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1 CONFORTO AMBIENTAL E SUAS RELAÇÕES SUBJETIVAS: PERCEPÇÕES E REPRESENTAÇÕES DO AMBIENTE

1.5 PALAVRAS QUE SE TORNAM IMAGENS E VICE-VERSA

Para compreender-se como uma ideia do senso comum se converte em objeto de estudo, é necessário perceber que uma representação social está baseada em dois processos fundamentais: a objetivação e a amarração, ou a ancoragem.

Objetivar é materializar um conceito, trazendo para o nível de observação o que era

apenas uma inferência, um símbolo. Naturalizar – tornar o símbolo real – e classificar – dar à realidade um ar simbólico – são as duas operações essenciais da objetivação. A objetivação transforma o que é abstrato, complexo ou novo em uma imagem concreta e significativa. Privilegia algumas informações, simplificando-as e dissociando-as de seu contexto original.

Figura 7: Processo de transformação de um pensamento científico em objeto de pesquisa das representações sociais, a partir da existência de um fenômeno social Fonte: Baseado em Moscovici, 2003

A ancoragem, por sua vez, permite à sociedade converter o objeto social num instrumento de que pode dispor. Transforma a ciência num saber útil a todos (Moscovici, 1961), integra o objeto de representação a um sistema de valores que lhe é próprio, denominando-o e classificando-o em função de sua inserção social.

Segundo Peluso (2003), a ancoragem está relacionada à noção de tornar familiar o não familiar. Representar um determinado objeto não é reproduzir, mas sim reconstituir, modificar. O conceito e a percepção de um determinado objeto estão interligados, se transformam e nessa relação possibilitam a materialização do abstrato. Quando um objeto de fora penetra nosso campo de atenção, há um desequilíbrio e uma tensão que são minimizados quando o conteúdo estranho passa a fazer parte de nosso universo. É necessário transformar o universo sem que ele deixe de ser nosso; transformar “o não familiar em familiar” (MOSCOVICI, 2003).

Por outro lado, a representação separa conceitos e percepções que anteriormente apresentavam-se associados, e também torna aquilo que era familiar algo não familiar. O princípio de transformação do “não-familiar em familiar” é aplicável não só a um novo fato ou teoria, mas a tudo que em algum momento possa ter sido novo ou estranho para um determinado grupo.

No estudo das relações do homem com o ambiente encontramos nas representações sociais elementos significativos para a compreensão de seus aspectos sócio-culturais, de forma a compreender-se os elementos subjetivos do conforto ambiental térmico dos usuários, não somente apenas individuais mas também coletivos.

Para Moser e Weiss (2003), as representações sociais parecem colocar em evidência de forma mais organizada as teorias implícitas da cidade, do bairro, da urbanidade, visto que a “orientação normativa dos comportamentos, dos modos de pensar, de sentir e de agir é profundamente ancorada em um ambiente espacialmente e historicamente circunscrito. As referências culturais e a memória coletiva são o mais poderoso impulso de apego a um lugar” (MOSER e WEISS, 2003, p. 171, tradução nossa).

As representações sociais aparecem como um importante apoio no estudo dos aspectos socioculturais envolvidos na percepção dos moradores a respeito do

conforto térmico em suas moradias. Para além dos aspectos ambientais e individuais, podemos acessar informações e discursos que, a partir de estudos localizados, permitam-nos levantar inquietações e reflexões que para responder, ou ao menos compreender melhor tal relação.

Moscovici parte da hipótese de que cada universo tem três dimensões: a informação, o campo de representação ou imagem e a atitude. É necessário que as três estejam bem articuladas para que exista uma representação social.

A informação relaciona-se com a organização dos conhecimentos que um grupo possui a respeito de um objeto, por exemplo, a respeito do que seria uma casa

confortável.

O campo da representação está ligado à imagem, a um modelo social concreto e limitado das proposições, relativas a um aspecto preciso do objeto de representação. A imagem de casa confortável ligada à realidade concreta de cada morador seria o campo da representação do grupo a respeito das condições de conforto consideradas mais relevantes. Costuma estar bastante impregnado de proposições baseadas no senso comum.

A imagem criada seriam as sensações mentais que as impressões de objetos ou pessoas deixam registradas em nosso cérebro, podendo ser evocadas sempre que necessário.

A opinião, entendida como a fórmula socialmente valorizada a que o indivíduo adere, uma tomada de posição sobre um problema da sociedade. O momento em que a opinião se manifesta é de formação das atitudes e dos estereótipos, um anúncio, uma réplica daquilo que virá a ser (MOSCOVICI, 1961). Implica uma reação a um objeto que vem de fora, acabado, independente de suas intenções ou propensões, estabelecendo vínculo direto com o comportamento.

A atitude destaca a orientação global em relação ao objeto da representação social, considerando a tomada de posição do sujeito.

Apesar de ser a mais frequente das três dimensões apontadas, a atitude pode não ter relação direta com a imagem e a informação, ou seja, nem sempre a tomada de

decisão ou atitude do sujeito reflete sua representação de determinado objeto. Determinado grupo pode apresentar uma representação na qual, para ter uma casa confortável, sejam necessárias melhorias, o que não quer dizer necessariamente que o grupo costuma realizar melhorias em suas casas.

Se a informação, a imagem, a opinião e a atitude utilizam uma informação “recortada” que circula na sociedade, as representações sociais procuram entender o processo, o contexto, são conjuntos sociais dinâmicos. Trabalham na produção e mudança de comportamentos e das relações com o ambiente, como reação a um estímulo exterior. Assentam-se em valores e conceitos. Não são “opiniões de” ou “imagens de”, mas sim “teorias”, “ciências coletivas”, que interpretam e elaboram uma dada realidade (MOSCOVICI, 1961).

A representação de casa confortável que buscamos difere-se da percepção dos usuários quanto ao conforto da moradia, mesmo que uma possa influenciar a outra. A percepção está ligada aos sentidos, ao sensorial, àquilo que o indivíduo sente. Já a representação nos permite conhecer o que pensam os sujeitos enquanto coletividade, sua identidade e seus valores enquanto grupo afim, com características peculiares que os diferenciam de outros grupos. O conhecimento compartilhado, se lhe é familiar, passa a assumir aspectos de algo não familiar, transformando um objeto de seu cotidiano em um objeto de pesquisa de que a sociedade pode dispor. Ao mesmo tempo transforma fenômenos que lhe eram estranhos em elementos familiares, que orientam suas condutas e práticas.

Para o estudo que se apresenta, a TRS permitirá, além de obter uma resposta por parte dos moradores quanto àquilo que é para eles uma casa confortável, também como conscientizá-los de seu papel na sociedade e dos aspectos de conforto que podem aumentar sua qualidade de vida, a partir da satisfação de suas necessidades de conforto, de seu bem-estar físico e psicológico.

2 ABORDAGEM PLURIMETODOLÓGICA DA ANÁLISE AMBIENTAL: ESTUDO