Ementa e Acórdão
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
REQTE.(S) :PARTIDO POPULAR SOCIALISTA E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) :RENATO CAMPOS GALUPPO
INTDO.(A/S) :PRESIDENTE DA REPÚBLICA
ADV.(A/S) :ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) :CONGRESSO NACIONAL
EMENTA: CONSTITUCIONAL. VALOR DO SALÁRIO MÍNIMO.
ART. 3. DA LEI N. 12.382, de 25.2.2011. VALOR NOMINAL A SER ANUNCIADO E DIVULGADO POR DECRETO PRESIDENCIAL. DECRETO MERAMENTE DECLARATÓRIO DE VALOR A SER REAJUSTADO E AUMENTADO SEGUNDO ÍNDICES LEGALMENTE ESTABELECIDOS. OBSERVÂNCIA DO INC. IV DO ART. 7. DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. AÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE.
1. A exigência constitucional de lei formal para fixação do valor do
salário mínimo está atendida pela Lei n. 12.382/2011.
2. A utilização de decreto presidencial, definida pela Lei n.
12.382/2011 como instrumento de anunciação e divulgação do valor nominal do salário mínimo de 2012 a 2015, não desobedece o comando constitucional posto no inc. IV do art. 7o. da Constituição do Brasil.
A Lei n. 12.382/2011 definiu o valor do salário mínimo e sua política de afirmação de novos valores nominais para o período indicado (arts. 1o. e 2o.). Cabe ao Presidente da República, exclusivamente, aplicar os índices definidos legalmente para reajuste e aumento e divulgá-los por meio de decreto, pelo que não há inovação da ordem jurídica nem nova fixação de valor.
3. Ação julgada improcedente.
A C Ó R D Ã O
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em sessão Plenária, sob a Presidência do
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
DJe 30/03/2012
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 1 de 81Ementa e Acórdão
ADI 4.568 / DF
Ministro Cezar Peluso, na conformidade da ata de julgamento e das notas taquigráficas, por maioria e nos termos do voto da Relatora, em julgar
improcedente a ação direta de inconstitucionalidade, vencidos os
Ministros Ayres Britto e Marco Aurélio, e em não conhecer da questão de
inconstitucionalidade do artigo 2º, §§ 2º e 3º, da Lei n. 12.382/2011,
vencidos os Ministros Ayres Britto, Marco Aurélio e Cezar Peluso (Presidente). Ausentes, na votação sobre o não conhecimento do artigo 2º, §§ 2º e 3º, da Lei n. 12.382/2011, os Ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa. Falaram, pelos requerentes, o Dr. Renato Campos Galuppo e, pela Advocacia-Geral da União, o Ministro Luís Inácio Lucena Adams, Advogado-Geral da União.
Brasília, 3 de novembro de 2011.
Ministra CÁRMEN LÚCIA - Relatora
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFMinistro Cezar Peluso, na conformidade da ata de julgamento e das notas taquigráficas, por maioria e nos termos do voto da Relatora, em julgar
improcedente a ação direta de inconstitucionalidade, vencidos os
Ministros Ayres Britto e Marco Aurélio, e em não conhecer da questão de
inconstitucionalidade do artigo 2º, §§ 2º e 3º, da Lei n. 12.382/2011,
vencidos os Ministros Ayres Britto, Marco Aurélio e Cezar Peluso (Presidente). Ausentes, na votação sobre o não conhecimento do artigo 2º, §§ 2º e 3º, da Lei n. 12.382/2011, os Ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa. Falaram, pelos requerentes, o Dr. Renato Campos Galuppo e, pela Advocacia-Geral da União, o Ministro Luís Inácio Lucena Adams, Advogado-Geral da União.
Brasília, 3 de novembro de 2011.
Ministra CÁRMEN LÚCIA - Relatora
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 2 de 81Relatório
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
REQTE.(S) :PARTIDO POPULAR SOCIALISTA E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) :RENATO CAMPOS GALUPPO
INTDO.(A/S) :PRESIDENTE DA REPÚBLICA
ADV.(A/S) :ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) :CONGRESSO NACIONAL
R E L A T Ó R I O
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - (Relatora): Ação
direta de inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, ajuizada pelo Partido Popular Socialista – PPS, Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB e Democratas – DEM, objetivando declaração de inconstitucionalidade do art. 3o. (caput e parágrafo único) da Lei n. 12.382, de 25.2.2011, que dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e sua política de valorização de longo prazo, disciplina a representação fiscal para fins penais nos casos de parcelamento do crédito tributário, altera a Lei n. 9.430, de 27.12.1996 e revoga a Lei n. 12.255, de 15.6.2010.
1. O objeto específico da presente ação é, pois, o art. 3o. da lei n.
12.382/2011, que estabelece:
“Art. 3o Os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Parágrafo único. O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores mensal, diário e horário do salário mínimo decorrentes do disposto neste artigo, correspondendo o valor diário a um trinta avos e o valor horário a um duzentos e vinte avos do valor mensal.”
O art. 2o. da mesma Lei, ao qual remete a norma do caput do art. 3o., dispõe:
“Art. 2o Ficam estabelecidas as diretrizes para a política de valorização do
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
REQTE.(S) :PARTIDO POPULAR SOCIALISTA E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) :RENATO CAMPOS GALUPPO
INTDO.(A/S) :PRESIDENTE DA REPÚBLICA
ADV.(A/S) :ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) :CONGRESSO NACIONAL
R E L A T Ó R I O
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - (Relatora): Ação
direta de inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, ajuizada pelo Partido Popular Socialista – PPS, Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB e Democratas – DEM, objetivando declaração de inconstitucionalidade do art. 3o. (caput e parágrafo único) da Lei n. 12.382, de 25.2.2011, que dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e sua política de valorização de longo prazo, disciplina a representação fiscal para fins penais nos casos de parcelamento do crédito tributário, altera a Lei n. 9.430, de 27.12.1996 e revoga a Lei n. 12.255, de 15.6.2010.
1. O objeto específico da presente ação é, pois, o art. 3o. da lei n.
12.382/2011, que estabelece:
“Art. 3o Os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Parágrafo único. O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores mensal, diário e horário do salário mínimo decorrentes do disposto neste artigo, correspondendo o valor diário a um trinta avos e o valor horário a um duzentos e vinte avos do valor mensal.”
O art. 2o. da mesma Lei, ao qual remete a norma do caput do art. 3o., dispõe:
“Art. 2o Ficam estabelecidas as diretrizes para a política de valorização do
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 3 de 81Relatório
ADI 4.568 / DF
salário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicadas em 1o de janeiro do respectivo ano.
§ 1o Os reajustes para a preservação do poder aquisitivo do salário mínimo corresponderão à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste.
§ 2o Na hipótese de não divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, o Poder Executivo estimará os índices dos meses não disponíveis.
§ 3o Verificada a hipótese de que trata o § 2o, os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade.
§ 4o A título de aumento real, serão aplicados os seguintes percentuais: I - em 2012, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do Produto Interno Bruto - PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2010;
II - em 2013, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2011;
III - em 2014, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2012; e
IV - em 2015, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2013.
