4. AS SINGULARIDADES DO JORNALISMO NO INTERIOR
4.4 A singularidade da proximidade no jornalismo do interior
A singularidade da mediatização no interior está diretamente relacionada com um dos critérios de noticiabilidade mais importantes: a proximidade. Ela - que é um aspecto universal do jornalismo, impondo-se como a primeira referência de seleção do que pode ou não interessar o público - é no interior uma proximidade singular. É singular porque se difere do que os jornais da capital denominam por proximidade, mas não deixa de, por ser particular, ser proximidade. Assim, no interior ela é muito mais estreita que nos grandes centros urbanos. Falar de proximidade em uma cidade de 50 mil habitantes é diferente de falar em uma proximidade em uma cidade com mais de 500 mil habitantes. No interior, a
relação entre os fatos, as pessoas, os veículos de comunicação e os jornalistas é quase imediata, alterando drasticamente o processo de produção das notícias. Sendo o interior
um espaço vivido em que há elos de proximidade e familiaridade, os quais ocorrem por relacionamentos ( econômicos, políticos, vizinhança etc ) e laços de identidade os mais diversos, desde uma história em comum, até a partilha dos costumes, condições de existência, conteúdos simbólicos, e não simplesmente em decorrência de demarcações geográficas (PERUZZO, 2003, p.69).
Assim, ao escrever, o jornalista, ao contrário do profissional da capital, conhece “algo a mais” sobre as pessoas que descreve. E, esse “algo a mais” refere-se à personalidade dos moradores da cidade, seus casos de família, os aspectos polêmicos e banais que constituem a história particular de cada um, sua rotina na cidade, as roupas que costuma usar etc. Ou seja, tem uma informação em que a compreensão do que os contatos superficiais ditados pelo tempo acelerado do amplo espaço dos grandes centros urbanos inviabilizam: conhecer a complexidade que envolve esse ser humano, fonte de suas matérias.
A maioria dos jornalistas entrevistados aponta a proximidade como sendo ao mesmo tempo a maior vantagem _ pelo conhecimento prévio das fontes e fatos _ e a maior desvantagem _ por causa das cobranças e pressões imediatas por parte do público e fontes _ de se fazer jornalismo no interior. O mais interessante desse resultado é que a pergunta, em momento algum, tocava no tema proximidade, se restringia a indagar qual era a maior vantagem e a maior desvantagem de se fazer jornalismo no interior. Selecionamos a seguir algumas respostas significativas da questão:
A vantagem é que no interior somos mais próximos e mais imediatos, já que o jornalista é conhecido e tem proximidade com os personagens de suas matérias, podendo acessá-las rapidamente. Nas desvantagens também esse aspecto é significativo porque o leitor cobra diretamente (jornalista Kilder Pinheiro).
O jornalista do interior convive com suas personagens e é cobrado diretamente por elas. A forma de escrever sobre as pessoas conhecidas vai depender da coragem, profissionalismo e da ética do dono do jornal (jornalista Walon Delano).
Um dos jornalistas entrevistados, João Bosco Ribeiro, percebe no grau estreito de proximidade entre os jornalistas, o fato, as fontes e o público a maior riqueza do processo de produção da notícia no interior. Para ele o jornalismo local é um campo de possibilidades e experimentações caso se perceba a proximidade estreita como uma particularidade do interior, como o elemento fundador da prática profissional nesse contexto:
O interior de Minas é um enorme e riquíssimo laboratório para a ciência da comunicação. [...] Termino uma edição do jornal e logo que saio à rua as pessoas me abordam para criticar, comentar, esclarecer ou abominar algum fato ou análise (jornalista João Bosco Ribeiro).
No interior o feedback ou retorno do público é tão constante e rápido que chega a ocorrer quase que simultaneamente a circulação da notícia. Isso, que é considerado no meio profissional como uma relação saudável para a prática profissional - o retorno do público -, não é tão intenso e freqüente nos grandes centros urbanos, como no interior. A própria facilidade espacial das pessoas se deslocarem até a sede do veículo de comunicação facilita esse retorno, rompendo o hiato que o impede. A interação é, assim, facilitada pelo acesso imediato e desburocratizado do público ao veículo e aos jornalistas. Um radialista para
exemplificar tal velocidade do retorno de uma fonte citada, lembra de um fato que lhe aconteceu.
Se você faz um comentário sobre determinado assunto ou pessoa a velocidade que a notícia chega até a empresa ou pessoa citada é impressionante. Eles nem esperam você sair direito da rádio e já te esperam no elevador para tirar satisfações, o que não é visto com essa intensidade na capital (jornalista José Maria Campos).
