PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
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OGERP
ASCOALREDES HIPERTEXTUAIS
UM PANORAMA SOBRE OS ASPECTOS COGNITIVOS DA ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO NA INTERNET
DOUTORADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL
São Paulo
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
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OGERP
ASCOALREDES HIPERTEXTUAIS
UM PANORAMA SOBRE OS ASPECTOS COGNITIVOS DA ORGANIZAÇÃO DA INFORMAÇÃO NA INTERNET
DOUTORADO EM TECNOLOGIAS DA INTELIGÊNCIA E DESIGN DIGITAL
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital sob a orientação da Profa. Dra. Maria Lucia Santaella Braga.
São Paulo
BANCA EXAMINADORA
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R
ESUMO
A multiplicação e a diversidade de novos aparelhos conectados às redes de computadores nos últimos anos, bem como novas plataformas de softwares, tornaram ainda mais complexa a paisagem constituída pelos signos apresentados pelas interfaces digitais. Nos últimos 25 anos, o ritmo acelerado da disseminação e a diversificação dos dispositivos de conexão à Internet nos levam a questionar os impactos cognitivos de sua presença nos cenários urbanos, agora hiperconectados por aparelhos computadorizados. O objetivo desta pesquisa é aprofundar a compreensão sobre a comunicação em plataformas digitais conectadas por meio da extensão do conceito de 'hipertexto'. Para isso, procuramos localizá-lo sob uma perspectiva complexa do estudo das redes, que considerou autores de diferentes áreas de estudo: Duncan Watts e Albert-Lászlo Barabási, na Ciência das Redes; Manuel Castells, na Sociologia e estudos sobre a Sociedade da Informação; Edgar Morin, e sua noção sobre conhecimento e complexidade; Bruno Latour e outros autores ativos no desenvolvimento da Teoria Ator-Rede, bem como seus precursores, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari. A pesquisa seguiu indicações metodológicas da Teoria Ator-Rede e, por meio de observações sobre diferentes atores, mapeou humanos e não-humanos em interação como forma de constituir um panorama sobre a dinâmica das redes hipertextuais. A questão apresentada por esse panorama é se o conceito de hipertexto pode ser aplicado para análise da comunicação mediada pelos sistemas conectados nas múltiplas plataformas interligadas pelas redes mundiais de computadores.
A
BSTRACT
The multiplication and diversity of new devices connected to computer networks in recent years, as well as new software platforms, become even more complex landscape formed by the signs presented by digital interfaces. Over the past 25 years, the rapid pace of spread and diversification of Internet connection devices lead us to question the cognitive impact of their presence in urban settings, now hyper-by computerized machines. The objective of this research is to deepen the understanding of communication on digital platforms connected by extending the concept of 'hypertext'. For this, we try to find it in a complex perspective of the study of networks, which considered authors from different areas of study: Duncan Watts and Albert-László Barabási in Science Network; Manuel Castells, sociology and studies on the Information Society; Edgar Morin, and his notion of knowledge and complexity; Bruno Latour and other assets authors in the development of Actor-Network Theory and its precursors, Michel Foucault, Gilles Deleuze and Felix Guattari. The research followed methodological indications of Actor-Network Theory and, through observations on different actors, mapped human and non-human interaction as a way to provide an overview of the dynamics of hypertext networks. The question raised by this situation is the concept of hypertext can be applied to analysis of communication mediated by systems connected in multiple platforms interconnected by global computer networks.
