CAPÍTULO 02 Organização, estrutura e metamorfoses do PAA
2.2 A singularidade da modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS)
A modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS) é operada com recursos do Ministério do Desenvolvimento Social. Sua unidade gestora é a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e o controle social deve ser realizado pelo Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (COMSEA) (BRASIL, 2012b). Sua singularidade, em relação às demais modalidades do Programa, reside no fato de que esta é a única que confere às organizações da sociedade civil a possibilidade de implementar os projetos.
A modalidade prioriza a compra de culturas típicas de cada região e produtos in
natura, processados, orgânicos ou agroecológicos de agricultores familiares (entendidos como
beneficiários fornecedores) e, posteriormente, doa essa produção para equipamentos públicos
40 Segundo o Decreto Nº 6.447, de 07 de maio de 2008, a única modalidade não cumulativa é a de Apoio à
Formação de Estoque com quitação financeira (limite de R$ 8.000,00). Esse decreto também define que não é possível acessar o PAA e o PNAE ao mesmo tempo, por isso os agricultores devem escolher um dos programas ou acessá-los em intervalos de tempo diferentes (CONAB, 2010).
e entidades socioassistenciais que, por sua vez, atendem pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional (entendidos como beneficiários consumidores) (BRASIL, 2012b).
Os principais produtos comprados pelo programa são: arroz, feijão, milho, legumes, verduras, frutas, carnes, e também houve a aquisição de produtos industrializados como farinhas, biscoitos, doces e polpas de frutas (CONAB, 2016). A compra desses produtos por meio da CDS torna essa modalidade estratégica, pois a maioria desses alimentos costuma demorar pouco tempo para ser produzida.
Esse processo de compra é vantajoso para ambos os grupos de beneficiários, pois permite que o agricultor plante, colha, venda e receba de modo ágil, ao mesmo tempo em que garante a rápida e contínua oferta de alimento para as famílias atendidas pelo programa. Isso faz com que a CDS seja a modalidade que melhor se adapta à realidade dos agricultores familiares mais vulneráveis socioeconomicamente e pouco especializados, pois garante a compra de praticamente tudo o que eles podem produzir (J. A. OLIVEIRA, 2016).
Os agricultores podem acessar essa modalidade de duas formas: (i) via Termo de Adesão, por meio do qual a CONAB estabelece parcerias com estados e municípios, sendo que os agricultores habilitados participam individualmente, ou (ii) via Termo de Cooperação com a CONAB, válida apenas para agricultores organizados coletivamente em associações ou cooperativas. Na primeira forma de acesso, os estados e prefeituras são responsáveis por gerir os projetos; na segunda, isso cabe às cooperativas e associações de agricultores.
Quando acessada individualmente, cada unidade familiar pode vender anualmente até R$ 6.500,00 mas, se acessada coletivamente, o limite sobe para R$ 8.000,00, sendo que cada organização pode fazer projetos de até R$ 2.000.000,00. Há, ainda, um acréscimo de 30% na compra de produtos orgânicos (BRASIL, 2012b). Na figura 01, Rodolfo Barreto (2015) apresenta visualmente essa divisão de funções.
Figura 1 - Organização da modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS)
Fonte: Barreto, 2015:53
Havia a aposta de que o acesso coletivo à CDS trouxesse benefícios aos agricultores familiares. Segundo Grisa (2012), os gestores governamentais incentivavam a entrada na modalidade através de organizações formais, pois entendiam que participar de uma cooperativa ou associação poderia oferecer a eles um conjunto de benefícios, como a redução dos custos de comercialização, diversificação da produção e maior capacidade técnica. Além disso, também havia a expectativa de que o programa poderia incentivar sua organização política, social e econômica. O que fortaleceria as organizações e ampliaria sua capacidade de disputar novos mercados (GRISA, 2012; PORTO, 2014) e, em alguns casos, contribuiria para estruturar as organizações mais frágeis e novas (MEDEIROS et al., 2011 apud GRISA, 2012). Quando os agricultores decidem acessar a modalidade Compra com Doação Simultânea organizados em cooperativas ou associações, estas adquirem protagonismo dentro da fase de implementação do PAA e se tornam responsáveis por gerir os projetos aprovados e mediar as expectativas e conflitos que possam aparecer entre os agentes públicos e as famílias representadas.
Entre suas principais funções como implementadoras estão: selecionar os beneficiários fornecedores, elaborar e executar os projetos, realizar a prestação de contas, acompanhar a produção e auxiliar técnica e burocraticamente os agricultores que participam de seus projetos. As organizações também podem atuar motivando os cooperados a continuar no programa e os conscientizando sobre os padrões de qualidade dos produtos exigidos pelo programa.
Esse volume considerável de funções evidencia que a contrapartida exigida das organizações é alta, pois, como visto ao longo da pesquisa de campo, elas devem arcar com os custos relativos à logística, à manutenção dos equipamentos e com qualquer outra despesa relacionada à produção, além de investir em conhecimento técnico e burocrático, o que nem sempre é tarefa fácil. Uma forma de conseguir dar conta dessas inúmeras tarefas é contar com a solidariedade dos agricultores, principalmente os que atuam em cargos de coordenação das organizações, que acabam trabalhando mais horas que o inicialmente planejado e não são remunerados por isso.
Esses trabalhadores também acabam gastando seus próprios recursos para, por exemplo, comprar material de escritório, abastecer os automóveis usados para ir ao banco ou à prefeitura e, assim, garantir o funcionamento de suas organizações. Essa contrapartida se torna ainda mais alta se levarmos em conta o fato de que essas organizações não recebem recursos específicos do PAA para investir em estrutura e aprimoramento técnico. Ao contrário do que ocorre, por exemplo, no PMCMV-E, que destina uma porcentagem do orçamento do projeto aprovado para despesas de escritório e melhorias administrativas na organização implementadora (BRASIL, 2012a).
Não raramente, essas organizações da sociedade civil se depararam com uma gama de problemas41 ao longo da implementação de seus projetos, como:
a) Falta de informação clara e atualizada sobre as regras para se inscrever e executar a modalidade CDS;
b) Entraves burocráticos para regularizar as cooperativas, como a demora na emissão de documentos;
c) Apoio técnico rural insuficiente para suprir as necessidades das famílias de agricultores que participam de suas organizações;
d) Exigência de profissionalização de quadros para realizar o acompanhamento dos projetos;
e) Dificuldade para manter a regularidade da produção e entrega dos alimentos; f) Problemas logísticos, como a falta de caminhões para realizar a coleta e a entrega
dos alimentos;
g) Dificuldades na relação com agentes públicos e o governo local;
h) Atraso na liberação das DAPs dos agricultores, o que os impede de participar do envio de projetos ao PAA;
41 A relação dos problemas vividos na implementação foi elaborada com base em nossa pesquisa de campo e nos
i) Atraso nos pagamentos feitos pela CONAB;
j) Problemas para manter o coletivo mobilizado até o final do projeto. Quando há atraso de pagamento, por exemplo, é comum que alguns agricultores participantes queiram deixar de participar do projeto. Nesse momento, as organizações precisam mediar os conflitos e convencer os produtores permanecerem no projeto.
Como apresentaremos mais detalhadamente nos próximos capítulos, participar dessa modalidade do PAA exige que as organizações de agricultores invistam em conhecimento técnico e burocrático e, ainda, combinem essa expertise com a capacidade de manter coesas e motivadas as suas bases. Essas exigências e problemas exigem soluções criativas das organizações (Teixeira et al., 2016).