CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA 61.
2.1 OS JOVENS E O PACTO INTERGERACIONAL 61.
2.1.1 JUVENTUDE 61.
Para a definição de juventude o conceito demográfico, por faixa etária, surge quase que naturalmente, como se bastasse estabelecer uma idade inicial e uma idade final para definir o jovem. Entretanto, a definição de jovem é tão intrincada que não há consenso nem na demografia, que é um dos parâmetros para se definir a juventude. Abramovay et al. (2006) salientam que o uso de diversas faixas não é infrequente.
De acordo com Esteves e Abramovay (2007), os estudos com jovens no Brasil utilizavam a faixa etária compreendida entre 15 e 24 anos. A faixa dos 25 aos 29 anos só foi incorporada ao conceito de juventude após a pesquisa "Juventude, juventudes: o que une e o que separa", realizada pela UNESCO em 2004, com o objetivo de facilitar as comparações internacionais, regionais, temporais, socioeconômicas etc., que utilizam este grupo em suas investigações.
Atualmente o Estatuto da Juventude (Lei 12.852/13), lei brasileira que estabelece os direitos garantidos e promovidos pelo Estado, fixa a faixa compreendida entre os 15 e 29 anos como foco das políticas de governo voltadas à juventude.
Em Portugal, na investigação realizada para a obra “Culturas Juvenis”, Pais (2003) selecionou para entrevistas jovens dos 13 aos 29 anos. Em 2009 na França o Institut National de la Statistique et des Études Économiques – Insee (INSEE, 2014), publicou uma pesquisa sobre desemprego entre os jovens, utilizando a faixa etária dos 19 aos 34 anos. Esteves e Abramovay (2007) fornecem exemplos de outras faixas em outros países, conforme segue:
É comum o uso da faixa de 15 a 24 anos na definição de juventude. No entanto, tal procedimento nem sempre é adotado. Por exemplo: na pesquisa espanhola, Informe Juventud en España, o intervalo é de 15 a 29 anos; já na Encuesta Nacional de Juventud 2000, realizado pelo Instituto Mexicano
de la Juventud, o intervalo pesquisado é o de 12 a 29 anos. No debate
contemporâneo sobre juventude, não são raros aqueles que defendem a extensão dessa faixa etária para além dos 24 anos, uma vez que a construção da autonomia – característica fundamental dessa etapa da existência – avança crescentemente sobre os anos a partir desse ciclo etário (ESTEVES; ABRAMOVAY, 2007 p. 21, grifos dos autores).
Os países em desenvolvimento mais comentados nesse início de século que, junto com o Brasil, formam o bloco BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do
Sul, também apresentam faixas etárias diferentes. De acordo com Osorio (2014), na Rússia, as políticas para a juventude são trabalhadas na faixa entre 14 e 30 anos; na África do Sul, entre 15 e 35 anos; na Índia o 12º Plano Quinquenal Indiano considera juventude a população que se encontra entre 10 e 35 anos de idade. Já na China coexistem duas faixas oficiais, o Chinese National Bureau of Statistics considera jovens aqueles com idade entre 15 e 30 anos, enquanto a China Youth Federation considera a faixa entre 18 e 40 anos de idade.
Mesmo com a aparente impossibilidade de fixar os limites etários de maneira uniforme, pois as juventudes se apresentam diversas em diferentes países/culturas, as análises não podem prescindir dessas dimensões quando buscam a definição de juventude, pois há uma correspondência com faixas de idade, mesmo que os limites entre infância e maturidade não possam ser definidos rigidamente.
Se há algaravia nas definições demográficas, o mesmo acontece quanto ao contexto sociológico. A juventude pode ser expressa através de diversos olhares: segundo Bourdieu (2000, p. 164), “a juventude e a velhice não estão dadas, mas se constroem socialmente na disputa entre jovens e velhos”. De acordo com Pais (2003, p. 30), dentre outras representações, “Histórica e socialmente, a juventude tem sido encarada como uma fase de vida marcada por uma certa instabilidade associada a determinados «problemas sociais»”. Sousa (2006, p. 10) afirma que “Ser jovem é viver um contato original com a herança social e cultural, constituído não apenas por uma mudança social, mas por fatores biológicos”. Para Gomes et al. (2008, p. 36), juventude é também “[...] tempo de espera, espera da plenitude de adulto, de poder e prestígio, cabe-nos reconhecer que as juventudes não são totalmente protagonistas e independentes”.
De acordo com Pais (2003), não há um conceito único de juventude que consiga abranger a complexidade semântica da palavra, e a noção de juventude só obteve coerência social quando foi observada como prolongamento da fase de vida entre a infância e a idade adulta. Margulis e Urresti (1996) corroboram Pais (2003) quando afirmam que juventude não é só uma palavra.
Pais (2003, p. 44) assevera que “não há uma forma de transição para a vida adulta: haverá várias, como várias serão as formas de ser jovem (segundo a origem social, o sexo, o habitat etc.) ou de ser adulto”. Assim, a evolução do estágio jovem para o estágio adulto não é contínua, é marcada por mudanças sociais, econômicas, históricas, culturais etc. Margulis (2001, p. 43), por sua vez, afirma que “a Juventude
deve ser analisada como uma condição relacional determinada pela interação social, cuja matéria básica é a idade processada pela cultura.” Segundo Bourdieu (2000, p. 113), “A idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável”.
O ser social sofre interferências ao longo de sua existência, assim, não é possível supor que o jovem carente tenha a mesma percepção de mundo que tem o jovem de classe média alta, que um homem jovem passe pelos menos dilemas e alegrias de uma mulher jovem, que a juventude de hoje seja igual à dos anos 1960, que o jovem do Brasil profundo tenha a mesma avaliação de mundo que o jovem de uma grande capital.