S
UMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 13
1 REDES ... 19
1.1 Organização em Rede ... 19
1.1.1 Conexões e caminhos ... 24
1.1.2 A dinâmica das redes ... 27
1.1.3 Redes sociais ... 30
1.2 Comunicação em Rede... 36
1.2.1 Computação e comunicação ... 41
1.2.2 A organização distribuída da Internet ... 45
1.2.3 Comunicação mediada por Internet ... 49
1.3 Sociedade em Rede ... 54
1.3.1 Fluxos e informação ... 56
1.3.2 As redes tecnosociais ... 61
1.3.3 Tecnologia em ação ... 65
1.4 Redes Tecnosociais ... 69
1.4.1 Redes e associações ... 70
1.4.2 As mediações ... 72
1.4.3 Internet ... 75
2 NUVENS ... 83
2.1 Tecnologias da informação ... 83
2.1.1 Plataformas ... 86
2.1.2 A mediação digital ... 88
2.1.3 Memória nas nuvens ... 91
2.2 Plataformas Conectadas ... 93
2.2.1 Interfaces ... 96
2.2.2 A telecomunicação digital ... 98
2.2.3 Identidade nas redes ... 101
2.3 Tecnocomunicação ... 103
2.3.1 Publicação em rede ... 105
2.3.2 Os caminhos indexados ... 109
2.4 Caixas-pretas ... 114
2.4.1 Programas ... 115
2.4.2 A rede programada ... 118
2.4.3 Texto multidimensional... 119
3 RIZOMAS ... 123
3.1 Ecossistemas ... 123
3.1.1. Acoplamentos digitais ... 125
3.1.2. Os movimentos sígnicos ... 128
3.1.3. Sociedade de controle... 131
3.2 Associações ... 134
3.2.1. Escrita distribuída ... 136
3.2.2. A navegação multiconectada ... 138
3.2.3. Redes híbridas ... 141
3.3 Mediações ... 144
3.3.1. Mídias sociais ... 146
3.3.2. As linguagens híbridas ... 149
3.3.3. Digitalização do cotidiano ... 152
3.4 Hipertexto ... 154
3.4.1. Redes hipertextuais ... 157
3.4.2. O texto desterritorializado ... 160
3.4.3. Disputa pelo ciberespaço ... 162
CONSIDERAÇÕES FINAIS - TRAMAS ... 165
REFERÊNCIAS ... 173
Serviços ... 173
Posts, Entrevistas, etc. ... 176
I
NTRODUÇÃO
A expansão em ritmo acelerado da Internet nos últimas vinte e cinco anos modificou consideravelmente os cenários urbanos, agora hiperconectados por aparelhos computadorizados. Depois dos computadores pessoais e da banda-larga, a presença da rede no cotidiano foi amplificada em meio à mobilidade oferecida por computadores portáteis, notebooks, smartphones e tablets. Ainda nem nos acostumamos a sermos tão online assim, e já nos preparamos para novos dispositivos conectáveis: sistemas de iluminação, geladeiras, automóveis, câmeras de vigilância, óculos, pulseiras, e assim por diante. Com a multiplicação de formas e usos de sistemas digitais, acompanhamos também diversos movimentos de reconfiguração em nossa convivência social.
Diante de tudo isso, no papel de usuários, ou no papel de observadores da cibercultura, precisamos aprender a lidar com novas linguagens digitais, produtos da convergência de antigas e novas mídias em um mesmo meio-ambiente. Juntas, as tecnologias de computação e comunicação possibilitaram a mistura de linguagens que antes estavam dispersas em suportes variados, do papel à radiodifusão. Em rede, essas linguagens se adaptam em uma nova formação: digital, algorítmica, conectável. No início do período de disseminação da Internet, a Web era o principal cenário para isso, e logo depois tornaria-se ainda o principal protocolo para desenvolvimento de interfaces de usuário na rede. Com informações apresentadas em organizações que simulavam páginas e mecanismos de associação que permitiam saltos, sua facilidade de uso foi decisiva para seu sucesso. Hoje, a Web dos anos 1990 parece ultrapassada diante dos novos recursos interativos das interfaces, mas a lógica que ela inaugurou permanece presente em praticamente todas elas.
recentemente. Para descrever esses espaços, nos acostumamos a usar palavras que representam conceitos criados em meio ao processo de desenvolvimento da informática na segunda metade do século passado, essas associadas a tantas outras oriundas da cultura da impressão. Mencionamos 'documentos', quando nos referimos a visualizações de dados montadas dinamicamente e em tempo real. Como 'página', definimos o resultado final do processamento de algoritmos que coletaram dados em múltiplas fontes. Como 'site', nos referimos a espaços informacionais constituídos por conexões a sistemas e bancos de dados geograficamente dispersos.
Longe de ser uma questão meramente terminológica, essas dificuldades de vocabulário podem ser uma pista para o tamanho do desafio enfrentado quando tentamos aprofundar nossa compreensão sobre o cenário digital multiconectado. Com a Web vimos surgir muitos desses termos, e entre eles 'hipertexto' tornou-se comum – a palavra é usada para nos referirmos à capacidade de interconexão de blocos de informação que torna um ambiente digital navegável. Mas, depois de duas décadas de seu surgimento, o sistema perdeu sua condição de protagonismo. Do mesmo modo, a palavra 'hipertexto' também tornou-se menos constante.
Smartphones e tablets inauguraram novas condições para interação, e com eles os PCs e as interfaces gráficas baseadas na metáfora do desktop, ou mesa de
movimentamos por essas conexões em cada gesto, seja ele um clique em um botão, em um ícone, ou simplesmente ao ligarmos o dispositivo.
