CAPÍTULO I – A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E O ACTUAL CONTEXTO
2. A Sociedade e as representações sociais do Estado
“O reinado da época de ouro da democr acia e do liberalismo económico pós-segunda Guerra Mundial, de que o consumismo ilimitado é , hoje, expressão na Europa, esgotar-se-á com o fim dos recursos naturais e o aumento demográfico mundial vertiginoso” . (Real, 2012: 137).
Carmo (2011: 70 e 71) defende que “a sociedade contemporânea está marcada por três
processos estruturantes, que conjugados terão criado uma situação de anomia”20:
18 “Toda esta complexa situação tem tido como resposta uma abundante, mas ineficaz, resposta normativa, desprovida de uma filosofia geral de reforma administrativa que lhe dê coerência. Este comportamento, muito comum entre nós, leva-nos a relacioná-lo com o excessivo peso de juristas na elite governante e administrativa, que parecem ainda acreditar que se transforma o país por decreto” (Carmo, 1990: 364).
19 É preocupante que a nova gestão pública, procurando a máxima eficiência, institua maiores autonomias sem os correspondentes instrumentos de prestação de contas e responsabilização (Antunes, n.d.: 29).
Uma mudança acelerada, marcada pela transitoriedade, novidade, diversidade (Toffler, 1970 apud Carmo, H., 2011: 71) e ainda pela colisão das três vagas civilizacionais – agrícola, industrial e de informação (Toffler, 1980 apud Carmo, 2011: 71);
Uma desigualdade social crescente, a nível nacional e internacional, aumentando o fosso entre os mais ricos e os mais pobres (Emerij, 1992 apud Carmo, 2011: 71); e A emergência de novos sistemas de poder, alicerçados à força, riqueza e
conhecimento, com efeitos preocupantes no Estado de Direito, como a tendência para a descentralização da violência e para o aumento dos poderes erráticos (Toffler, 1991 e 2006 apud Carmo, 2011: 71).
“Se dividíssemos os últimos 50 mil anos da existência humana em períodos de vida de aproximadamente 62 anos, teríamos 800 períodos, 650 dos quais passados em cavernas. Só nos últimos 70 períodos de vida foi possível comunicar eficazmente de um período para outro graças à escrita; só nos últimos seis períodos de vida multidões de homens viram a palavra impressa; só nos últimos quatro períodos de vida foi possível medir o tempo com alguma exactidão; só nos últimos dois períodos de vida alguém utilizou um motor eléctrico; e a maioria de todos os bens materiais que utilizamos hoje na vida diária foi criada no presente, no 800º período de vida” (Toffler, n.d. apud Carmo, 1990: 184).
Quanto aos efeitos sociais, Fukuyama (2000 apud Carmo, 2011: 73), adverte que “nas
últimas décadas do século XX, os alicerces da sociedade contemporânea foram seriamente danificados por aquilo a que chamou a grande ruptura, decorrente da
sobrevalorização da liberdade, em detrimento da igualdade e da fraternidade”21.
No que respeita ao mundo actual, Real (2012: 137) refere que “o século XX realizou os
desejos de posse e domínio, havendo uma expansão da democracia de massas, popular, como regime de Estado e o liberalismo e o neo-liberalismo políticos como regime
económico”. Real (2012: 139 e 140) aponta que “o estado de infantilidade e barbárie,
enquadrador da maledicidade do homem, que a Europa tem vivido até aos dias de hoje, reside na exploração sem limites da natureza, numa guerra económica (mercado), numa crescente desigualdade social, no tratamento bárbaro dos animais sencientes e na intolerância” 22.
Presentemente, a realidade é bastante diferente de outrora. “Em vez de serem encarados
como solucionadores de problemas, os governos são percepcionados como sendo
21 Se nos reportarmos aos três valores centrais da Revolução Francesa, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, observa-se que o valor da Liberdade foi apadrinhado pela perspectiva liberal, a Igualdade pela perspectiva Marxista, tendo o valor da Fraternidade sido remetido para a esfera da sociedade civil, não sendo considerado uma questão política relevante (Carmo, 2011: 139).
22 Segundo o mesmo autor (2012: 22), “três chagas imorais definem correctamente o consulado da geração política que se apossou de Portugal desde finais da década de 80”: - O Oportunismo (“quem tem unhas toca guitarra”); O Espertismo (“em terra de cegos quem tem olho é
2006). As autoras (2006), chamam a este fenómeno Política degenerativa porque resulta na perpetuação e agravamento de divisões e desigualdades entre os cidadãos.
A título de exemplo, passa-se a expor: a) trecho de um texto escrito por Hermano Carmo sobre o seu primeiro dia de trabalho, como secretário de Maria de Lourdes Pintassilgo (Secretária de Estado da Segurança Social), em 1974 e b) trecho de um discurso do Professor Paulo Morais durante uma entrevista dada no programa Negócios da Semana em Março 2012.
