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A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) A

No documento Supremo Tribunal Federal (páginas 44-48)

Supremo Tribunal Federal Inteiro Teor do Acórdão Página 42 de

A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) A

previdência.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - O piso que se tem

para os servidores públicos, e a questão da previdência social, que é mais

Supremo Tribunal Federal

ADI 4.568 / DF

de uma lei.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Remoção de etnias

indígenas de suas terras.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Exatamente. A

questão das comunicações sociais. E é nesse ponto que o voto do Ministro Ayres Britto suscita realmente uma indagação.

Eu não vou subscrever a manifestação de Sua Excelência, com todas as vênias, mas gostaria de me louvar da fundamentação que desenvolveu, porque coincide em parte com essa minha reflexão.

Aqui, quando falamos nesta questão, obviamente, estamos a tratar realmente de uma política pública extremamente importante e que tem que ser desenvolvida tendo em vista as várias implicações, inclusive de resgate dessa dívida social imensa que o País tem.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Vossa Excelência me

permite, sem interromper o lúcido raciocínio de Vossa Excelência?

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Por favor.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Essa lei que fixa o

salário mínimo sequer é lei federal; é lei nacional.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - É nacional, é

verdade. Então, tem essa dimensão, que é extremamente séria. Daí a importância desse debate sobre a revisão ou a elevação do salário mínimo.

É claro que esse debate é extremamente incômodo do ponto de vista político. Todo ano há essa renovação, e as implicações são imensas, porque não se trata apenas de fixar o salário mínimo que estará vigente para as relações privadas; isso afeta também os empregados públicos, de uma maneira geral.

A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) - A

previdência.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - O piso que se tem

para os servidores públicos, e a questão da previdência social, que é mais

Voto - MIN. GILMAR MENDES

ADI 4.568 / DF

séria, uma vez que esse é o piso.

A minha dúvida – mas vou ficar na dúvida neste momento, para eventuais reflexões ao longo desse processo – diz respeito ao prazo alongado que invade a outra legislatura. Esse é um ponto para o qual eu gostaria de chamar a atenção.

Presidente, é claro, nós podemos sempre contra-argumentar, como já o fez a eminente Relatora, que o Congresso, a qualquer tempo, poderá mudar o modelo jurídico – e isso é verdade – , rever essa fórmula. Isso é inegável. No entanto, também sabemos das dificuldades de se fazer isso, porque aí vem também a relação delicada entre maioria e minoria. A mim me chamou a atenção exatamente essa fixação; quer dizer, isso vai a 2015.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Ultrapassa a legislatura

atual.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Exatamente. Então,

me parece que é nesse contexto que há a questão da reserva do Parlamento. É claro que este Congresso pode tomar essa deliberação. Agora, para a próxima legislatura? É evidente que esse argumento, como já disse, aceita um contra-argumento, que é o de que a próxima legislatura pode inaugurar a sua atividade com a revogação do modelo eleito, mas eu fico a perguntar: Por que não fazer em 20 anos? A ser válido isso – estou só colocando o argumento de prova e contraprova para efeito de raciocínio.

A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) - De

raciocínio.

Eu queria me pronunciar, se Vossa Excelência me permite, sobre esse argumento de Vossa Excelência.

Eu apenas estou tentando dar uma interpretação, partindo exatamente do pressuposto de que a ética constitucional determina ao próprio Congresso que, ao fazer uma lei como essa, leve em consideração todos esses elementos políticos. E, talvez, Ministro Gilmar, a ida até 2015 seja exatamente porque 2014 é um ano eleitoral de eleições gerais, Presidente e Congresso, e isso é posto em consideração. E, como Vossa 3

Supremo Tribunal Federal

ADI 4.568 / DF

séria, uma vez que esse é o piso.

A minha dúvida – mas vou ficar na dúvida neste momento, para eventuais reflexões ao longo desse processo – diz respeito ao prazo alongado que invade a outra legislatura. Esse é um ponto para o qual eu gostaria de chamar a atenção.

Presidente, é claro, nós podemos sempre contra-argumentar, como já o fez a eminente Relatora, que o Congresso, a qualquer tempo, poderá mudar o modelo jurídico – e isso é verdade – , rever essa fórmula. Isso é inegável. No entanto, também sabemos das dificuldades de se fazer isso, porque aí vem também a relação delicada entre maioria e minoria. A mim me chamou a atenção exatamente essa fixação; quer dizer, isso vai a 2015.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Ultrapassa a legislatura

atual.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Exatamente. Então,

me parece que é nesse contexto que há a questão da reserva do Parlamento. É claro que este Congresso pode tomar essa deliberação. Agora, para a próxima legislatura? É evidente que esse argumento, como já disse, aceita um contra-argumento, que é o de que a próxima legislatura pode inaugurar a sua atividade com a revogação do modelo eleito, mas eu fico a perguntar: Por que não fazer em 20 anos? A ser válido isso – estou só colocando o argumento de prova e contraprova para efeito de raciocínio.

A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) - De

raciocínio.

