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2.   DOS  ANTECEDENTES  DA  RACIONALIDADE:  HISTÓRIA  E  CULTURA

2.2.3.   A  Simpatia  como  Fundamento  da  Socialidade  em  Adam  Smith

Adam Smith leva adiante e aperfeiçoa o insight da Fábula das Abelhas, de Bernard de

Mandeville, segundo a qual os vícios privados podem produzir virtudes públicas, ao longo de

sua obra Magna, “Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations”. Desde sua

reflexão a respeito do ocaso do feudalismo

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, até sua célebre discussão sobre a mão invisível,

nota-se sua ênfase nas consequências fortuitas, e, mais do que isso, de sistema geral. Segue-se

uma célebre passagem:

                                                                                                               

68 CF. COSTA, M. 1997 e HUME, D. 1981. 69 CF. 1776, Book II, Ch. 4

He intends only his own gain; and he is in this, as in many other cases, led

by an invisible hand to promote an end which was no part of his intention.

Nor is it always the worse for the society that it was no part of it. By

pursuing his own interest, he frequently promotes that of the society more

effectually than when he really intends to promote it (1776, Book IV, Ch. 2).

A existência de regularidades subjacentes, que redundam das consequências das ações

individuais, é fundamental para a constituição de uma investigação científica da economia.

Todavia, é interessante lembrar do outro Smith, de “The Theory of Moral Sentiments”, uma

reflexão sobre as “paixões”, “sentimentos” ou “emoções”. Assim, retomemos as duas

questões expostas na Parte VII do livro (“TMS”), às quais essa reflexão buscaria responder, a

saber: a pergunta sobre em que consistiria a virtude, e outra, concernente à psicologia moral,

sobre os tons de temperamento e sentidos de conduta que consideramos como virtuosos ou

não, começando por tratar do conceito de “simpatia” (que talvez fosse melhor traduzido nos

dias de hoje por “empatia”), absolutamente central em “TMS”. É fundamental esclarecer o

conceito de “simpatia”, especificando a forma pela qual sua oposição ao conceito de egoísmo

permeia toda construção da ética smithiana.

Smith se opõe à visão segundo a qual a nossa empatia com outrem advém unicamente do

nosso interesse pessoal. Smith se centraria no conceito de “simpatia” como uma forma de se

opor a uma metafísica centrada no conceito de “egoísmo”, conceito usado tanto em um

sentido estritamente ético, de se realmente somos capazes de desejar ou nos comprazer

desinteressadamente com o bem alheio, quanto em um sentido epistêmico, em que significa

“auto-confinamento”, solipsismo ou incapacidade de transcender a si mesmo e a suas

experiências. Assim, ao se opor ao conceito “egoísmo” como chave explicativa para a

conduta humana, Smith estaria trabalhando tanto em um nível normativo quanto em um

analítico. A compreensão da problemática da conciliação entre o eu (self) e o outro, e assim a

compreensão da tensão entre os conceitos de “simpatia” e “egoísmo”, seria um ponto

fundamental ao entendimento de ambos os livros “TMS” e “WN”.

Assim como o termo “egoísmo”, o termo “simpatia” também teria dois significados, um

originário relativo à pena ou compaixão, e outro significando o compartilhamento (

felow-feeling) de qualquer paixão. Se, no primeiro e mais limitado senso, a simpatia é uma emoção,

no segundo sentido, o sentido smithiano, é um meio pelo qual as emoções são transmitidas e

entendidas. Griswold indica que Smith ocasionalmente opera um deslizamento entre os dois

significados do termo, e que ao fazê-lo desliza também entre os dois principais

questionamentos de qualquer teoria dos sentimentos morais, a preocupação com os bons

sentimentos, identificada à tradição cristã, e uma preocupação epistêmica, identificada ao

questionamento da psicologia moral. Esse deslizamento semântico operado por Smith tem o

efeito de produzir no leitor o sentimento moral de uma virtude revelada

O fato de começar o “TMS” pela resposta a uma suposição não atribuída a nenhum

interlocutor específico – “Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns

princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte de outros, e considerar a

felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de

assistir a ela.” – seria, segundo Griswold, um modo pelo qual Smith indicaria o quão

importante é a suposição do egoísmo humano, a qual se contrapõe, para o desenvolvimento da

sua obra. A resposta de Smith se daria tanto em relação a um entendimento geral do que seria

considerado, em seu tempo e meio, como uma feição que permeia toda a vida humana, quanto

a um ponto de debate recorrente na tradição filosófica em que se insere Smith, sabidamente a

moderna tradição do Direito Natural que vai Grotius a Hume, passando por Hobbes,

Mandeville e Pufendorf.