Apesar de manter contato direto com computadores desde o início dos anos 1990, conheci a Internet apenas nos laboratórios da Universidade Estadual Paulista
– Unesp, em 1996 enquanto cursei graduação em Jornalismo. As interfaces dos websites naqueles anos eram compostas apenas por textos, hiperlinks e algumas imagens, mas a ausência de recursos interativos avançados não impedia ficarmos impressionados com a possibilidade de nos movermos pelo ciberespaço. No início dos anos 2000, recém formado, encontrei oportunidades profissionais em empresas da nova economia, e em pouco tempo fui envolvido em equipes e projetos que uniam pessoas com diferentes formações: jornalistas, publicitários, relações-públicas, bibliotecários e cientistas da informação, analistas de sistemas e programadores, designers, entre outros. Nessa situação, surgiu a motivação que acompanharia a retomada de minha trajetória acadêmica poucos anos depois: compreender a capacidade que a Internet tem para ressignificar práticas com origens associadas a outros momentos tecnológicos, como as mídias eletrônicas, mídias impressas, ou mesmo à informática antes da Internet. Desde aquele período, pude observar que programas e interfaces não são apenas ferramentas de publicação, têm função ativa nos processos cognitivos.
Em 2008, defendi dissertação de Mestrado no PEPG Tecnologias da Inteligência e Design Digital – TIDD PUC-SP, com o título Colaboração e Cognição na World Wide Web. Em 2011, iniciei esta pesquisa para aprofundar a análise das
repercussões das linguagens digitais, em especial para observar processos sígnicos que envolvem articulação de associações que vão além dos limites tecnológicos impostos pelos hiperlinks estáticos que caracterizaram a Web em seus primeiros anos de existência. Por um lado, a tarefa de detalhar as condições que permitem essa condição levou à necessidade de aprofundamento no conhecimento das tecnologias envolvidas. Por outro, também levou à constatação de que essas tecnologias não existem ou agem sozinhas.
indica como método observarmos os rastros da associação de atores humanos e não-humanos como uma rede. Entre outras recomendações, propõe que os observadores devem deixar esses atores falarem por si, pois isso permite identificarmos os processos que geram fatos e controvérsias. Para seguir essas orientações, parte do período deste projeto foi dedicado à identificação de agrupamentos e atividades relacionadas à criação ou transformação de tecnologias hipertextuais. Como processo de observação, acompanhei as discussões ou cooperações que envolveram o desenvolvimento ou o uso dessas tecnologias: conversas em grupos e comunidades, publicações especializadas que atualizam informações sobre os diferentes estágios de desenvolvimento delas, atualizações em blogs mantidos pelas próprias empresas ou equipes de desenvolvimento, teste de aplicativos e sistemas de software para mapear suas funcionalidades e conexões com serviços online distintos. Além disso, participei de maneira presencial ou online de diversos eventos profissionais sobre temas como Comunicação Digital, Design Digital, Mídias Sociais, Métricas e Monitoramento, Jornalismo e Publicidade Online, entre outros relacionados às tecnologias que serão mencionadas no decorrer deste texto.
texto: descritivo e pontuado por exemplos que sirvam de conexão com as redes que pretendemos descrever1.
Como forma de organização, definimos três eixos de abordagem para descrever as redes hipertextuais: os seus fundamentos tecnológicos nas redes telemáticas, suas formas de conexão a outros atores para a integração em uma mesma rede tecnosocial, e os signos produzidos nessa rede enquanto rastros da interação entre seus actantes. A ideia que motiva essa posição considera o hipertexto como uma lógica ou linguagem, e não como uma tecnologia específica. Consideramos as tecnologias hipertextuais como aquelas formadas pela integração de interfaces e dispositivos conectados à Internet, servidores, aplicações e protocolos. Vemos a Web como tecnologia precursora dessa cena, uma vez que ela criou condições para pensarmos hipertextualmente e navegarmos em meio a redes de associações entre tópicos ou blocos de informação digital.
Para compreender as redes e suas dinâmicas, esta pesquisa adotou como ponto de partida um levantamento das teorias de redes e, em especial, dedicou-se a estudar conceitos estabelecidos no âmbito da Ciência das Redes, descritos por autores como Duncan Watts e Albert-Lászlo Barabási. Logo depois, seguiu indicações que consideram redes como sistemas complexos, e recuperou ideias e métodos relacionados à complexidade em diferentes autores, em especial com Edgar Morin e suas noções sobre conhecimento e cognição. Para aprofundarmos nossa compreensão sobre redes sociais, buscamos fundamentos sobre o papel das tecnologias de informação e de comunicação nos estudos realizados por Manuel Castells. E, encontramos na Teoria Ator-Rede as orientações metodológicas que forneceram diretrizes para os procedimentos adotados durante nosso percurso. Para tanto, seguimos indicações de Bruno Latour e alguns de seus parceiros, além de acompanharmos pesquisas realizadas por seus seguidores – disponíveis no website http://www.mappingcontroversies.net/. Para aprofundar nosso entendimento sobre a
TAR, recorremos a autores que influenciaram sua criação, como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari – os dois últimos com conceitos como 'Rizoma', 'Mapa', 'Território' e 'Agenciamento'. Entre outros, destacamos ainda estudiosos da filosofia das mídias, suas linguagens, e suas repercussões na cultura, como Marshall McLuhan, Vilém Flusser, Lucia Santaella, etc.