Eu queria me pronunciar, se Vossa Excelência me permite, sobre esse argumento de Vossa Excelência.

Eu apenas estou tentando dar uma interpretação, partindo exatamente do pressuposto de que a ética constitucional determina ao próprio Congresso que, ao fazer uma lei como essa, leve em consideração todos esses elementos políticos. E, talvez, Ministro Gilmar, a ida até 2015 seja exatamente porque 2014 é um ano eleitoral de eleições gerais, Presidente e Congresso, e isso é posto em consideração. E, como Vossa 3

Voto - MIN. GILMAR MENDES

ADI 4.568 / DF

Excelência acaba de dizer, a conjuntura minoria/maioria no Congresso Nacional é o espaço específico para a elaboração da nova lei.

Mas eu acho que vai um pouco contra o que se põe na Constituição, que é de valorizar o salário mínimo e deixar essas políticas a salvo de conjunturas eventuais como esta. Talvez seja esse um elemento a se levar em consideração para preservar exatamente o que no artigo 7º se preserva: condições sociais de melhoria e valorização permanente do trabalhador.

Louvo a preocupação de Vossa Excelência, e acho que esse é um ponto no qual, eventualmente, teremos de repensar em outra situação - nesta, agora, mantenho o meu voto no que se refere, inclusive, ao período.

Quando Vossa Excelência diz que poderia ser não de 4, mas de 5 anos, não de 2012 a 2015, mas até 2020, a meu ver, prevaleceria a competência do Congresso e a reserva do Poder Legislativo na circunstâncias de que, no ano seguinte, ele poderá mudar se quiser, porque é uma lei ordinária. Então, talvez o "ir até 2015" - e não interessa o que o legislador quis, mas o que dispõe a lei - seja apenas para tentar entender - eu estudei bem a lei - o porquê.

Lendo toda a Lei n. 12.382, observa-se que o que se quis foi valorizar e deixar o valor do salário mínimo a salvo dessas conjunturas eventuais. Quer dizer, Vossa Excelência bem afirma que não a próxima legislatura, mas que esta pode revogar a Lei inclusive em 2014, mas com tudo o que diz respeito a um momento de um ano eleitoral, que causa alguma modificação.

Enfim, eu realmente louvo a preocupação de Vossa Excelência, mas mantenho.

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Vou só relembrar que está

vinculado aqui o plano plurianual. Então, há toda uma vinculação de caráter político.

Agora, por outro lado, no meu modo de ver - eu que estou vivenciando uma proposta de alteração do novo Código de Processo Civil

Supremo Tribunal Federal

ADI 4.568 / DF

Excelência acaba de dizer, a conjuntura minoria/maioria no Congresso Nacional é o espaço específico para a elaboração da nova lei.

Mas eu acho que vai um pouco contra o que se põe na Constituição, que é de valorizar o salário mínimo e deixar essas políticas a salvo de conjunturas eventuais como esta. Talvez seja esse um elemento a se levar em consideração para preservar exatamente o que no artigo 7º se preserva: condições sociais de melhoria e valorização permanente do trabalhador.

Louvo a preocupação de Vossa Excelência, e acho que esse é um ponto no qual, eventualmente, teremos de repensar em outra situação - nesta, agora, mantenho o meu voto no que se refere, inclusive, ao período.

Quando Vossa Excelência diz que poderia ser não de 4, mas de 5 anos, não de 2012 a 2015, mas até 2020, a meu ver, prevaleceria a competência do Congresso e a reserva do Poder Legislativo na circunstâncias de que, no ano seguinte, ele poderá mudar se quiser, porque é uma lei ordinária. Então, talvez o "ir até 2015" - e não interessa o que o legislador quis, mas o que dispõe a lei - seja apenas para tentar entender - eu estudei bem a lei - o porquê.

Lendo toda a Lei n. 12.382, observa-se que o que se quis foi valorizar e deixar o valor do salário mínimo a salvo dessas conjunturas eventuais. Quer dizer, Vossa Excelência bem afirma que não a próxima legislatura, mas que esta pode revogar a Lei inclusive em 2014, mas com tudo o que diz respeito a um momento de um ano eleitoral, que causa alguma modificação.

Enfim, eu realmente louvo a preocupação de Vossa Excelência, mas mantenho.

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Vou só relembrar que está

vinculado aqui o plano plurianual. Então, há toda uma vinculação de caráter político.