Smith se preocupa com a questão do egoísmo, não obstante as razões já citadas, por pressupor

um quadro em que este problema se tornava particularmente proeminente. Para os filósofos

políticos modernos, o problema político mais relevante seria o da guerra ou conflito,

problema este que teria diversas interpretações profundamente ligadas à questão do egoísmo,

nos dois sentidos do termo. “TMS” começa “no meio de uma conversa começada”, na qual

está posta a questão do egoísmo, para opor a essa uma outra chave explicativa, não mais

baseada no conflito, para dar conta da interação humana. Esta seria a simpatia, que estaria na

base de todo desenvolvimento do livro.

Um outro traço marcante da obra de Adam Smith é que o mesmo não centra sua análise em

nenhuma relação entre pessoas quaisquer, mas na relação entre ator e espectador. Todos os

exemplos que Smith utiliza para ilustrar seu ponto apareceriam sob uma forma deste tipo de

relação (ator/espectador), de forma que Smith nunca utiliza exemplos de atores interagindo

entre si ou expectadores se observando mutuamente. Assim, o tipo de relação humana na qual

se baseia o livro é essencialmente assimétrica, dado que um espectador distanciado que não

participa da ação, senão pela visão, supera parcialmente a distância entre observar e participar

pela imaginação ou simpatia. Como aponta Griswold, o privilégio da perspectiva do

espectador estaria expresso mesmo na forma de escrita de Smith, não apenas na escolha dos

exemplos, mas no uso dos pronomes e da primeira pessoa do plural. Tudo isso colaboraria

para uma identificação do leitor com esta perspectiva. Smith tentaria assim convencer-nos de

que a compreensão moral, mais que um saber teórico, adviria naturalmente da prática.

A simpatia, no sentido mais amplo do termo, seria um modo de superação parcial de uma

descontinuidade física fundamental. Seria, portanto, uma forma natural pela qual poderíamos

estar cientes das experiências subjetivas de outros, articulando a compreensão fundamental de

que os outros seriam “como nós”. Essa disposição para a sociabilidade não seria, segundo

Smith, um construto filosófico, mas sim um pressuposto de toda atividade humana. De forma

que a própria simpatia, no sentido estreito de comiseração, necessitaria da simpatia no sentido

amplo, de compreensão da subjetividade dos outros, dado que só admitindo que possamos

penetrar, ainda que parcialmente, no mundo de outrem, é que podemos nos comprazer com

sua miséria. Contudo, é preciso distinguir entre simpatia e aprovação. A desaprovação seria,

na teoria de Smith, mais do que uma incapacidade de simpatizar com determinada paixão,

sendo possível simpatizar com determinado sentimento e ainda assim desaprová-lo. O que, se

diferente, impediria qualquer possibilidade de uma avaliação ética imparcial. Nas palavras do

Griswold, “Sympathy is an act of imagination but not every act of imagination is an instance

of Sympathy” (1999, p. 85).

A questão de saber como a imaginação opera a simpatia introduz outro problema, dado que

nossos sentidos não podem, de fato, transcender a nós mesmos. A questão não seria apenas

que o espectador não sente as paixões do ator com a mesma intensidade que este, já que em

sentido literal não se pode nem dizer que o espectador de fato sinta os sentimentos do ator.

