6 O DIREITO PENAL DO INIMIGO
6.1 Introdução
sociedade como um todo. Trazendo ainda um conjunto de princípios e regras formulados em preceitos longínquos, guardando grande relação com a doutrina de Hobbes.
A respectiva teoria foi inicialmente trabalhada em meados da década de 1980, designando um novo conceito doutrinário e uma nova política criminal, que segundo Jakobs, seriam estes, plenamente compatíveis com certos aspectos do Direito Penal e do Processo Penal, que, por sua natureza, perfaz um corpo legal normativo aparentemente oposto aos princípios, garantias e fins do Direito Penal Liberal, conquistado a custo de sangue, fruto de uma luta que durou anos a fio, inclusive ainda vigente.
Basicamente, o Direito Penal do inimigo divide o direito em duas classes, a classe daqueles que se encontram dentro do direito e consequentemente fazem jus ao mesmo, e, a classe daqueles que estão fora do mesmo, não fazendo jus a este. (grifo nosso)
Na figura de postulado de política criminal, haverá aqui, a distinção entre o direito penal do cidadão e o direito penal do inimigo; ao passo que na esfera dogmática, ocorrera a distinção entre o que ele nomeou como pessoas de direito, e, não pessoas de direito, no amago da respectiva teoria.
Neste sentido, triviais são as palavras do Ilustre doutrinador Luiz Regis Prado (2010, p. 133), vejamos:
O Direito Penal do Inimigo constitui uma construção teórica, compatível com o funcionalismo sistêmico, fundada basicamente na distinção entre o Direito Penal de cidadãos e Direito Penal de inimigos, como polos existentes de um mesmo ordenamento jurídico, e na separação entre os conceitos de pessoa e não pessoa. Nesse sentido, o inimigo é o indivíduo que não oferece a mínima segurança cognitiva de submissão à ordem jurídica, dada sua evidente intenção de destruí-la, e, por isso, é considerado não pessoa.
Caracteriza-se pela antecipação da punibilidade, pelo notável incremento e desproporcionalidade de penas, pela supressão ou redução de diversas garantias individuais no âmbito do Direito, Processo e Execução Penal.
(grifo nosso)
Como bem define Regis Prado, o inimigo é um ente assistido pelo estado, todavia, este ente não receberá tratamento como pessoa, mais sim como
“não pessoa”, assemelhando-se a uma “norma jurídica” ambulante, que não
perceberá em seu benefício uma serie de garantias que poderia estar gozando se estivesse na condição de pessoa, muito pelo contrário, sofrerá a supressão dos mesmos.
A divisão de classes de Direito Penal do inimigo para Direito Penal do cidadão, raramente andaram de forma conjunta (em união) na ceara penal, uma vez que ambas notoriamente se contrapõem, mais devem ao mesmo tempo, respeito umas com a outras; é o mesmo que dizer: No Direito Penal do cidadão encontrar-se-ão alguns dispositivos do Direito Penal do Inimigo, ao passo que no Direito Penal do inimigo, também se encontrará alguns direito e garantias fundamentas do direito penal do cidadão.
Portanto, segundo a lógica, inimigo e cidadão são expressões antagônicas, com isso, não podendo caminhar em conjunto no que tange a sua aplicação fática (prática), uma vez que entre este não há nenhuma comunicabilidade, “um constitui a guerra e o outro o diálogo”.
Vejamos o texto que segue abaixo, a fim de que possamos melhore elucidar este entendimento:
O Direito Penal conhece dois polo ou tendências de suas regulamentações.
Por um lado, o trato com o cidadão, em que se espera até que este exteriorize seu fato para reagir, com o fim de confirmar a estrutura normativa da sociedade, e por outro, o trato com o inimigo, que interceptado prontamente em seu estágio prévio e que se combate por sua perigosidade (JAKOBS e MELIÁ, 2007, p. 42).
Percebe-se nesta toada, que o Direito Penal será distribuído de forma diferenciada, ou seja, levar-se-á em conta os seus receptores, uma vez que se for destinado ao cidadão este percebera um determinado Direito Penal, ao passo que o
“inimigo”, percebera outro.
O Direito Penal do inimigo escora-se no objetivo da neutralização, ou a destruição do inimigo do Estado; a margem deste raciocínio encontra-se o Direito Penal do Cidadão, pautando-se exclusivamente as “pessoas” do Direito. Todavia, reconhece-se que os dois institutos são paradoxais, guardando sentidos totalmente oposto: no primeiro busca-se uma política bélica, com repressão imediata ao insano,
ao passo que o segundo visa uma política de diálogo, respeitando todos os direitos e garantias fundamentais para a superação do conflito.
Nestas duas esferas distintas, podem-se dizer polos de regulamentação normativos distintos, no caso do direito penal dirigido ao cidadão, este define e sanciona delitos cometidos acidentalmente por pessoas comuns (cidadãos), pessoas que em sua essência estariam vinculadas as normas e submetidas ao Direito, e que, somente de forma casuística (incidental) acabariam por ferir as normas de conduta social no contexto onde vivem.
Por conta disso, entende Jakobs que estes indivíduos oferecem segurança “jurídica cognitiva” no seu comportamento pessoal e social, neste contexto, seriam considerados pelo direito como pessoas e, portanto, devem gozar de todos as prerrogativas inerentes aos seres humanos, tais como direitos e garantias fundamentais.
Sendo que o delito que ocorresse dentro do contexto supra, não seria compreendido como o princípio do fim daquela sociedade preordenada, mas tão somente a irritação da mesma, tratando-se apenas de um deslize daquele que o cometeu, sendo perfeitamente reparável. Assim, o indivíduo que delinquiu seria convidado a restaurar o equilíbrio da vigência normativa penal através da submissão a norma.
Para que esta celeridade possa ser uma realidade vigente, no ponto de vista dos doutrinadores favoráveis a implantação e difusão deste modelo penal, se faz necessário a supressão de alguns direitos e garantias fundamentais, novamente avaliando de forma subjetiva o crime e o criminoso, o que de plano configura uma grande insegurança jurídica.
6.2 O Que Seria o Direito Penal do Inimigo e Quais Seriam os Inimigos do