, pecuária, suíno, aves, tinha duas colônias de terra (...) Nós sempre fomos a favor (da barragem), até porque a gente vislumbrava algo melhor, nós tínhamos uma situação geográfica um pouco dificultosa, o progresso demorava um pouco mais pra chegar, e talvez, taria aí a oportunidade de dar uma alavancada no desenvolvimento da cidade. De fato, na construção de uma barragem, determinadas empresas locais poderiam aumentar seu lucro a partir da prestação de serviços, produção e distribuição de bens. Ao mesmo tempo, abriria-se a possibilidade de maiores oportunidades em frentes de trabalho profissional para médicos, advogados, contadores e outros, que ao visualizarem a possibilidade de aumentar seus rendimentos, passam a divulgarem a barragem como algo bom. Nota-se que a maioria dos profissionais liberais que atuavam em Itá em 198127, eram originários das famílias que a Eletrosul denominou “classe empresarial local” de Itá, que por conta da melhor situação econômica, puderam mandar seus filhos freqüentar curso superior fora, que depois retornaram ao município para exercer a profissão.

De qualquer modo, nos dois casos, o chamado “progresso” aparecia como utopia realizadora dos anseios inerentes à condição de classe que estes indivíduos estavam colocados, subsidiada por uma visão de mundo própria das determinações que sua colocação num lugar específico na divisão social do trabalho, propicia.

Analisaremos mais adiante, como “a classe empresarial local” de Itá se organizou para buscar a realização de sua utopia, e como, em parceria com a Eletrosul, torna esta ideologia do progresso hegemônica na cidade de Itá.

Por hora, afirmamos que no imaginário popular, estes setores de maior estatura econômica e detentores de estudo e conhecimento, possuem legitimidade e grande poder de persuasão sobre as pessoas mais simples e a população em geral de uma determinada

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As entrevistas para nossa pesquisa, feitas em Itá em 2006, constataram o mesmo. Médicos, advogados, farmacêuticos, bioquímico, engenheiros, veterinários que atuam no município pertencem, em sua maioria, às famílias tradicionais do local.

comunidade. Em Itá, eram originários deste setor também, a quase totalidade dos eleitos para os cargos públicos no município, de forma que, além da liderança adquirida pelo acúmulo do que Bourdieu chamaria de “capital simbólico”, este setor também possuía a liderança institucional da comunidade, através do controle do aparelho do estado.

Além disso, nossa pesquisa em 2006, averiguou que na cidade de Itá, os principais cargos das diretorias de organizações tradicionais de maior importância para a comunidade, estavam também ocupadas no começo da década de 1980, por integrantes da “classe empresarial local”, tais como: diretoria da comunidade da igreja católica, do Clube Cruzeiro (esportivo e recreativo), do Lions Clube, do sindicato rural e do sindicato de trabalhadores rurais (este até 1983 quando é tomado pelo MAB), entre outros, e dos únicos partidos políticos de relevância em Itá em 1981, o PMDB e o PDS. A exceção nesse caso, tanto em origem no grupo local economicamente mais forte, como em concordância com a ideologia do progresso, foi o padre.

Deste modo, frente ao posicionamento da elite local, dos políticos e das referência públicas da comunidade, a população cai na resignação. Dissemina-se nos mais pobres, a idéia de ceder espaço para o “bem”, para o “progresso” do país que precisa de energia, ceder espaço, “colaborar” com o Brasil, “se sacrificar” em favor dos outros. Enquanto que o sentimento de sacrifício e entrega a nação se disseminava entre os mais pobres da cidade, os comerciantes e lideranças políticas visualizavam o lucro que teriam. Peixer colheu os seguintes depoimentos de populares da cidade de Itá no início dos anos 1990:

A gente não pode dizer não, a gente pensou no lado econômico do Brasil, pensamos na crise de energia, vai precisar (de energia), é um pouco da colaboração da gente para o Brasil.

Então eles (Eletrosul) fizeram ver que alguém tinha que se sacrificar em favor dos outros. Se faltasse energia não tinha meios de progredir o Brasil. Fizeram ver que o progresso viria para Itá e região. A gente via que a obra traria progresso. (PEIXER, 1993 p. 29).

