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5.3 As interações entre as crianças

5.3.2 A solidariedade que emerge entre as crianças

Como foi anunciado no capítulo referente à descrição da rotina da creche, a

solidariedade é um valor moral presente entre a maioria das crianças da turma “D”,

mesmo que a professora não incentive ou, sequer, se dê conta disso.

São muitos os exemplos que evidenciam as atitudes solidárias entre as crianças. Eis alguns deles:

No parque, uma das crianças cai de cima da casinha de brinquedo e chora bastante. Nenhuma das professoras percebe. Meu impulso inicial é socorrê -la, já que não consegui evitar a queda porque estava de cabe ça baixa, fazendo uma anotação. Uma de suas colegas de sala, contudo, adianta-se a mim, ajuda a companheira a levantar e a leva até onde está Renata. Esta, por sua vez, não dá muita atenção ao ocorrido. Olha a boca da criança, acredito que para conferir se está sangrando, e, diante da negação dessa hipótese, solicita que Carla a leve para lavar o rosto, como se isso ajudasse a passar a dor e fazê -la se acalmar. De volta ao parque, a criança continua a chorar, agora em um pranto solitário, recostada à casinha de onde havia caído. Mais uma vez sua colega se aproxima e lhe afaga os cabelos.

(NOTAS DE CAMPO, 23/4/2009) Há 10 minutos, Cláudia, uma das crianças da sala de Renata, permanece deitada no canto do pátio. Parece cansada, sem energia, talvez entediada. Nenhuma das professoras parece perceber seu estado. É quando Guto se aproxima e lhe oferece uma bola. A menina sorri, pega a bola e começa a brincar. Henrique, que observa tudo de longe, se aproxima e tenta tomar-lhe a bola. Cláudia segura firme o brinquedo e não o deixa levá-lo. Henrique, por sua vez, vai até Guto, lhe diz alguma coisa e aponta para Cláudia. Guto se

aproxima da menina e diz: “Tu deixa ele brincar contigo?” [apontando para Henrique]. Cláudia faz que sim com a cabeça e Guto continua: “Tu joga pra ele e ele joga pra tu, tá?” Todos concordam e começam a brincar.

(NOTAS DE CAMPO, 30/4/2009) Ester chega à creche com semblante triste. Entra na sala, mas fica parada, recostada à parede. Beatriz, que está sentada observando alguns livros, percebe a presença da colega, aproxima-se, diz-lhe alguma coisa e puxa sua mão, como se a convidando para olhar os livros com ela. Ester atende ao pedido e ambas iniciam um diálogo sobre as gravuras de uma história.

(NOTAS DE CAMPO, 11/5/2009)

A solidariedade que vai se edificando entre as crianças reforça a afirmação

(1995, p.100). Nesse aspecto, a Educação Infantil constitui-se um contexto privilegiado para que, através das interações, as crianças desenvolvam valores importantes e necessários às suas vidas, como é o caso da solidariedade.

É preocupante perceber, todavia, que a maioria das situações em que as crianças desenvolvem atitudes solidárias para com os colegas na turma “D”, é ocasionada pela ausência da professora ou de uma conduta pouco solícita de sua parte diante das circunstâncias cotidianas que as envolvem. Assim, a pequena importância atribuída por Renata às angústias, dores e demonstrações de desânimo das crianças, certamente contribui para que elas sintam a necessidade de se ajudarem.

Sabe-se que a afetividade humana (incluindo-se os aspectos emocionais e morais), é construída culturalmente (VIGOTSKI, 2001), sendo seus aspectos organizados, concebidos e nomeados de forma distinta em diferentes grupos sociais. A cobiça e a generosidade, por exemplo, articular-se-ão de formas diversas em sociedades capitalistas e em comunidades tradicionais onde não exista o dinheiro (OLIVEIRA; REGO, 2003).