Assim, a simpatia não adviria diretamente das paixões de outrem, mas da situação que as

provoca. Pela imaginação não se poderia unir diretamente a outros, mas se poderia colocar a

si no lugar do outro, ligando-se a seu mundo, suas motivações e às circunstâncias as quais

responde. Smith insiste sobre este ponto – de que a simpatia não pode dissolver o senso de

separação entre ator e espectador – em primeiro lugar, porque ele permite preservar uma

medida de objetividade; em segundo, porque assegura a necessidade de que haja compreensão

para que haja simpatia e, em terceiro, porque esse ponto permite a Smith explicar os casos em

que sentimos simpatia por pessoas que, na verdade, não sentem o que nós acreditamos que

sentiríamos estando em seu lugar, como nos exemplos dos loucos, das crianças e dos mortos.

O fato de podermos simpatizar com pessoas que não sentem o que nós presumimos que

sentiríamos em seu lugar, faz com que Griswold recoloque a questão do caráter ambíguo do

conceito de simpatia. Pois, se por um lado Smith admite que nossos parâmetros para nos

colocar no lugar de outrem são relativos a nossa própria experiência, como no exemplo em

que simpatizamos com os mortos, mesmo sem poder alcançar qualquer compreensão

plausível de seus sentimentos; por outro, afirma que a simpatia extravasa nossas experiências

pessoais, como no exemplo em que um homem pode se imaginar no lugar de uma mulher

grávida. O conceito de simpatia parece, portanto, pender inelutavelmente entre uma ilusão

solipsista e uma desconfortável noção de transcendência. Para superar esta ambiguidade,

retornando em espiral à questão do egoísmo (em seu sentido epistêmico) versus simpatia, e

acrescentando à relação entre ambos um grau mais elevado de complexidade

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. Tal

movimento pode ser bem entendido a partir do trecho de Smith:

But though sympathy is very properly said to arise from an imaginary change

of situation with the person principally concerned, yet this imaginary change

is not supposed to happen to me in my own person and character, but in that

of the person with whom I sympathize (Smith apud Griswold, 1999 :92)

Esse malabarismo conceitual – através do qual poderíamos nos colocar no lugar de outrem,

não com a nossa personalidade, mas com a personalidade da pessoa com a qual simpatizamos,

como no exemplo do amigo que perde um filho – permite a Smith operar uma conjunção

dialética entre simpatia e egoísmo, o que lhe permite negar que para simpatizar com um ator é

necessário que tenhamos uma experiência análoga à do mesmo, bem como negar que a

experiência do espectador constitua a base de sua compreensão da experiência do ator. Não

fosse assim, o entendimento de outrem pressuporia um compartilhamento de experiências, e,

com efeito, o nosso círculo de simpatia se tornaria deveras limitado. Nesse caso o conceito de

simpatia permaneceria pendendo entre uma ilusão solipsista e uma transcendência

inexplicável, segundo Griswold:

... the whole notion of sympathy would be dialectically unstable, and Smith’s

entire moral philosophy would self undermining in an ironic manner. Smith’s

doctrine of sympathy would an instance of the internal instability of the

Enlightenment (1999, p. 96).

A fragmentação das comunidades e o surgimento de diferenciações internas, que

caracterizariam a vida cultural no ocidente contemporâneo, estariam profundamente ligados à

questão do egoísmo versus simpatia, com a qual Smith começa “TMS”. A demanda,

manifestada em indivíduos ou grupos, por reconhecimento de identidades especiais com base

na ideia da posse de uma “cultura”, ou característica distinta, que deveria ser reconhecida a

                                                                                                               

despeito de não poder ser conhecida, adviria de uma ideia de que só seria possível que

houvesse simpatia entre pessoas com experiências análogas.

O fato de algumas das sociedades ocidentalizadas contemporâneas, do tipo que Smith

chamaria de “civilizadas”, a “vitimização” é largamente construída sob as rubricas de raça,

gênero e classe, sendo estreitamente definidas pelo critério do compartilhamento de

experiências. Cada grupo que clama ter vivido e sofrido de uma maneira distinta e

dificilmente compreensível para as pessoas de grupos diferentes, se pretende, ainda assim,

merecedor de compaixão e reconhecimento.  