Quapper (2001) indica quatro variantes utilizadas para compreender a juventude, aqui nominadas de: homogênea, sanduíche, arrojada e tramontana. A primeira versão, tida como clássica, é a que trata os jovens como iguais, a juventude é similar para os incluídos na mesma faixa etária, sendo, portanto, homogênea. A segunda é a que classifica os jovens como indefinidos, ora assumindo papéis e atitudes maduras, ora atuando e agindo com infantilidade, tratando da transição para o mundo adulto; seria a juventude sanduíche. A terceira versão compreende que os jovens acumulam experiências vividas, transformando-as em vitalidade e alegria de viver, seria a juventude arrojada. Por fim, a quarta e última versão vê a juventude como a geração que assumirá a posição dos adultos, continuando assim a reprodução social, entretanto, apresentará novas características advindas das suas experiências vividas, seria a juventude tramontana.
Magalhães (2000) entende que geração compreende relações familiares, entre amigos e colegas de trabalho, agremiações científicas, esportivas e culturais e que implica ainda em estilos de vida, modo de ser, saber e fazer, ideias, valores e graus de absorção científica e tecnológica. Mannheim (1962, p. 184) afirma que indivíduos de uma mesma geração possuem algumas experiências semelhantes e podem em alguns casos desenvolver reações em comum, entretanto, não chegam a constituir uma classe porque “as semelhanças existentes entre os membros de tal estrato não são fundamentais e consequentemente não podem integrar-se”.
Diante da diversidade que se configura no ser jovem e seus diferentes atributos, Pais (2003, p. 47) afirma que “diferentes juventudes e a diferentes maneiras de olhar essas juventudes corresponderão, pois, necessariamente, diferentes teorias”, das quais destaca as duas principais correntes: a corrente geracional e a corrente classista.
Na teoria da corrente geracional, a juventude é constituída por um conjunto social que tem como particularidade ser composta por indivíduos que pertencem a certa fase da vida, na qual seus integrantes buscam um perfil uniforme e homogêneo característico de uma cultura juvenil específica, que se opõe a outras gerações, mais especificadamente a adulta, o que define, portanto, as gerações em marcos etários.
A problemática central dessa corrente, segundo Pais (2003), é a reprodução social, a continuidade e descontinuidade dos valores intergeracionais, pois, como diversas gerações convivem ao mesmo tempo e dividem alguns espaços comuns, existe a possibilidade de conflitos pela dialética da troca de influências.
Se, por um lado, as gerações mais jovens são influenciadas por instituições sociais tradicionais, como família e escola, e reproduzem as crenças, valores e símbolos percebidos, por outro lado, influenciam também os adultos, num processo que Pais (2003) denomina de juvenilização: “É este processo que se pode designar por juvenilização e que implica que a sociedade modele a juventude à sua imagem, mas, ao mesmo tempo, se rejuvenesça.” (PAIS, 2003, p. 53, grifo do autor).
Nessa interação há uma mútua influência, o que não garante a aquisição de características bem definidas a todos os membros que compõem o grupo de jovens. Diante disso, Pais (2003) afirma que várias críticas podem ser lançadas à corrente geracional, dentre elas e principalmente, a atribuição da homogeneidade à juventude, pois há o risco de atribuir-se a toda uma geração comportamentos desviantes de um grupo ou um fato específico. Tome-se, por exemplo, a discussão acerca da redução da maioridade penal no Brasil, uma campanha que coloca no mesmo arcabouço de violência todos os jovens compreendidos na faixa etária dos 16 aos 18 anos.
Na corrente classista, a concepção é diversa. Nela as gerações são formadas por um conjunto social heterogêneo, no qual se alinham culturas juvenis diversas, pertencentes a diferentes status, níveis de poder, interesses, situações econômicas, ocupacionais etc., sendo a passagem para a vida adulta permeada por desigualdades sociais, tanto pela pertença de condição social, quanto pela de gênero. Para a corrente classista a reprodução social também é relevante, entretanto, se configura em relações antagônicas de classe, de resistência por parte dos jovens às influências conceituais estabelecidas pelas classes dominantes.
Segundo Pais (2003, p. 62), “As distinções simbólicas entre os jovens (diferenças de vestuário, hábitos linguísticos, práticas de consumo etc.) são sempre vistas como diferenças interclassistas e raramente como diferenças intraclassistas”.
Independentemente da condição social, os fatores emprego, renda e consumo fazem parte das preocupações da maioria dos jovens. Baseado na pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) de 1987, Pais (2003) relata que o desemprego é um dos maiores receios dos jovens trabalhadores- estudantes e também dos estudantes em relação ao futuro, tanto que, quando questionados frente a um teórico desemprego futuro, responderam que não se furtariam a aproveitar a primeira oportunidade de trabalho que surgisse, independente da satisfação pessoal, o que possibilitaria uma significativa mobilidade ocupacional intergeracional.
De acordo com Dubar (2005) e Giddens (2005), mobilidade intergeracional é a transposição observada ao longo de gerações, quando, por exemplo, o filho de um proletário torna-se um profissional liberal ou vice-versa. A mobilidade intrageracional, definida por Mannheim (1962) como mobilidade vertical, refere-se aos deslocamentos ascendentes ou descendentes na escala social de um indivíduo. Dubar (2005) acrescenta que, mesmo quando ocorre mobilidade ascendente de curto prazo, a maioria dos indivíduos tende a permanecer próximo dos níveis originais da família.
A juventude, portanto, só pode ser entendida na sua interação com os processos sociais nos quais está inserida, nos contextos histórico, social e econômico. Para tanto, se faz necessário analisar as mudanças da estratificação social e suas dinâmicas.