PARTE I – DESENVOLVIMENTO, SOCIOLOGIA E PROSPETIVA ESTRATÉGICA
1. O Desenvolvimento Territorial e Sociologia
1.2. O Desenvolvimento Local e o Desenvolvimento e o Local
Através da sua obra “Small is Beautiful” (1978), Ernest Schumacher contribuiu para a valorização do local, da sua identidade e dos seus recursos como fator fun- damental para promover o desenvolvimento. Estes processos iniciam-se pela recusa à resignação perante a possibilidade da decadência ou mesmo desaparecimento de uma determinada comunidade local e em que, a promoção de processos de desen- volvimento local se torna uma questão de sobrevivência.
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Como lembra José Arocena (2002, p.7):
“La dinámica se inicia por una negativa a aceptar la desaparición o la muerte de una comunidad local determinada. La identidad local se re- bela y descubre que la única posibilidad de supervivencia es impulsar procesos de desarrollo localmente controlados. De la capacidad para concretar esta dinámica en acciones que aporten resultados socio- económicos dependerá el éxito o el fracaso de estas iniciativas de raíz cultural.”
Schumacher lança a ideia de que a pequena dimensão é a melhor forma de lidar com a mudança. Desta forma, “o local” tem melhores argumentos para minorar as consequências dos modelos de desenvolvimento cegos e abruptos, que não tinham em consideração, o potencial humano presente no território e o potencial e a capa- cidade do próprio território, gerar riqueza e contribuir para o seu próprio desenvol- vimento.
Refere ainda Arocena (2002, p.7) que:
“El fomento de la pequeña empresa, las acciones de capacitación de potenciales creadores de empresa, las políticas de formación para el empleo, las iniciativas de las instituciones locales en materia socio- económica, los llamados polos de reconversión, etcétera. son expre- siones de estos esfuerzos por movilizar los recursos humanos en período de crisis”.
Todas estas e outras iniciativas que podem ser levadas a cabo localmente, conside- rando os recursos existentes no território, podem ajudar a promover e a concretizar um desenvolvimento local de cariz endógeno, sustentado e imune a deslocalizações, despedimentos massivos e outros efeitos secundários do modelo de desenvolvi- mento industrial / capitalista / Fordista.
Na verdade e seguindo ainda Arocena (2002, p.8):
“Existe un lugar, una dimensión, una escala en la que la búsqueda de superación de las formas tradicionales de desarrollo se articula con esta nueva valorización de la iniciativa: la escena local. Allí convergen
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la necesidad de crear riqueza con la necesidad de salvaguardar los re- cursos naturales, la urgencia por generar empleos con la urgencia por responder a las necesidades esenciales de la población. En la escena local se expresa como en ningún otro nível la articulación entre lo sin- gular y lo universal”.
Nessa nova perspetiva, segundo Muchnik (1997, p.515), o território não é apenas o contexto onde se desenvolvem as atividades económicas / sociais /culturais:
"Nous pouvons considérer le territoire comme «une source de ressources», ressources sociales et culturelles (institutions, organisations, savoir-faire, cultures gastronomiques...) mais également biotechniques et naturelles (sols, produits, paysages...). Il peut donc être considéré comme un acteur stratégique potentiel capable de combiner et activer ces ressources, un facteur d’assemblage d’activités pour incrémenter leur compétitivité”
Esta plenitude da abordagem territorial integrada sendo mais fecunda, encerra várias possibilidades que podem ser exploradas localmente. No entanto, como pressuposto genérico, um dos aspetos mais interessantes é o processo de construção de um território. Segundo Marques (2011, p.80), “O território constituído como espaço social produzido e delimitado por uma fronteira que o ordena, é construído como representação: tanto pode ser uma ferramenta, como um recurso para o desenvolvimento económico e social”. É em larga medida, esse o objetivo da prospetiva territorial, contribuir de forma decisiva para o desenvolvimento de um território, encarar o território como o resultado de uma série de estratégias, prioridades, objetivos, ações coletivas, não pré-determinadas.
Podemos e devemos questionar-nos sobre que tipo de desenvolvimento queremos: se de tipo polarizado / industrializado / capitalista / Fordista ou em alternativa de índole local / Integrado/ Ambientalista, que tipo de sociedade pretendemos construir, porque os processos de Desenvolvimento sejam eles quais forem, devem
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servir a Sociedade e não de ela se servir, para obter um lucro que é conseguido a qualquer custo: ambiental / social/ cultural.
