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2 A POSITIVAÇÃO DAS GARANTIAS NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE

2.3 A garantia dos direitos fundamentais à privacidade e à segurança

2.3.2 A segurança como direito individual e social

Assim como assegurado o direito à privacidade, a segurança também foi elencada na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 como um dos valores supremos da ordem pátria brasileira. Além da previsão anunciada em seu preâmbulo, o direito à segurança encontra-se positivado no rol dos direitos e das garantias fundamentais, sendo elencado no

caput do artigo 5º como direito subjetivo e geral e no artigo 6º, caput, como um direito social.

Destaca-se a inovação empreendida pelo Constituinte, uma vez que, embora já existissem algumas normas que previssem e disciplinassem determinados direitos atrelados à ideia de justiça social, somente com o advento da Constituição de 1988 é que os direitos sociais passaram a ser encarados como autênticos direitos fundamentais. Não se poderia ter conferido melhor posição à positivação de tais preceitos na ordem jurídica brasileira, uma vez que se apresenta em plena consonância com os princípios elencados no texto constitucional. Assim, ressalta-se o acerto da solução ao complementar as previsões referentes à garantia e à

proteção da dignidade humana, fundamento essencial à existência do Estado (CANOTILHO et al., 2018, p. 567-1698).

Com efeito, a fundamentalização de tais preceitos veio justamente no sentido de possibilitar uma efetiva fruição das liberdades individuais diante do contexto do convívio social, no qual estas se confrontam com as parcelas alheias do mesmo direito. Diante desse contexto, a segurança assume papel essencial para a consecução de tal objetivo, razão pela qual se constitui em verdadeiro direito social, exigindo uma prestação positiva por parte do poder público.

Nesse sentido, como pontuado por Canotilho et al. (2018, p. 567), não há como refutar a existência de uma relação de “[...] recíproca complementaridade entre direitos individuais (direitos de liberdade) e direitos sociais (direitos de igualdade), na medida em [que] todos eles densificam parcelas do conteúdo e dimensões do princípio da dignidade humana”. Por isso, o direito à segurança traduz-se em autêntico instrumento de garantia da ordem social, cujo objetivo consiste na promoção do bem-comum e da justiça social, com o fim de proporcionar a todos uma existência digna (TAVARES, 2012, p. 840).

Entretanto, a efetivação destes preceitos não se reduz ao mesmo nível de complexidade apresentado pelos direitos de primeira dimensão. Garantir a segurança pública, assim como qualquer outro direito social, exige muito mais do que uma abstenção. Para além dos juízos de oportunidade e conveniência dos órgãos governamentais, a efetividade desse direito subordina-se, fundamentalmente, a requisitos de ordem econômica. Isso em razão de que

O custo da implementação e as limitações orçamentárias do Estado são fatores que contribuem para a menor efetividade dos direitos prestacionais (status positivo) em comparação com os direitos de defesa (status negativo), para os quais o "fator custo" não costuma ser invocado como elemento impeditivo à plena concretização (NOVELINO, 2016, p. 459, grifos do autor).

Na visão de Mendes, Coelho e Branco (2009, p. 763), “[...] para conjurarmos esse estado de coisas, temos de admitir, à partida, que estamos condicionados a fatores de ordem material – como o desenvolvimento econômico e a conseqüente disponibilidade de recursos”, o que condiciona a concretização dessa parcela do texto constitucional a muito mais do que a boa vontade da administração pública. Deve-se dizer, todavia, que, quando presente, essa pode se confrontar com a escassez ou a indisponibilidade de meios para a sua implementação. Dessa forma, resta prejudicado o cumprimento do dever público e a concretização do direito social.

Nesse contexto, no qual a dificuldade e a limitação apresentam-se de forma latente, exige-se, portanto, a maior efetivação do direito dentro da “reserva do possível”. Tal premissa impõe a necessidade da maximização dos recursos existentes e da adoção de políticas públicas que concedam ao preceito a maior efetividade possível diante daquilo que se dispõe. Tal instituto funciona como uma barreira para impedir que, por desídia dos governantes, justifiquem-se severas omissões na simples falta de orçamento (CANOTILHO et al. 2018, p. 577). Em virtude disso,

[...] torna-se extremamente complexa, para não dizer penosa, a interpretação/aplicação das normas constitucionais definidoras dos direitos sociais, na medida em que [...], os seus operadores, independentemente de sentimentos de ordem pessoal, são obrigados a emprestar-lhes a máxima efetividade – afinal de contas, esse é um dos princípios da interpretação especificamente constitucional (MENDES; COELHO; BRANCO, 2009, p. 763, grifo dos autores).

Dessa maneira, verifica-se que a segurança, enquanto direito fundamental, encontra-se positivada na Constituição Federal como direito individual (artigo 5º) e, também, como direito social (artigo 6º, caput). À vista disso, esta proteção deve ser assegurada não só ao grupo social, em seu conjunto, mas também a cada indivíduo que o compõe. Assim, a segurança deve ser proporcionada da forma mais eficaz possível diante das oportunidades disponíveis, seja qual for a realidade apresentada.

3 SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

Analisadas as feições pelas quais a previsão dos direitos fundamentais se apresenta na ordem jurídica pátria, impõe-se analisar certos aspectos que vão além das frias disposições constitucionais. Por mais que se delimite a eficácia das previsões e imposições de tais direitos no ordenamento e em face do Estado, muitas vezes defronta-se com barreiras da realidade que impedem ou reduzem a efetivação desses preceitos por parte da administração pública.

Diversos são os aspectos que rodeiam a temática do atendimento ou não às prescrições constitucionais e à garantia e proteção dos variados direitos fundamentais que ela consagra. Os direitos às liberdades individuais e à segurança pública, nesse ponto, apresentam-se em estruturas de difícil conciliação sem a ocorrência de atritos. Nessa relação, raramente um prevalecerá sem restringir, no mínimo, parcela referente ao outro.

Considerando que o presente estudo se dedica à análise do advento da videovigilância nos espaços públicos como nova forma de controle estatal no exercício da segurança pública, neste capítulo serão analisados os diferentes aspectos que envolvem a consecução desse direito fundamental no Estado brasileiro. Nessa testilha, serão abordados os fatores sociais, históricos, jurídicos e organizacionais que circundam a problemática posta em exame.

3.1 A (in)segurança pública na sociedade brasileira

Para compreender a segurança pública como um direito social e como imposição de dever para o Estado, é necessário analisar aspectos que compõem a consciência e os anseios da sociedade brasileira. Isso porque são esses que embasam a reivindicação deste direito fundamental. Nesse ponto, imprescindível trazer ao estudo o papel da história, da cultura e da mídia na formação do imaginário coletivo, investigando-se os seus reflexos no modo de pensar da coletividade.

Sendo assim, nesta sessão, conceder-se-á destaque para o conceito e a propagação da cultura do medo. Analisar-se-á seus principais efeitos na modulação da opinião pública e, por conseguinte, na organização de um Estado Democrático de Direito. Especialmente no que se refere aos reiterados discursos acerca da falha da segurança pública que ganham força no Brasil, abordar-se-á a sua relação com a legitimação da adoção de posturas cada vez mais incisivas por parte do poderio estatal.