§ 5o Para fins do disposto no § 4o, será utilizada a taxa de crescimento real do PIB para o ano de referência, divulgada pelo IBGE até o último dia útil do ano imediatamente anterior ao de aplicação do respectivo aumento real.”
2. Para os Autores da presente ação, o art. 3o. da Lei n. 12.382/2011,
“que é o objeto central da presente ADI”, contrariaria o inc. IV do art. 7o. da Constituição brasileira, porque aí mencionado lei em sentido formal, o que seria incompatível com o decreto referido na norma questionada.
Segundo eles, ter-se-ia ali “indisfarçada delegação de poderes ….para que possa o Poder Executivo deter a prerrogativa de fixar, com exclusividade, o valor
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFsalário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicadas em 1o de janeiro do respectivo ano.
§ 1o Os reajustes para a preservação do poder aquisitivo do salário mínimo corresponderão à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste.
§ 2o Na hipótese de não divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, o Poder Executivo estimará os índices dos meses não disponíveis.
§ 3o Verificada a hipótese de que trata o § 2o, os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade.
§ 4o A título de aumento real, serão aplicados os seguintes percentuais: I - em 2012, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do Produto Interno Bruto - PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2010;
II - em 2013, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2011;
III - em 2014, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2012; e
IV - em 2015, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2013.
§ 5o Para fins do disposto no § 4o, será utilizada a taxa de crescimento real do PIB para o ano de referência, divulgada pelo IBGE até o último dia útil do ano imediatamente anterior ao de aplicação do respectivo aumento real.”
2. Para os Autores da presente ação, o art. 3o. da Lei n. 12.382/2011,
“que é o objeto central da presente ADI”, contrariaria o inc. IV do art. 7o. da Constituição brasileira, porque aí mencionado lei em sentido formal, o que seria incompatível com o decreto referido na norma questionada.
Segundo eles, ter-se-ia ali “indisfarçada delegação de poderes ….para que possa o Poder Executivo deter a prerrogativa de fixar, com exclusividade, o valor
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 4 de 81Relatório
ADI 4.568 / DF
do salário mínimo....o Congresso Nacional não poderá se manifestar sobre o valor do salário mínimo entre os anos de 2012 e 2015”.
3. Pela relevância da matéria e necessidade de solucionar, de forma definitiva, o objeto do questionamento formulado, adotei o rito do art. 12, da Lei n. 9.868/99.
4. A Presidente da República encaminhou informações elaboradas
pela Advocacia Geral da União, no sentido de inocorrência de qualquer vício de inconstitucionalidade na norma impugnada, porque o que se conteria no art. 3o. seria tão somente determinação de declaração de valor segundo os cálculos feitos segundo os parâmetros fixados pelo Congresso Nacional e postos no art. 2o. da Lei n. 12.382/11 por decreto presidencial.
5. O Presidente da Câmara dos Deputados informou, singelamente,
que “a referida matéria foi processada pela Câmara...dentro dos mais estritos trâmites constitucionais e regimentais inerentes à espécie...”.
6. O Presidente do Senado Federal informou não haver, na
argumentação dos Autores, qualquer “fundamento que, formal ou materialmente, infirme a constitucionalidade do caput e do parágrafo único do artigo 3o da Lei n. 12.382, de 2011”, pedindo, então, seja julgada improcedente a ação.
7. A Advocacia Geral da União manifestou-se pela improcedência da
ação, como concluiu também a Procuradoria-Geral da República.
É o relatório, do qual deverão ser extraídas cópias para encaminhamento aos Senhores Ministros deste Supremo Tribunal (art. 172 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal).
3
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFdo salário mínimo....o Congresso Nacional não poderá se manifestar sobre o valor do salário mínimo entre os anos de 2012 e 2015”.
3. Pela relevância da matéria e necessidade de solucionar, de forma definitiva, o objeto do questionamento formulado, adotei o rito do art. 12, da Lei n. 9.868/99.
4. A Presidente da República encaminhou informações elaboradas
pela Advocacia Geral da União, no sentido de inocorrência de qualquer vício de inconstitucionalidade na norma impugnada, porque o que se conteria no art. 3o. seria tão somente determinação de declaração de valor segundo os cálculos feitos segundo os parâmetros fixados pelo Congresso Nacional e postos no art. 2o. da Lei n. 12.382/11 por decreto presidencial.
5. O Presidente da Câmara dos Deputados informou, singelamente,
que “a referida matéria foi processada pela Câmara...dentro dos mais estritos trâmites constitucionais e regimentais inerentes à espécie...”.
6. O Presidente do Senado Federal informou não haver, na
argumentação dos Autores, qualquer “fundamento que, formal ou materialmente, infirme a constitucionalidade do caput e do parágrafo único do artigo 3o da Lei n. 12.382, de 2011”, pedindo, então, seja julgada improcedente a ação.
7. A Advocacia Geral da União manifestou-se pela improcedência da
ação, como concluiu também a Procuradoria-Geral da República.
É o relatório, do qual deverão ser extraídas cópias para encaminhamento aos Senhores Ministros deste Supremo Tribunal (art. 172 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal).
3
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 5 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL V O T O
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - (Relatora):
1. Conforme relatado, o Partido Popular Socialista – PPS, o Partido
da Social Democracia Brasileira – PSDB e o Democratas – DEM, ajuizaram a presente ação direta de inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, questionando a validade constitucional do art. 3o. (caput e parágrafo único) da Lei n. 12.382, de 25.2.2011, que dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e sua política de valorização de longo prazo, disciplina a representação fiscal para fins penais nos casos de parcelamento do crédito tributário, altera a Lei n. 9.430, de 27.12.1996 e revoga a Lei n. 12.255, de 15.6.2010.
2. Os Autores argumentam, em síntese, que a norma questionada
estaria maculada por inconstitucionalidade por conter “indisfarçada delegação” à Presidente da República para dispor sobre o valor do salário mínimo, mediante decreto, o que afrontaria o inc. IV do art. 7º da Constituição brasileira. Neste se contém a exigência de ser fixado o valor do salário mínimo por lei. A determinação de ser indicado aquele valor, na forma do art. 2º da Lei n. 12.382/11, de 2012 a 2015, por decreto presidencial, impediria que o Congresso Nacional atuasse no exercício de sua competência a cada período anual.
Daí a inconstitucionalidade alegada, porque teria havido afronta à exigência constitucional de lei em sentido formal para tal definição.
3. O art. 3º da Lei n. 12.382/2011 dispõe:
“Art. 3o Os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL V O T O
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - (Relatora):
1. Conforme relatado, o Partido Popular Socialista – PPS, o Partido
da Social Democracia Brasileira – PSDB e o Democratas – DEM, ajuizaram a presente ação direta de inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, questionando a validade constitucional do art. 3o. (caput e parágrafo único) da Lei n. 12.382, de 25.2.2011, que dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e sua política de valorização de longo prazo, disciplina a representação fiscal para fins penais nos casos de parcelamento do crédito tributário, altera a Lei n. 9.430, de 27.12.1996 e revoga a Lei n. 12.255, de 15.6.2010.
