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Interdependência Indivíduo Contexto Familiar e Contexto Envolvente

No documento Resiliência em contexto militar (páginas 160-166)

Capítulo VI Processo Metodológico

6.1.4.6 Interdependência Indivíduo Contexto Familiar e Contexto Envolvente

No modelo apresentado, estipulamos a existência de dois níveis de adaptação - o nível individual e o nível familiar (contexto proximal) -, sendo que ambos se inter-influenciam encontrando-se inseridos num determinado contexto e tempo. Desta forma, o processo de adaptação do indivíduo influencia e será influenciado pelo processo de adaptação do sistema familiar. No nosso estudo, tomamos como referência o indivíduo, levando em conta a interacção deste com o sistema conjugal/familiar.

O contexto envolvente (contexto distai) refere-se aos sistemas externos com os quais o indivíduo está em interacção. Trata-se de factores como a família alargada, a economia, a história, ou os padrões culturais, i.e., o tempo e lugar que influenciam a forma como o indivíduo define a situação de stress, mobiliza recursos e cria soluções para a resolver ou ultrapassar as situações com que se depara. Neste estudo, não nos debruçaremos particularmente sobre este contexto, porém, fazemos referência a algumas características profissionais do meio militar, onde os indivíduos estão inseridos (ver capítulo I).

6.1.4.7 Crise

Os factores de stress causam exigências e alterações sobre o indivíduo e famílias, alterando o seu equilíbrio. Perante os factores de stress, os indivíduos podem fazer uma avaliação positiva da situação, implementar estratégias de coping adequadas e alcançar uma boa adaptação. Se os indivíduos ou famílias atribuem à situação com que se confrontam um significado ameaçador, se não percepcionam recursos ao seu alcance para a ultrapassar e se não implementam estratégias de coping efectivas, é natural que caminhem para uma má adaptação que, em casos mais severos, pode levar à crise. A crise implica uma perturbação no equilíbrio individual e familiar muito severo e uma mudança aguda na vida familiar, que, pode ser, pelo menos temporariamente, inibidora e incapacitante do funcionamento familiar.

De salientar que na perspectiva da resiliência, nem sempre o processo de crise é negativo, podendo conduzir a recuperação e fortalecer os indivíduos e famílias (Boss, 2002). Muitas famílias revelam que, ao ultrapassarem momentos de crise, as suas relações se tornaram

emocionalmente mais ricas. A crise pode conduzir os indivíduos a prestarem atenção ao que realmente importa nas suas vidas, e conduzi-los a novas direcções. (Walsh, 1998; 2003).

6.1.5 Hipóteses

Baseando-nos na revisão de literatura efectuada, colocamos várias hipóteses relativas à primeira e à segunda fase do estudo:

Partimos do pressuposto que os militares do grupo 1, dado estarem a viver uma situação de preparação militar, separação familiar e expectativa para participarem numa missão - factor de stress não normativo, que lhes colocaria exigências profissionais e pessoais adicionais, teriam indicadores de adaptação inferiores aos militares do grupo 2, que, pelo facto de estarem a viver uma situação pessoal e profissional regular, sujeitos aos factores de stress do quotidiano e sem o efeito de factor de stress não normativo, teriam melhores indicadores de funcionamento psicológico. Este pressuposto implicaria, na prática, que os militares do grupo 1 obtivessem valores médios superiores de bem-estar geral. Esta nossa hipótese tem suporte teórico na medida em que os diferentes estudos apresentados ao longo da nossa revisão de literatura, revelaram que os indivíduos sujeitos a determinados factores de stress, têm níveis inferiores de bem-estar. Assim, estipulamos como hipóteses que:

Hl- Os militares do grupo 2, em comparação com os militares do grupo 1, obtêm um resultado médio de bem-estar geral superior

Dado que o grupo 1 está sujeito a um factor de stress adicional, é, então, de esperar que esta situação cause alterações na satisfação conjugal destes militares. Os resultados dos diferentes estudos corroboram esta ideia, tendo sido encontrados resultados que dão conta da influência negativa de vários factores de stress na qualidade das relações conjugais (Cohan & Bradbury, 1997; Karney & Bradbury, 1995; Conger et al, 1993), nomeadamente, associando-os a uma menor estabilidade e satisfação conjugal (Lindahal, Malik, Bradbury,