Assim, a imersão cultural das crianças em um ambiente em que a solidariedade não é incentivada, valorizada ou praticada por aqueles que convivem com elas diariamente, trará como provável consequência à redução desse tipo de conduta, o que é preocupante.

De acordo com Arantes (2003), para que os professores possam desempenhar o seu papel de maneira mais eficaz em relação ao aspecto afetivo das crianças, seus estados emocionais devem ser positivos, baseados na alegria e na satisfação interna. Para a autora:

(...) um planejamento didático e pedagógico elaborado segundo tal concepção [em que os sentimentos pessoais e interpessoais são considerados como objetos de conhecimento], e sua consequente realização no cotidiano das salas de aula, poderá levar alunos e alunas a construírem personalidades mais autônomas, justas e solidárias, a serem mais conscientes de si e de seus próprios sentimentos, e a construírem uma vida pessoal e coletiva mais feliz (p. 126).

Ainda segundo Arantes (ibidem), é necessário admitir a necessidade de uma escola mais alegre e feliz. Seus estudos revelam que “quando estamos felizes e/ou satisfeitos, analisamos e compreendemos as necessidades e os problemas dos demais

Nesse propósito, os cursos de formação devem pensar em estratégias de trabalho que valorizem a autoestima e a autoconfiança dos professores, reconhecendo as habilidades e os interesses de cada profissional. Talvez assim sejam criadas condições para a edificação de valores morais como a solidariedade, generosidade e responsabilidade, tão importantes para quem trabalha com qualquer etapa da educação e, em especial, com a educação das crianças pequenas em creches e pré-escolas.

6 COMPREENDENDO AS INTERAÇÕES E A CONSTITUIÇÃO DA

SUBJETIVIDADE DAS CRIANÇAS ATRAVÉS DA ANÁLISE DE

FOTOGRAFIAS E CENAS DO COTIDIANO

Quando adormecia na ilha de Lia, meu Deus eu só vivia a sonhar Que passava ao largo no barco de Rosa e queria aquela ilha abordar...

(Música “Na ilha de Lia, no barco de Rosa”- Chico Buarque/Edu Lobo) Para uma melhor compreensão sobre o papel das interações sociais estabelecidas entre a professora e as crianças na constituição da subjetividade infantil, nesta pesquisa, foram filmados diferentes momentos do cotidiano das crianças na creche, procurando enfocar variadas situações interativas entre elas e entre elas e a professora. Posteriormente, essas situações foram recortadas em dez cenas que se constituíram em alvo de discussão com a professora durante uma entrevista individual, conforme está expresso no capítulo referente à metodologia da pesquisa.

Além das filmagens, também foram selecionadas quatro fotografias para serem analisadas junto com a professora. Todas elas retratam situações comuns no cotidiano da instituição e que podem contribuir, positiva ou negativamente, para a constituição da subjetividade infantil.

As questões feitas à professora referentes às cenas e às fotografias foram elaboradas dentro de uma estrutura comum para facilitar a análise posterior e levaram em consideração a interpretação dela sobre o seu próprio comportamento e sentimentos, e também sua percepção sobre o comportamento, reações e sentimentos das crianças, o que possibilitou uma melhor compreensão sobre suas intervenções, ou não, em cada situação.

É importante mencionar que, desde o início da observação das cenas, Renata demonstrou muita ansiedade, tecendo comentários durante a exibição dos vídeos, apesar da orientação ter sido de primeiro observar a cena completa e só depois falar a respeito do que foi visto. Essa atitude sugere que as impressões que ela teve sobre suas condutas, captadas na condição de observadora, geraram inquietações, talvez por expor as fragilidades da sua prática.

Em diversos momentos de sua fala, podem ser percebidos elementos que esclarecem como são estruturadas suas interações com as crianças, especialmente no que se refere a aspectos relacionados com a constituição da subjetividade infantil.

A seguir, estão descritas estas cenas e fotos, na ordem em que foram trabalhadas na entrevista, e analisados os comentários feitos pela professora.