2. Os Autores argumentam, em síntese, que a norma questionada
estaria maculada por inconstitucionalidade por conter “indisfarçada delegação” à Presidente da República para dispor sobre o valor do salário mínimo, mediante decreto, o que afrontaria o inc. IV do art. 7º da Constituição brasileira. Neste se contém a exigência de ser fixado o valor do salário mínimo por lei. A determinação de ser indicado aquele valor, na forma do art. 2º da Lei n. 12.382/11, de 2012 a 2015, por decreto presidencial, impediria que o Congresso Nacional atuasse no exercício de sua competência a cada período anual.
Daí a inconstitucionalidade alegada, porque teria havido afronta à exigência constitucional de lei em sentido formal para tal definição.
3. O art. 3º da Lei n. 12.382/2011 dispõe:
“Art. 3o Os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 6 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
Parágrafo único. O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores mensal, diário e horário do salário mínimo decorrentes do disposto neste artigo, correspondendo o valor diário a um trinta avos e o valor horário a um duzentos e vinte avos do valor mensal.”
O art. 2o. da mesma Lei, ao qual remete a norma do caput do art. 3o., estabelece:
“Art. 2o Ficam estabelecidas as diretrizes para a política de valorização do salário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicadas em 1o de janeiro do respectivo ano.
§ 1o Os reajustes para a preservação do poder aquisitivo do salário mínimo corresponderão à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste.
§ 2o Na hipótese de não divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, o Poder Executivo estimará os índices dos meses não disponíveis.
§ 3o Verificada a hipótese de que trata o § 2o, os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade.
§ 4o A título de aumento real, serão aplicados os seguintes percentuais: I - em 2012, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do Produto Interno Bruto - PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2010;
II - em 2013, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2011;
III - em 2014, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2012; e
IV - em 2015, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2013.
§ 5o Para fins do disposto no § 4o, será utilizada a taxa de crescimento real do PIB para o ano de referência, divulgada pelo IBGE até o último dia útil do ano 2
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFParágrafo único. O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores mensal, diário e horário do salário mínimo decorrentes do disposto neste artigo, correspondendo o valor diário a um trinta avos e o valor horário a um duzentos e vinte avos do valor mensal.”
O art. 2o. da mesma Lei, ao qual remete a norma do caput do art. 3o., estabelece:
“Art. 2o Ficam estabelecidas as diretrizes para a política de valorização do salário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicadas em 1o de janeiro do respectivo ano.
§ 1o Os reajustes para a preservação do poder aquisitivo do salário mínimo corresponderão à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste.
§ 2o Na hipótese de não divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, o Poder Executivo estimará os índices dos meses não disponíveis.
§ 3o Verificada a hipótese de que trata o § 2o, os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade.
§ 4o A título de aumento real, serão aplicados os seguintes percentuais: I - em 2012, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do Produto Interno Bruto - PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2010;
II - em 2013, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2011;
III - em 2014, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2012; e
IV - em 2015, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2013.
§ 5o Para fins do disposto no § 4o, será utilizada a taxa de crescimento real do PIB para o ano de referência, divulgada pelo IBGE até o último dia útil do ano 2
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 7 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
imediatamente anterior ao de aplicação do respectivo aumento real.” O art. 7º. da Constituição do Brasil
4. A norma constitucional apontada como desobedecida pela lei
12.382/11 teria sido a do inc. IV do art. 7º. da Constituição do Brasil:
“Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
...
IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;”.
O ponto discutido na presente ação é se a norma do art. 3º da Lei n. 12.382/2011 contém determinação para se fixar o salário mínimo por decreto, a cada ano, de 2012 a 2015 (tese dos Autores da presente ação) ou mera indicação do quantum devido como salário mínimo a cada ano (até 2015), segundo o valor fixado naquele diploma legal.
Dito de outra forma: os Autores argumentam que o que se contém na lei é delegação para que a Presidente da República fixe o valor do salário mínimo. O que o Congresso Nacional e a Presidente informam, secundados pela Advocacia Geral da União e pela Procuradoria Geral da República, é que o valor já foi fixado pela Lei, cabendo à Chefe do Poder Executivo, por decreto, apenas atualizar e divulgar o valor segundo os parâmetros indicadores legalmente estatuídos. Para os Autores, a divulgação do novo quantum, a cada ano, por decreto desobedeceria o comando constitucional relativo ao tipo legislativo a se adotar para tal procedimento, enquanto para os Requeridos a Constituição teria sido observada, pois o valor foi fixado pela Lei, cabendo ao Poder Executivo
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFimediatamente anterior ao de aplicação do respectivo aumento real.” O art. 7º. da Constituição do Brasil
4. A norma constitucional apontada como desobedecida pela lei
12.382/11 teria sido a do inc. IV do art. 7º. da Constituição do Brasil:
“Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
...
IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;”.
O ponto discutido na presente ação é se a norma do art. 3º da Lei n. 12.382/2011 contém determinação para se fixar o salário mínimo por decreto, a cada ano, de 2012 a 2015 (tese dos Autores da presente ação) ou mera indicação do quantum devido como salário mínimo a cada ano (até 2015), segundo o valor fixado naquele diploma legal.
Dito de outra forma: os Autores argumentam que o que se contém na lei é delegação para que a Presidente da República fixe o valor do salário mínimo. O que o Congresso Nacional e a Presidente informam, secundados pela Advocacia Geral da União e pela Procuradoria Geral da República, é que o valor já foi fixado pela Lei, cabendo à Chefe do Poder Executivo, por decreto, apenas atualizar e divulgar o valor segundo os parâmetros indicadores legalmente estatuídos. Para os Autores, a divulgação do novo quantum, a cada ano, por decreto desobedeceria o comando constitucional relativo ao tipo legislativo a se adotar para tal procedimento, enquanto para os Requeridos a Constituição teria sido observada, pois o valor foi fixado pela Lei, cabendo ao Poder Executivo
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 8 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
tão somente a quantificação do reajustamento anual do valor e o aumento, quando for o caso, pela apuração, aritmética, do quantum devido pela aplicação àquele valor dos índices definidos pelo Congresso Nacional (art. 2º da Lei n. 12.382/11).
5. A norma constitucional tida pelos Autores como contrariada
refere-se à exigência de lei para o estabelecimento do valor do salário mínimo. O que se há de levar em conta para a sua interpretação é, portanto, a definição constitucional de fixação e de valor.
Quanto à fixação é de se afirmar, na esteira de lição, dentre outros, de José Afonso da Silva, que a Constituição “...oferece várias regras e condições” (Comentário contextual à Constituição. p. 191) já em seu texto, impedindo a atuação livre do próprio legislador por ela convocado para, com base nestas normas, estabelecer o valor do salário mínimo nacional a ser adotado.