Uma relação aproximada entre o público e os meios de comunicação cria uma forte familiaridade entre eles. Assim, mais do que cumprir uma função informativa, o veículo cumpre no interior uma função afetiva. Uma identificação e familiaridade em que o público sente parte do jornal, como considera a professora Beatriz Dornelles:
Os leitores do interior se consideram "donos" do jornal da cidade e não admitem burocracia para serem atendidos pela imprensa. Quando chegam na redação do jornal, querem ser atendidos pelo dono. Nada de secretárias anunciando quem deseja falar (DORNELLES, 2004, p.133).
Essa relação é confirmada pelo jornalista da Rádio Líder, da cidade de Oliveira, Kilder Pinheiro: "No interior o ouvinte ou o leitor se sente muito familiarizado com o veículo de comunicação. Fica íntimo e acaba participando com intensidade, liga, dá idéias, conselhos" (jornalista Reginaldo Rodrigues).
Uma cobrança e uma repercussão por parte do público e também das fontes que acabam por desafiar uma das condutas mais caras à deontologia profissional: a imparcialidade. Pois, uma coisa é escrever sobre uma pessoa com a qual você não irá encontrar mais, outra, é conviver com ela todos os dias na cidade. O distanciamento das fontes é um facilitador nos grandes centros para a produção de notícias mais descoladas de
expectativas e cobranças, o que não se dá da mesma forma no interior. Nas cidades de pequeno e médio porte. esse fator torna a imparcialidade e o distanciamento dos fatos mais difícil pela própria proximidade imposta pelo espaço. Por isso, é quase uma unanimidade entre os jornalistas entrevistados que é mais difícil manter a imparcialidade no interior:
Em um grande jornal o maior distanciamento entre o jornalista e seu público dá a ele maior autonomia de vôo, sem ferir interesses de seus patrocinadores e fontes. No interior isso é mais difícil, porque o jornalista está muito mais próximo do seu público, convivendo com ele como se fosse sua própria família. Isso cria melindres, razões e argumentos diferenciados, que precisam ser tratados de outra maneira (jornalista João Bosco Ribeiro).
Na capital é mais fácil de ser imparcial. Pois, na cidade pequena todo mundo se conhece, sabe da vida do outro, isso acaba criando um vínculo, um laço de amizade. Já na capital, por causa da correria, as pessoas não se encontram. (radialista Kilder Pinheiro).
Essa relação de proximidade que chega a ser tensa em alguns casos não se restringe apenas ao público e as fontes, mas ao poder econômico e político. E esse é um aspecto polêmico da prática do jornalismo no interior muitas vezes estereotipado e reduzido como “uma imprensa mais opinativa do que informativa, que discute todos os problemas, intromete-se nos bastidores da política, provoca os adversários, denuncia, reclama e, principalmente, fofoca” (BUENO, 1998, p.123). Fala que é parte da tese de mestrado de Wilson da Costa Bueno que tem como tema: “Caracterização de um objeto-modelo conceitual para a análise da dicotomia imprensa industrial/imprensa artesanal no Brasil”, defendida em 1977.
Mais do que apenas intervir, os jornais do interior são, em alguns casos, dependentes dos anúncios das prefeituras e sofrem constantes pressões econômicas. No entanto, seria um erro dizer que há, por isso, uma subserviência completa dos veículos ou
que se trata de uma característica peculiar aos jornais do interior. Pois, o mesmo acontece nos grandes veículos de comunicação que sofrem, ao invés de pressões municipais; pressões dos governos estaduais e federais. Assim, apesar de considerarmos que essa é um fato marcante e presente no jornalismo do interior, não queremos, no entanto, reduzir seu entendimento a ele.
Para exemplificar essa relação conflituosa, uma jornalista relembra dois fatos que exemplificam a tensão de forças entre os veículos locais e as fontes poderosas:
As pressões políticas e econômicas são mais intensas no interior por vários motivos: primeiro, porque as relações entre as pessoas e organizações no interior são mais estreitas, todo mundo se conhece e ainda há muita prestação de favor por troca de interesses; segundo porque as empresas de comunicação ficam vulneráveis. Alguns anos atrás a Rede Integração (filiada Rede Globo) divulgou dados que diziam haver um surto de febre amarela na região. Os empresários se uniram contra a TV e fizeram várias manifestações, divulgando inclusive um comunicado para que os divinopolitanos não assistissem mais a Rede Globo. Um outro caso foi do jornal Magazine, em 2002, que divulgou dados negativos sobre a campanha de um político, candidato a deputado. Esse político entrou com recurso contra o jornal e conseguiu fechá-lo. No caso da Rede Integração a imagem foi afetada, porém conseguiram superar a crise, já outro jornal, como era pequeno, acabou fechando. Hoje, este jornal já está circulando novamente, mas ficou muito tempo fechado (ex-produtora da filiada da Rede Globo).
