1 REDES
2.2 Plataformas Conectadas
2.2.2 A telecomunicação digital
Como espaço de escrita, a Internet apresenta condições próprias para organização dos signos. Isso é observável tanto no ato de escrita quanto no produto desse ato. Segundo Bolter (1991, p.11), "cada espaço físico promove um entendimento particular sobre ambos, o ato de escrever e o produto, o texto escrito". Esse autor menciona a ideia que fazemos sobre o texto como um aprendizado adquirido com os livros: "o espaço conceitual do livro impresso é aquele no qual a escrita é estável, monumental, e controlada exclusivamente pelo autor. É o espaço definido pelos volumes impressos perfeitos que existem em centenas de cópias idênticas" (ibid., p.11). Mas o espaço da Internet tem suas próprias condições, e parte delas é devida aos computadores: "o espaço conceitual da escrita eletrônica, por outro lado, é caracterizado pela fluidez e um relacionamento interativo entre escritor e leitor" (ibid.,
p.11). Tanto fluidez quanto interatividade ainda são características dos sistemas na Internet dos anos 2010, apesar da mutação nas tecnologias.
Bolter considerou em sua descrição o estado da tecnologia no início dos anos 1990. Ele e outros teóricos – como George Landow (LANDOW, 1997), descrevem o hipertexto como um sistema de organização textual com suporte tecnológico que permite interligar blocos de informação tornando-os navegáveis. Os blocos foram chamados por eles como "lexias". A palavra fora utilizada por Roland Barthes para referir-se unidades mínimas de leitura em um texto (apresentado em BARTHES, 1980). Barthes propunha a separação do texto em lexias para analisá-lo nas múltiplas interpretações possíveis de serem feitas a partir de suas associações.
Os computadores têm a capacidade de guardar dados em estruturas que permitem sua recuperação por sistemas algorítmicos. Esses sistemas podem reunir dados em combinações variadas em cada consulta, mas sempre em função da estrutura já inscrita com os dados. Nesse cenário, o movimento de separação e reconstrução de unidades para leitura pode ser feito programaticamente. A multiplicidade de interpretações que isso permite passa então a ter relação com as possibilidades programadas no código. Nas interfaces de usuário na Internet, as unidades mínimas de leitura não são definidas apenas pelo autor ou por um observador, elas também são resultado da organização inscrita em estruturas de dados e programas conectados em várias camadas. Então, podemos ter como lexias: tuítes, posts em um blog, notícias em um portal. E, ainda, trechos desses textos desde que separados por algum tipo de linguagem de marcação. Nas interfaces de programação, essas unidades podem ser passadas entre diferentes sistemas, e reorganizadas ou modificadas. Quando compartilhamos uma lexia, nós a colocamos em fluxo, mas também a colocamos em nova condição de interpretação na medida em que a reposicionamos na rede.
Os serviços online oferecem funções para receber ou enviar lexias conforme instruções que recebem de outros sistemas, fazem isso por meio de interfaces de programação. Oferecem ainda interfaces para usuários enviarem e receberem conforme regras e estruturas definidas pelos serviços, fazem isso por meio de websites, aplicativos móveis, aplicativos criados para plataformas com interfaces tipo desktop. Em consequência desses recursos, eles podem ser descritos a partir de
seus recursos computacionais, mas também com os sistemas algorítmicos, equipes de profissionais, além dos usuários e programadores.
Nos anos 1990, um dos principais vetores para o desenvolvimento de novos sistemas era resultado da necessidade crescente das corporações ocuparem espaço na Web. Naquela época, surgiram sistemas de escrita e publicação que as empresas utilizavam em servidores contratados – serviços de hospedagem. Várias aplicações diferentes foram criadas no período com a mesma finalidade, e foram chamadas com o nome genérico de CMS – Content Management System. Com eles, foi possível ampliar e desenvolver serviços de publicação diversos, como portais de notícias, que replicavam conteúdo criado para mídias impressas, ou websites institucionais, que podiam ser versões online de catálogos de produtos das empresas.
Nos anos 2000, a venda de serviços de publicação pessoal tornou-se o principal vetor para a criação de novos serviços na nova economia. Com eles, além das funções de publicação, os sistemas ganharam novas possibilidades que envolvem ações como compartilhamento, indexação, classificação cooperativa, etc. Nesses anos surgiram serviços que envolviam incorporar linguagens que envolviam áudio, vídeo, ou fotografia, entre outros. Além da capacidade de memória e publicação, esses sistemas apresentavam diferentes funções de indexação de informações. O Flickr é um serviço de coleção e compartilhamento de fotografias, quando foi criado pretendia oferecer funções de armazenamento de imagens na nuvem mas depois ganhou características de compartilhamento e rede social. O You Tube é um serviço para publicação de vídeos. Quando foi criado, a sua principal característica era a facilidade de publicação e gerenciamento dos arquivos, mas nos últimos anos agregou diversas funções de interação que possibilitam divulgação, coleção, edição de listas, etc.
Na cena dos anos 2010, os serviços em nuvem ampliaram seu papel de protagonismo mas então conectados por meio de novos dispositivos e interfaces, telas sensíveis ao toque, sensores, câmeras fotográficas. Essas novidades implicaram em algumas mudanças significativas na forma como os usuários interagem com os dispositivos, mas também ampliaram os modos de inscrição e associação de informações. Em um cenário multidispositivos e móvel, as inscrições
podem ser áudios, vídeos, geolocalizações. Podem ser textos escritos rapidamente em situações diversas, em qualquer lugar.