Daí porque fixar, no sentido do inc. IV do art. 7º. da Constituição brasileira, há de ser considerado como prescrever, assentar, firmar.
A epígrafe mesma da Lei n. 12.382/11 esclarece que nela se “dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e a sua política de valorização de longo prazo”.
O que se contém na lei em foco, portanto, é a definição legal e formal do salário mínimo, a fixação do seu valor em 2011 (art. 1º.) e a forma de sua valorização, a dizer, o que viria a ser o valor a prevalecer, enquanto ela vigorar, para os períodos anuais subsequentes (até 2015).
6. Ao definir o quantum valorado em 2011, traduzido em reais, a lei
n. 12.382/11 não esgotou a sua preceituação, passando, no art. 2º, a dispor como seria valorizado, quer dizer, como seria quantificado, em reais, o valor a prevalecer nos períodos de 2012 a 2015.
4
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFtão somente a quantificação do reajustamento anual do valor e o aumento, quando for o caso, pela apuração, aritmética, do quantum devido pela aplicação àquele valor dos índices definidos pelo Congresso Nacional (art. 2º da Lei n. 12.382/11).
5. A norma constitucional tida pelos Autores como contrariada
refere-se à exigência de lei para o estabelecimento do valor do salário mínimo. O que se há de levar em conta para a sua interpretação é, portanto, a definição constitucional de fixação e de valor.
Quanto à fixação é de se afirmar, na esteira de lição, dentre outros, de José Afonso da Silva, que a Constituição “...oferece várias regras e condições” (Comentário contextual à Constituição. p. 191) já em seu texto, impedindo a atuação livre do próprio legislador por ela convocado para, com base nestas normas, estabelecer o valor do salário mínimo nacional a ser adotado.
Daí porque fixar, no sentido do inc. IV do art. 7º. da Constituição brasileira, há de ser considerado como prescrever, assentar, firmar.
A epígrafe mesma da Lei n. 12.382/11 esclarece que nela se “dispõe sobre o valor do salário mínimo em 2011 e a sua política de valorização de longo prazo”.
O que se contém na lei em foco, portanto, é a definição legal e formal do salário mínimo, a fixação do seu valor em 2011 (art. 1º.) e a forma de sua valorização, a dizer, o que viria a ser o valor a prevalecer, enquanto ela vigorar, para os períodos anuais subsequentes (até 2015).
6. Ao definir o quantum valorado em 2011, traduzido em reais, a lei
n. 12.382/11 não esgotou a sua preceituação, passando, no art. 2º, a dispor como seria valorizado, quer dizer, como seria quantificado, em reais, o valor a prevalecer nos períodos de 2012 a 2015.
4
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 9 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
Para tanto, definiu os índices que incidiriam sobre o quantum fixado no art. 1º da Lei nos períodos de 2012 a 2015.
Fixou-se, portanto, naquela lei o valor do salário mínimo. Este, entretanto, nos termos constitucionalmente definidos, não seria mais quantum imprevisível para os trabalhadores nos próximos anos, como vinha ocorrendo desde a implantação do denominado Plano Real.
Diferentemente, o legislador brasileiro optou por adotar critérios objetivos e formalmente afirmados na lei elaborada para valer até 2015, quais sejam, o quanto fixado em 2011 e os valores a serem quantificados e adotados naquele período (2012 a 2015).
Assim, o Congresso Nacional, no exercício de sua competência típica (legislativa) estabeleceu que o valor do salário mínimo, a prevalecer nos anos de 2012 a 2015, seria o de 2011 com reajuste para a preservação do seu poder aquisitivo, para tanto havendo de guardar correspondência com a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste (§ 1º do art. 2º da Lei n. 12.382/11).
Fixou, ainda, o legislador que, não havendo divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, tais índices seriam estimados pelo Poder Executivo quanto aos meses não disponíveis.
De se enfatizar, no ponto, que a estimativa também não é arbitrária, mas segundo o critério adotado, pelo que pode ser questionado em sua apuração.
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFPara tanto, definiu os índices que incidiriam sobre o quantum fixado no art. 1º da Lei nos períodos de 2012 a 2015.
Fixou-se, portanto, naquela lei o valor do salário mínimo. Este, entretanto, nos termos constitucionalmente definidos, não seria mais quantum imprevisível para os trabalhadores nos próximos anos, como vinha ocorrendo desde a implantação do denominado Plano Real.
Diferentemente, o legislador brasileiro optou por adotar critérios objetivos e formalmente afirmados na lei elaborada para valer até 2015, quais sejam, o quanto fixado em 2011 e os valores a serem quantificados e adotados naquele período (2012 a 2015).
Assim, o Congresso Nacional, no exercício de sua competência típica (legislativa) estabeleceu que o valor do salário mínimo, a prevalecer nos anos de 2012 a 2015, seria o de 2011 com reajuste para a preservação do seu poder aquisitivo, para tanto havendo de guardar correspondência com a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor - INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste (§ 1º do art. 2º da Lei n. 12.382/11).
Fixou, ainda, o legislador que, não havendo divulgação do INPC referente a um ou mais meses compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à vigência do reajuste, tais índices seriam estimados pelo Poder Executivo quanto aos meses não disponíveis.
De se enfatizar, no ponto, que a estimativa também não é arbitrária, mas segundo o critério adotado, pelo que pode ser questionado em sua apuração.
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 10 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
Estabeleceu, ainda, o legislador, que se sobrevier aquela situação prevista no § 2o, “os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade”.
Com tal estatuição, o legislador retirou do Presidente da República qualquer discricionariedade quanto à fórmula para apuração do quantum a ser adotado segundo o valor legalmente fixado ou sequer quanto à possibilidade de revisão ou forma de compensação de eventuais resíduos. Fixou, ainda, o legislador que o valor a prevalecer no período de 2012 a 2015 seria o quantum estabelecido no art. 1º. da Lei n. 12.382/11 mais o reajustamento segundo o índice firmado nos §§ 1º e 2º do art. 2º, prevendo também aumento real a ser conferido segundo os índices igualmente definidos nos §§ 4º e 5º daquele diploma legal.
7. O Congresso Nacional legislou, portanto, nos termos do inc. IV do
art. 7º da Lei n. 12.382/11, rigorosamente fixando o valor do salário mínimo, definindo o quantum a ser observado em 2011 e qual o seu valor no período de 2012 a 2015, que é aquele montante em reais reajustado segundo o índice e a forma estabelecidos nos §§ 1º, 2º e 3º da Lei e aumentado segundo os parâmetros formal e objetivamente definidos nos seus §§ 4º e 5º.
8. Anotam os Autores da presente ação que teria havido
“indisfarçada delegação”, de forma imprópria, porque não autorizada por lei delegada (a Lei n. 12.382/11 é ordinária), o que faria com que o decreto presidencial, previsto no art. 3º da Lei n. 12.382/11, seria ato normativo inadequado constitucionalmente, que retiraria do Congresso Nacional a sua competência para deliberar sobre a matéria.
