CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA 61.
2.3 A SOCIEDADE EM REDE NAS JORNADAS DE JUNHO 88.
Castells (1999) descreve que, atualmente, a sociedade vive em um mundo digital que atua em rede e, por ser um sistema totalmente diferente do hierarquizado, ao qual o homem está acostumado, este se sente perdido. É um evento histórico na transformação e desenvolvimento da sociedade que, segundo Castells (1999), tem importância comparada à Revolução Industrial e, assim sendo, é um movimento ao mesmo tempo includente, para aqueles que conseguem adentrar nesse mundo novo, como excludente, para aqueles que não se apropriam das novas tecnologias.
De acordo com Castells (2013), os movimentos sociais atuais são diversos e se formam em culturas e contextos diferentes, entretanto, têm três identidades comuns: primeiramente têm seu início via internet e estão sempre na rede e por ela percorrem o espaço urbano; segundo, partem de uma indignação espontânea e
buscam defender sua dignidade e, por último, apresentam tantos objetivos que terminam por não ter nenhum.
Não há um objetivo nem uma ideologia comum, no entanto, o tema central gira em torno da democracia. Embora, segundo Scherer-Warren (2006), em que pese a solidariedade e o compartilhamento, as redes, por serem relações sociais, também estão sujeitas às disputas pelo poder e ao conflito.
Por ser um movimento em rede, pode-se pressupor que não haja lideranças ou que elas estejam diluídas, mas Scherer-Warren (2006, p. 121) assevera que apesar da distribuição de poder que o sistema de redes proporciona, esta distribuição é desigual, pois sempre “há elos mais fortes (lideranças, mediadores, agentes estratégicos, organizações de referência etc.), que detêm maior poder de influência, de direcionamento nas ações, do que outros elos de conexão da rede”.
De acordo com Pimentel e Silveira (2013), a mobilização nas ruas, partindo das redes sociais, criou um espaço híbrido entre elas. Havia pessoas nas ruas informando os acontecimentos via redes e havia pessoas em casa, no trabalho, na escola, conectadas às redes, que interagiam compartilhando e se posicionando, acarretando aumento na mobilização e na amplificação do engajamento social para além das ruas.
Reis (2013) corrobora a afirmação acima quando coloca a diferença entre as convocações para mobilizações anteriores, com as ocorridas na Jornada de Junho. Anteriormente, afirma Reis (2013), o público ao qual era destinada a mensagem era identificado de antemão, ao passo que nas convocações via redes sociais a absorção da mensagem é realizada por pessoas desconhecidas e em uma quantidade imprevisível.
Pimentel e Silveira (2013) afirmam que as grandes manifestações da Jornada de Junho, na cidade de São Paulo, derivaram de eventos agendados na rede social Facebook e, através do espaço híbrido, os eventos se difundiram pelas redes e receberam, cada vez, mais adeptos; Pimentel e Silveira (2013) chamam esse desdobramento de efeito viral do engajamento social.
O Gráfico 2, permite observar a evolução do número de confirmações dos manifestantes, nos eventos agendados para a cidade de São Paulo, via Facebook.
Gráfico 2: Confirmação de participação em atos na cidade de São Paulo. Fonte: Pimentel e Silveira (2013).
Para visualizar quais foram os maiores responsáveis pela divulgação na rede social, os pesquisadores utilizaram o critério de nós de rede, divididos em Autoridade e HUB, sendo Autoridade uma página ou pessoa que tenha muita replicação de seus posts e HUB uma página ou pessoa que compartilha muitos posts de outros perfis. O Quadro 8 apresenta as três maiores Autoridades e HUBs em cinco atos ocorridos na cidade de São Paulo.
