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5.2 A forma como a professora se relaciona com as crianças

5.2.3 A não escuta das crianças

Novos conhecimentos sobre as crianças, seu processo de desenvolvimento e aprendizagem, suas capacidades e habilidades, seus desejos e impressões sobre temas que lhes dizem respeito vêm-se proliferando e contribuindo para que esses pequenos cidadãos sejam reconhecidos como sujeitos completos e competentes, que possuem diversos direitos, entre eles, o direito à fala.

Nessa direção, diversas pesquisas vêm sendo realizadas com o intuito de ouvir o que as crianças têm a dizer, procurando captar o seu ponto de vista sobre assuntos a ela relacionados (CRUZ, 1987; ANDRADE, 2007; MARTINS, 2009; SCHRAMM, 2009 etc)78. Todas elas buscam romper com o olhar adultocêntrico79 sobre o universo infantil ao mesmo tempo em que valorizam a produção cultural das crianças. Segundo Cruz (2008, p.13),

Acreditar que mesmo crianças ainda bem pequenas têm o que dizer deriva de algumas ideias que vêm sendo construídas nas últimas décadas. Entre elas, tem destaque o reconhecimento de que, desde a mais tenra infância, nas suas interações sociais, as pessoas vão somando impressões, gostos, antipatias, desejos, medos etc., desenvolvendo sentimentos e percepções cada vez mais diversificados e definidos, atribuindo significados, construindo a sua identidade.

De acordo com a teoria walloniana, na constituição do eu infantil a possibilidade de a criança se expressar é fundamental (WALLON, 1981). Como já pôde ser observado até aqui, entretanto, na turma D são escassas as oportunidades de as crianças se manifestarem através de suas múltiplas linguagens. No que se refere à linguagem oral, ponto de pauta deste tópico, suas opiniões, ideias e sentimentos são constantemente minimizados ou desconsiderados pela professora, que costuma não dar a devida atenção às suas palavras. Os casos em que as crianças são obrigadas a se desculpar mesmo afirmando não serem as culpadas pelos delitos cometidos, como poderá ser observado mais adiante, no item “Os conflitos entre as crianças”, ilustram tal afirmação.

78Outras pesquisas que objetivaram escutar a criança podem ser encontradas no livro “A criança fala: a

escuta das crianças em pesquisas”, organizado por Cruz (2008).

79Segundo Gobbi (1997, p.26), no adultocentrismo “o modelo é o adulto e tudo passa a ser visto e sentido segundo a óptica do adulto, ele é o centro”.

Dessa forma, são raros os momentos de diálogo entre a professora e as crianças, e quando acontecem costumam ser rápidos e superficiais, como é o caso dos exemplos a seguir:

Rafaela vai até Renata com um livro verde na mão e diz que quer trocar porque aquele livro é de homem. Renata diz: “Não tem isso, Rafaela. Os

livros são pra todos, meninos e meninas”. Apesar da intervenção de Renata,

Rafaela vai até a estante e troca o livro. Renata não percebe ou não dá atenção ao fato.

(NOTAS DE CAMPO, 24/3/2009)

Rana tira o seu vestido e Renata lhe chama atenção de forma ríspida: “Rana, por que você tirou a roupa agora?” Não espera a resposta e já diz: “Não é para tirar a roupa agora!” Rana tenta explicar que molhou o vestido ao beber água: “Tá molhada…”. Renata a olha, mas não responde nada. Rana, então,

torna a colocar o vestido.

(NOTAS DE CAMPO, 14/4/2009) Renata está escrevendo alguma coisa na mesa, no canto da sala, enquanto as

crianças brincam com brinquedos. Valéria se aproxima e pergunta: “Tia, o

que tu tá fazendo?”. Renata diz: “Não é nada não. Volte e vá brincar.” (NOTAS DE CAMPO, 23/4/2009)

Isabela comenta com Renata que “levou uma peia [surra]” da sua mãe ontem.

A professora diz que é porque ela deve ter feito alguma coisa de errado. Em seguida, afasta-se e vai pegar alguns materiais no armário.

(NOTAS DE CAMPO, 5/5/2009)

Na hora da roda, Gilmar diz que viu uma “lagartixa bem grandona” no caminho da creche. Renata diz: “Foi mesmo?! Agora todo mundo vai lavar as mão para ir lanchar!”.