A noção de país, de nação, é apresentada para identificar a idéia de bem público, interesse geral, coletivo, onde o Estado está acima dos interesses particulares ou de classes. Nessa caso, a alienação da população simples da cidade de Itá, é constatada pela própria pesquisa sociológica feita pela Eletrosul em 1981, que subsidiaria a estratégia política da

empresa no local. A Eletrosul constatou que predominava no senso comum em Itá, “opiniões acríticas relativas às questões relacionadas à barragem e sobre a própria vida na cidade”. Verificou-se, por exemplo, o caso da lei municipal que impedia a criação de porcos na cidade, praticada por número significativo das famílias como complemento a sua renda no sistema das atividades econômicas das famílias. A prefeitura impediu a criação de porcos no perímetro urbano devido ao mau cheiro e o excesso de sujeira. Os entrevistados repetem estes argumentos e parecem apoiar o prefeito no caso, mesmo que 90% pretendiam, na época, manter estas atividades na nova cidade de Itá, sendo que ao menos 40% a consideram imprescindível para a sua sobrevivência. (ELETROSUL, 1981 p. 35).

De fato, nossa pesquisa em 2006 registrou o seguinte depoimento de uma funcionária pública moradora da cidade de Itá que, ao mesmo tempo em que lamentava por suas atividades dentro da categoria “atividades econômicas das famílias” não terem sido consideradas pela Eletrosul no momento da indenização, lembrava ação do prefeito em prol do “progresso”:

Uma ousadia do prefeito da época de botar a pedra fundamental pra dizer: “Não, aqui vai saí (a barragem), vamo progredi, vamo querê o progresso de Itá”.

Segundo Peixer a percepção favorável à barragem foi sendo criadas aos poucos no imaginário da população de Itá, a partir de conversas de final de tarde, nos bares, no comércio, nas rodas de chimarrão. “Divulgadas principalmente em forma de opinião do setor administrativo, comercial e profissionais liberais, que são pontos de conexão de toda a trama de relações de uma pequena cidade” (1993 p. 30). Percebe-se que em localidades como Itá, a proximidade das pessoas, possível graças à dimensão espacial, proporciona um conjunto de interações sociais que faz com que a informação, repassada no “boca-a-boca” seja um dos principais meios de formação de opinião. Neste contexto, os indivíduos de maior poder econômico e status na comunidade como os empregadores de uma forma geral, os comerciantes e os profissionais liberais, são considerados como vozes competentes para emitirem opinião. Desse modo, os bares, lojas, escritórios, consultórios etc., são lugares propícios á disseminação de idéias. A Eletrosul também se encarregou diretamente de propiciar os ambiente para conversas favoráveis á obra na cidade de Itá e para atuação de seus

aliados locais; principalmente através de festas e das famosas “churrascadas” pagas pela empresa aos moradores mais pobres.

A promessa de uma cidade nova, a circulação de dinheiro que viria, os empregos que seriam criados na obra, tudo convergiu para a construção de uma imagem da usina hidrelétrica como “redentora” da cidade de Itá, como o meio, utópico, para alcançar o progresso. Estar contra a barragem na cidade de Itá significava ser tachado de atrasado e quadrado, e era sinônimo de estar contra o desenvolvimento. De fato, sobre a noção de desenvolvimento, Ribeiro afirma:

Desde o século XIX o ritmo crescente de integração do sistema mundial passou a requerer uma ideologia/utopia que pudesse tanto dar sentido às posições desiguais dentro do sistema – sem requerer à dominação aberta como nos tempos coloniais – quanto prover uma explicação pela qual os povos situados em níveis mais baixos pudessem “entender” suas posições e acreditar que existia uma saída para a situação de atraso. (2000 p. 141).

Na mesma pesquisa de 1981 que constatou apoio geral à construção da barragem entre a classe empresarial de Itá, a Eletrosul também averiguou que 58% dos moradores da cidade tinham uma visão positiva em relação a barragem, e já acreditavam que poderiam ganhar mais dinheiro com a construção da obra. Os motivos para essa possibilidade, no imaginário popular, foram: maior oportunidades de emprego, haverá indústrias, será um ponto turístico, haverá indústria do turismo (ELETROSUL, 1981 p. 38).