- “Na triagem do correio chamo-lhe a atenção para uma coisa muito importante: Há dois tipos de documentos que eu não quero que me cheguem às mãos – cunhas e cartas anónimas. Quando identificar algum desses documentos, rasga, deita fora e não me informa” (Mª Lourdes Pintassilgo apud Carmo, 2005: 22)
“Quem está representado na Comissão de acompanhamento do programa de assistência financeira, não é o povo Português, mas os Bancos, os escritórios de advogados, os promotores imobiliários e as grandes empresas. Eu dou-vos estes exemplos: quem está envolvido na comissão parlamentar, responsável pela privatização da EDP, é o Deputado Manuel Frasquilho, que trabalha no Banco Espírito Santo, que foi o Banco que assessorou os Chineses na compra da EDP. O Advogado Mesquita Nunes que é, simultaneamente, parlamentar e pertence ao escritório de Advogados que trabalhou para o Governo, nesse processo. Há ainda o Deputado Pedro Pinto, que trabalha como consultor em empresas que dependem da EDP. Quando o próprio Parlamento é, ele próprio, fonte de corrupção, como pode ao mesmo tempo combater a corrupção? (…) O próprio Presidente da Comissão de Luta Contra a Corrupção era o Deputado Vera Jardim, que era, simultaneamente, Presidente de um Banco e Presidente de uma Seguradora, ou seja enquanto Deputado liderava a Comissão de Luta Contra a Corrupção e depois, o mesmo, estava em organismos que estão envolvidos em fenómenos de corrupção em Portugal. O resultado dessa Comissão foi, como se esperava, praticamente nulo. O que fez este Conselho ao fim de três anos? Foi pedir, aos diferentes organismos da AP, em Portugal, que fizessem um plano de prevenção de corrupção para o seu próprio serviço. Ou seja, foi pedir às pessoas que beneficiam da corrupção que fizessem um plano para impedir a corrupção de que elas são beneficiárias. Era o mesmo que pedir a um bando de ladrões que fizessem o sistema de segurança de um prédio, que eles costumam assaltar” (Morais, Personal Communication, 2012).
Chomsky (2011) alude: “El mundo se está convirtiendo así en un lugar más diverso en
algunos aspectos, pero más uniforme en otros: En todos ellos existe un cambio real de poder: hay un desplazamiento del poder del pueblo trabajador de las distintas partes del
mundo hacia una enorme concentración de poder y riqueza”. Segundo o mesmo autor
(2011) o sistema mundial está dividido em dois blocos: a plutocracia23, um grupo muito importante com enormes riquezas e que dirigem os recursos e por outro lado a maioria da
população, a força laboral que vive de forma precária, entre os quais se incluem milhões de pessoas que quase não têm condições mínimas para sobreviver24.
Para alem destas manifestações, relacionadas com novas formas de percepcionar o Estado, e consequentemente a administração pública, convém referir, muito sucintamente, o próprio fenómeno da corrupção, na medida em que, como defende Ackerman (2002 apud Maia, 2009: 90), “os elevados índices de percepção social de práticas de
corrupção tendem a corroer a legitimidade política dos governos, particularmente quando essa percepção social inclui sinais que apontam para uma inoperância da governação, no sentido de implementarem políticas, que denotem claras intenções
de pretenderem inverter, ou pelo menos controlar, o curso evolutivo do problema”.
Conforme Maia (2009: 87), a partir da década de 80 do século XX, dois fenómenos vieram tornar o fenómeno da corrupção mais premente:
Os países Ocidentais, nomeadamente os do sul da Europa, assistiram a um processo de aceleração e consolidação dos correspondentes sistemas democráticos, os quais ficaram caracterizados por um forte e sofisticado crescimento das estruturas organizativas dos partidos políticos. Essa manutenção só se tornou possível através de constantes entradas de volumosas verbas, mais ou menos encapotadas, realizadas por particulares em troco de “benesses”25
(Porta & Meny, 1995; Morgado & Vegar, 2003 apud Maia, 2009: 85);
Houve um movimento de libertação dos media face ao controlo dos poderes político e económico.
Conclui-se, que “muitas pessoas crêem que os governos não estão a tentar ajudar
as pessoas e acreditam que os interesses das elites e dos membros do Governo
estão acima dos interesses dos cidadãos comuns” (Dionne, 1991, Greider, 1992,
Sandel, 1996 apud Ingram & Schneider, 2006).
Síntese do capítulo
A AP é um campo com grande esbatimento de fronteiras, sendo alvo de estudo por parte de vários domínios;
24 Chomsky (2011) refere ainda que “estes desenvolvimentos não se devem a leis da natureza ou a forças económicas, mas sim ao resultado de decisões específicas dentro de estruturas institucionais que os favorecem”.
25 Luis de Sousa (2002 apud Maia, 2009: 90) diz: “o crescimento e a sofisticação dos aparelhos partidários, cada vez mais assemelhados a verdadeiras organizações, com muitos funcionários em full-time, tornou-os sorvedores de avultadas somas de dinheiro, sobrevivendo, por isso, apenas em função dos correspondentes processos de financiamento, os quais parecem estar intimamente correlacionados com alguma das
qual é e qual deve ser o papel do Estado e ainda a própria mudança civilizacional, levaram a mudanças sociais profundas e ao movimento de reforma da AP, no sentido de aplicar os conceitos da gestão privada ao domínio público.