Para seguirmos as orientações da TAR, organizamos este texto em capítulos de acordo com diferentes aspectos das tecnologias e das redes hipertextuais. No primeiro capítulo, apresentamos uma breve genealogia da ideia de rede, algumas linhas teóricas sobre o conceito e um histórico do desenvolvimento das redes de telecomunicação. Ainda nesse capítulo, descrevemos e localizamos historicamente alguns dos fundamentos tecnológicos que foram precursores para o cenário multiconectado da Internet contemporânea. Isso, para observamos o hipertexto como rede dinâmica e aberta, e evitar que ele seja confundido com uma tecnologia específica, ou seja abordado como uma caixa-preta. No segundo capítulo, procuramos demonstrar modos de conexão em sistemas algorítmicos e colocá-los em um mesmo plano que seus programadores e usuários. Para tanto, será preciso estender descrições de aspectos tecnológicos da informação digital conectada, como protocolos e linguagens, para assim identificarmos a presença de redes TAR associadas a essas tecnologias.
1
R
EDES
1.1 Organização em Rede
David Filo e Jerry Yang eram estudantes na Universidade de Stanford – EUA, no início de 1994 quando começaram juntos uma página online em que compartilhariam seus hiperlinks favoritos – o Jerry and David’s Guide to the World Wide Web. De acordo com os limites impostos pelas tecnologias disponíveis, para publicá-la escreveram códigos HTML para serem gravados em arquivos em um servidor-web. Apesar da simplicidade tecnológica, o website de Filo e Yang tornou-se sucesso de público e até o final daquele ano registraria acessos de mais de 100.000 usuários por dia (SANTA CLARA VALLEY HISTORICAL ASSOCIATION, 2008). Assim, os dois estudantes descobririam o potencial econômico das linguagens digitais, e trocaram o nome do guia para Yahoo! para encontrarem investidores com capital
disponível para apostas na nova economia. Nos últimos anos da década de 1990, a expressão 'nova economia' tornar-se-ia comum em referências não apenas a novas corporações mas também relacionada a adesões de empresas tradicionais de informática à Internet – como a Microsoft, por exemplo, e grupos de mídia impressa e eletrônica. Em 2000, a fusão entre o grupo norte-americano de mídia Time Warner com o provedor de acesso AOL transformar-se-ia em uma espécie de marco da integração entre velha e nova economia. O negócio encerrou uma fase: aconteceu pouco antes do estouro da bolha especulativa, momento em que o valor de ações de empresas de tecnologia digital despencou simultaneamente em diversos países.
ele adquiriu negócios menores e propostas aparentemente inovadoras. A prática tornaria-se característica das novas corporações em uma cena de desenvolvimento acelerado da nova economia: ampliar seu poder de inovação ao adquirir iniciativas com menor poder financeiro. Mas as aquisições não ajudaram o Yahoo! a manter uma posição de liderança, e nas décadas seguintes a empresa tornar-se-ia coadjuvante em narrativas sobre os rumos da Internet. Os critérios para descrever o futuro das tecnologias digitais já eram controversos naqueles anos, e logo depois da crise financeira de 2000, a discussão sobre o tema seria intensificada. Naquele mesmo ano, o empresário de mídia Tim O'Reilly organizou uma série de conferências nos EUA para discutir com o mercado digital as possibilidades para novos negócios. Para promovê-la, criou uma expressão que procurava sintetizar sua própria visão sobre o futuro: “Web 2.0” (O'REILLY, 2005). Apesar de muito difundido, o uso do termo não foi totalmente aceito: "no ano e meio que se seguiu, o termo 'Web 2.0' claramente se consagrou [...]. Mas ainda existe um enorme desacordo sobre o que significa Web 2.0, com alguns menosprezando a expressão – como sendo um termo de marketing sem nenhum sentido, e outros aceitando-a – como a nova forma convencional de conhecimento2" (ibid.). O problema com o termo é que
ele nos leva a imaginar uma evolução tecnológica por etapas bem definidas que nunca aconteceram – como no sistema de versões adotado na indústria de software.