Em primeiro lugar, tenho por indébita a alegação porque, como antes esclarecido, não há fixação de valor pela Presidente da República, 6
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFEstabeleceu, ainda, o legislador, que se sobrevier aquela situação prevista no § 2o, “os índices estimados permanecerão válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade”.
Com tal estatuição, o legislador retirou do Presidente da República qualquer discricionariedade quanto à fórmula para apuração do quantum a ser adotado segundo o valor legalmente fixado ou sequer quanto à possibilidade de revisão ou forma de compensação de eventuais resíduos. Fixou, ainda, o legislador que o valor a prevalecer no período de 2012 a 2015 seria o quantum estabelecido no art. 1º. da Lei n. 12.382/11 mais o reajustamento segundo o índice firmado nos §§ 1º e 2º do art. 2º, prevendo também aumento real a ser conferido segundo os índices igualmente definidos nos §§ 4º e 5º daquele diploma legal.
7. O Congresso Nacional legislou, portanto, nos termos do inc. IV do
art. 7º da Lei n. 12.382/11, rigorosamente fixando o valor do salário mínimo, definindo o quantum a ser observado em 2011 e qual o seu valor no período de 2012 a 2015, que é aquele montante em reais reajustado segundo o índice e a forma estabelecidos nos §§ 1º, 2º e 3º da Lei e aumentado segundo os parâmetros formal e objetivamente definidos nos seus §§ 4º e 5º.
8. Anotam os Autores da presente ação que teria havido
“indisfarçada delegação”, de forma imprópria, porque não autorizada por lei delegada (a Lei n. 12.382/11 é ordinária), o que faria com que o decreto presidencial, previsto no art. 3º da Lei n. 12.382/11, seria ato normativo inadequado constitucionalmente, que retiraria do Congresso Nacional a sua competência para deliberar sobre a matéria.
Em primeiro lugar, tenho por indébita a alegação porque, como antes esclarecido, não há fixação de valor pela Presidente da República, 6
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 11 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
mas aplicação aritmética, nos termos legalmente previstos, dos índices fixados pelo Congresso Nacional, a serem expostos pelo decreto presidencial. Tal decreto não inova a ordem jurídica, o que seria inobservância da Constituição, mas tão somente aplica a lei, tal como ditado, para cada período, para tanto tendo de comprovar estar a cumpri-la ao divulgar o quantum devido a cada período anual.
O que se conterá no decreto presidencial é apenas a aplicação do índice e divulgação do que valorado pelo Congresso Nacional segundo fórmula, índice e periodicidade fixados na lei.
Daí porque no art. 3º da Lei n. 12.382 se tem, por emenda de redação introduzida na tramitação do projeto que veio a se converter nesse diploma, que os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Vale dizer, a Presidente da República não pode, no decreto, senão aplicar o que nos termos da lei foi posto a ser apurado e divulgado. O decreto conterá norma de mera aplicação objetiva, vinculada e formal da lei, sem qualquer inovação possível, sob pena de abuso do poder regulamentar, passível de fiscalização e controle pela via legislativa ou judicial.
O que a lei impôs à Presidenta da República foi tão somente divulgar o quantum do salário mínimo, obtido pelo valor reajustado e aumentado segundo os índices fixados pelo Congresso Nacional na própria lei agora questionada. É o que se contém, expressamente, no parágrafo único do art. 3º impugnado: “O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores ...” .
E bem andou o legislador porque, fixados os valores a serem adotados, a partir dos índices estabelecidos, se não houvesse a previsão
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFmas aplicação aritmética, nos termos legalmente previstos, dos índices fixados pelo Congresso Nacional, a serem expostos pelo decreto presidencial. Tal decreto não inova a ordem jurídica, o que seria inobservância da Constituição, mas tão somente aplica a lei, tal como ditado, para cada período, para tanto tendo de comprovar estar a cumpri-la ao divulgar o quantum devido a cada período anual.
O que se conterá no decreto presidencial é apenas a aplicação do índice e divulgação do que valorado pelo Congresso Nacional segundo fórmula, índice e periodicidade fixados na lei.
Daí porque no art. 3º da Lei n. 12.382 se tem, por emenda de redação introduzida na tramitação do projeto que veio a se converter nesse diploma, que os reajustes e aumentos fixados na forma do art. 2o serão estabelecidos pelo Poder Executivo, por meio de decreto, nos termos desta Lei.
Vale dizer, a Presidente da República não pode, no decreto, senão aplicar o que nos termos da lei foi posto a ser apurado e divulgado. O decreto conterá norma de mera aplicação objetiva, vinculada e formal da lei, sem qualquer inovação possível, sob pena de abuso do poder regulamentar, passível de fiscalização e controle pela via legislativa ou judicial.
O que a lei impôs à Presidenta da República foi tão somente divulgar o quantum do salário mínimo, obtido pelo valor reajustado e aumentado segundo os índices fixados pelo Congresso Nacional na própria lei agora questionada. É o que se contém, expressamente, no parágrafo único do art. 3º impugnado: “O decreto do Poder Executivo a que se refere o caput divulgará a cada ano os valores ...” .
E bem andou o legislador porque, fixados os valores a serem adotados, a partir dos índices estabelecidos, se não houvesse a previsão
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 12 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
do decreto se teria estabelecido insegurança jurídica em detrimento dos trabalhadores e das instituições, pois os índices seriam divulgados pela imprensa, por órgãos da sociedade, mas tanto poderia ensejar desencontro de informação, o que foi contido exatamente pela previsão do decreto.
Em segundo lugar, também considero infundada a crítica constitucional formulada porque, ainda que se retirasse do mundo jurídico a referência ao modo de se decretar a divulgação do quantum a vigorar como salário mínimo no período fixado, mediante aplicação dos índices dispostos no art. 2º da Lei n. 12.382/11, não se teria alteração na fixação do seu valor, que continuaria a ser o mesmo.
Como observado pelo Procurador-Geral da República em seu Parecer, “o isolado efeito da retirada da norma (questionada) seria o de manietar o veículo de publicação do reajuste, criando insegurança jurídica, e, ao fim e ao cabo, reduzindo a garantia constitucional que o próprio inciso IV do art. 7º quer proteger. O ato da Presidente da República terá o objetivo de complementar o modelo, divulgando, no momento apropriado, os índices de correção e de reajuste do salário mínimo, quando, então, cumprirá, sem espaço para qualquer casuísmo, tarefa político-administrativa, e não legislativa, iniciada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE”.
Em terceiro lugar, igualmente sem fundamento o questionamento formulado porque a lei emana do Congresso Nacional, que a pode revogar quando assim entender conveniente e oportuno, sem qualquer interferência do Poder Executivo.
Desejável ou não a lei, o assunto não se jurisdiciza pela circunstância de parcela dos congressistas não terem obtido maioria na votação contrária ao dispositivo do projeto que veio a se converter em lei. Insista-se: a lei pode ser alterada segundo a decisão congressual.
