STRESS, SATISFAÇÃO CONJUGAL E RESILIÊNCIA
5.1 A SATISFAÇÃO CONJUGAL COMO RECURSO OU VULNERABILIDADE
Tal como temos vindo a expor ao longo dos capítulos anteriores, nos últimos anos, o número de estudos relacionados com o estudo do impacto de determinados factores de stress no bem-estar e adaptação dos indivíduos e famílias, aumentou significativamente. Muito destes estudos salientam o papel moderador ou mediador da rede social e familiar nas reacções ao
stress, referindo-se à família como recurso dos indivíduos perante o stress. Poucos serão os
que estejam em desacordo com o facto de que, para a maioria dos indivíduos casados, a qualidade dos seus casamentos tem uma forte influência na sua felicidade e satisfação para com a vida em geral. Na verdade, em comparação com indicadores de bem-estar económico,
Capítulo V Stress, Satisfação Conjugal e Resiliência físico, financeiro, profissional e interpessoal, verifica-se que a satisfação conjugal é o factor mais influente da felicidade global sentida (Glenn, 1981). As relações íntimas entre dois indivíduos continuam a ser vistas como o contexto ideal para se satisfazerem necessidades individuais de afecto, companheirismo, lealdade e intimidade emocional e sexual (Halford, Kelly &Markman, 1997).
São vários os estudos que têm salientado a associação entre bem-estar psicológico e o casamento. De facto, quando as relações funcionam, podem tornar-se o aspecto mais significativo da vida dos indivíduos. Comparados com os indivíduos casados, os solteiros, viúvos e divorciados, parecem ter níveis mais elevados de depressão, ansiedade e outras formas de perturbação psicológica (Ross, Mirowsky & Goldesteen, 1990; cit. por Ross, 1995). Ross (1995) verificou, num estudo, que os indivíduos que mantinham relações afectivas próximas (casados ou não), tinham níveis mais baixos de perturbação psicológica que os que não possuíam qualquer relação próxima. A autora explica esta diferença, referindo que os primeiros tinham níveis mais elevados de vinculação social, apoio emocional e económico o que os faria ter níveis de bem-estar superiores. No geral, os estudos sugerem que, na população casada em comparação com a não casada, o nível de bem-estar é mais elevado (Glenn, 1990; Glenn & Weaver, 1981; Gottman, 1998; Ross,
1995).
Se a satisfação conjugal reflecte uma avaliação (sobretudo) positiva do outro e da relação, é, então, natural que tenha uma influência crucial no bem-estar percepcionado. Pela mesma razão, o inverso poderá também ser verdadeiro, uma vez que o sentimento de bem-estar será também ele catalizador de satisfação conjugal (Narciso, 2001).
A associação do casamento e do bem-estar não se cinge apenas ao bem-estar psicológico. Vários estudos revelam uma associação entre níveis superiores de saúde física e o casamento (Weiss & Heyman, 1997), sendo que a influência da satisfação ou insatisfação conjugal na saúde, pode ser feita através de mecanismos directos ou indirectos (Halford, Kelly & Markman, 1997). Por exemplo, a insatisfação conjugal poderá conduzir a maiores consumos de álcool ou tabaco (comportamentos que promovem a doença) que, por sua vez, produzirão consequências físicas negativas. Em sentido semelhante, a própria insatisfação terá influências fisiológicas directas no bem-estar, podendo causar imunossupressão, a qual
aumenta a vulnerabilidade dos indivíduos a infecções e outras doenças (Kiecolt-Glaser et ai, 1988; cit. por Halford, Kelly & Markman, 1997).
Os resultados dos diversos estudos parecem, pois, permitir concluir que a associação entre casamento e o bem-estar só parece ser válida para casamentos felizes (Bradbury & Fincham, 1990), verifícando-se, em alguns estudos, uma associação entre disfunção conjugal e sintomas depressivos em ambos os cônjuges (Beach & O'Leary, 1993; Davila, Bradbury, Cohan & Tochluk, 1997). Na verdade, alguns autores referem que o bem-estar psicológico de indivíduos com relações insatisfatórias é inferior ao dos indivíduos sem relações (Ross, 1995). São, também, vários os estudos que revelam fortes associações, especialmente nas mulheres, entre a depressão e a insatisfação conjugal (Halford, Kelly & Markman, 1997; Noller, Beach & Osgarby, 1997), salientando alguns destes estudos que o casamento parece ser fonte de bem-estar, mais para homens do que para as mulheres (Levenson, Carstensen & Gottman, 1994).
A relação entre o a conjugalidade e o bem-estar parece, também, estar relacionada com o apoio social recebido, na medida em que a existência de uma relação apoiante diminui a vulnerabilidade dos indivíduos à depressão, ao passo que a ausência da mesma os vulnerabiliza (Jacobson, Fruzzetti, Dobson, Whishman & Hops, 1993). Solomon, Waysman, Belkin, Levy, Mikulincer e Enock (1992) verificaram, num estudo retrospectivo, que as mulheres cujos maridos não tinham, durante a guerra, sido diagnosticados com reacções de
stress em combate, em comparação com as mulheres de militares com este diagnóstico,
apresentavam, antes da participação destes na guerra, percepções diferentes sobre o seu casamento e sobre o seu parceiro. Ou seja, as mulheres dos militares a quem tinha sido diagnosticado stress de combate, percepcionavam os seus casamentos como tendo mais conflitos, menor intimidade, expressividade e coesão e menor satisfação conjugal. Os autores sugerem, como conclusão, que os maridos cujos casamentos são menos satisfatórios podiam ser mais vulneráveis ao stress em combate, indicando que a história conjugal pode influenciar o coping individual perante situações stressantes. Desta forma, os autores defendem que a qualidade da relação conjugal poderá ser um preditor do ajustamento individual e familiar perante situações de stress. Esta linha de explicações encontra forte apoio na teoria da vinculação que defende que a disponibilidade e a responsividade de figuras significativas (reais ou representacionais) fornece um sentimento de bem-estar e ajuda os indivíduos a confrontarem situações stressantes.
Capítulo V Stress, Satisfação Conjugal e Resiliência
Podemos, pois, verificar que uma relação conjugal forte e satisfatória parece promover a auto-estima, a auto-confiança e o apoio emocional, constituindo-se como uma fonte de bem- estar e, como tal, como um recurso para lidar com o stress. De forma inversa, uma relação problemática e insatisfatória, causadora de sentimentos negativos e mal-estar, poderá constituir uma vulnerabilidade nos indivíduos (Halford, Kelly & Markman, 1997; Lindahal, Malik, Bradbury, 1997). As dificuldades vividas na relação conjugal, concretamente ao nível da satisfação conjugal, podem, por exemplo, conduzir à implementação de estratégias de
coping desadaptativas, e como tal, vulnerabilizar os indivíduos (Solomon et ai, 1992).