1997). Em sentido semelhante, os estudos que dão conta da influência dos conflitos entre o trabalho e a família, revelam, também, uma influência negativa generalizada do stress causado por estes conflitos (trabalho/família), na satisfação conjugal (Allen et ai, 2000). Assim, colocamos como hipótese que:

Capítulo VI Processo Metodológico

H2 - Os militares do grupo 2, em comparação com os militares do grupo 1, obtêm um resultado médio de satisfação conjugal superior

A revisão de literatura efectuada não nos permitiu colocar a hipótese dos dois grupos obterem resultados diferentes de traço de ansiedade. Relembramos aqui a definição de traço de ansiedade proposta pelo autor, Spielberger (1983), que define o traço de ansiedade como uma característica individual, relativamente estável, em termos de predisposição para a resposta ansiosa, i.e., que se relaciona com diferenças entre as pessoas para perceber um conjunto amplo de situações como perigosas ou ameaçadoras. Tratando-se de uma dimensão mais estável de personalidade, esta será, pelo menos teoricamente, mais resistente às influências de meio externo, pelo que colocamos como hipótese que ambos os grupos apresentariam resultados semelhantes. Assim:

H3 - Os militares dos dois grupos obtêm valores médios de ansiedade traço semelhantes

O conceito de ansiedade estado define-se como um estado emocional transitório do organismo humano que varia em intensidade e flutua ao longo do tempo, em função da percepção da ameaça de uma situação (Spielberger, 1983). Na medida em que os militares do grupo 1 se encontram expostos a uma série de factores de stress adicionais, supomos que estes apresentem níveis superiores de ansiedade. Assim:

H4 - Os militares do grupo 2, em comparação com os militares do grupo 1, obtêm um resultado médio de ansiedade estado inferior

Não encontramos estudos que diferenciem os valores de SIC em indivíduos expostos a diferentes factores de stress. À semelhança da ansiedade traço, este construto refere-se, tal como defende o autor, a uma característica relativamente estável de personalidade pelo que colocamos como hipótese que:

H5 - Os militares dos dois grupos obtêm valores médios de SIC semelhantes

Por razões semelhantes às explicadas na hipótese anterior, esperamos, em relação à distribuição dos padrões de vinculação:

H6 - Uma distribuição semelhante dos 4 padrões de vinculação nos dois grupos de militares

Na segunda fase, colocamos as seguintes hipóteses:

Relativamente ao padrão de vinculação, podemos afirmar que um padrão de vinculação seguro poderá constituir um recurso interno do indivíduo que lhe permite realizar uma avaliação positiva das situações com que se confronta e a implementação de um coping construtivo, promovendo, desta forma, a adaptação (Mikulincer & Florian, 1998: Pielage et

ai, 2000). Assim, é de esperar que uma vinculação segura se associe significativamente ao

bem-estar (La Guardiã et ai, 2000; Pielage et ai, 2000). Estes estudos permitem-nos colocar como hipótese que:

Hl - Os indivíduos com uma vinculação segura apresentam resultados médios de bem- estar geral superiores aos indivíduos inseguros.

Os modelos de funcionamento interno influenciam a forma como os indivíduos reagem e se confrontam com situações stressantes e, consequentemente, se adaptam ao meio (Collins & Read, 1994). Neste sentido, vários estudos dão conta da relação entre uma vinculação segura e uma percepção menos ameaçadora das situações (Collins, 1996; Collins & Read, 1994; Mikulincer & Florian, 1998; Pielage et ai., 2000) e menos reacções ansiosas (Magai et ai 2000; Kobak & Sceery, 1988). Vários estudos salientam que os indivíduos Seguros são descritos pelos seus pares como mais resilientes, menos ansiosos e menos hostis. (Collins & Read, 1990; Feeney & Noller, 1990 e Hazan & Shaver, 1987). Assim, espera-se que:

H2 - Os indivíduos com uma vinculação segura apresentam resultados médios de traço e estado de ansiedade inferiores aos indivíduos inseguros.