Agora, por outro lado, no meu modo de ver - eu que estou vivenciando uma proposta de alteração do novo Código de Processo Civil

Voto - MIN. GILMAR MENDES

ADI 4.568 / DF

-, é tão importante uma nova lei de processo de cunho nacional quanto um salário de cunho nacional. E é um fenômeno da vida do Direito que uma legislatura passe para a outra as obras oriundas dos seus mandatos. A outra legislatura pode, eventualmente, até não simpatizar; pode surgir uma nova ideologia política numa nova legislatura e revogar a lei anterior. Mas eu acho que é da vida do Direito uma legislatura passar para a outra compromissos assumidos, com a possibilidade de revogação. No entanto, o temor de Vossa Excelência é mais político.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - É nessa linha,

Presidente, que eu gostaria de compartilhar essa preocupação. Veja que pode ser que uma maioria eventual, numa recomposição, porventura logre aprovar até um projeto de lei revogando esse modelo jurídico ou outro, mas, talvez – como também sói acontecer – , não logre a aprovação, a sanção do Presidente. Isso vai obrigar a questão a ser realmente reagitada dentro do processo de sanção ou veto. Acho que votar hoje um veto, no atual estágio do Parlamento, é mais difícil do que votar uma emenda constitucional. Então, só para que saibamos em que contexto político estamos inseridos. Não se trata, portanto, de uma obra fácil, de simplesmente reformular um modelo jurídico positivado em lei, tendo em vista essa questão complexa.

E, realmente, se não assumirmos pelo menos uma reserva mental em relação ao modelo, corremos o risco de estar a validar uma forma que diz: “Bom, se o Supremo disse que é constitucional 5 anos, por que não 10, por que não 15”? E, aí, na verdade, o Parlamento terá sido demitido.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Se Vossa Excelência, me

permite, ainda com base na distinção sutil que Vossa Excelência fez entre reserva de lei e reserva de Parlamento?

Reserva de lei é mais importante do que a de Parlamento porque incorpora os procedimentos típicos da lei. E aqui, me parece, é um caso típico de reserva de lei, mais do que de reserva de Parlamento.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Pois é, mas o que eu

quis dizer – coincide em parte com que Vossa Excelência sustentou – é 5

Supremo Tribunal Federal

ADI 4.568 / DF

-, é tão importante uma nova lei de processo de cunho nacional quanto um salário de cunho nacional. E é um fenômeno da vida do Direito que uma legislatura passe para a outra as obras oriundas dos seus mandatos. A outra legislatura pode, eventualmente, até não simpatizar; pode surgir uma nova ideologia política numa nova legislatura e revogar a lei anterior. Mas eu acho que é da vida do Direito uma legislatura passar para a outra compromissos assumidos, com a possibilidade de revogação. No entanto, o temor de Vossa Excelência é mais político.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - É nessa linha,

Presidente, que eu gostaria de compartilhar essa preocupação. Veja que pode ser que uma maioria eventual, numa recomposição, porventura logre aprovar até um projeto de lei revogando esse modelo jurídico ou outro, mas, talvez – como também sói acontecer – , não logre a aprovação, a sanção do Presidente. Isso vai obrigar a questão a ser realmente reagitada dentro do processo de sanção ou veto. Acho que votar hoje um veto, no atual estágio do Parlamento, é mais difícil do que votar uma emenda constitucional. Então, só para que saibamos em que contexto político estamos inseridos. Não se trata, portanto, de uma obra fácil, de simplesmente reformular um modelo jurídico positivado em lei, tendo em vista essa questão complexa.

E, realmente, se não assumirmos pelo menos uma reserva mental em relação ao modelo, corremos o risco de estar a validar uma forma que diz: “Bom, se o Supremo disse que é constitucional 5 anos, por que não 10, por que não 15”? E, aí, na verdade, o Parlamento terá sido demitido.

O SENHOR MINISTRO AYRES BRITTO - Se Vossa Excelência, me

permite, ainda com base na distinção sutil que Vossa Excelência fez entre reserva de lei e reserva de Parlamento?

Reserva de lei é mais importante do que a de Parlamento porque incorpora os procedimentos típicos da lei. E aqui, me parece, é um caso típico de reserva de lei, mais do que de reserva de Parlamento.

O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Pois é, mas o que eu

quis dizer – coincide em parte com que Vossa Excelência sustentou – é 5

Voto - MIN. GILMAR MENDES

ADI 4.568 / DF

que a reserva de lei, em muitos casos, acaba sendo mitigada. Por exemplo, a medida provisória ressalva. Nós satisfazemos a reserva de lei, pelo menos enquanto o Parlamento sobre ela não se pronuncia; quando nós temos esses modelos, a discussão sobre o regulamento autorizado ou delegado, quando cabíveis.

Eu estou tentando apontar para um risco de um modelo que já é extremamente sério nessa questão, como Vossa Excelência bem demonstrou – é extremamente sério –, mas que, projetado para outras gerações, pode ser o estímulo para deixar o Congresso inativo. E isso tem uma implicação muito séria na relação maioria/minoria.

Ainda recentemente eu conversava com o Vice-Presidente Michel Temer e saudava aquela interpretação desenvolvida na Câmara dos Deputados sobre medida provisória, que mereceu um erudito, cuidadoso e brilhante despacho do Ministro Celso de Mello. Era uma construção exatamente interessante porque devolvia ao Parlamento a possibilidade de atuar, dizendo que o trancamento de pauta não pode levar a um bloqueio das atividades parlamentares. Vossa Excelência há de se lembrar.

O SENHOR MINISTRO CELSO DE MELLO: (CANCELADO).

No documento Supremo Tribunal Federal (páginas 44-48)