(NOTAS DE CAMPO, 5/5/2009)

Provavelmente, Renata não percebe que, agindo dessa forma, desperdiça inúmeras oportunidades de interagir e conhecer melhor as crianças, seus interesses, valores e costumes. Como lembra Cruz (2008, p.14), “O que as crianças falam pode subsidiar

ações a seu favor e contribuir para mudanças que as beneficiem”. Escutar a criança,

entretanto, requer atenção e sensibilidade por parte do professor, características que Renata, infelizmente, ainda parece não ter desenvolvido. Segundo Rocha (2008),

Faz-se necessário ampliar a abrangência dos termos ouvir e escutar para ir um pouco além [na compreensão do por que ouvir a criança]. A simples busca de uma ampliação do sentido semântico indica que o termo a uscuta não é apenas uma mera percepção auditiva nem simples recepção da informação- envolve a compreensão da comunicação feita pelo outro. Inclui a recepção e a compreensão, que, principalmente neste caso - o da escuta da criança pelo adulto-, sempre passará por uma interpretação (pp.44 e 45).

Assim, para “auscultar” a criança, conforme sugere Rocha (2008), uma postura receptiva do professor é necessária, não sendo essa tarefa restrita a uma função mecânica, uma obrigação do ofício docente. Na ausência de um professor que escute o que elas dizem e as ajude a compreender os fenômenos sociais e naturais que envolvem o seu cotidiano, algumas vezes, as crianças fazem interpretações equivocadas de determinadas situações, como levam a crer os casos descritos a seguir:

A servente da creche chega à sala D com um casulo de borboleta e o entrega à Renata dizendo que o utilize de alguma forma com as crianças. A professora agradece e o entrega a sua auxiliar, pedindo que ela guarde. Ao perceber, contudo, o imenso interesse das crianças nesse objeto que acabara de chegar, Renata pede à Carla que explique às crianças do que se trata, e segue até a mesa para concluir uma atividade que estava desenvolvendo. A auxiliar, então, pega o casulo e pergunta às crianças se elas sabem o que é aquilo. Diante do silêncio de todas, continua, dizendo: “Isso era uma lagarta. Era! Daqui a poucos dias ela vai virar uma borboleta e vai sair voando pelo céu”. As crianças se entreolham e sorriem. Após essa breve explicação, Carla guarda o casulo sem maiores justificativas. Renata também não diz nada. Alguns instantes depois, Rana, que observava tudo com ar de admiração,

comenta baixinho com uma colega: “Ah, a borboleta morreu! Depois ela vai pro céu!”.

(NOTAS DE CAMPO, 2/4/2009) As crianças estão olhando livros na roda. De repente, Beatriz joga o seu livro para Maria. Renata a repreende dizendo que os livros não são para jogar. Em um momento posterior, vendo uma de suas colegas jogar o livro no chão,

Beatriz diz: “Ei, não pode jogar no chão! Não é nem brinquedo!”

(NOTAS DE CAMPO, 7/5/2009)

No primeiro caso, Renata até demonstra sensibilidade ao perceber o interesse das crianças pelo casulo. Esse impulso inicial, entretanto, não é suficiente para que ela priorize esse momento com as crianças e assuma uma postura dialógica, questionando, levantando hipóteses e refletindo junto com elas. Dessa forma, em nenhum instante parece hesitar ou duvidar sobre o que é mais importante, conversar com as crianças ou concluir a atividade que havia iniciado.

Já no segundo caso, bem mais comum no cotidiano da sala D, a professora não atribui a atenção necessária ao gesto de Beatriz, fazendo uma intervenção rápida e sem qualquer tipo de reflexão que a ajude a perceber os motivos pelos quais não se deve jogar os objetos, sejam quais forem, no chão. Não se está querendo dizer com isso que a intervenção da professora, por melhor que seja, evitará esse tipo de conduta entre crianças. A impulsividade motora e emocional, típica dessa faixa etária, certamente fará com que situações desse tipo se repitam. Acredita-se, todavia, que uma conversa franca

com elas sobre suas ações e as prováveis consequências que podem ter, ajudá-las-á a compreender e incorporar o que deve, ou não, ser realizado diante de cada momento e os motivos para tal.

Sem espaço para se expressarem oralmente, as crianças demonstram ansiedade

quando lhes são oferecidas oportunidades para falar, como é o caso das “rodas de conversas” que acontecem de vez em quando sob a orientação da professora. Nessas

ocasiões, as crianças costumam atropelar as falas umas das outras na tentativa de serem ouvidas por Renata, que tenta gerenciar o tempo de cada uma delas. O exemplo a seguir é típico desse tipo de situação:

Renata inicia as atividades do dia pela roda de conversa. Começa perguntando como foi o final de semana e Gilmar diz que sua mãe matou uma galinha. Antes mesmo que Renata pudesse tecer qualquer comentário sobre esse fato, as outras crianças começam a falar, todas ao mesmo tempo, na tentativa de serem ouvidas pela professora, que pede silêncio e explica que cada uma tem que esperar a sua vez de se pronunciar. As crianças, contudo, organizam suas ideias de forma lenta, causando inquietação em quem tem que esperar a sua vez. Chega a hora do lanche, a roda é encerrada e muitas das crianças que manifes taram interesse em falar não são contempladas.

