CAPÍTULO VII – DOLABORATÓRIO AO OBSERVATÓRIO SOCIAL
2. A Emergência Social na prática – Questões Sincrónicas
2.1. Emergência Social e Serviços de Proximidade
Tal como já foi previamente enunciado, o trabalho em emergência (tanto na área médica e da protecção civil, como na área social) é tipicamente uma intervenção de proximidade – proximidade relativamente aos cidadãos e proximidade relativa à rede de apoio/parceiros, pelo que se torna interessante perceber os modelos de intervenção nesta área.
2.1.1.Proximidade relativa aos cidadãos
O primeiro serviço formal de ES em França – SAMU Social, distinguiu-se pelos seus terminais no terreno. Essa realidade está também presente, nas várias entidades que foram alvo de entrevista no âmbito desta investigação, na medida em que os serviços descentrados arrogam- se (em todas elas) um papel de grande relevância na intervenção em emergência. Inclusive, terá mesmo sido referido pela ANPC, que nessa entidade subsiste o princípio da subsidiariedade, que determina que “o subsistema de protecção civil de nível superior só deve intervir se e na
medida em que os objectivos da protecção civil não possam ser alcançados pelo subsistema de
protecção civil imediatamente inferior”.
No que toca à LNES-144, presencia-se a existência de dois procedimentos fulcrais, que vêm reforçar a sua proximidade à sociedade:
Quatro vertentes indissociáveis
da intervenção social
Cuidados de proximidade (executa e presta serviços) Observatório social
(estuda e diagnostica) Laboratório social(experimenta novas soluções) Política social
(decide e orienta)
Difunde Informa Orienta
Permitiu uma acessibilidade universal ao serviço, na medida em que se tratava de linha telefónica gratuita;
Possibilitou, através da implementação de equipas em todos os distritos, ir ao encontro dos indivíduos em situação de perigo, reforçando a saída da intervenção social do âmbito dos gabinetes.
2.1.2.Proximidade relativa à rede
No que concerne ao trabalho em rede e parceria, convenciona ter em consideração alguns dados que foram objecto de aprofundamento por parte desta investigação.
Aquando da criação da LNES-144, em 2001, o SES da SCML já tinha, a 17 de Outubro de 1988, elaborado uma orientação relativa à avaliação desse mesmo serviço e que reclamava a atenção para determinadas particularidades importantes num serviço de ES:
“Parece-nos necessária a existência de um serviço aberto 24/24 horas, mas ter-se-á que encontrar uma alternativa mais económica, visto que, em termos de custos, parece-nos bastante elevados em relação à eficácia do serviço”. Mais concretamente, é referido nesse documento (SCML, Outubro 1988):
- Fraca utilização por parte dos utentes, principalmente no período nocturno;
- Só 50% das situações que aparecem é que são consideradas urgentes. Nas restantes situações parece até ser contraproducente o atendimento, por ser contrário à orientação das zonas onde são conhecidos.
É alvitrada a “alteração do acordo com o Albergue nocturno, de forma que este possa acolher as
situações de emergência, a qualquer hora e fora do horário habitual” (SCML, 1988). Desta
forma, e numa primeira apreciação, considera-se que, aquando da criação da LNES-144, poderia ter sido enfatizada uma maior articulação entre o serviço de Emergência Social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SES) e a LNES-144, o que poderia, eventualmente, ter contribuído para promover uma organização do serviço, que fosse mais ao encontro da realidade. Inversamente, pelo que foi constatado nas entrevistas de campo, parece que esta parca partilha não se terá restringido à fase inicial do processo. Adianta-se, que estas duas entidades, que trabalham na área da ES, (e que se constituem como uma referência neste domínio), não partilham, de forma formal e continuada, informação que poderia ser útil à melhoria da intervenção neste campo. Este fenómeno torna-se ainda mais significativo se tivermos em conta que se trata de duas entidades tuteladas pelo mesmo Ministério - MSSS e cujos principais representantes são igualmente nomeados pelo governo.
2.1.3.Modelos e Procedimentos em Emergência Social
Outra consideração a ser tida em conta, tem a ver com as diferenças significativas entre o grau de diferenciação da emergência médica e da ES, ou seja, a criação do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM), em 1981,
pode corroborar na figura que se segue.
Figura 35: Fases, intervenientes e programas do SIEM (adaptada de Gonçalves 1988: 15 apud Mateus, 2007: 45)
Nessa figura, presencia-se a ênfase dada à avaliação, à formação e à investigação. Este tipo de organização e diferenciação não foi encontrado, no horizonte deste estudo, ao nível da ES. Releva-se a importância da ANPC, o INEM e a MSF terem uma forte diferenciação entre o trabalho de planeamento, coordenação e o trabalho operacional, pelo que se poderia supor que seria desejável a ES e a LNES-144, em particular, seguir esse caminho.
Em termos de procedimentos, a emergência médica, em Portugal, actua segundo o modelo “Play and Run” (anexo 19) e o CAPIC trabalha segundo o Modelo de Avaliação e Intervenção em Crise de Albert Roberts (2005). Também se afere que no CAPIC existem, desde Março 2012, fluxos de triagem89 padronizados que permitem estandardizar a avaliação e a intervenção. Subsiste uma preocupação com a avaliação da acessibilidade ao serviço e a investigação, já que a equipa é incentivada a produzir pelo menos um artigo/ano. Existem reuniões mensais a
nível nacional (por vídeo conferência) e reuniões sem periodicidade definida, nas várias delegações distritais. Não obstante, as equipas reúnem diariamente, para debater os casos dos respectivos turnos. Na ANPC há reuniões/briefings diários, dos quais são emanadas orientações específicas, que são divulgadas a nível nacional e ainda reuniões/briefings semanais com os distritos, dos quais também procedem orientações concretas. Os MSF reúnem mesmo diariamente para discussão de casos.
Inversamente, no caso da LNES-144, um dos aparentes constrangimentos detectado está relacionado, precisamente, com a inexistência desse espaço de diálogo formal entre os diferentes técnicos e equipas intervenientes no processo. Logo, o facto de não serem agendadas reuniões regulares90, com a equipa técnica e ainda com as equipas dos distritos e os interlocutores dos centros distritais e destas reuniões, quando ocorrem, não saírem orientações concretas a serem cumpridas por todos os intervenientes, poderá ser considerada uma franca limitação à corrente actuação da LNES-144. Esse episódio manifestar-se-á no descontentamento demonstrado informalmente por grande parte da Equipa Central de Emergência (ECE), aquando das observações de campo.
Daqui ressalvam-se algumas contendas: Como é que os técnicos da LNES-144 e de outros serviços na área da emergência social, podem legitimar a sua acção? Como saber se a decisão tomada foi a adequada? Tal como Soulet (2009) cita: “ressalva-se a importância dos
espaços de comunicação e reflexão, que se apresentam como modalidades de confirmação da relatividade dos actos – Os intervenientes impõem-se como recursos capitais para a justificação da acção”.
Destaca-se a importância de criar grupos de trabalho que, a partir de casos concretos, efectuem propostas para melhorar os procedimentos, focando o processo de trabalho na análise, reflexão e observação, de forma a modificar as práticas de forma formal, reflectida e intencional.