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CAPÍTULO I CAMINHO METODOLÓGICO

4.1 A Singularidade das Trajetórias (Categorias)

Nessa primeira etapa foram definidas as categorias que se vincularam aos aspectos que constituíram as trajetórias como parteiras, permitindo reunir muitas informações, correlacionando-as a partir dos acontecimentos possíveis de serem compreendidos e organizados, para melhor entender sua genealogia e desvelar a singularidade dos acontecimentos que as engendraram. Assim, o processo de análise percorrido teve início ao explorar as narrativas e suas nuanças.

Foi possível apreender as categorias, construídas, chamadas de tipologias72 por Alberti,73 que se referem à emergência como parteiras, presentes

em seus discursos, que foram:

– Conhecimentos transmitidos por parteiras da família – transmissão oral e experiências que foram adquiridas de mulheres mais velhas, por quem mantinham vínculos afetivos e emocionais;

– Necessidade das mulheres da comunidade em relação ao atendimento, cuidados e apoio disponibilizados durante o parto e nascimento –, como fator desencadeador do interesse por aprender os cuidados usados no partejar;

– As próprias experiências de parir – embasaram o processo da observação do ritual que transmitiram as ações que compõem os cuidados realizados nas etapas do processo de parir e partejar;

– Admiração por parteiras experientes da comunidade – aspecto que despertou o interesse pela atuação e ofício de partejar, vindo a contribuir com a sua presença e empenho pelo espaço considerado como o “mundo das mulheres”;

– As subjetividades e crenças – aspectos que as despertaram, por considerar como dom recebido de Deus, que ao serem introduzidas no atendimento lhes dão sustentação durante o ofício do partejar.

As categorias poderiam ser resumidamente descritas como sendo:

72

“Estabelecer tipologias” é uma forma de organizar o material para análise, como enuncia a autora.

73 ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes

– transmissão de conhecimentos sobre o processo/oficio do partejar;

– experiências acumuladas e ao mesmo tempo novas aprendizagem dos cuidados;

– subjetividades e crenças, o que o senso comum assegura; Na leitura exaustiva das narrativas, sobre como conseguem manter suas atividades de Parteiras Tradicionais, na perspectiva da permanência, trouxeram:

– Mulheres e famílias – sujeitos que lhes confiam os cuidados com a parturição e o nascimento na região do Entorno do DF.

– Negação feita pelo Estado – o qual olvida a participação dessas parteiras e de suas contribuições no atendimento às mulheres.

– Mudanças na estruturação da cultura – alteração nas relações familiares, parentais e da sociedade, adotando a abordagem institucional de atenção ao parto e nascimento, focada na medicalização e hospitalização.

O passo seguinte à obtenção dessas categorias foi buscar a apreensão de sentidos dados às práticas de partejar relacionados aos aspectos pessoais, sociais, culturais, históricos, que constituem o campo discursivo, que ancoram suas trajetórias de parteiras tradicionais. Observou-se que nesse momento emergiu a percepção de suas representações, ao fazerem referências a duas categorias de mulheres que marcaram suas narrativas, as parteiras transmissoras e parteiras aprendizes, dando ênfase às suas características relacionais e sociodemográficas.

A reorganização das categorias permitiu refletir sobre a diversidade de oportunidades para compreender que a interpretação e análise qualitativa possibilitaram adequações para que se tivesse uma melhor apreensão dos significados que emergiram das falas das mulheres parteiras e seus discursos.

Nesse percurso, intensifiquei o exercício de apreender significados presentes nas fontes e narrativas construídas, quando encontrei categorias importantes para as parteiras, caracterizando-as pelas subjetividades, por conformarem e articularem os significados dados ao corpo feminino, que é uma

outra expressão de seus discursos. Para tanto, solicitei que falassem de como percebem o corpo feminino e seus próprios corpos em particular.

As leituras e releituras das narrativas possibilitaram uma aproximação acurada com os conteúdos latentes nos discursos, “desvelando mensagens implícitas, dimensões contraditórias e temas sistematicamente silenciados”, como orientam Marly André e Menga Ludke.74

Na busca de significados, encontrei informações importantes sobre as práticas de cuidados, usadas pelas parteiras durante o atendimento ao parir e nascer, que emergiram das narrativas sobre suas trajetórias.

Nesse ínterim, percebi os significados dados pelas parteiras à reciprocidade no ritual do partejar, presentes de forma marcante nas suas narrativas. Desvelam os rituais e práticas de cuidados que ancoram a possibilidade de compor o paradigma das parteiras tradicionais como categoria central que abarca conteúdos tais como: uso de ervas medicinais; orações e evocações; posições e suportes que promovem conforto e alívio para os corpos; e, o uso de simpatias.

Neste momento da análise e compreensão dos discursos, como uma última etapa deste processo, tornou-se possível dirigir o olhar para os lugares e contextos desses acontecimentos, o Cerrado goiano, que emergem de sua singularidade.

5 ASPECTOS ÉTICOS DA PESQUISA

Esse estudo foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa - CEP/IDH–UnB, sendo aprovado e eticamente correto, conforme deliberação em reunião ordinária do dia 25 de agosto de 2008 (Anexo 3).

Contemplando os critérios éticos referentes aos procedimentos das ações de pesquisa, cabe esclarecer que a coleta de dados se deu em momentos distintos, fato que vem a exigir o envio de relatório anual para CEP/IDH–UnB.

74 LUDKE, M. e ANDRÉ, M. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,

No primeiro contato, objetiveie iniciar a vinculação da pesquisadora com as parteiras para promover a interação e aceitação, viabilizando a coleta dos depoimentos. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido/TCLE (Anexo 4) foi entregue às parteiras, com base nos critérios de inclusão definidos.

Nessa ocasião, foram fornecidas as informações pertinentes sobre a pesquisa e a garantia de sigilo sobre as informações coletadas. Após o que, no segundo contato, foi recolhido o TCLE, devidamente assinado, e realizada a entrevista, com consentimento das entrevistadas para uso do áudio.

As entrevistas gravadas foram transcritas para a análise. Esse procedimento está em consonância com as diretrizes da Resolução N. º 196/96 do CNS para pesquisa envolvendo seres humanos.

Cumprida essa fase, as entrevistadas foram solicitadas a complementar as informações. Nesse último encontro, foi finalizada formalmente a relação estabelecida para o processo de pesquisa, com a manifestação de agradecimentos quanto à colaboração de cada um dos sujeitos.

Tão logo esse estudo seja concluído, todas as participantes e contribuintes dessa pesquisa serão convidadas a tomarem parte na apresentação de seu resultado em eventos na UnB, ou em qualquer outro espaço, quando o texto completo será disponibilizado para livre acesso. Serão informadas de que o relatório final deste estudo estará à disposição.

Quando vêm ao mundo, o homem é frágil e sem força. E, uma vez morto, fica duro e rígido. As roseiras e as grandes árvores, quando ainda são pequenas, vergam e são frágeis. Quando morrem, ficam secas e quebradiças. É que a força e a rigidez são companheiras da morte. E a docilidade e flexibilidade são amigas da vida. A força, definitivamente, nunca conquistou nada.

Lao Tsé75

75 Frederich Leboyer (1975) no seu livro Nascer Sorrindo, "dedica" esse Poema de Lao Tsé às

pessoas "duras", que entendem que a agressividade e o sofrimento devem fazer parte do nascimento.