Mapa 2: Localização das casas no Varjão Fonte: Google Earth, 2009.
3 ANÁLISE AMBIENTAL INTEGRADA NA HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL: ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
3.2 ANÁLISE AMBIENTAL INTEGRADA EM HABITAÇÕES DE INTERESSE SOCIAL
3.2.2 A satisfação do usuário: aspectos subjetivos
Voltando-nos para a análise ambiental do ponto de vista do usuário, observamos que o mês considerado pelos moradores como mais confortável é junho, seguido com certo distanciamento do período de outubro a dezembro. Como mais desconfortável aparecem agosto em primeiro lugar, seguido de outubro e setembro, refletindo diferentes posições quanto ao mês de outubro, no qual a umidade e temperatura começam a elevar-se significativamente.
Gráfico 10: Período do ano considerado mais confortável e desconfortável
A respeito do uso e ocupação dos cômodos da casa, 43,2% dos moradores consideram o quarto como cômodo mais confortável, e 39,2% preferem a sala. Na autoconstrução, analisada individualmente, a preferência também se distribui entre quarto e sala como cômodo mais confortável da casa, pelo descanso e ventilação, respectivamente. No conjunto habitacional a preferência é pela sala, quarto e também área livre, devido à ventilação e descanso. Já nas casas de mutirão há uma
distribuição entre os cômodos e “toda a casa”, destacando-se, entre as justificativas, a “privacidade” para o quarto.
No mês de outubro, a maior parte dos moradores prefere a sala no mês de outubro, tendo como principal motivo a ventilação (29,7%). Nas casas do conjunto, apesar de predominar a sala, aparece também a área livre (em frente às casas) como mais confortável para esse período. Esta área livre, normalmente sombreada e para a qual a sala está voltada, tem provável influência na condição higrotérmica desta tipologia no mês de outubro, visto que as medições eram feitas na sala.
Já nas casas de mutirão há uma distribuição bastante próxima de preferência da sala e do quarto como mais confortáveis nesse período, também sendo evidenciada “toda a casa” como confortável.
No mês de junho as preferências se voltam para o quarto, por ser mais quente, tanto na autoconstrução quanto no conjunto habitacional. Nas casas de mutirão há novamente uma maior distribuição de preferência entre os cômodos, apesar de também predominar o quarto.
Reforça-se, pela análise subjetiva, a indicação a partir dos dados físico-ambientais de que há um desempenho homogêneo e mais satisfatório das casas de mutirão ao longo de todo o ano.
Do total de famílias, 63% alegam possuir moradores na casa com problemas alérgicos ou respiratórios, que para 44% se agravam na seca ou nos meses de agosto a outubro. Este período é frequentemente associado a mudanças bruscas de tempo.
Em relação à satisfação dos moradores com o tamanho, organização dos cômodos, insolação e ventilação, há de maneira geral maior número de satisfeitos – que escolheram as opções “bom” ou “ótimo” – com a qualidade da ventilação e da insolação (75,6%) e menor com a organização dos cômodos (67,6%).
Comparando-se as três casas, o gráfico abaixo evidencia a satisfação próxima de 100% dos moradores das casas de mutirão em todos os quesitos. As casas de autoconstrução possuem número maior de satisfeitos com a organização dos cômodos que no conjunto habitacional, provavelmente em decorrência da maior possibilidade de construírem respeitando suas preferências.
Gráfico 12: Percentual de satisfeitos com a casa, considerando os que responderam “bom” ou “ótimo” para cada um dos indicadores.
No que tange ao tamanho da casa e à qualidade da insolação há um número levemente maior de pessoas satisfeitas no conjunto habitacional em relação à autoconstrução, com diferença ainda mais significativa na análise da qualidade da ventilação, sob a perspectiva dos moradores.