Atos Ordem Autoridade HUB
1º ato
(06/06/13) 1º 2º Estadão Passe Livre São Paulo Izaias Santana Manifesto Libertário 3º Anonymous Brasil Anonymous Brasil 2º ato
(07/06/13) 1º 2º Estadão Carta Capital Anonymous Brasil A Verdade Nua e Crua 3º Folha de São Paulo Luiza Erundina
3º ato
(11/06/13) 1º 2º Estadão A Verdade Nua e Crua A Verdade Nua e Crua Movimento Contra Corrupção 3º Passe Livre São Paulo Passe Livre São Paulo 4º ato
(13/06/13) 1º 2º Estadão A Verdade Nua e Crua A Verdade Nua e Crua Anonymous Brasil 3º Occupy Brazil Passe Livre São Paulo 5º ato
(17/06/13) 1º 2º Movimento Contra Corrupção Anonymous Brasil Anonymous Brasil Movimento Contra Corrupção 3º Estadão Passe Livre São Paulo
Quadro 8 - Maiores Autoridades e HUBs na Jornada de Junho na cidade de São Paulo. Fonte: Pimentel e Silveira (2013).
Não cabe aqui desenvolver um estudo sobre o funcionamento técnico das redes sociais, mas pode-se visualizar sua intensidade através da cartografia dos espaços híbridos, apresentada nos gráficos 3, 4 e 5.
Gráfico 3: Cartografia do dia 06/06/13. Fonte: Pimentel e Silveira (2013).
O Gráfico 3, Cartografia do dia 6 de junho de 2013, mostra as conexões do evento agendado pela rede social Facebook. A página mostrava algo próximo de 20.500 confirmações de presença (PIMENTEL; SILVEIRA, 2013).
As interligações que parecem um emaranhado de linhas e pontos que se entrelaçam são na realidade as representações das nuvens que se formam quando esses atores atuam via rede.
O ato convocado pelo Movimento Passe Livre para o dia 13 de junho de 2013 teve confirmação de aproximadamente 28 mil pessoas. Nesse dia houve maior repressão por parte da polícia e circularam, nas redes, diversos relatos de prisões de manifestantes, de abuso e uso de violência por parte dos policiais. O aumento no volume de conexões é observado no Gráfico 04 (PIMENTEL; SILVEIRA, 2013).
Gráfico 4: Cartografia do dia 13/06/13. Fonte: Pimentel e Silveira (2013).
O ato convocado para o dia 17 de junho de 2013 ganhou maior expressão em função do confronto que houve no ato do dia 13 anterior. A partir desse momento a pauta deixou de ser o aumento das tarifas de ônibus e passou para “Não é só os 20 centavos”. O clamor das ruas incluía agora o direito à livre manifestação, contra a criminalização dos movimentos sociais, pelo direito à cidade etc. Cerca de 287.500 presenças foram confirmadas pela página do MPL na rede social Facebook. (PIMENTEL; SILVEIRA, 2013). O Gráfico 5 demonstra o volume de conexões.
Reis (2013) estabelece um paralelo entre a Jornada de Junho no Brasil com outros movimentos sociais ocorridos no mundo, como o Ocuppy Wall Street dos Estados Unidos, Los Indignados da Espanha, e outros que ficaram conhecidos como a Primavera Árabe. A similaridade, de acordo com Reis (2013, p. 44), compreende “a origem surpreendente, o caráter nacional, a organização prioritária em meio virtual, a inexistência de lideranças convencionais, o afastamento de direções partidárias ou sindicais e a multiplicidade de pautas”.
Gráfico 5: Cartografia do dia 17/06/13. Fonte: Pimentel e Silveira (2013).
“O MPL não veio do nada”. Com essa afirmação Pomar (2013, p. 19) sintetiza a história do Movimento Passe Livre, pois, segundo o autor, o movimento ao longo de sua existência relacionou-se com outros movimentos de esquerda, como o Movimento Sem Terra e os movimentos urbanos por moradia, assim como recebeu apoio do blog progressista tarifazero.org. Ou seja, o Movimento Passe Livre não esteve só na sua caminhada até as manifestações de junho 2013. Segundo Ortellado (2013, p. 235), “A estratégia do Movimento Passe Livre é um acúmulo de aprendizados de lutas sociais pregressas”.
Ortellado (2013) declara que os protestos de junho deixaram para a sociedade dois legados, importantes e contrapostos. Por um lado, a estratégia na luta contra o aumento, que foi bem conduzida, surtindo o efeito desejado, revogando a elevação das tarifas dos transportes públicos. Por outro lado, abriu espaço para explosão de manifestações com pautas difusas. O mês de junho de 2013 tornou-se um enigma a ser decifrado.