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1.   APRESENTAÇÃO:  CULTURA,  CIÊNCIA,  ECONOMIA  E  VIDA

1.5.   Brevíssimos  Apontamentos  para  uma  Crítica  da  Razão  Impura

De acordo com a visão consagrada pela filosofia ocidental, a essência do humano pode ser

atribuída uma certa racionalidade, definível pela capacidade de pensar logicamente, e agir em

acordo com tal lógica. Definindo-se lógica estritamente como “estudo dos raciocínios

válidos” – definição que, por si mesma, põe a lógica em uma posição desconfortavelmente

ambígua entre um caráter prescritivo e descritivo. O pensamento racional, e lógico, poderia

ser empregado para deliberar sobre a melhor estratégia para atingir determinados fins em

circunstâncias práticas ou tão simplesmente para contemplar a essência da natureza, incluída a

natureza humana, tornada autoconsciente sob a forma de razão. Quer inscrita nos homens por

via da evolução ou decaída do mundo das ideias, a razão seria a conexão entre os homens,

finitos, e a exterioridade, imanente ou transcendente (CF. LAKOFF, G. e JOHNSON, M.,

1999). Há, é claro, diferentes versões sobre o exercício da razão, mas, de modo geral, ela seria

um exercício consciente operando-se sobre princípios universais, constituindo o polo ideal

que se oporia à empiria e às percepções. Tal perspectiva é notavelmente explicitada na noção

do garfo de Hume, separação entre "relações de ideias” e “matérias de fato”. Baseando-se nas

antinomias necessário e contingente (no que se refere a realidade); a priori e a posteriori (no

que se refere ao conhecimento), e analítico e sintético (no que se refere à linguagem), estando

as relações de ideias (abstratas) associadas aos primeiros termos (necessário, a priori e

analítico), e as verdades atuais (concretas) associadas ao segundo termo (contingente, a

posteriori e sintético). Para Hume, todo o raciocínio que não fosse fruto de “relações de

ideias” ou “matéria de fato”, isto é, todo pensamento de origem metafísica, deveria ser atirado

às chamas

32

.

Desse modo, ainda de maneira geral, e admitindo pequenas variações, o pensamento racional,

tal como concebido por parte considerável da filosofia ocidental, deveria ser literal, lógico,

consciente, desapaixonado e, em certa medida, transcencendente, isto é, incorpóreo. Ainda

que, por vezes, exercendo-se sobre um mundo concreto. Além disso, seria possível separar a

racionalidade teórica de suas aplicações práticas. A racionalidade teórica seria contemplativa,

tratado de crenças justificáveis para explicação de fenômenos. A razão prática, por sua vez,

seria a sua aplicação com vistas à satisfação de determinados objetivos, aplicando-se a razão

teórica desincorporada no âmbito de determinados contextos materiais, em que têm lugar as

necessidades

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.

É possível defender, entretanto, que o chamado pensamento racional se estrutura por um

conjunto de experiências corpóreas (sensório-motoras) e sócio-simbólicas, das quais

raramente nos damos conta. Haveria, pois, em nossa sociedade, uma fetichização do

pensamento racional por via da literalização analogias, símbolos e convenções que permeiam

a fábrica de nossas instituições. Defendo a existência de um domínio analógico

pré-matemático, mas que é semiestruturado, tal como veremos mais à frente. É precisamente

nesse nível, mais profundo, que seria válida uma análise comparativa entre os nosso esquemas

de ação e aqueles propiciados por e outras formações sociais. Assim, em primeiro lugar, é

                                                                                                               

32“When we run over libraries, persuaded of these principles, what havoc must we make? If we take in our hand any volume; of divinity or school metaphysics, for instance; let us ask, Does it contain any abstract reasoning concerning quantity or number? No. Does it contain any experimental reasoning concerning matter of fact and existence? No. Commit it then to the flames: for it can contain nothing but sophistry and illusion” (Hume, 1777, p. 165)

preciso mostrar com clareza a natureza desse campo de experiências corpóreas e simbólicas,

por um lado, necessário a constituição da razão e, por outro, para a sua aplicação, uma vez

que um conjunto de mediações simbólicas e analógicas deve ser sempre feito entre a razão e

quaisquer conjuntos de práticas. Em segundo lugar, é necessário evidenciar como as

experiências corpóreas (em boa parte determinadas pelo desenvolvimento de tecnologias e

arranjos produtivos), e as experiências simbólicas (determinadas certamente pelas tecnologia

comunicativas, por arranjos institucionais, e pelo próprio desenvolvimento das linguagens),

resultam de relações entre processos culturais e técnicos, cada qual com condicionantes

estruturais internos, com historicidades semi-independentes, entre os quais não parece haver

determinações unidirecionais. Tais processos teriam como fulcro o desenvolvimento

individual, em meio a um processo de socialização específico. Nesse sentido, seria possível

negar tanto o materialismo dos marxistas, quanto o individualismo marginalista.

