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possessões, ou como efeitos do pecado, etc. Sua pergunta não deixa de ser: será que a resposta dada pela ilusão religiosa está sendo capaz de “proteger” o homem de seu desamparo como pretende? Será que o preço e os sacrifícios que implicam essa reposta não desamparam ainda mais o homem, na medida em que o afasta da vida na cultura? Existem respostas que impliquem um mínimo de sacrifício e um maior acesso à satisfação e à cultura, formas de amparo menos adoecedoras? Se o analista não é um sacerdote diante daquela demanda, o que ele oferta então?

Podemos responder: o horizonte de uma “superação desse modelo infantil” que constitui o núcleo da ilusão religiosa.

superada espontaneamente ao longo do crescimento, sobretudo as neuroses obsessivas da infância têm esse destino. Quanto ao resto, o tratamento psicanalítico deverá removê-las mais tarde (Freud, 1927/2004, p. 228, grifos nossos).

Se até aqui demonstramos que as ilusões religiosas são ficções inventadas pelo sujeito na tentativa de obter algum grau de controle diante do terrível, poderíamos temer que um encontro com o desamparo não mediado por essa ilusão produzisse efeitos perigosos para a relação do sujeito consigo mesmo e com os outros. É notável a resposta decididamente oposta de Freud: “sustentarei que representa um perigo maior, para a civilização, manter sua atitude atual perante a religião do que abandoná-la” (Freud, 1927/2004, p. 220).

Devemos notar que a religião não é sinonímia de ordem moral, ou garantia de uma orientação universal, visto quantas imoralidades já foram realizadas com seu apoio ao longo da história. Além disso, como vimos, a clínica demonstra cotidianamente os efeitos repressivos e sintomáticos de uma vida articulada de maneira devota e imperativa às ilusões religiosas: “cabe então perguntar se não superestimamos sua necessidade para a humanidade e se agimos sabiamente ao nela basear nossas exigências culturais” (Freud, 1927/2004, p. 223). O pensamento freudiano busca então separar cultura e religião, a vida comum e as exigências do domínio religioso. O que a resposta dada pela ilusão fomenta é um rigoroso bloqueio da oportunidade do “despertar intelectual”, uma severa contenção dos conflitos pulsionais.

A saída religiosa seria assim uma espécie de remédio que insere uma nova doença, a dependência da coerção, da contenção, tendo em vista que sem o remédio o sujeito desmorona.

Enquanto a psicanálise buscaria “uma profunda revisão dos laços entre civilização e religião”

(Freud, 1927/2004, p.224). A psicanálise freudiana se sustenta em uma aposta em obter um novo tipo de laço civilizatório que prescinda do modelo infantil presente na ilusão religiosa. O problema encontrado por Freud é que a religião estanca o potencial transformador da cultura,

inserindo uma rigidez e uma imutabilidade na relação do sujeito com as leis. Essa articulação gera uma forma de vida em constante luta contra a civilização, um sujeito inimigo da cultura:

[...] seria uma vantagem indiscutível deixar Deus de fora e honestamente reconhecer a origem puramente humana de todas as instituições e normas culturais [...]

Com sua pretendida santidade, também desapareceria a rigidez e a imutabilidade desses mandamentos e leis. Os homens poderiam compreender que estes são criados não tanto para dominá-los, mas para servir a seus interesses; adotariam uma atitude mais amistosa para com eles, visariam seu melhoramento, em vez de sua abolição. Este seria um importante progresso no caminho que leva à reconciliação com as pressões da cultura (Freud, 1927/2004, p.226, grifos nossos).

As leis não são imutáveis, não são inimigos, e a cultura não é apenas cerceamento, mas um meio para o laço entre os homens. Ali aonde a instituição e a lei presentificam seu erro, seu impasse, sua falha e sua tensão interna, caberia ao homem não o desespero, a destruição da cultura, e o apelo ao dogma ou à imutabilidade das leis de Deus, mas uma tomada de posição para seu melhor “acabamento”. Aqui fica claro que Freud não faz um elogio ao verter das pulsões, um liberalismo perverso egoísta pansexualista ou destrutivista, mas a um reposicionamento do homem frente à cultura, um novo laço a ser constituído entre o sujeito e a lei, entre o sujeito e o outro.

Vimos que a relação que o sujeito estabelece com a cultura, a partir do modelo infantil, é aquele baseado no recalcamento e no medo. O “crescimento” seria depender cada vez menos da repressão e do medo como respostas frente às exigências pulsionais, poder responder a elas a partir de um “trabalho intelectual racional”. O tratamento analítico seria responsável por oportunizar essa nova. Entendemos esse trabalho como a construção e a sustentação de um saber-fazer para além da dinâmica puramente afetiva presente no modelo infantil. Esse passo a ser conquistado no trabalho de análise é evidenciado nos seguintes trechos:

[...] em seus tempos de insciência e fraqueza intelectual ela só pôde fazer as renúncias instintuais indispensáveis à convivência humana recorrendo a forças puramente afetivas [o modelo infantil]. Os precipitados dos processos similares à repressão, ocorridos na pré-história, permaneceram ainda por muito tempo na cultura. A religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade, originando-se, tal como a da criança, do complexo de Édipo, da relação com o pai. Segundo essa concepção, é de supor que o afastamento da religião deverá suceder com a mesma fatal inexorabilidade de um processo de crescimento, e que justamente agora nos encontramos no meio dessa fase de desenvolvimento.