8
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFdo decreto se teria estabelecido insegurança jurídica em detrimento dos trabalhadores e das instituições, pois os índices seriam divulgados pela imprensa, por órgãos da sociedade, mas tanto poderia ensejar desencontro de informação, o que foi contido exatamente pela previsão do decreto.
Em segundo lugar, também considero infundada a crítica constitucional formulada porque, ainda que se retirasse do mundo jurídico a referência ao modo de se decretar a divulgação do quantum a vigorar como salário mínimo no período fixado, mediante aplicação dos índices dispostos no art. 2º da Lei n. 12.382/11, não se teria alteração na fixação do seu valor, que continuaria a ser o mesmo.
Como observado pelo Procurador-Geral da República em seu Parecer, “o isolado efeito da retirada da norma (questionada) seria o de manietar o veículo de publicação do reajuste, criando insegurança jurídica, e, ao fim e ao cabo, reduzindo a garantia constitucional que o próprio inciso IV do art. 7º quer proteger. O ato da Presidente da República terá o objetivo de complementar o modelo, divulgando, no momento apropriado, os índices de correção e de reajuste do salário mínimo, quando, então, cumprirá, sem espaço para qualquer casuísmo, tarefa político-administrativa, e não legislativa, iniciada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE”.
Em terceiro lugar, igualmente sem fundamento o questionamento formulado porque a lei emana do Congresso Nacional, que a pode revogar quando assim entender conveniente e oportuno, sem qualquer interferência do Poder Executivo.
Desejável ou não a lei, o assunto não se jurisdiciza pela circunstância de parcela dos congressistas não terem obtido maioria na votação contrária ao dispositivo do projeto que veio a se converter em lei. Insista-se: a lei pode ser alterada segundo a decisão congressual.
8
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 13 de 81Voto - MIN. CÁRMEN LÚCIA
ADI 4.568 / DF
Na Lei n. 12.382/11 não há qualquer eiva de inconstitucionalidade quer porque a reserva legal prevista constitucionalmente foi assegurada, quer porque o decreto previsto para apuração e divulgação do novo quantum salarial é norma infralegal, vinculada e de natureza administrativa e meramente declaratória de valor nominal fixado legalmente.
9. Pelo exposto, voto no sentido de julgar improcedente a presente
ação direta de inconstitucionalidade.
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFNa Lei n. 12.382/11 não há qualquer eiva de inconstitucionalidade quer porque a reserva legal prevista constitucionalmente foi assegurada, quer porque o decreto previsto para apuração e divulgação do novo quantum salarial é norma infralegal, vinculada e de natureza administrativa e meramente declaratória de valor nominal fixado legalmente.
9. Pelo exposto, voto no sentido de julgar improcedente a presente
ação direta de inconstitucionalidade.
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 14 de 81Explicação
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
REQTE.(S) :PARTIDO POPULAR SOCIALISTA E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) :RENATO CAMPOS GALUPPO
INTDO.(A/S) :PRESIDENTE DA REPÚBLICA
ADV.(A/S) :ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) :CONGRESSO NACIONAL
EXPLICAÇÃO
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) -
Senhor Presidente, Senhores Ministros, acentuo ainda que o nobre Advogado dos Autores, da tribuna, fala que poderia haver mudança desses valores em face das questões políticas e econômicas que estamos vivendo no mundo.
Penso que este caso apenas reforça a posição contrária dos próprios Autores, porque essas condições, guardada a norma que garante ao trabalhador brasileiro previsibilidade do que vem a ser o salário mínimo, ficam resguardados de injunções e de situações críticas momentâneas, não o contrário.
# # #
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
REQTE.(S) :PARTIDO POPULAR SOCIALISTA E OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) :RENATO CAMPOS GALUPPO
INTDO.(A/S) :PRESIDENTE DA REPÚBLICA
ADV.(A/S) :ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) :CONGRESSO NACIONAL
EXPLICAÇÃO
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA (RELATORA) -
Senhor Presidente, Senhores Ministros, acentuo ainda que o nobre Advogado dos Autores, da tribuna, fala que poderia haver mudança desses valores em face das questões políticas e econômicas que estamos vivendo no mundo.
Penso que este caso apenas reforça a posição contrária dos próprios Autores, porque essas condições, guardada a norma que garante ao trabalhador brasileiro previsibilidade do que vem a ser o salário mínimo, ficam resguardados de injunções e de situações críticas momentâneas, não o contrário.
# # #
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 15 de 81Antecipação ao Voto
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
VOTO
O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Senhor Presidente, ilustre
Relatora, egrégio Plenário, ilustre representante do Ministério Público, senhores advogados presentes, também concluo que o pedido deve ser julgado improcedente.
Trago aqui apenas algumas anotações, diante do percuciente voto da Ministra Cármen Lúcia, que esgotou o tema, principalmente no aspecto normativo. Sua Excelência fez a leitura dos dispositivos legais, de sorte que vou apenas abordar alguns princípios que estão convergindo exatamente para a conclusão do voto de Sua Excelência.
Eu anoto que o argumento da inicial gravita em torno da concepção do princípio da legalidade e da separação de Poderes no Estado democrático de Direito contemporâneo. Com a devida vênia, a verdade é que a concepção clássica manifestada pelos autores não se ajusta com exatidão aos desafios colocados pela vida em sociedade nos dias atuais, marcada pela velocidade, pelo pragmatismo e já distante do passado oitocentista.
De início, é imprescindível, no meu modo de ver, fixar, desde logo, a premissa quanto à sistemática do ato normativo ora impugnado. É que a Lei nº 12.382, essa que é objeto da declaração de inconstitucionalidade, ela inicialmente definiu o valor mensal do salário mínimo e, logo a seguir, cuidou a lei de inovar no campo da proteção do trabalhador, prevendo diretrizes para a política de valorização do salário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicados em 1º de janeiro do respectivo ano.
Para tanto, primeiro definiu o critério de reajuste anual do salário mínimo, visando a preservar o seu poder aquisitivo e, em segundo, fixou parâmetros para a majoração real do seu valor nos termos dos § 1º a 5º do artigo 2º da lei que foi minudentemente retratada por Sua Excelência, a
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
03/11/2011 PLENÁRIO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 4.568 DISTRITO FEDERAL
VOTO
O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Senhor Presidente, ilustre
Relatora, egrégio Plenário, ilustre representante do Ministério Público, senhores advogados presentes, também concluo que o pedido deve ser julgado improcedente.
Trago aqui apenas algumas anotações, diante do percuciente voto da Ministra Cármen Lúcia, que esgotou o tema, principalmente no aspecto normativo. Sua Excelência fez a leitura dos dispositivos legais, de sorte que vou apenas abordar alguns princípios que estão convergindo exatamente para a conclusão do voto de Sua Excelência.
Eu anoto que o argumento da inicial gravita em torno da concepção do princípio da legalidade e da separação de Poderes no Estado democrático de Direito contemporâneo. Com a devida vênia, a verdade é que a concepção clássica manifestada pelos autores não se ajusta com exatidão aos desafios colocados pela vida em sociedade nos dias atuais, marcada pela velocidade, pelo pragmatismo e já distante do passado oitocentista.