Enquanto cresceu aceleradamente nos anos 1990, a Internet não foi moldada pelo surgimento de dispositivos ou algoritmos específicos, a natureza aberta e dinâmica da rede implica na possibilidade de variadas conexões de novas tecnologias ou adesão a novos padrões. Naqueles anos, entre tentativas de inovação, alguns conseguiram sucesso e outros não. Neste movimento de formação/transformação, a Internet incorporou novidades mas também práticas tradicionais: recebeu pessoas e corporações de acordo com princípios desenvolvidos muito antes da rede. A própria Web pode ser citada como exemplo: quando surgiu, apresentava características herdadas dos meios de impressão –
2 As citações traduzidas do inglês são de responsabilidade do autor deste trabalho, exceto quando
exibia informações organizadas em parágrafos, títulos e subtítulos. Nos anos seguintes, tentativas de inovação em softwares e práticas nos levaram à transição para outros padrões – em um processo que ainda pode estar distante de terminar. Com a Web, após a incorporação de imagens e elementos gráficos em páginas diagramadas, fomos incorporados a modos de interação mais complexos.
Quando surgiu em 1989 como World Wide Web, o sistema era apenas uma
aplicação para compartilhamento de documentos em ambiente acadêmico – previa troca e interconexão de arquivos textuais em computadores interligados em rede3.
Pra isso, seus inventores desenvolveram protocolos que definem o endereçamento dos documentos e a comunicação entre computadores – servidores e computadores-clientes , o HTTP, e também uma linguagem de marcação em que os documentos devem ser escritos, o HTML. Antes dela, as principais aplicações em redes de computadores envolviam troca de arquivos e mensagens. Com a Web, interagir na rede mundial de computadores passou a incluir possibilidades de publicação em um formato acessível para leitura por qualquer pessoa conectada. Até o final da década de 1990, o desenvolvimento de novas linguagens de programação, a integração de módulos adicionais ao servidor-web, novas funções interativas aos navegadores-web, entre outros recursos, permitiu a incorporação de novas funcionalidades para tornar essas possibilidades ainda mais acessíveis. Na primeira metade da década de 2000, parte das previsões apontadas por O'Reilly seriam então confirmadas com a criação de serviços que tinham como característica principal o compartilhamento e a cooperação, mas ainda em interfaces influenciadas por linguagens oriundas da cultura da impressão.
No início, as principais funcionalidades dos algoritmos da Web envolviam basicamente operações de publicação e recuperação de arquivos escritos em linguagem HTML em servidores-web, para serem lidos em navegadores-web. Com funções adicionais, tanto do lado servidor quanto do lado cliente, esses códigos,
3 A proposta foi desenvolvida por Berners-Lee em colaboração com Robert Cailliau no CERN – a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Suíça). Sobre o período inicial da tecnologia, há descrições em
ainda no início dos anos 1990, incluíam aplicações com mais funcionalidades interativas, com funções de troca de mensagens, fóruns, conversas em tempo real ou chats, entre outros. Na mesma época, surgiram os primeiros serviços de indexação hipertextual: mecanismos de busca que receberam como identificação genérica o nome de 'robôs' e substituíram serviços anteriores de coleção manual de hiperlinks4. Antes do final daquela década, surgiriam ainda sistemas de escrita
colaborativa, gerenciadores de conteúdo, blogs, redes sociais online, entre outras novidades. Nos anos 2000, enquanto a expressão 'Web 2.0' tornava-se um clichê, seriam criados serviços de publicação e compartilhamento em formatos diversos: arquivos, fotografias, vídeos, conversas, etc. Nos anos seguintes, a Web agregaria tecnologias e linguagens: multimídia, atualizações assíncronas, geolocalização etc.
Com novas funções, a Web deixou de ser apenas um meio para escrita e leitura de textos acadêmicos para tornar-se um padrão de desenvolvimento de serviços online. Como protocolo para interfaces, transformou a Internet de um ambiente habitado por cientistas e programadores em uma espécie de janela interativa para o ciberespaço. Foi a principal plataforma para o desenvolvimento de interfaces online até a década de 2000, período em que os computadores pessoais
– os PCs, eram a principal forma de acesso à rede. O cenário seria modificado apenas depois de 2007, ano em que a Apple apresentou ao público um aparelho telefone+computador – o iPhone. Com o dispositivo, a empresa criou também um padrão alternativo de distribuição de informação multimídia: livros, música, vídeos, etc. O iTunes e a iTunes Store (APPLE iTUNES) criaram outro modelo para acesso a informações, algo que seria copiado por outras grandes corporações como o Google (GOOGLE PLAY) e a Microsoft (MICROSOFT WINDOWS PHONE). Como interface, esse padrão incorporou elementos inspirados na história do desenvolvimento das interfaces gráficas de usuários, ou GUI – Graphical User Interface, como 'aplicativos' e 'arquivos', por exemplo. Mas, também manteve
elementos que foram criados no processo de desenvolvimento da Web, como páginas de hipertexto e hiperlinks.