[...] pudemos formar a concepção das teses religiosas como relíquias neuróticas, digamos, e hoje podemos afirmar que provavelmente é hora de, como acontece no tratamento analítico, substituir os efeitos da repressão pelos resultados do trabalho do intelecto. Pode-se prever — mas dificilmente lamentar — que essa reelaboração não ficará na renúncia à transfiguração solene dos preceitos culturais, que uma revisão geral destes últimos deverá trazer a abolição de muitos. É desse modo que nossa tarefa de conciliar os homens com a cultura será realizada em ampla medida (Freud, Freud, 1927/2004, p.229).

É interessante que Freud observa que não devemos lamentar as modificações que esse novo trabalho civilizatório articulado a partir da psicanálise pode acarretar (pelo desrecalcamento de certas satisfações pulsionais). O trabalho analítico não é sem conflito; ele traz o conflito para o cerne da lei, e o desejo e a verdade subjetiva para o cerne da cultura. A comparação com o trabalho analítico ganha ainda mais interesse quando Freud afirma que esse trabalho não se restringe a uma mera queda da dimensão “solene”, religiosa, formal, da cultura como Obra Divina intocável, mas implica mesmo a eliminação de determinados códigos, isto é, um reposicionamento do sujeito capaz de reformular parte desse código, no qual ele pode

também assumir seu lugar de inventor na cultura, ao invés de ser apenas espectador e devoto a ela.

Quando Freud (1927/2004, p.230) afirma que podemos “substituir os fundamentos afetivos pelos racionais”, devemos entender que, além de uma mera aposta no saber científico como operador fundamental da cultura, ele também está se referindo a essa “razão”

transformada pela psicanálise. Sua aposta na ciência como fundamental para a constituição desse novo laço com a cultura inclui a aposta em sua ciência, extremamente subversiva, inclusive para o paradigma científico de sua época.

Importante enfatizar que Freud não está estabelecendo um grito de guerra a favor da eliminação instantânea da religião, ele sabe que “quem tomou soníferos durante décadas naturalmente não dorme quando o privam do remédio” (Freud, 1927/2004, p.233). Os efeitos de uma empreitada como essa não deixariam de ser terríveis e sintomáticos, como os sintomas da abstinência frente à ausência dos narcóticos. Sua aposta é na mudança subjetiva paulatina que sua psicanálise busca alcançar e, do ponto de vista social, em novas maneiras de educar e de legislar fomentadas pelos recursos da ciência psicanalítica. Mas pode ser chocante uma aposta como essa, qual seja, de uma sociedade que possa prescindir em sua organização das ilusões religiosas:

Discordo, portanto, quando você conclui que o ser humano é incapaz de prescindir do consolo da ilusão religiosa, que ele não suportaria, sem ela, o peso da vida, a realidade cruel. De fato, não o indivíduo a quem desde a infância tenha sido instilado esse doce

— ou doce-amargo — veneno. Mas e outro, que tenha sido educado sobriamente? Não sofrendo da neurose, talvez ele não necessite de um tóxico para entorpecê-la. Claro que o ser humano se verá então numa situação difícil, terá de admitir seu completo desamparo, sua irrelevância na engrenagem do universo, já não será o coração da Criação o objeto da carinhosa atenção de uma Providência bondosa. Estará na mesma

situação de um filho que deixou a casa do pai, que era aquecida e confortável. Mas não é inevitável que o infantilismo seja superado? O ser humano não pode permanecer eternamente criança, tem de finalmente sair ao encontro da “vida hostil”. Podemos chamar a isso “educação para a realidade”; ainda preciso lhe dizer que o único objetivo deste trabalho é chamar a atenção para a necessidade de dar esse passo? (Freud, 1927/2004, p.234, grifos nossos).

Nesse trecho, Freud não poderia ser mais categórico em relação ao seu objetivo com O Futuro de uma Ilusão (1927/2004): a “necessidade de dar esse passo”. O passo da “criança eterna” ao “encontro da vida hostil”. Ser criança aqui é constituir uma vida alienada nas ilusões, uma vida de negação do desamparo, uma vida na posição de objeto devoto pela proteção do Outro. Posição de resignação e de medo diante da vida. O “encontro da vida hostil”, pelo contrário, é invocação de uma nova posição, posição de um sujeito que não espera mais as garantias de um Outro, que se lança à vida, com suas delícias, riscos e limites.

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