O primeiro caso lembrado pela jornalista, que envolve a afiliada da Rede Globo e os empresários da cidade é revelador de uma relação muito particular entre as fontes e o meio de comunicação no interior. Isso porque a emissora (Rede Globo), que é considerada a mais forte do país, capaz de influenciar o público nas questões políticas e comportamentais, se vê obrigada a recuar diante da pressão de fontes poderosas economicamente. Assim, nas cidades de pequeno e médio porte, o poder das fontes na manutenção econômica do veículo
é crucial, podendo, como aconteceu no segundo exemplo, encerrar as atividades do veículo de comunicação na cidade. No segundo caso, a tensão criada entre um político e um jornal impresso local foi o que motivou o fechamento temporário do jornal. Com esses exemplos, podemos perceber que essa proximidade das fontes poderosas com os veículos de comunicação (por mais força que tenham) é relevante no interior, deixando a mídia em um campo de tensão muito agudo.
Segundo um jornalista entrevistado, existem dois tipos de conduta do jornalista do interior em relação ao poder: ou ele se posiciona como defensor dos moradores da cidade ou está a serviço de algum político local. Segundo o entrevistado, as duas posições pecam por não conseguirem equacionar bem o jogo de forças envolvidas. A confusão, segundo ele, se estende também aos políticos que ora rejeitam os jornalistas locais ora fazem uso deles:
A relação existente muitas vezes entre a política jornalismo de interior é a confusão entre a função de cada uma e identificação de seus próprios limites. Há muitos jornalistas dotados de um instinto heróico e desbravador que passam por cima da autoridade, que estão ativos na tentativa de solução de determinado problema, o que pode levá-los à conclusão impiedosa de que não estão ali para atuar como investigador policial ou detetive particular, mas como narrador de histórias. Há ainda jornalistas que por estarem na cidade interiorana se aproveitam da situação, para realizar o caminho oposto, ou seja, o de caminhar juntamente com poder público, realizando assim uma assessoria disfarçada. Quanto aos políticos, a realidade não muito se difere desta confusão. Muitas vezes arredios à imprensa, se esquecem do seu objetivo primordial de informar, o que compreende dizer do que está incorreto ou de acordo com os princípios morais e legais básicos da sociedade (editor de um jornal impresso de Divinópolis).
Segundo outro jornalista, Sérgio Cunha, a melhor saída para a relação entre o jornalismo no interior e a política local seria a de que cada veículo assumisse publicamente suas preferências políticas para que o público pudesse se posicionar melhor diante dos partidarismos da mídia da cidade:
na grande maioria da imprensa interiorana ainda resiste à prática de representação partidária. Um jornal para cada grupo político. Porém, isso é também o reflexo da mídia nacional, e até mundial, que representa grupos, muitas vezes não partidários, mas ideologicamente afinados. Acredito que a melhor saída para este caso é que o órgão de comunicação assuma sua predileção política e ideológica, aí sim, poderemos fazer uma análise melhor do conteúdo deste veículo. O jornal onde trabalho, por exemplo, sinto, cresceu muito quando seu proprietário assumiu sua posição política ante a sociedade. Hoje, ele é um dos mais lidos da cidade e as pessoas sabem o que estão lendo (jornalista Sérgio Cunha).
No entanto, não podemos reduzir o jornalismo do interior ao seu partidarismo político e nem é esse o interesse central dessa pesquisa. Teremos o cuidado apenas de relativizar essa idéia porque percebemos que, assim como os políticos têm força no jornal local, a população também o tem – e esse nos parece um aspecto rico e pouco percebido e valorizado no entendimento do jornalismo no interior. Ou seja, a sociedade consegue através de pressões também ter visibilidade nos jornais, impondo sua presença - o que não acontece com a mesma intensidade na capital. Dos jornais analisados, contabilizamos 14 matérias em 20 edições sobre a mobilização da sociedade civil contra apenas uma ocorrência no jornal da capital – e essa ainda conta com um agravante, tratava-se de uma manifestação que aconteceu no interior do Estado. Mesmo as reivindicações mais simples ganham valor-notícia no interior, o que funciona como uma compensação ao possível comprometimento político e econômico dos jornais do interior com as fontes oficiais.