O modelo de acesso criado pela Apple não substituiu a Web, mas apresentou-se como alternativa ao modelo de rede distribuída e aberta proposto por Berners-Lee – um ambiente no qual o conteúdo possa ser interconectado e acessado livremente. Nas plataformas móveis – como iOS (APPLE IOS) e Android (GOOGLE ANDROID), a comunicação com a Internet não precisa passar por protocolos Web, embora possa incorporar hiperlinks. Em alguns casos, esses hiperlinks podem ser acessados no próprio aplicativo em uso, mas também podem ser acessados em algum navegador-web disponível. Nesta perspectiva, a Web volta a ser um aplicativo complementar – cuja principal função é a consulta a informações em páginas interativas. Na mesma situação, os aplicativos móveis assumem funções que haviam migrado para a Web, como emails e troca de mensagens instantâneas, por exemplo. Enquanto isso, com o desenvolvimento de novos protocolos – como o HTML5 (W3C, 2014), e novas técnicas – como o design responsivo, surgem websites móveis perfeitamente adaptados às condições dos dispositivos móveis, muitos deles em concorrência com aplicativos escritos de acordo com os padrões estabelecidos pelos fabricantes de plataformas móveis. Isso tudo descreve uma cena de disputa e controvérsias: as possibilidades de acesso a informações multiplicam-se enquanto a navegação pelo ciberespaço torna-se mais complexa.
De certa forma, a disseminação da World Wide Web, nos anos 1990 ,tornou a
cada vez mais tornam-se dependentes de processos que não são transparentes. Em meio a esses processos, a Internet permanece como elemento de mediação: é nela que acoplam-se pessoas, dispositivos e algoritmos, posts e comentários...
1.1.1 Conexões e caminhos
A disseminação da Internet foi um incentivo à presença da palavra 'rede' em textos sobre diversos temas, mas o conceito não nasceu com ela. Há redes a partir da conexão de diferentes tipos de elementos: cidades e estradas, usinas e linhas de transmissão elétrica, aeroportos e rotas aéreas, estações e linhas de metrô, etc. O que se repete nessas situações é uma mesma forma de organização, são compostos cujos elementos tornam-se ativos a partir de suas interconexões. As redes organizam associações, não são definidas por limites externos mas sim por agenciamentos internos. Em diferentes campos do conhecimento, o uso do conceito tornou-se constante nas últimas décadas – têm sido aplicados em estudos desenvolvidos na Matemática, na Biologia, nas Ciências Sociais, entre outros. Apesar de diferentes, as descrições dessas redes têm em comum apresentarem tramas formadas por nós e links: conexões ou caminhos para os fluxos de informação que elas organizam.
Sobre o tema, é possível encontrar relatos que envolvem o conceito desde a Matemática do século 18. Em 1736, Euler propôs a resposta para uma dúvida que intrigava os moradores de Königsberg – atual Kaliningrado, Rússia: como atravessar as setes pontes que dividiam a cidade sem repetir nenhuma na mesma tentativa5.
Para provar que não era possível, o matemático fez uma demonstração rigorosa na qual considerou a cidade como um grafo – um diagrama formado por pontos e linhas. A demonstração de Euler iniciou um novo ramo, a teoria dos grafos – um estudo sobre a relação entre objetos através de estruturas formadas por pares e
pontos. Esse tipo de representação tem muitos usos: na engenharia civil, de telecomunicações, de transporte, etc. A importância do trabalho de Euler está relacionada a seu poder de abstração, a teoria inaugurou uma perspectiva ao considerar associações entre posições relativas.
A teoria dos grafos indica que as redes possuem propriedades intrínsecas: nelas a existência de um caminho não depende da capacidade de quem o procura. Para o pesquisador de redes Albert-László Barabási, "em retrospectiva, a mensagem involuntária de Euler é muito simples: grafos ou redes possuem propriedades, ocultas em sua construção, que limitam ou intensificam nossa capacidade de lidar com eles" (BARABÁSI, 2009, p.11)6. Os grafos nos indicam que
há fenômenos cujas propriedades podem ser identificadas em termos da organização de seus elementos – os nós, e as conexões entre eles – os links. Esse é um modelo cuja principal força está em sua simplicidade: "um conjunto de objetos conectados entre si de certo modo" (WATTS, 2009, p.9). Este tipo de análise ganhou novos usos nas últimas décadas do século 20 após ser incorporado por outros campos – em especial, quando passou a integrar estudos aplicados nas Ciências Sociais. Isso, a partir do momento em que o conceito deixou de ser utilizado apenas como modelo de estrutura e tornou-se método para descrever propriedades emergentes em sistemas complexos, nos quais as dinâmicas de formação acontecem como interconexões7.