Constata-se assim, que a visualização do desenvolvimento do turismo foi um dos principais argumentos que ligou a idéia de usina hidrelétrica com progresso. Disseminado pela Eletrosul com apoio da elite local, a promessa de desenvolvimento de atividades econômicas e geração de renda e empregos a partir do turismo induziu e criou expectativas positivas na população urbana de Itá em relação à barragem. Em 2006, uma moradora de Itá assim relatou as expectativas na cidade há 25 anos:

Todo mundo pensô que ia ter vantagens econômicas. Principalmente porque existia a grande expectativa de Itá se desenvolvendo no turismo. O turismo era uma utopia na época, mas que todo mundo pensava. (...) Ia tê turista em tudo que era lado. E nós ficamos anos esperando.

Um complexo de engenharia monumental e de ponta, um enorme lago para passeio de barco ou pesca, belezas “naturais”, uma cidade nova, “bela e florida”, dotada de infra-estrutura

e de asfalto; pareciam efetivamente, elementos concretos, provas cabais que haveria “turista em tudo que era lado”. O que se via em Itá no final de 2006 era desolador. Uma cidade vazia, mesmo em dias de feriado e finais de semana. Um balneário moderno de águas termais28 entregue as moscas, hotéis sem hóspedes. Um lago sem lanchas, sem jet-ski, sem barcos de passeio ou de pesca29, mas cheio de rampas e portos de acesso para barcos. Os turistas não vieram. As lojas, lanchonetes, restaurantes abertos ou ampliados por itaenses entusiasmados com o progresso que viria, estão vazios, apenas com seus donos decepcionados. A pequena feira de artesanatos e de “lembranças de Itá” aberta naquela manhã, não teve compradores e nem visitantes. Os mirantes com vista para o lago e para a paisagem repletas de belas montanhas verdejantes, característica do Alto Uruguai gaúcho e catarinense, passam despercebidos. No museu criado pela prefeitura, e no Centro de Divulgação Ambiental mantido pela Tractebel, vagam apenas seus poucos funcionários, a ponto de se entusiasmarem com a presença deste pesquisador, festejado como a segunda visita desde o último mês, com direito inclusive, a fotografia para o relatório mensal de atividades do local.

Mesmo assim, os pequenos empresários locais não perdem a esperança que tiveram desde 1979, conforme depoimento em 2006 do presidente da Associação Comercial e Industrial de Itá que, acreditando ainda na utopia do progresso, explicava as dificuldades atuais do município para atrair turistas:

A gente não tem essa cultura turística e isso você não coloca da noite pro dia, você tem que trabalhar aos poucos. Turismo não acontece assim (...) as vezes leva 10, 20 anos pra se concretizar.

Neste caso, a palavra “utopia” para designar o progresso no turismo que a barragem traria, perde todo seu sentido como conceito, e se restringe a sua explicação literal na língua portuguesa, como sinônimo de “ilusão”, “fantasia” e “alucinação”. Daqui a “10 ou 20 anos”, para quem já esperou mais de 25 anos, esperar mais algumas décadas para a chegada do turismo talvez valha a pena, basta que se continue acreditando na “utopia do progresso”.

28 O balneário de águas termais foi construído pela prefeitura em 2003, numa tentativa de trazer os turistas à

cidade.

29 Nas informações do presidente da associação comercial e industrial de Itá, o lago sequer tem peixes, já que a

proprietária da UHE Itá não desenvolveu um programa de repovoamento das águas. O povoamento natural do lago artificial deve durar ainda mais 10 anos.

A realidade em 2006 demonstra que, um quarto de século depois das primeiras promessas, Itá segue sendo tão somente o que já era antes, apenas mais uma das dezenas de cidades pacatas do Alto Uruguai e do oeste catarinense. Uma militante do MAB originária de Itá, assim se refere aos seus vizinhos favoráveis à barragem:

Eles acreditavam em todo o discurso que a Empresa (Eletrosul) trazia, principalmente, ela trazia o discurso do progresso, aonde iam tá ganhando dinheiro, iam tá se dando bem na vida.

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