Os estudos apresentados parecem indicar que os estilos de vinculação estão relacionados com a forma como os indivíduos experienciam e avaliam as suas relações. Assim, no seu geral, os Seguros tendem a relatar experiências relacionais mais positivas, caracterizadas por níveis mais elevados de intimidade, compromisso e interdependência, o que se traduz numa associação positiva entre a vinculação segura e a satisfação conjugal (Collins & Read, 1990;

Capítulo VI Processo Metodológico Hazan & Shaver, 1987; Feeney, 2002; Feeney et ai, 1994; Simpson, 1990; Kirkpatrick & Davis, 1994; Ribeiro & Costa, 2001/2002). Assim:

H3 - Os indivíduos com uma vinculação segura apresentam resultados médios de satisfação conjugal superiores aos indivíduos inseguros

Se o SIC pressupõe, nos indivíduos, uma tendência para verem o mundo como gerível e ordenado, influenciando as respostas dos indivíduos aos stress (Antonovsky, 1998a; Antonovsky & Sagy, 1986), e se a vinculação segura predispõe os indivíduos, a regularem de forma adaptativa as suas emoções (Mikulincer et ai, 1993; Mikulincer & Florian, 1995; Mikulincer & Orbach, 1995; Koback & Sceery, 1988) e a utilizarem, perante o stress, estratégias adaptativas de coping (Mikulincer & Florian, 1995; 1998; Mikulincer et ai.,

1993), então esperamos que estes dois construtos estejam associados:

H4 - Os indivíduos com uma vinculação segura apresentam resultados médios de sentido interno de coerência superiores aos indivíduos inseguros

Se o SIC é conceptualizado como um traço de personalidade que pressupõe nos indivíduos uma tendência para verem o mundo como previsível, gerível e ordenado, então, o SIC tem influência nas respostas do indivíduos aos stress. Assim, os indivíduos com um SIC elevado, terão menor tendência para verem os acontecimentos como ameaçadores e causadores de

stress que indivíduos com um SIC menos elevado (Antonovsky & Sagy, 1986; Amirkhan &

Greaves, 2003; Carmel & Bernstein, 1990; Hart et al, 1991), pelo que esperamos que:

H5 - Os valores elevados de SIC estejam associados a valores inferiores de ansiedade traço e estado

Relativamente ao bem-estar, para além de ser teoricamente defendido pelo autor (Antonovsky, 1998a; Antonovsky & Sagy, 1986), vários estudos têm demonstrado a associação do SIC com níveis superiores de bem-estar geral (Pallant & Lae, 2002). Assim, colocamos como hipótese que:

Os estudos têm salientado que a associação entre bem-estar psicológico e o casamento é verdadeira apenas para casamentos felizes (Bradbury & Fincham, 1990). A satisfação conjugal reflecte uma avaliação positiva do outro e da relação, e parece ser crucial para o sentimento de bem-estar e de felicidade (Jocobson et ai, 1993; Glenn & Weaver, 1981; Ross, 1995), sendo que o inverso poderá, também, ser verdadeiro, uma vez que o sentimento de bem-estar será, também, ele catalizador da satisfação conjugal (Narciso, 2001). Assim espera-se que:

H7 - Os valores elevados de satisfação conjugal estejam associados a valores superiores de bem-estar geral

Comparados com os indivíduos casados, os solteiros, viúvos e divorciados, parecem ter níveis mais elevados de depressão, ansiedade e outras formas de perturbação psicológica (Ross, Mirowsky & Goldesteen, 1990; cit. por Ross, 1995). Vários autores verificaram que o traço de ansiedade causa negatividade no cônjuge, a qual é causadora de insatisfação conjugal no casal (Caughlin, Huston & Houts, 2000; Karney & Bradbury, 1997). Estes resultados sugerem que:

H8 - Os valores elevados de satisfação conjugal estão associados a valores inferiores de traço e estado de ansiedade

Se a ansiedade traço diz respeito a diferenças entre as pessoas para perceber um conjunto amplo de situações como perigosas ou ameaçadoras e para responder a essas situações com um aumento de intensidade da ansiedade estado, e se quanto maior for a ansiedade traço, maior será a probabilidade do indivíduo experimentar elevações intensas ao nível da

ansiedade estado, pois tenderá a percepcionar um maior número de situações como sendo

potencialmente ameaçadoras para si, então, os indivíduos com ansiedade traço elevada em situações que envolvem relações interpessoais e ameaça da sua auto-estima, manifestam níveis mais elevados de ansiedade estado do que indivíduos com ansiedade traço mais baixa (Spileberger, 1983), podendo isto indicar que obterão níveis inferiores de bem-estar. Então:

H9 - Valores inferiores de ansiedade traço e estado, associam-se a valores superiores de bem-estar geral

Capítulo VI Processo Metodológico

No documento Resiliência em contexto militar (páginas 160-166)