De início, é imprescindível, no meu modo de ver, fixar, desde logo, a premissa quanto à sistemática do ato normativo ora impugnado. É que a Lei nº 12.382, essa que é objeto da declaração de inconstitucionalidade, ela inicialmente definiu o valor mensal do salário mínimo e, logo a seguir, cuidou a lei de inovar no campo da proteção do trabalhador, prevendo diretrizes para a política de valorização do salário mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicados em 1º de janeiro do respectivo ano.
Para tanto, primeiro definiu o critério de reajuste anual do salário mínimo, visando a preservar o seu poder aquisitivo e, em segundo, fixou parâmetros para a majoração real do seu valor nos termos dos § 1º a 5º do artigo 2º da lei que foi minudentemente retratada por Sua Excelência, a
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 16 de 81Antecipação ao Voto
ADI 4.568 / DF
Ministra Relatora. Nos citados parágrafos já fixados, em primeiro lugar, a diretriz para o reajuste, e, mais adiante, um verdadeiro aumento real do salário.
Dentro desse sistema teleologicamente orientado a assegurar a efetividade do artigo 7º, IV, da Constituição, o papel a ser desempenhado pelo Chefe do Poder Executivo, como foi destacado aqui pela Advocacia-Geral da União, esse papel é, na realidade, bastante diminuto. Cabe a ele, pela edição de decreto, apenas estabelecer os reajustes e aumentos fixados na forma da lei que serão estabelecidos, então, dessa forma pouco ingerente, pelo Poder Executivo. Em outras palavras, o decreto do Poder Executivo apenas aplicará de modo absolutamente vinculado à lei os critérios já previamente delineados pelo legislador.
Como ressalta a doutrina hodierna, Senhor Presidente, egrégio Plenário, a evolução das relações sociais, no último quarto do século XX, revelou a chamada crise da lei. Tal fenômeno se caracteriza, dentre outros aspectos, pela manifesta incapacidade de o Poder Legislativo acompanhar tempestivamente a mudança e a complexidade que atingiram os mais variados domínios do Direito. Por conta disso, muitas vezes apela o legislador para a previsão de princípios e de regras contendo conceitos jurídicos indeterminados, de modo a deferir substancial parcela de poder decisório ao aplicador diante do caso concreto. Esse mesmo fenômeno tem conduzido, em variados campos do Direito Público, à atuação de entidades reguladoras independentes, cuja aptidão técnica lhes permite desenvolver o conteúdo de regras gerais e abstratas, editadas pelo Legislativo, com atenção às particularidades, especificidades, domínio regulado, com a possibilidade de resposta ágil, diante da evolução da matéria provocada pelos novos desafios.
Em outras palavras, a crise da lei tem conduzido ao reconhecimento de um espaço normativo virtuoso do Poder Executivo, que passa a dialogar com o Poder Legislativo no desenvolvimento das políticas públicas setoriais, em cujas maiores vontades residem especificamente: em primeiro lugar, no conhecimento técnico, inerente à burocracia administrativa; em segundo lugar, na possibilidade de pronta resposta 2
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFMinistra Relatora. Nos citados parágrafos já fixados, em primeiro lugar, a diretriz para o reajuste, e, mais adiante, um verdadeiro aumento real do salário.
Dentro desse sistema teleologicamente orientado a assegurar a efetividade do artigo 7º, IV, da Constituição, o papel a ser desempenhado pelo Chefe do Poder Executivo, como foi destacado aqui pela Advocacia-Geral da União, esse papel é, na realidade, bastante diminuto. Cabe a ele, pela edição de decreto, apenas estabelecer os reajustes e aumentos fixados na forma da lei que serão estabelecidos, então, dessa forma pouco ingerente, pelo Poder Executivo. Em outras palavras, o decreto do Poder Executivo apenas aplicará de modo absolutamente vinculado à lei os critérios já previamente delineados pelo legislador.
Como ressalta a doutrina hodierna, Senhor Presidente, egrégio Plenário, a evolução das relações sociais, no último quarto do século XX, revelou a chamada crise da lei. Tal fenômeno se caracteriza, dentre outros aspectos, pela manifesta incapacidade de o Poder Legislativo acompanhar tempestivamente a mudança e a complexidade que atingiram os mais variados domínios do Direito. Por conta disso, muitas vezes apela o legislador para a previsão de princípios e de regras contendo conceitos jurídicos indeterminados, de modo a deferir substancial parcela de poder decisório ao aplicador diante do caso concreto. Esse mesmo fenômeno tem conduzido, em variados campos do Direito Público, à atuação de entidades reguladoras independentes, cuja aptidão técnica lhes permite desenvolver o conteúdo de regras gerais e abstratas, editadas pelo Legislativo, com atenção às particularidades, especificidades, domínio regulado, com a possibilidade de resposta ágil, diante da evolução da matéria provocada pelos novos desafios.
Em outras palavras, a crise da lei tem conduzido ao reconhecimento de um espaço normativo virtuoso do Poder Executivo, que passa a dialogar com o Poder Legislativo no desenvolvimento das políticas públicas setoriais, em cujas maiores vontades residem especificamente: em primeiro lugar, no conhecimento técnico, inerente à burocracia administrativa; em segundo lugar, na possibilidade de pronta resposta 2
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 17 de 81Antecipação ao Voto
ADI 4.568 / DF
aos novos desafios não previstos, mormente quando comparado com as formalidades que cercam o devido processo legislativo, dentre outros, assim como assentado na Constituição.
Cito, então, Senhor Presidente, dois estudos bastante inovadores e recentes da Professora Patrícia Baptista, "Transformações do Direito Administrativo", do Rio de Janeiro, Renovar, edição de 2003, e do Professor Gustavo Binenbojm, "Uma teoria do Direito Administrativo: Direitos Fundamentais, Democracia e Constitucionalização", Editora Renovar, também 2006.
No meu modo de ver, a habilitação do Poder Executivo, nesse caso, como destacado por Sua Excelência, a Ministra Relatora, não pode configurar uma renúncia do Poder Legislativo quanto a sua competência para expressar a vontade geral do povo, devendo, ao contrário, ser fixada, acompanhada de "standards" de conteúdo, de diretrizes políticas que limitem a atuação da Administração Pública, a fim de que a norma habilitante não corresponda a um cheque em branco. Nesse sentido é que a Suprema Corte americana já estabeleceu a denominada doutrina dos princípios inteligíveis, considerando inconstitucionais as alegações operadas por lei, sem prévios parâmetros claros, conforme se destacam, dentre outros, o curso do Professor Gilmar Mendes, nosso dileto amigo e Ministro, no "Curso de Direito Constitucional", p. 946 e seguintes, e numa passagem muito peculiar do professor Alexandre Aragão dos Santos, em "Direitos dos Serviços Públicos", ele também esclarece que, na Suprema Corte Americana, uma vez estabelecidos os parâmetros legais, o ato normativo secundário tem ampla liberdade, porquanto vinculado aos mínimos limites que a lei estabeleceu.