(NOTAS DE CAMPO, 8/4/2009)

Episódios como esse expressam a necessidade de que momentos dessa natureza, em que as crianças têm a possibilidade de expor suas ideias e falar sobre o seu cotidiano, aconteçam com mais frequência. Participando das rodas de conversas significativas, isto é, que envolvam a interlocução entre as crianças e entre elas e o professor, as crianças podem aprender a falar, a ouvir e valorizar a opinião dos amigos, a respeitar e trocar opiniões com outras pessoas, a argumentar a respeito de um assunto, a narrar episódios cotidianos, a resolver os conflitos, dentre outras coisas.

Para tanto, é necessário que o professor permita que as crianças falem livremente, sem receios; instigue a conversa sobre assuntos interessantes, curiosos para as crianças; estimule a fala de todas elas; escute e acolha suas opiniões tentando encontrar pontos convergentes e divergentes entre elas; registre as falas para retomá-las posteriormente etc. Essa, todavia, não é a realidade vivenciada na sala de Renata, que utiliza a “roda de

conversa” apenas no início da manhã, de forma rápida, e aproveitando esse momento

para também cantar com as crianças, o que toma mais o tempo da roda do que a conversa.

As rodas de história, que também poderiam se constituir preciosas oportunidades para as crianças se expressarem oralmente, nas raras vezes em que acontecem, também

acabam se tornando momentos em que a fala é centrada na professora, cabendo às crianças o papel de escutar, caladas, paradas e sentadas, a história do começo ao fim. Determinadas músicas entoadas por Renata antes do início das histórias passam para as crianças a mensagem da importância dessa conduta. Algumas delas são destacadas a seguir:

Manda na boquinha, manda na boquinha, fechou!

Atenção, concentração, ritmo, categoria: agora é hora de escutar a tia! Zip, zip, zap, minha boquinha vou fechar, para a tia escutar!

Na maioria das vezes, as crianças costumam acompanhar Renata nas canções, parecendo empolgadas. Assim, apesar de todas destacarem a necessidade de as crianças

permanecerem de “boca fechada”, elas costumam interromper a professora várias vezes

durante a contação, o que deixa Renata brava e a induz a realizar várias pausas para solicitar silêncio.

Segundo Karlson (2008), diversas pesquisas evidenciam que, na Educação Infantil, o professor detém a fala na maioria do tempo, cerca de 70% a 90%, enquanto todas as crianças juntas têm apenas algo em torno de 10% a 30% do tempo para falar.

Segundo ela, “estamos numa situação absurda: aqueles que deveriam capturar o mundo,

aprender e crescer têm pouco tempo para falar de suas ideias, interesses, opiniões,

aprendizados e para refletir com os outros” (p.167).

São inúmeras as possibilidades de aprendizagem das crianças através de atividades envolvendo histórias, sejam elas lidas ou contadas. Elas podem aprender, por exemplo, a diferenciar uma história contada de uma história lida; a relacionar texto e imagem; a antecipar significados de um texto a partir das ilustrações; a reconhecer os personagens da história; a compreender a sequência da história: o inicio, o desenrolar e o fim; a comentar, analisar, resumir a história; a identificar características de escrita de diferentes autores; a conhecer livros e autores de literatura infantil: clássica, brasileira e cearense; a manifestar suas preferências literárias e autor preferido etc.

Nessa perspectiva, o professor precisa diversificar as histórias com vários gêneros literários: contos, lendas, mitos, fábulas, parlendas, poesias, histórias em quadrinhos, e outros; diferenciar o momento de contação de histórias e o momento de leitura de histórias; ler e contar histórias diariamente; organizar o acervo literário; solicitar que as crianças escolham as histórias que querem ouvir; apresentar o livro: título, autor,

ilustrador, editora, antes da leitura da história; possibilitar que as crianças conversem sobre a história, recontem, dramatizem, imitem os personagens, manuseiem o livro após

a história, “leiam” e critiquem as ilustrações; “escrevam” e desenhem a história do jeito

que sabem etc. Infelizmente, Renata, provavelmente por falta de conhecimento, raramente, possibilita esse tipo de experiência às crianças.

5.2.4 A falta de oportunidades de realizar escolhas e o desrespeito às iniciativas das