7 A SOCIEDADE DO RISCO
7.1 A Sociedade do Risco x O Direito Penal do Inimigo
Superada as considerações supra, é hora de nos voltarmos sobre a impossibilidade da aplicação do Direito Penal do inimigo, mesmo diante de uma
“sociedade do risco”.
Neste contexto, faz-se necessário destacar que aqueles que defendem a possibilidade da aplicação do Direito Penal do inimigo em nosso OJ (ordenamento jurídico), deveriam acima de tudo, analisar com melhor profundidade a sociedade como um todo, não somente a suposta necessidade por um rigorismo penal.
O Direito Penal do inimigo, como já deu para perceber durante o transcorrer desta obra, deixam de lado alguns preceitos triviais, principalmente no que tange a natureza humanística do indivíduo, o mesmo preocupa-se somente com a letra da lei de forma fria e direta.
Acoplar o respectivo Direito Penal do inimigo ao nosso contexto normativo e social certamente será lutar contra o inevitável, ou seja, tentar superar riscos que o próprio estado insiste em gerar trata-se de correr em círculos, seria atribuir a sociedade, características de um período bélico.
Como fora esposado acima, é o próprio sistema estatal que tem formado os seus criminosos, aumentado assim os riscos sociais, posteriormente a sociedade ao reconhecê-los “modernização da flexibilização” clama por justiça, ao passo que esta justiça por conta do estado não consegue ser exercida, tendo em vista as dificuldades para superação do crime.
Sabe-se bem que não deixaram de existir sociedades marginalizadas, muito pelo contrário, a tendência é que este contingente cresça de forma progressiva, tendo em vista o crescimento populacional, cumulado a ausência de
controle de natalidade no nosso pais; um plano do governo para melhorar a economia, consequentemente aumentando a mão de obra, consumo, custos, impostos, enfim, tudo aquilo que possa mover a máquina estatal.
Infelizmente o estado gestor esqueceu-se de suas proles; a cada dia que passa, as classes sociais mais abastadas continuam melhorando suas condições econômicas, ao passo que o contingente marginalizado continua crescendo, ainda de maneira mais desenfreado do que o primeiro grupo; mostra-se a disparidade o descontrole e a luta contra o inevitável, ou seja, o distanciamento dos dois polos sociais, a sociedade do luxo para com a sociedade do lixo.
Sendo assim, o número de criminosos e de crimes será simplesmente uma realidade fática, tal realidade está longe de ser afastada. Confabulando o assunto, pode-se dizer que a criminalidade e o criminoso se tratam de um fruto de uma arvore viçosa, ou seja, a sociedade é a respectiva arvore, sendo que esta não deixará de produzir seus frutos, muito pelo contrário, aumentará sua produção, uma vez que o senso de exclusão social para as sociedades marginalizadas serviria de adubo, e a sensação de insegurança das sociedades abastadas servia de fertilizante.
Segundo os defensores da proposta de implantação do sistema penal extremista, juntamente com todos os preceitos deste, o mesmo viria não somente coibir os delinquentes, bem como auferir segurança jurídica a sociedade de um modo geral que clama por ajuda, nesta feita, estaria sanada as lamurias do povo.
Percebe-se assim um Direito Penal pro societat às avessas.
Na década de 80 ainda vigia os preceitos do direito de Marques de Beccaria, tal realidade foi cedendo espaço pouco a pouco, como já fora esposado, nos anos 90 Jakobs começou a trabalhar suas teses sobre um novo direito penal, tais estudos tomaram o plano fático com muito maior propriedade após os atentados as torres gêmeas dos E.U.A em 11 de setembro de 2001.
Segundo seu discurso, o direito penal do inimigo não se trata de um modismo, tão pouco uma teoria, trata-se de uma política criminal que já permeou o mundo inteiro e, é esta a realidade que continuará a viger.
Há somente 20 anos atrás a legislação penal extravagante nas bancas da faculdade era uma matéria optativa, hoje em dia existem mais de 126 legislações
esparsas que versam sobre Direito Penal. Nos dias atuais sair da faculdade e não conhecer legislação extravagante sobre a matéria de Direito Penal é o mesmo que não conhecer o mesmo.
O que demonstra de plano que os riscos criados pelos estados continuam a serem gerados, trata-se de uma cadeia, o estado marginaliza determinados grupos, a sociedade abastada em regra, passa pelo processo de reflexão, posteriormente aumenta a sensação de insegurança de um modo geral, o que dará ensejo ao clamor social, que com isso movera o poder legislativo a fazer novos enxertos na legislação penal, o que convenhamos, não tem ajudado em muita coisa, pelo contrário, é apenas uma massagem no ego da sociedade.
Logicamente falando, produzir legislações penais extravagante faz com que cada vez menos o povo Brasileiro de uma forma geral saiba o que é permitido ou não pela lei. Por conta disso, quase ninguém sabe que produzir açúcar em casa é crime (Art. 1º do Decreto-lei nº 56, de 1966); molestar cetáceos (Art. 2º da Lei. Nº 7.643/87), da ensejo a uma pena de cinco anos de detenção, ao passo que o homicídio culposo tem uma pena de três anos, uma verdadeira disparidade. (grifo nosso)
O Direito Penal deixou à tempos de ser um Direito de ultima rácio, razão pela qual se justifica toda essa tipificação extravagante, o Direito Ambiental é importantíssimo, mais tipificar condutas para tudo gera uma hipertrofia legislativa, sem sombra de dúvidas.
Hoje em dia cabe transação penal, sursis, composição civil, regime semiaberto para uma gama de crimes, tal fato só fomenta a sensação de insegurança da sociedade de um modo geral, onde esta se coloca a espera de uma nova norma que venha suprir as suas necessidades.
Em 1995 se implantou no ordenamento jurídico Brasileiro os respectivos institutos supra, através da Lei. 9.099/95, com a precípua finalidade de conter o crescente contingente carcerário, privilegiando a liberdade do indivíduo em detrimento a prisão, todavia, a respectiva medida mostrou-se insuficiente. Em 1998 cria-se as penas restritivas de direitos para crimes de até 4 anos, dentre outros requisitos, também mostrando-se insuficiente.
Não bastando as medidas já adotadas, o código penal recebeu uma nova cirurgia normativa, modificou-se o art. 43 e ss. do mesmo, inclusive pondo fim ao exame criminológico obrigatório para os casos de progressão de regime. Criou-se o instituto da remissão, ou seja, a cada três dias trabalhados descontam-se um dia de pena. Há inclusive uma discussão em tramite sobre a possibilidade de progressão de regime nas hipóteses em que basta o indivíduo saber ler e escrever.
É notória a impunidade, com toda razão a sociedade de um modo geral se sente oprimida, esta hipertrofia normativa não tem curado o câncer social, pelo contrário, tem somente medicado este, tem-se priorizado a liberdade acima da punibilidade, faz-se de tudo para manter o indivíduo solto, também convenhamos, onde inserir mais presidiários? Nosso contingente carcerário está mais que super.
lotado. (grifo nosso)
7.2 Possíveis Formas de Superação dos Conflitos Sociais no Contexto da