É com base nas concepção de mapeamentos inter-domínios e combinações de sistemas

inferenciais, oriunda da ciência cognitiva, somada a ideia de coopetição (que tem suporte na

teoria dos jogos), que é possível analisar as relações de dupla determinação entre sistemas

semióticos e produtivos. Todavia, esses processos devem estar ancorados sobre o próprio

desenvolvimento psico-cognitivo do indivíduo em sociedade. Nesse sentido, essa tese se

alinhamos à critica de Alfred Gell relativa à “investigação de contextos filosóficos em

antropologia”, que consistiria na substituição do espírito humano pela sociedade como locus e

origem do pensamento. Para Gell, a origem desse erro, a qual estaria referido todo

empreendimento antropológico, estaria ainda no capítulo introdutório de “As Formas

Elementares de Vida Religiosa” (1915) de E. Durkheim, no qual buscava retrabalhar o

racionalismo de Kant e, mais especificamente, as categorias do entendimento (tempo, espaço,

classe, causa e etc.), a partir de análises sociológicas. Assim, o objetivo aqui não é supor a

existência de múltiplas ontologias com base em quantos grupos sociais vierem a ser

estudados, mas tão somente buscar expandir o atual modelo de racionalidade de modo a

torná-lo mais inclusivo, por via da conexão entre o processo de socialização, sistema

produtivo, e arcabouço cognitivo para a tomada de decisão.

O pressuposto fundamental é o de que a maior parte do pensamento humano não satisfaz os

critérios de racionalidade previamente descritos. Ao contrário, o pensamento humano se daria

por meio metáforas sensíveis e analogias entre diferentes ordens de experiências, estruturadas

por discursos específicos. Mesmo o mais racional dos sistemas não se torna aplicável sem tais

mediações. Além de metáforas propriamente ditas, usa-se de metonímias, atalhos cognitivos,

analogias, inferências baseadas em prototipagem etc. (CF. LAKOFF, G. e JOHNSON, M.

1999). Há todo um pensamento ao largo e por sob as regras, que a lógica formal simplesmente

ignora. Nosso pensamento extrapola a lógica formal e as nossas escolhas se dão, em grande

parte, de forma inconsciente.

O pensamento analógico, que constitui enormes proporções do pensamento abstrato, é

moldado por nossas interações com o mundo. As formas básicas de inferência surgem

parcialmente da lógica especial de imagens esquemáticas e do próprio sistema de controle

motor (gestos), que surgem em acordo com peculiaridades dos sistemas psicomotores e

sensoriais, de acordo com uma morfologia corpórea e estruturas cerebrais que evoluíram

adaptando contingencialmente antigas estruturas para novas funções em acordo com a

necessidade de adaptação a novos contextos e de acordo com o processo de exadaptação – um

traço, anatômico ou comportamental, com determinada função pode ser reapropriado para

uma nova função

34

.

Além disso, as emoções e a empatia são fundamentais para aplicação de julgamentos

racionais às circunstancias reais de ordem moral e social. Ao que tudo indica, as pessoas que

perdem a capacidade de se engajar emocionalmente, ou de empatia, não conseguem raciocinar

de modo considerado apropriado a respeito de questões de fundo mora

35

. De modo geral,

pode-se dizer que as definições canônicas da razão humana, tendem a menosprezar a

importância de seu caráter corpóreo, imaginativo, empático e sócio-institucional. Como

veremos, o abandono dessas dimensões tem profundas razões históricas.

A visão clássica de racionalidade proveu subsídios para a teoria da ação racional. Pode-se

criar uma sistematização matemática da escolha racional como literal, lógica, incorpórea,

desapaixonada e conscientemente calculável. Uma versão da teoria dos jogos é usualmente

utilizada para tratar da escolha racional. Lakoff mostram que a própria teoria dos jogos é

dependente de metáforas (CF. LAKOFF, 2009, pp.209-222.). Como veremos, a teoria do ator

racional é uma tentativa de matematizar, por via de mediações e heurísticas, de modo bastante

distinto dos modelos usuais utilizados na maior parte das decisões espontâneas. A teoria da

                                                                                                               

34 Cf. Gould, Stephen Jay; Vrba, Elizabeth S. (1982). "Exaptation — a missing term in the science of form": Um caso clássico, se refere as penas dos pássaros, inicialmente funcionais na regulação da temperatura, acabam sendo readaptadas de modo a possibilitar o vôo.