Nos anos 1960, as redes sociais apareciam em discussões em importantes universidades norte-americanas, e em destaque na Universidade de Harvard e no Massachusetts Institute of Technology – MIT (BARABÁSI, 2009, p.37). Nessa mesma época, o pesquisador em Psicologia Social Stanley Milgram realizou em
6 Albert-László Barabási é físico e dedica-se a pesquisas de teoria das redes. É professor no Centro de Pesquisas em Redes Complexas da Northeastern University (USA) e membro de centros de estudos sobre o Câncer [ http://www.barabasi.com ].
Harvard um experimento sobre o grau de conectividade humana: ele considerou que estaríamos todos conectados como se formássemos uma grande rede, e nela as conexões podem ser identificadas como relações simples de reconhecimento. Com base nesse critério, propôs medir a média das separações entre todos os humanos do planeta, e distribuiu cartas para fossem enviadas a um desconhecido escolhido por ele. A média de intermediários para as cartas chegarem ao destino foi próxima a 6, número que seria lembrado algum tempo depois pelo dramaturgo John Guare na peça teatral Six Degrees of Separation – cujo sucesso foi o primeiro responsável
pela disseminação da ideia. Segundo o pesquisador de redes sociais Duncan Watts, a proposta de Milgram foi uma exceção no tipo de uso que se fazia do conceito de rede nas ciências sociais8. Watts conta que em geral os estudos de redes sociais
procuravam identificar papéis sociais e estruturas. Isso, como parte da influência estruturalista na sociologia – com "estruturalista", Watts refere-se ao fato de a ciência estudar a ação humana com base em papéis sociais, instituições políticas e econômicas, entre outras (WATTS, 2009, p.26).
O comportamento geral das redes tornaria-se objeto específico de pesquisas nos EUA nos anos 1990. Esses estudos foram inspirados tanto em experimentos anteriores sobre sistemas interconectados, quanto no uso do conceito em estudos nos campos da matemática aplicada e das ciências sociais. Duncan Watts e Steven Strogatz estão entre os pioneiros nesse tipo de abordagem: desenvolveram modelos teóricos de redes dinâmicas através de observação de fenômenos específicos e também com a criação de simulações computacionais (conforme narração em WATTS, 2009). Na mesma época, Albert-László Barabási trabalhava em companhia de Réka Albert e Hawoong Jeong para mapear a Web com a ajuda de um robô que catalogava páginas e links (conforme narração em BARABÁSI, 2009). Os graus de separação eram uma preocupação comum para as duas equipes – Barabási
calculou 19 graus de separação entre documentos existentes na Web. Quando esses e outros pesquisadores passaram a compartilhar modelos, o contato entre eles gerou um novo campo de estudos – chamado desde então como Ciência das Redes.
Para defender a abordagem seguida pela Ciência das Redes, Barabási critica o enfoque reducionista – segundo ele adotado enquanto cientistas se especializaram em dividir o universo em pedaços cada vez menores numa tentativa de compreender o todo por meio de suas partes (BARABÁSI, 2009, p.5). Ele lembra que a ciência durante o século 20 concentrou esforços na busca por compreender a natureza por meio da identificação de componentes. "Por conseguinte, durante décadas fomos obrigados a ver o mundo por suas partes constitutivas" (ibid., p.5). Como resultado, argumenta que nós teríamos conseguido todas as peças de um quebra-cabeças mas estaríamos encontrando dificuldades para montá-lo novamente – Barabási afirma que os estudos de redes são uma maneira de juntar os pedaços para entender suas conexões. Esses e outros argumentos indicam posições compatíveis com críticas ao reducionismo e ao determinismo que surgiram em discussões sobre a ciência a partir dos anos 1970 – como aquelas feitas por Ilya Prigogine (PRIGOGINE, 2002; PRIGOGINE, STENGERS, 1991;) e Edgar Morin (MORIN, 1977, 1980, 1998, 1999), mas também por Fritjof Capra (CAPRA, 1982, 1995, 2002), entre outros. Apesar de aparentemente especializada, a Ciência das Redes procura por propriedades em fenômenos compostos por elementos muito distintos, e que também são objeto de estudo em outras disciplinas, como a Biologia, a Química, a Antropologia e a Sociologia. Sua visão é fundamentalmente interdisciplinar, sobre sistemas que apresentam propriedades emergentes e dinâmicas.