O autor propõe, nesse comentário digressivo, questionar-se sobre a possibilidade de que o

conceito de simpatia seja inerentemente instável, tendendo naturalmente a um declínio cujo

resultado seria o tipo de sociedade multicultural contemporânea. Neste caso, o conceito de

“simpatia”, que sempre haveríamos acreditado ser o “cimento” da nossa sociabilidade, seria,

ao contrário, o gerador de sua fragmentação. Desta forma, nosso problema não seria a

carência de simpatia na vida pública, mas, ao contrário, a centralidade deste conceito instável

na vida pública.

De acordo com as principais estratégias que Adam Smith utilizaria para responder ao colapso

da simpatia em egoísmo, acima descrito, não seria necessário que estivéssemos unidos por

qualquer experiência (ou tipo de experiência) comum para que houvesse simpatia. Assim,

Griswold insiste na diferença entre imaginar o que é estar no lugar do outro, isto é se colocar

em sua perpectiva – penso na perpectiva pictórica tal como tratada no início da seção 2.2. – ,

e imaginar o que é, de fato, ser o outro. Para o autor, o primeiro caso seria coerente com uma

percepção egoísta, mas o segundo, sem ser contraditório com a ideia de “troca de lugares”,

abriria uma possibilidade de que, como argumentava Smith, não seria necessário que a

simpatia colapsasse em egoísmo. Feita esta explicação sobre o pensamento de Smith,

Griswold arrola as diversas formas nas quais se conformariam a simpatia e o egoísmo na

conduta humana nos exemplos de Smith (ano e pág.), seriam elas:  

(a) Simpatia em casos em que objeto com o qual simpatizamos “não está lá”.

O exemplo mais marcante deste tipo de simpatia é a simpatia com os mortos.

Simpatia, neste caso, significaria imaginar quais seriam as nossas próprias

paixões em estando na situação física de outrem. Neste sentido, esta seria uma

disposição egoísta, no sentido mais abrangente do termo (de solipsismo), já

que se trata do fenômeno que Smith chama de “simpatia ilusória”. Também

poderia ser considerada egoísta no sentido mais restrito do termo, já que Smith

desliza rapidamente da nossa tristeza pela morte de outrem ao nosso temor de

nossa própria morte;

(b) Simpatia com uma situação física de alguém que não pode ser diretamente

compartilhada por nós. O exemplo mais notável deste tipo de simpatia seria

quando o espectador simpatiza com um homem na miséria. Neste caso, o

espectador formaria concepções sobre o que o ator sente ao colocar-se em seu

lugar, sofrendo os mesmos tormentos que sofre. Assim, este tipo de simpatia

seria egoísta no sentido mais abrangente do termo, já que o espectador

imagina a si mesmo no lugar de outrem, mas não seria egoísta no sentido

restrito do termo, já que, de fato, haveria um ator real no lugar imaginado,

com quem o espectador realmente se condoeria.

(c) Simpatia em casos onde o ator não experimenta prazer ou dor física, mas

uma emoção derivada da imaginação. O exemplo neste caso é a simpatia por

um agente que tenha perdido um filho. Neste caso o espectador não considera

o que sentiria se estivesse no lugar do ator, mas o que sentiria se fosse o ator.

Assim ator e espectador trocam de lugar e personalidade. Este tipo de simpatia

não seria egoísta em nenhum dos dois sentidos.

(d) Esta quarta modalidade de simpatia, que bem poderia ser categorizada

como uma não simpatia ou como um caso de impossibilidade da mesma, trata

de uma situação impenetrável ao espectador. Tal seria o caso do amor

romântico entre dois atores, onde nenhum seria espectador e assim não

poderia haver simpatia mútua, já que a simpatia requereria um senso de

distanciamento e impenetrabilidade, por assim dizer. Esse cenário seria

impenetrável também para um espectador externo, já que este não poderia

simpatizar com o sentimento mútuo dos dois atores, o que faria com que este

parecesse ridículo aos seus olhos.