35 A esse respeito ver o artigo “Impairment of social and moral behavior related to early damage in human prefrontal córtex” (ANDERSON, S., BECHARA, A., DAMASIO, H., TRANEL, D., e DAMASIO, A. 1999).

ação racional é incapaz de definir os contextos nos quais ela própria seria aplicável e, por isso,

depende de um conjunto de mediações subjetivas para representar uma situação real, a

começar pela estilização da situação modelada. A relação entre o modelo e a situação real é

necessariamente da ordem da analogia, de modo que a realidade precisa ser estilizada e o

modelo, necessariamente incompleto, adequado às contingências do caso específico. Uma vez

que a analogia esteja estabelecida, esquecemos desse processos de mediação – penso

novamente nos processos de tradução e purificação, tal como propostos por Bruno Latour (

CF.

LATOUR, 1994 pp. 75-78)

. Todavia, na maior parte das situações de decisão em nossas vidas nos

utilizamos apenas de analogias com modelos, mas também de analogias com outras situações,

reais ou imaginadas, fixadas em nossa memória em decorrência de seu papel em uma

estrutura narrativa e de seu impacto emocional. A força da analogia do modelo, nas

civilização ocidental, advêm do fato de que criamos instituições por meio das quais se

completa o trabalho de reificação dessa analogia analogia – por exemplo, as instituições que

operam no mercado financeiro reificam a analogia que media a relação entre teoria da escolha

racional e as decisões efetivas. Ainda, com respeito à cultura daqueles que aplicam o modelo,

a firma Sahalins:

“Por sua vez, o sistema mundial, como cultura, é igualmente arbitrário. Mas a

sua familiaridade nos permite alimentar a fantasia de uma ordem transparente

e desencarnada, construída unicamente por nossa racionalidade, por nossa

propensão humana para ‘escolha racional’.” (SAHLINS, 2004:516).

A tentativa de uma reflexão epistemológica a respeito do pensamento racional coloca

questões que o pensamento racional não pode colocar para si mesmo, como a pergunta pelas

origens de seus conceitos fundamentais e da cultura sobre a qual se lastreia. No que se refere

aos limites do pensamento racional, tal é o resumo das considerações que tentaremos

desdobrar no prosseguimento do texto:

1. A corporeidade dos processos mentais. Os detalhes dos nossos corpos, nossos cérebros, e

nosso funcionamento no mundo lastreiam nossos conceitos, até mesmo a razão matemática.

2. O inconsciente cognitivo. A maior parte dos processos mentais são inacessíveis à

introspecção consciente. Não costumamos olhar para além do efeito de superfície

representado pelos nossos sistemas conceituais para descobrir os processos que lhes são

subjacentes.

3. O pensamento opera por meio de signos. Na maior parte do tempo, os seres humanos

conceitualizam ideias abstratas em termos concretos ou segundo certas convenções, usando

processos mentais fundamentados em processos sensório-motores, e por sistemas intrincados

de analogias entre diferentes domínios da experiência. Esse modo de pensamento, visível no

pensamento mítico, tanto quanto nas analogia geradas em no âmbito da publicidade, constitui

uma camada profunda do pensamento, que lastreia o próprio pensamento racional.

4. Sincronização de sistemas nervosos e coordenação. As formas pelas quais as diferentes

sociedade produzem ou sancionam alinhamentos, sincronizações e complementariedade entre

os estados mentais de seus membros, seja por meio da musica e da dança, de movimentos

ritualizados, da tortura ritual, da normatização dos usos do espaço etc. são balizadores

fundamentais das ações e das tomadas de decisão.

5. Identidade Extensível e Desclocável. Temos uma noção de identidade extensível e

deslocável. Nossa identidade se desloca no tempo, integrando um processo de contínuo de

transformação. É individual, mas pode estender-se aos membros de uma mesma família, time

de futebol, nação etc. Além disso, essa identidade se projeta imaginariamente sobre outros,

sob a forma de empatia. Sendo assim, a razão se exerce a partir de distintos pontos de

referencia, organizados em acordo com diferentes estruturas narrativas.

Assim, seria normal que ocorresse ao leitor perguntar: qual seria a origem da visão

ocidental sobre a racionalidade, por via de sua separação de seus mecanismos

subjacentes? Haveria alguma forma de codificar tais mecanismos subjacentes para além

do formalismo convencional? Busco especificamente responder a tais questões nas duas

seções que se seguem.