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longe de dar alguma vantagem aos analistas, acaba por se tornar indício de muitos impasses.

Essa última contribuição do uso de Handhabung é importante para nos lembrar, como uma crítica a certas leituras do senso comum psicanalítico, que o manejo do analista está longe de significar um estilo “autêntico” por meio do qual o analista insere seu Eu no tratamento, dando seu “toque” pessoal. Manejar, em psicanálise, não é ser reduzido a ser um analista “maneiro”.

É a partir 1911, mais especificamente a partir dos Artigos sobre técnica, que essa profusão de usos do termo Handhabung cede cada vez mais à uma via comum, passando a se restringir quase que exclusivamente ao sentido relativo aos métodos e às técnicas.

transferência. O analista, em seu manejo, deve ter o término da análise enquanto seu horizonte e os meios para isso encontram-se na associação livre e na transferência.18

Mesmo afirmando que “em psicanálise nunca é óbvia a resposta a questões técnicas”

(Freud, 1911/2006b, p. 87), considerando que vários caminhos podem ser frutíferos na realização da cura, Freud, através desse texto, não se furta de buscar indicar quais seriam os bons e maus manejos de uma análise, questão cara aos psicanalistas. Um exemplo de mau manejo aparece em relação ao sonho – apesar de Freud se referir ao sonho aqui, pode-se estender suas observações para toda formação do inconsciente. Ele observa que um analista, no decorrer do tratamento, pode ter seu interesse capturado pelo conteúdo do sonho e por seu empenho em decifrá-lo de maneira completa. Esse interesse focado do analista em certos sonhos pode acabar impedindo o analisando de trabalhar outras questões imediatas que o levam à terapia e, em uma espécie de efeito cascata, impedir o trabalho de novos sonhos e novos conteúdos.

Ao perceber o desvio que a direção do tratamento sofre a partir dessa captura, Freud esclarece que o trabalho do analista é um trabalho sobre a superfície do dito e não sobre suas profundezas:

À semelhante técnica devemos contrapor esta regra: para o tratamento é do máximo valor se atentar, cada vez, da superfície psíquica do enfermo, e manter-se sempre orientado para os complexos e as resistências que por aquele momento possam mover-se em mover-seu interior, e para a eventual reação consciente que guiará mover-seu comportamento frente a isso. Quase nunca é lícito demover essa meta terapêutica em nome do interesse pela interpretação dos sonhos (Freud, 1911/2006b, p. 88).

18A noção de manejo continuará associada à de interpretação 14 anos depois, no texto Autobiografia (Freud, 1925/2001a): “Assim, no âmbito do trabalho analítico, obtém-se uma arte de interpretação, cujo manejo bem-sucedido certamente requer tato e prática, mas que não é difícil de aprender”.

Nesse sentido, o manejo implica uma regra implícita submetida pela associação livre e pela transferência: que o analista não deve ser capturado pelo furor de esgotar uma interpretação e, assim, se desconectar da temporalidade atual da análise. Paradoxalmente, buscar esgotar uma interpretação apressadamente impossibilita esgotar a análise.

Chama-nos a atenção a advertência de Freud sobre tomar a dadivosidade de alguns analisandos, que recheiam de sonhos as primeiras sessões como uma resistência: “esse oferecimento de material não seria senão uma exteriorização da resistência, logo que se experimenta que a cura não pode dominar o material que assim se coloca” (Freud, 1911/2006b, p. 89). Conta-se, em uma anedota, de que um analisando de Freud, extremamente transferido com a psicanálise, inundava as suas sessões há alguns dias com uma profusão de sonhos e que então Freud lhe pergunta: “você não irá me trazer nada mais da sua vida consciente?” (Jorge, 2017, p.70).

Esse comentário de Freud, que pode ter tido valor analítico mais do que qualquer interpretação de sonho naquele contexto, parece realizar um corte em relação à demanda total por interpretação, que paradoxalmente impedia a própria interpretação. Nesse sentido, a advertência de Freud para o “bom” manejo parece indicar que, na verdade, a resistência à qual se refere não é mais do que aquela dos analistas que se deixam capturar por esse procedimento totalizante. A escuta do analista oferta a interpretação e em seguida os analisandos podem demandar incessantemente interpretação. Buscar responder a essa demanda no lugar do Outro que supostamente está dotado do saber e possui as respostas é aquilo que fortalece a resistência da análise, e progressivamente faz cessar a associação livre. Nesse sentido, pensa-se não ser forçado apreender a partir desse texto que a resistência é um efeito de certo tipo de manejo do analista, um manejo que busca corresponder à demanda por interpretação, sem tomar como horizonte o trabalho sobre essa própria demanda.