Na edição de 30 de março do jornal Agora, de Divinópolis, das quatro matérias destacadas na capa do jornal, 3 delas tratam de mobilizações sociais. Temos as seguintes manchetes e leads:
Manchete 1: Porto Velho pede segurança
Crescimento da violência no bairro assusta moradores
Lead: Os moradores do bairro Porto Velho se reuniram ontem com representantes das polícias militar, civil e políticos para pedir segurança. A comunidade está assustada com o crescente número de crimes cometidos no local. Só este ano 17 veículos foram arrombados e há quinze dias uma jovem foi assassinada a pedradas perto de uma danceteria. para o capitão Célio Evaristo de Souza, é importante a movimentação da comunidade no combate ao crime
Manchete 2: Rio Itapecerica será tema de discussão entre prefeito e ambientalistas
Lead: Entre os temas que serão abordados na reunião com o prefeito Demetrius Pereira e o grupo gestor do projeto Nova Margem, está a colocação de caçambas coletoras de entulhos às margens do rio. Manchete 3: Comunidade Nova Fortaleza I denuncia falta de infra-estrutura
Lead: O Nova Fortaleza existe há quase vinte anos e tem cerca de 150 moradores. Na maioria das casas não existe rede de esgoto, além disso, no bairro falta calçamento, escolas e uma igreja. A comunidade cobra uma solução para as deficiências e o conselho de moradores quer que a administração com para as promessas de campanha ( jornal AGORA, 30 mar., 2005).
Assim como consideramos a presença das forças do poder instituído através das fontes oficiais nos jornais locais, também percebemos que a sociedade civil – especialmente a do interior - também disputa espaço e visibilidade. Não podemos, como alguns autores consideram, definir o jornalismo no interior como um jornalismo comprometido politicamente já que percebemos que forças opostas, vindas da sociedade civil, também têm força e visibilidade no jornal local. O que julgamos ser muito positivo para a prática jornalística que se torna, mais do que nunca, palco das disputas e das dinâmicas sociais. Esse questionamento é levantado pelo estudioso João Carlos Correia em seu artigo: “A região e o espaço público: uma contribuição crítica” (idem, 2003):
Será que a imprensa regional tem virtualidade para se constituir como um dos pilares possíveis para a criação de um espaço público, na
medida em que a proximidade entre a decisão política, o espaço mediático e a vida cotidiana anula os efeitos indesejáveis da massificação? (CORREIA, 2003, p. 1)
Não queremos, no entanto, ao considerarmos tal alternativa, fazer uma interpretação romântica do jornalismo no interior como sendo uma alternativa à comunicação de massa ou como lugar privilegiado para o ressurgimento do espaço público clássico. Pois, como relata o jornalista Walon Delano, não podemos esquecer que mesmo os jornais do interior são empresas privadas com interesses comerciais que enfrentam fortes constrangimentos políticos e econômicos:
O leitor do interior acredita que os órgãos de comunicação são completos serviços da comunidade. Nunca imaginam que são empresas privadas e que geram custos. Revoltam-se com certas matérias publicitárias ao mesmo tempo em que questionam sobre determinadas reportagens que acreditam serem vendidas (jornalista Walon Delano).
Mas, não podemos deixar também de ressaltar que, por muitas vezes, o jornalismo no interior cumpre, com mais eficiência, o papel de civismo e cidadania do que se comparado aos grandes centros urbanos:
A imprensa do interior é, por excelência, um meio facilitador do exercício de cidadania. Por estar muito próxima do cidadão e tratar com freqüência dos assuntos que diretamente lhe dizem respeito, permite ao cidadão participar no desenvolvimento local, reclamar direitos do poder político e administrativo, fiscalizando, deste modo, o funcionamento da coisa pública (LOPES, 1998, p.131).
Essa é a postura que o editor chefe da TV Alterosa de Divinópolis, Leandro Alencar Monteiro, diz ter com seu público: “A população tem vez e voz na TV. Primeiro relatamos
a queixa da população, depois vamos nas instituições responsáveis para ouvir a resposta. Tentamos intermediar o problema com a solução”.
O importante, quando tratamos do jornalismo no interior, é contemplar as condições e desafios reais de suas práticas sem perdermos, no entanto, sua dimensão cidadã. Não cabendo nem estereotipar o “jornalzinho do interior” - já que ele consegue, em muitos momentos, ser mais forte que grandes jornais -, nem muito menos colocá-lo como alternativa a retomada utópica de um espaço público clássico. Ou seja, “um campo jornalístico regional que mantenha suas especificidades e que simultaneamente, suporte a presença dos caciquismos, o constrangimento resultante da onipresença dos poderes locais” (CORREIA, 2003, p.4).