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PARTE I – DESENVOLVIMENTO, SOCIOLOGIA E PROSPETIVA ESTRATÉGICA

1. O Desenvolvimento Territorial e Sociologia

1.3. A Sociologia e o Desenvolvimento Territorial

A sociologia enquanto ciência que estuda a ação humana e em particular, os fenó- menos sociais, tem durante o seu desenvolvimento científico progredido da obser- vação não participante dos fenómenos, que na procura da inteligibilidade dos fenó- menos, possuía uma forte componente descritiva e até de tradição etnográfica, como refere Malinowsky, em 1922:

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“Só possuem um valor científico as fontes etnográficas onde é possível operar ní- tida distinção entre, por um lado, os resultados do estudo direto e, por outro, as deduções do autor”

Esta abordagem assética da ação do cientista social, evolui com a própria sociedade e com a necessidade de compreender fenómenos sociais de crescente complexidade e volatilidade, conforme referido por Guerra:

“As novas realidades da industrialização e da urbanização aproximam o terreno do olhar dos investigadores. Os receios de uma passagem traumática de uma solidariedade mecânica para uma solidariedade or- gânica preocupam os Estados, as Igrejas e as organizações filantrópi- cas que tentam, por um lado, entender as mudanças e, por outro, inter- vir em prol da integração da nova sociedade emergente” (Guerra, 2000, p. 12).

Existe por isso, um novo campo de ação para a sociologia, que requer uma nova abordagem que permita compreender os fenómenos sociais resultantes da pós-mo- dernidade.

A passagem de uma lógica de mera análise para uma de intervenção, é ainda um processo em curso, pese embora, vários sintomas indiquem que está em pleno de- senvolvimento. Um dos mais significativos é a tendência, relativamente recente, para os mix – metods na produção científica, quebrando assim uma “velha” visão de que apenas o que é quantitativo pode ser considerado objetivo. No entanto, a velha discussão ator/sistema está ainda para durar, assim como a capacidade, sem par na ciência, da Sociologia se questionar e de se reinventar adquirindo novas ten- dências e roupagens numa busca profunda do seu verdadeiro lugar científico; mero analista social ou interventor? Claramente a tendência indica que o futuro passa pela intervenção e ação sociológica.

No entanto, se nos quisermos afastar de ruturas epistemológicas e científicas pode- mos seguramente dizer que a Sociologia sempre serviu para melhor compreender não só o fenómeno social, mas em grande medida a mudança social.

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Citando Isabel Guerra (2000, p.16-17):

“Nas duas últimas décadas do seculo XX assiste-se a novas mudanças nas dinâmicas sociais. São fenómenos complexos e paradoxais asso- ciados, por um lado, à mundialização das economias e, por outro, à diversificação das culturas e dos modos de vida. Mas são também fe- nómenos de desemprego e de múltiplas exclusões, de migrações de muitos sentidos (económicas, políticas, etc.), de emergência da socie- dade civil e de polarização social, etc”.

Desta forma e com estes fenómenos, anteriormente descritos por Isabel Guerra, a serem potenciados na primeira década e meia do séc. XXI e à sua cada vez maior complexidade, assim como das suas soluções, o cientista social é chamado a um papel cada vez mais central nas políticas de desenvolvimento das empresas, dos territórios e das organizações, ou pelo menos, ao apoio à tomada de decisão. Considerando Kotler (1996, p.32); “A grande preocupação de vários decisores re- side assim na insuficiente capacitação das organizações para enfrentarem as mu- danças num ambiente adverso, no qual a taxa de mudança contextual irá aumentar e as pressões sobre as organizações para se transformarem crescerão nas próximas décadas.”

Esta “nova” complexidade pressupõe também novos desafios e consequentemente novas maneiras de lidar com estes fenómenos, que se ancoram em grande medida na sociologia da ação.

Guerra (2000, p.15), para quem “a fundamentação da Sociologia de intervenção tem origem na conciliação entre ator e sistema, dito de outra forma retoma alguns dos pressupostos das teorias de Freud e Marx”, assume que o papel do Sociólogo é “interventivo na própria sociedade - não sendo ele um elemento estranho ao meio em que se movimenta e analisa, assim como assume a influência dos seus valores e perspectivas sobre o mundo, na sua produção científica”.

A integração desta perspetiva e como refere a autora, a “conciliação” entre ator e sistema aparece numa lógica de análise de uma pós-modernidade sociológica, Guerra (2000, p.16-17)

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“Nas duas últimas décadas do século XX assiste-se a novas mudanças nas dinâmicas sociais. São fenómenos complexos e paradoxais associ- ados, por um lado, à mundialização das economias e, por outro, à diver- sificação das culturas e dos modos de vida. Mas são também fenómenos de desemprego e de múltiplas exclusões, de migrações de muitos senti- dos (económicas, políticas, etc.), de emergência da sociedade civil e de polarização social, etc.”.

Assim, o emergir de novas lógicas, dinâmicas e formas de organização social e acima de tudo, o facto da velocidade das alterações destas dinâmicas sociais ser cada vez maior e difícil de acompanhar, exige uma outra capacidade de análise do social, uma vez que as relações causa/ efeito em matéria do social perdem cada vez mais a sua linearidade e previsibilidade.

A relação entre o sujeito e a ação coletiva tem sido ao longo dos tempos, uma das mais debatidas na produção científica, nomeadamente, quanto ao grau de influência das estruturas sociais nos indivíduos, mas também quanto às singularidades do in- divíduo nas grandes linearidades e regularidades do social.

Este debate foi levado a cabo por diversos autores nas últimas décadas, desde Boudon a Mendras e mais recentemente Giddens.

Na lógica da sociologia da ação e ainda com Guerra ( 2000, p.21); “situam a socio- logia nos processos de “interacção” e de “interpenetração” entre os “sistemas pes- soais” e os “sistemas sociais”. O ponto de partida desta reteorizacao assenta numa nova concepção do sujeito e da vida social, procurando as suas rearticulações com as lógicas dos sistemas sociais e de dominação”.

Consideramos assim, que existe sempre espaço para a ação do indivíduo no social e que ele produz influências na linearidade do coletivo e dos padrões sociais, sendo que num contexto de cultura democrática evoluída, essa ação do indivíduo é mais eficaz e mais evidente.

Desta forma tal como Guerra, entendemos “os factos sociais sob a forma de acção, isto é, reconhece que os acontecimentos sociais são produto de acções individuais agregadas” (Guerra, 2000, p.34).

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