Nessa linha também é a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que já reconheceu a possibilidade, mesmo no campo do Direito Tributário e do Direito Penal, de que a lei formal não esgotasse minuciosamente o conteúdo dos comandos normativos, chancelando-se a validade de atos infralegais que desenvolvessem o respectivo teor. Rejeitou-se, por exemplo, o vício de inconstitucionalidade no que concerne às leis que disciplinam o salário educação, Recurso
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFaos novos desafios não previstos, mormente quando comparado com as formalidades que cercam o devido processo legislativo, dentre outros, assim como assentado na Constituição.
Cito, então, Senhor Presidente, dois estudos bastante inovadores e recentes da Professora Patrícia Baptista, "Transformações do Direito Administrativo", do Rio de Janeiro, Renovar, edição de 2003, e do Professor Gustavo Binenbojm, "Uma teoria do Direito Administrativo: Direitos Fundamentais, Democracia e Constitucionalização", Editora Renovar, também 2006.
No meu modo de ver, a habilitação do Poder Executivo, nesse caso, como destacado por Sua Excelência, a Ministra Relatora, não pode configurar uma renúncia do Poder Legislativo quanto a sua competência para expressar a vontade geral do povo, devendo, ao contrário, ser fixada, acompanhada de "standards" de conteúdo, de diretrizes políticas que limitem a atuação da Administração Pública, a fim de que a norma habilitante não corresponda a um cheque em branco. Nesse sentido é que a Suprema Corte americana já estabeleceu a denominada doutrina dos princípios inteligíveis, considerando inconstitucionais as alegações operadas por lei, sem prévios parâmetros claros, conforme se destacam, dentre outros, o curso do Professor Gilmar Mendes, nosso dileto amigo e Ministro, no "Curso de Direito Constitucional", p. 946 e seguintes, e numa passagem muito peculiar do professor Alexandre Aragão dos Santos, em "Direitos dos Serviços Públicos", ele também esclarece que, na Suprema Corte Americana, uma vez estabelecidos os parâmetros legais, o ato normativo secundário tem ampla liberdade, porquanto vinculado aos mínimos limites que a lei estabeleceu.
Nessa linha também é a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que já reconheceu a possibilidade, mesmo no campo do Direito Tributário e do Direito Penal, de que a lei formal não esgotasse minuciosamente o conteúdo dos comandos normativos, chancelando-se a validade de atos infralegais que desenvolvessem o respectivo teor. Rejeitou-se, por exemplo, o vício de inconstitucionalidade no que concerne às leis que disciplinam o salário educação, Recurso
Supremo Tribunal Federal
Inteiro Teor do Acórdão - Página 18 de 81Antecipação ao Voto
ADI 4.568 / DF
Extraordinário nº 269.700, Relator Ministro Marco Aurélio; o seguro de acidente de trabalho, Recurso Extraordinário nº 343. 446, Relator Ministro Carlos Velloso; bem como chancelou-se a validade das denominadas normas penais em branco, no HC nº 90.779, trazido ao Plenário, Relator Ministro Carlos Ayres Britto.
No Direito Administrativo, esta Suprema Corte igualmente reconheceu a possibilidade de que as agências reguladoras editassem atos normativos secundários, observando os parâmetros substanciais da lei de regência, na linha do "leading case" proferido com relação à Lei da Anatel, ADI nº 1.668, Relator Ministro Marco Aurélio.
Também no campo do Direito Processual Civil, a doutrina mais atual tem reconhecido a validade desta prática, como aponta em recente obra acadêmica Guilherme Sokal, "O Procedimento Recursal e as Garantias Fundamentais do Processo - A Colegialidade no Julgamento da Apelação", obra que consta de sua dissertação de mestrado no prelo da Editora Forense. E se isso é verdade com relação aos domínios do Direito Penal, do Direito Tributário e do Direito Administrativo, nos quais o princípio da legalidade sempre foi tido como a garantia do cidadão em face do Estado, não há motivo para entender diferente com relação ao Direito Material do Trabalho, mormente quando a habilitação normativa do Executivo é instituída de forma a reforçar o valor de uma garantia do trabalhador, atendendo à teleologia da parte final do artigo 7º, ao estabelecer que o regime do salário mínimo deve compreender reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo.
No caso presente, a lei ora impugnada estabelece esses parâmetros inteligíveis, à luz dessa doutrina dos parâmetros inteligíveis da Suprema Corte Americana, para a atuação do Poder Executivo. Muito ao contrário, o que se infere da lei é justamente a fixação praticamente exauriente, fechada, exaustiva, de modo como deverá o reajuste e a majoração do valor real do salário mínimo seguinte a um planejamento de longo prazo que guarda estrita analogia com a periodicidade do plano plurianual e com duração de quatro anos.
Não houve, no meu modo de ver, Senhor Presidente, assim como no 4
Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal
ADI 4.568 / DFExtraordinário nº 269.700, Relator Ministro Marco Aurélio; o seguro de acidente de trabalho, Recurso Extraordinário nº 343. 446, Relator Ministro Carlos Velloso; bem como chancelou-se a validade das denominadas normas penais em branco, no HC nº 90.779, trazido ao Plenário, Relator Ministro Carlos Ayres Britto.
No Direito Administrativo, esta Suprema Corte igualmente reconheceu a possibilidade de que as agências reguladoras editassem atos normativos secundários, observando os parâmetros substanciais da lei de regência, na linha do "leading case" proferido com relação à Lei da Anatel, ADI nº 1.668, Relator Ministro Marco Aurélio.
Também no campo do Direito Processual Civil, a doutrina mais atual tem reconhecido a validade desta prática, como aponta em recente obra acadêmica Guilherme Sokal, "O Procedimento Recursal e as Garantias Fundamentais do Processo - A Colegialidade no Julgamento da Apelação", obra que consta de sua dissertação de mestrado no prelo da Editora Forense. E se isso é verdade com relação aos domínios do Direito Penal, do Direito Tributário e do Direito Administrativo, nos quais o princípio da legalidade sempre foi tido como a garantia do cidadão em face do Estado, não há motivo para entender diferente com relação ao Direito Material do Trabalho, mormente quando a habilitação normativa do Executivo é instituída de forma a reforçar o valor de uma garantia do trabalhador, atendendo à teleologia da parte final do artigo 7º, ao estabelecer que o regime do salário mínimo deve compreender reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo.
No caso presente, a lei ora impugnada estabelece esses parâmetros inteligíveis, à luz dessa doutrina dos parâmetros inteligíveis da Suprema Corte Americana, para a atuação do Poder Executivo. Muito ao contrário, o que se infere da lei é justamente a fixação praticamente exauriente, fechada, exaustiva, de modo como deverá o reajuste e a majoração do valor real do salário mínimo seguinte a um planejamento de longo prazo que guarda estrita analogia com a periodicidade do plano plurianual e com duração de quatro anos.
Não houve, no meu modo de ver, Senhor Presidente, assim como no 4