As análises acima apresentadas refletem, de uma forma ou outra, aspectos dos projetos habitacionais da ONG Moradia e Cidadania (mutirão) e do Projeto BID (conjunto habitacional). As casas de mutirão, que têm em comum o sistema construtivo e o projeto, aparecem com maior nível de satisfação, seguidas das casas do conjunto habitacional, também com mesmo sistema construtivo e projeto inicial. As respostas provavelmente se devem, alem das características dos projetos, também à satisfação do morador por ter recebido sua casa, como ao orgulho de terem participado da execução de suas casas, no caso do mutirão.
Outro fator considerado para verificar a satisfação dos moradores foi o grau de importância de determinados indicadores de qualidade de vida, comparando-se a média dos três tipos de casa e com a média das respostas de todos os moradores (“Geral”). Observamos que “segurança” aparece como fator de maior relevância, seguido da “qualidade da construção e das instalações” e “facilidade de acesso aos serviços”.
Gráfico 13: Grau de importância de indicadores de qualidade de vida para os moradores dos três tipos de casa, em escala de 1 a 8.
Para uma melhor compreensão das respostas apresentadas e análise das relações do conforto ambiental para os moradores, comparativamente entre os três tipos de casa, elaboramos a tabela abaixo, que apresenta a ordem de importância para cada tipo de casa, a partir da média de resposta entre os moradores.
Tabela 8: Ordem de importância dos indicadores, por tipologia Ordem de
importância Autoconstrução Mutirão
Conjunto
Habitacional Geral 1 Segurança Segurança Segurança Segurança 2 Qualidade da construção e suas instalações Facilidade de acesso aos serviços Qualidade da construção e suas instalações Qualidade da construção e suas instalações 3 Facilidade de acesso e locomoção Temperatura, iluminação, ventilação, nível de ruído da casa Facilidade de acesso aos serviços Facilidade de acesso aos serviços 4 Facilidade de acesso aos serviços Tamanho e disposição dos ambientes na casa Temperatura, iluminação, ventilação, nível de ruído da casa Temperatura, iluminação, ventilação, nível de ruído da casa 5 Tamanho e disposição dos ambientes na casa Qualidade da construção e suas instalações
Qualidade das áreas externas comuns Tamanho e disposição dos ambientes na casa 6 Temperatura, iluminação, ventilação, nível de ruído da casa Facilidade de acesso e locomoção Facilidade de acesso e locomoção Facilidade de acesso e locomoção
7 Aparência Qualidade das áreas externas comuns
Tamanho e disposição dos ambientes na casa
Qualidade das áreas externas comuns 8 Qualidade das áreas
externas comuns Aparência Aparência Aparência
Houve coerência entre todas as respostas para o indicador “segurança”, relacionado à infra-estrutura urbana e não vinculado ao tipo de casa, apresentado nos três tipos como a mais importante para a qualidade de vida.
Nos demais indicadores há variação nas respostas que se justifica, provavelmente, pela diferença no atendimento a cada requisito nas diferentes tipologias. Por exemplo, a “qualidade da construção e das instalações”, que para os moradores da autoconstrução e do conjunto habitacional é tido como o segundo item mais importante, aparece para os moradores do mutirão como quinto na ordem de importância, tipologia na qual pudemos observar maior cuidado com tais aspectos.
Também devemos considerar que os moradores das casas de mutirão, por terem recebido apoio durante o processo de construção das casas, podem possuir um nível maior de orientação, diferenciando-se dos moradores das outras tipologias.
No que tange ao item relacionado ao conforto ambiental – “temperatura, iluminação, ventilação e nível de ruído na casa” – observamos que este aparece em quarto lugar na ordem de importância, na média geral. O mesmo ocorre nas casas do conjunto habitacional, estando em terceiro lugar para os moradores das casas de mutirão e em sexto para as os moradores de autoconstrução.
Essa diferença pode ser, por um lado, explicada pela falta de atendimento a esse requisito – principalmente nas casas de autoconstrução – confirmada pela resposta relativa à satisfação com a ventilação e insolação nas casas. Entretanto, também pode ser indicativa de que há aspectos mais sensíveis para os moradores do que o conforto ambiental, não necessariamente porque este possui menor importância para eles.