O terceiro caso (c) seria defendido por Smith como um exemplo genuíno de simpatia não

egoísta. Entretanto, o autor indica que mesmo neste caso permanece uma certa ambiguidade,

dado que o espectador jamais poderia realmente sentir o mesmo que o espectador, não sendo

sua identificação jamais total. Segundo Griswold, não haveria qualquer razão para que Smith

negasse essa ambiguidade, já que a simpatia seria para Smith um processo de ajuste, uma

busca contínua por equilíbrio, que bem poderia ser definida como uma ficção, não

necessariamente ilusória, mas que só se tornaria confiável depois de inúmeros testes em

diversos contextos. Este processo, segundo o autor, teria analogias econômicas, no que

concerne à busca por equilíbrio de oferta e demanda, expressa nos preços. Também a esfera

da persuasão política seria vista por Smith como uma busca por simpatia mútua.

Um ponto a ser marcado, que, segundo o autor, aparece no quarto capítulo da parte I de

“TMS”, é que há uma assimetria no processo de ajuste das condutas entre espectador e ator.

Esta assimetria possibilita uma segunda virada no argumento de Griswold sobre a obra de

Smith, passando do plano epistêmico de volta ao plano da moral. Enquanto as paixões do

espectador não passariam senão por pequenas modificações quando este se põe no lugar do

ator, o contrário ocorreria ao ator, uma vez que, ao se ver pelos olhos do espectador, toda sua

visão sobre si mesmo seria modificada. A consequência normativa deste “se ver pelos olhos

de outrem” seria a possibilidade que o ator passa a ter de enxergar a si mesmo de um ponto de

vista imparcial. O ponto de vista do espectador, propriamente informado, constituiria, para

Smith, a imparcialidade. Ao propor um espectador, e não um ator, imparcial, Smith teria

criado uma teoria da aprovação do espectador em relação às emoções.

A superioridade do ponto de vista do espectador em relação ao ator traria consigo uma

superioridade do olhar em relação ao fazer, contendo assim um resíduo do platonismo. Para o

autor, o privilégio que Smith dá ao ponto de vista do espectador, não seria meramente uma

posição teórica, de uma perspectiva estritamente científico-descritiva, mas o resultado de

convicções morais e políticas de que a vida em comunidade seria melhor em se seguindo este

modelo. Assim, o livro “TMS” é, para o autor, uma tentativa de provar que a simpatia é uma

feição natural da vida humana, o que é feito como um esforço para a educação moral.

Griswold destaca, portanto, o fato de que Smith não estaria preocupado com o problema

cartesiano das outras mentes, de explicar como se poderia ter acesso à outra mente, tendo em

vista que as pessoas seriam mônadas isoladas. Ao contrário, a visão de Smith seria a de que

sempre nos vemos pelos olhos dos outros, de forma que seriamos todos espelhos uns para os

outros. Não seríamos assim transparentes para a nossa própria consciência; de fato, sem a

mediação de outrem, não teríamos nem mesmo uma existência moral pronta para ser feita

transparente.

Assim, o esquema de Smith sugeriria, para Griswold, que não poderíamos ser indivíduos sem

a conexão que resulta do reconhecimento de uns pelos outros como espectadores, uma relação

que, paradoxalmente, nos proveria de desapego em relação a sensações imediatas em

benefício da apreensão das causas externas destas sensações. Pela reflexão, impelida pelo

convívio social, acerca de nossos “desejos de primeira ordem”, teriam origem “desejos de

segunda ordem”. Desta forma, as avaliações de sensações e paixões só poderiam surgir em

comunidade, e não importa quão naturalmente possam surgir, essas avaliações de nós mesmos

seriam sempre artefatos sociais. O “estar em sociedade” seria nos imaginarmos vistos pelos

olhos de outrem. O nosso estado natural seria o “estar em sociedade”, e a existência do ponto

de vista do espectador seria a condição de possibilidade da agência.

A compreensão de Smith da sociabilidade não destrói qualquer noção de “vida interior”. As

emoções de cada um, ainda que mediadas pelas suas apreensões quanto às apreciações de

outrem em relação a estas, ainda seriam as emoções de cada um. Assim, o abandono da

perspectiva do espectador, o egoísmo e o narcisismo seriam sempre tentações. As nossas

paixões egoístas sempre poderiam nos fazer eticamente ignorantes, e a nossa sociedade