2 O MODELO NEOLIBERAL
2.3 A SOCIEDADE CIVIL E SEUS CONCEITOS
Para os jusnaturalistas do século XVIII, a sociedade civil está na origem do Estado. Já para o marxismo, a sociedade civil se referencia no mercado ao se confundir com a sociedade burguesa. Para Gramsci, a sociedade civil tem a função de construção de hegemonia política, inclusive para as classes subalternas. Conforme destaca Scherer-Warren (1994):
Sociedade civil definia-se ora como a esfera de constituição da política (e do Estado), contrapondo-se à barbárie, ora como a capacidade de auto- regulamentação e determinação da esfera econômica (do mercado), em fase do individualismo e do Estado, ora ainda como potencialidade do mundo da cultura e das ideologias na construção de uma hegemonia política. (SCHERER-WARREN, 1994, p. 6).
Scherer-Warren acrescenta inicialmente no seu texto que as categorias sociológicas de “sociedade civil” e “Organização não governamental” não possuem um sentido unívoco. Primeiro, no que se refere ao conceito de sociedade civil, a história de construção desse conceito mostra significados variados. Neste sentido, a sociedade civil apresenta diferentes significados e um sentido abrangente que está cercado de ambiguidades. Segundo Ellen Wood (2011):
A concepção moderna de “sociedade civil” – uma concepção que aparece sistematicamente pela primeira vez no século XVIII – é algo muito diferente das noções anteriores de “sociedade”: sociedade civil representa uma esfera diferenciada do Estado, separada das relações e das atividades humanas, mas nem pública nem privada, ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo, incorporando toda gama de interações sociais fora da esfera privada do lar e da esfera do mercado, a arena de produção, distribuição e troca. (WOOD, 2011, p. 206)
No Brasil, a expressão sociedade civil se difundiu tardiamente na reflexão brasileira (FONTES, 2010, p. 222). Para a melhor compreensão do conceito de sociedade civil e dos seus desdobramentos no país, é importante relacionar as lutas sociais que ocorreram intensamente nas décadas de 70 e 80 (FONTES, 2010).
Antes desse período, outras mobilizações organizadas pela sociedade começaram a expressar o inconformismo social de parte da população. O país estava marcado pelo golpe militar e por uma violenta e sangrenta ditadura que se prolongava no tempo.
Nesse contexto, assinala Fontes (2010, p. 224) que ainda na década de 1960 as reivindicações eram contra a ditadura: “no caso brasileiro, vale lembrar o incremento das lutas estudantis e populares em dois tempos, o que culmina em 1968, com o crescimento das manifestações de rua e a expansão da resistência armada”.
Nesse contexto, após o golpe militar no ano de 1964 e a partir da década de 1970, destacam-se as associações empresariais como também organizações de caráter profissional. Dentre as principais: Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), dentre outras. Como bem descreve Virgínia Fontes (2010, p. 225) essas associações tiveram um papel importante na “luta antiditatorial”, com o final da ditadura essas organizações passaram a se organizar melhor e a desempenhar outros papéis.
Em meio a este processo de dominação ideológica, as lutas sociais ocorreram intensamente no Brasil principalmente nas décadas de 70 e 80. É nesse contexto que a expressão sociedade civil passa a ser difundida no Brasil. Conforme assinala Virgínia Fontes (2010, p. 223): “A expressão sociedade civil se difundiu tardiamente na reflexão social brasileira, por volta da década de 1970. Seu ingresso no mundo acadêmico, no entanto, seria marcado por polêmicas, ilusões e muitas dificuldades”.
A autora ressalta que foi neste período que ocorreram as primeiras traduções de Gramsci no Brasil, ou seja, imediatamente no período pós-golpe de Estado:
As contradições que marcam as definições do que é a sociedade civil podem ser explicadas pelos fenômenos sociais que ocorreram, primeiro, nesse período da tradução da obra de Gramsci, o Brasil vivenciava o golpe militar, assim, muitas análises realizadas sobre a sociedade civil acentuavam principalmente a dicotomia existente entre a sociedade civil e a militar; segundo, outros fenômenos internacionais contribuíram para outras acepções sobre o termo. (FONTES, 2010, p. 223).
Nesse sentido a autora pontua que:
Enquanto na formulação original gramsciana, o crescimento da sociedade civil se dera pela intensificação das lutas subalternas, pesando sobre a organização do Estado em prol de uma efetiva socialização da política, no caso brasileiro a organização e difusão de aparelhos privados de hegemonia, ainda que respondendo a fortes lutas de classe, concentrara-se nos setores burgueses dominantes, em função da truculência social predominante no trato da questão social. (FONTES, 2010, p. 227).
Assim, podem-se apontar duas tendências dos movimentos sociais apresentando uma relação dualista. Estado versus sociedade, e outra tripartite, Estado/mercado/sociedade civil. Sobre isso ressalta Montaño (2010):
A realidade social não se divide em “primeiro”, “segundo” e “Terceiro Setor” – divisão que, como vimos, consiste num artifício positivista institucionalista ou estruturalista. Isto, numa primeira hipótese, estaria mostrando o debate sobre o “Terceiro Setor” para além da funcionalidade com a ofensiva neoliberal, como fundado num conceito abstrato, sem existência real. Numa segunda hipótese, esse debate setorialista oferece uma discussão sobre o social que entende de forma desarticulada o Estado, o mercado e a sociedade civil. Para ambas as hipóteses o debate ocorre de forma mistificadora do real. (MONTAÑO, 2010, p. 182-183).
A tendência bastante repercutida na sociedade capitalista aponta a sociedade civil como um setor à parte, o “Terceiro Setor” em oposição ao Estado e ao mercado. Contudo, como adverte Poulantzas (2000), essa concepção empobrece consideravelmente as pesquisas sobre o Estado ao descrever que:
A separação relativa do Estado e da economia é tomada como separação do Estado e da famosa “sociedade civil”. Esta sociedade civil, palco de necessidades e trocas entre indivíduos isolados seria representada em si como uma associação contratual de sujeitos juridicamente isolados, sendo a separação da sociedade civil e do Estado reduzida a um mecanismo ideológico localizado no âmago das relações mercantis, à feitichização- reificação do Estado a partir do famoso fetichismo da mercadoria. (POULANTZAS, 2000, p. 48).
Deste modo, as Organizações não governamentais, pela própria definição do termo, são consideradas uma esfera separada do Estado, e também sem fins lucrativos, por isso se dizem independentes do Estado. Mas, segundo a concepção crítica de Virgínia Fontes, estas ONGs são dependentes do mercado e, sobretudo, do Estado, pois pleiteiam seus recursos nessas duas esferas. Assim, o discurso dessas organizações é marcado pelas contradições do capitalismo.