Ao final desse pequeno escrito, Freud responde à possível crítica se essa maneira de manejar os sonhos não implica em limitações em relação ao método. A resposta é copiosa: o manejo do psicanalista deve ir além e não se limitar a ser a aplicação de um método. Novamente, através do exemplo dos sonhos, expõe que metodologicamente poderíamos conceber que esgotar a interpretação de um sonho nos levaria à resolução completa de uma neurose (portanto ao fim da análise). Contudo, apesar de a teoria permitir que se conclua isso, essa atitude seria analiticamente inviável, pois aguçaria a resistência do analisando ao seu ápice e solaparia uma série de etapas necessárias no tratamento para que certas interpretações possam ter seus efeitos:

Na tentativa de interpretar um sonho deste tipo [sonhos muito extensos], todas as resistências presentes e ainda intactas entrarão em atividade pondo limites a intelecção.

É que a interpretação completa de um sonho desta classe coincide, nem mais nem menos, com a execução de toda a análise. Se ele foi registrado no começo da análise, é possível que se compreenda ele apenas em seu termo, muitos meses depois. É o mesmo caso do entendimento de um sintoma singular (por exemplo, o sintoma principal). Toda a análise serve para esclarecê-lo; no curso do tratamento é preciso buscar apreender, em sua série, ora este, ora este outro fragmento de significado sintomático, até que seja possível conjugar a todos (Freud, 1911/2006b, p.89, tradução nossa).

Nesse sentido, o manejo do psicanalista se mostra articulado aos tempos da cura, do sujeito e a todas as passagens necessários ao tratamento. Nesse momento, para Freud, são as resistências do analisando que colocam um limite ao “entendimento”, mas depreende-se desse mesmo ponto que é o furor por entender tudo justamente a maior resistência, pois recalca a verdade de que a interpretação possui limites, havendo algo do sintoma que não se presta à interpretação e faz o analista perder de vista aquilo que está no horizonte da cura.

Nesse texto também encontramos uma afirmação que a princípio pode parecer extremamente angustiante para os propósitos de orientação na clínica psicanalítica, mas, ao

mesmo tempo, é um dos momentos mais reveladores do horizonte que nos orienta. Exigir que os analistas deixem de perseguir as formações do inconsciente com seus propósitos conscientes e com seu furor compreensivo indica o horizonte que deve nos orientar na clínica:

Eu sei que não somente para o analisando, mas também para o médico, seria muito exigir que o tratamento resigne as representações-meta conscientes e se entregasse por inteiro a uma orientação que sem dúvida nos aparece sempre ‘contingente’. Mas, posso assegurar, somos sempre recompensados quando nos decidimos a crer em nossas afirmações teóricas, e nos convencemos a não disputar a direção do inconsciente e o estabelecimento dos elos de ligação (Freud, 1911/1990, p.91, tradução nossa).

O que orienta então o psicanalista na clínica? Freud responde: o acaso, a contingência, o inconsciente e suas tramas. Chega a soar como um chiste. Existe algo menos orientador que a contingência? Não para a clínica psicanalítica. O manejo do psicanalista prescinde de um horizonte “nos conformes” de uma meta específica; é orientado pela contingência, sua direção é a direção do inconsciente e seu trabalho é o estabelecimento da trama dos elementos que

“acontecem” nesse trabalho. Enfim, o psicanalista não poderia estabelecer uma representação do fim sem que isso pudesse afetar o próprio fim. Apesar disso, o texto é incisivo ao nos exigir ter o término da análise e a resolução da cura enquanto metas. Mas não deveríamos nos perguntar o que seria esse término que existe para mais além do representável?

Por fim, Freud é taxativo ao estabelecer que a interpretação não pode prescindir da associação livre e da transferência: “pois é evidente que se subordina a outra, mas geral, referida as fases do tratamento e ao tempo em que o doente deve ser introduzido pelo médico nas notícias do anímico escondido (Freud, 1911/1990, p. 91). Se o analista buscar escamotear as resistências por meio de estratégias sugestivas como chaves simbólicas de leitura de sonho – sonhar com rei e rainha simbolizaria as figuras dos pais idealizados, por exemplo – ou pedindo que o analisando anote os sonhos para que não os deforme tanto, nota-se que isso serviria

normalmente para o analista fazer-se detentor de um saber sobre o material recalcado “cru”.

Dessa maneira, o analisando não seria capaz de associar livremente sobre tais interpretações.

Por isso, Freud afirma ao final do texto: “Mas, não é o mesmo que saiba algo o médico ou que saiba o paciente” (Freud, 1911/1990, p.91-92, tradução nossa). A partir desse último ponto, é possível notar que a associação livre e a transferência são estratégias indispensáveis ao manejo da técnica da interpretação, pois somente através delas o analista se retira do lugar de senhor do saber, fiador da orientação no mundo, desocupa o lugar demandado pelo analisando e o cede às orientações das contingências do analisando.

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