A expressão “do cultural ao económico”, de José Arocena (1986), pode sintetizar aquilo que é um processo de desenvolvimento de base local, em que o ponto de partida são os recursos endógenos do território. Ora, neste “caminho” desde o cultural até ao económico, desde a “leitura” do território, conhecimento da cultura, correto levantamento dos seus recursos e planeamento estratégico com vista à definição do seu modelo de desenvolvimento, devem também ser levados em conta outros fatores para alem do económico. Também a sustentabilidade ambiental e a análise prospetiva deverá ser levada em linha de conta, bem como a participação da população local em todo o processo, de forma a que, este possa ser validado pelo que é mais importante em qualquer processo de desenvolvimento - As Pessoas!
De qualquer das formas, um processo de Desenvolvimento Local, é “un processo que és sempre especifico” (Arocena,1986, p.74), e é, muitas vezes, esta especifici- dade que o torna mais difícil de implementar do que os processos “básicos” de de- senvolvimento polarizado. Mas, como a História se tem encarregado de demostrar, este último tipo de desenvolvimento (o industrial) tem artificialidades e efeitos se- cundários em termos sociais e ambientais, que a sociedade tende a determinar como inaceitáveis, pelo que a alternativa são os modelos de base local que se constroem de acordo com os recursos e especificidades culturais do território. Dessa forma pretende-se que os mesmos possam ser duradouros e acima de tudo servir uma so- ciedade mais equilibrada, que gera e deixa recursos para as gerações vindouras. É fundamental que estes processos possam ser despoletados pelos atores locais, uma vez que apenas eles conseguem ter um conhecimento abrangente e aprofun- dado do território, que permita possuir os dados fundamentais para que um processo de desenvolvimento local possa ser levado a cabo. Os atores locais são chave em todo o processo e são eles que o devem protagonizar.
Segundo Arocena (2002, p. 9):
“En el nível socioeconómico, toda sociedad conforma un sistema de relaciones constituido por grupos interdependientes. Este sistema
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puede ser llamado sociedad local cuando lo que está en juego en las relaciones entre los grupos es principalmente de naturaleza local. Di- cho de otro modo, la producción de riqueza (por mínima que sea) ge- nerada en el territorio es objeto de negociaciones entre los grupos so- cioeconómicos y se convierte así en el estructurante principal del sis- tema local de relaciones de poder.”
Podemos considerar uma sociedade local devidamente organizada, quando as rela- ções existentes entre os grupos e atores são essencialmente promovidas pela per- tença ao território e quando as suas interações, geram a riqueza que se pode consi- derar local, sendo esta, uma análise meramente socioeconómica.
Ainda com Arocena (2002, p.9),
“En este primer nível, para que exista sociedad local debe haber riqueza generada localmente sobre la cual los atores locales ejerzan un control decisivo, tanto en los aspetos técnico-productivos como en los referidos a la comercialización”
Já numa perspetiva cultural, a pertença a uma sociedade local expressa-se através da integração num determinado grupo que possui características que são entendidas como comuns e não raras vezes específicas, como um sotaque, uma forma de estar, uma ideia, um projeto partilhado.
Nas palavras de Arocena (2002, p.9);
“Já no que se refere a uma identidade local, aqui a componente histórica tem uma importância extrema, a identidade de um território não se faz sem historia e são as vivências colectivas que vão sendo reproduzidas através de, por exemplo; tradições, momentos importantes na história comunitária, grupos de expressão cultural de natureza etnográfica, e ou- tras, que a identidade cultural de um grupo e de um território se vai construindo”.
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Referindo Arocena (2002, p.12),
“esta continuidad vivida conscientemente por un grupo humano, gene- radora de una acumulación cultural en términos de sistemas de normas y valores, es la base de la constitución de la identidad colectiva. El término continuidad no se refiere sin embargo a un proceso lineal y sin rupturas. Por el contrario, la identidad es por un lado continuidad y por otra ruptura”.
Noutra perspetiva, através de Sabourin et al (2002, p.32)
“A abordagem territorial do desenvolvimento, particularmente a do de- senvolvimento rural, remete à ampliação das categorias de análise, além dos enfoques mercantis e setoriais. Trata-se de considerar, ao mesmo tempo - de maneira global, ampla, específica e localizada -, as condi- ções, os fatores e as mudanças produtivas e socioeconómicas, assim como as dinâmicas locais, regionais ou mundial, associadas a esses pro- cessos”.
Desta forma a perspetiva, mesmo na abordagem territorial / local deve ser sempre integrada num olhar mais amplo, pois embora local o seu cariz integra também fa- tores exógenos e multi-escala. Esta ideia é sintetizada no termo “glocal” que junta uma referência global ao termo local, por outras palavras, agir localmente e pensar de forma global.