1.1.2 A dinâmica das redes
possam ser encontradas em qualquer outra organização semelhante9. Conforme
explica Duncan Watts, "ao construir uma linguagem para falar de redes que seja precisa o bastante para descrever não apenas o que é uma rede mas também que tipos de diferentes redes existem no mundo, a Ciência das Redes está fornecendo ao conceito uma força analítica real" (WATTS, 2009, p.9). Ao afastar-se da perspectiva estruturalista, essas pesquisas encontraram como desafio uma questão fundamental: como acontece a formação de uma rede? Segundo Watts, "o cerne da questão é que, no passado, redes foram vistas como objetos de estrutura pura, cujas propriedades são fixas no tempo" (ibid., p.11), mas os componentes individuais nesse tipo de sistema podem ser ativos: as redes dinâmicas estão em constante processo de transformação e observar isso é necessário para identificar comportamentos emergentes. Ainda de acordo com Watts, "embora a estrutura das relações entre os componentes de uma rede seja interessante, ela é importante principalmente porque afeta o comportamento individual de cada componente, ou o comportamento do sistema como um todo" (ibid., p.11).
Duncan Watts (2009) e Albert-László Barabási (2009) procuraram na história da Matemática as primeiras tentativas de explicação para esses processos de formação. Encontraram uma perspectiva no trabalho de dois matemáticos húngaros na década de 1950: enquanto estudavam problemas em redes de telecomunicação, Paul Erdös e Alfred Rényi postularam que um grafo aleatório se forma como uma rede na qual os laços surgem de forma randômica (WATTS, 2009, p.23). Ao considerar a formação dessa maneira, identificaram uma propriedade básica: uma rede sofre uma transição de fase – passa de uma situação de desagregação para a quase total agregação no momento em que o número de conexões atinge o mesmo número de nós em média. Para explicar a importância dessa descrição, é possível representá-la da seguinte maneira: se dois nós não estão na mesma rede, aquilo que acontece com um nó não afeta o outro; mas depois do momento em que uma rede se forma, ou aglomera, o que acontece com qualquer nó afeta todos os demais.
O problema com o modelo de Erdös e Rényi é a aleatoriedade, uma vez que é difícil encontrar fenômenos em rede que apresentem esse comportamento – "quando [...] se trata de sistemas complexos como a Internet ou a célula, os grafos regulares são a exceção, e não a regra" (BARABÁSI, 2009, p.20). Segundo Barabási, "o universo randômico de Erdós e Rényi é dominado pelas médias" (ibid., p.20), e caso o modelo fosse aplicado às redes sociais humanas deveríamos observar a maior parte das pessoas com aproximadamente o mesmo número de conhecidos. Watts conta que a formação aleatória foi questionada nos anos 1950 por Anatol Rapoport, enquanto aplicava a teoria dos grafos para estudar a expansão de surtos de doenças contagiosas em redes sociais (WATTS, 2009, p.32). Os resultados obtidos nos modelos desenvolvidos por Rapoport não foram compatíveis com a dinâmica de difusão das doenças consideradas, e ele então incorporou informações sobre características dos nós das redes, como laços familiares, por exemplo. A principal contribuição do matemático foi considerar processos de formação a partir de tríades – não apenas como pares, algo comum até então. Com isso, ao admitir a necessidade de incorporar elementos mediadores, ele incorporou formalmente a dinâmica na descrição matemática de redes sociais – segundo palavras de Watts, a explicação do raciocínio de Rapoport pode ser simples: "dois estranhos que possuam um amigo em comum tenderão a se conhecer com o tempo" (ibid., p.34). A questão matemática enfrentada por ele envolve considerar que a probabilidade de conexão aumenta conforme conjuntos maiores se formam (ibid., p.35 e p.36).
extras, a rede torna-se altamente aglomerada. Como explica Barabási, "a surpreendente descoberta de Watts e Strogatz é que poucos links extras já são suficientes para reduzir drasticamente a separação média entre os nós" (BARABÁSI, 2009, p.47).
O trabalho de Watts e Strogatz chamou a atenção da equipe de Barabási, que trabalhava em outro caminho. Em 1999, ele e Réka Albert publicaram um artigo em que propunham uma visão não-aleatória: um modelo em que procuravam demonstrar que há redes nas quais um pequeno número de nós mantém muitas conexões enquanto os demais são pouco conectados (BARABASI, ALBERT; 1999). De acordo com Watts, essas redes "têm a propriedade – em notável contraste com grafos aleatórios mais corriqueiros – de que a maioria dos nós terá relativamente poucas conexões enquanto uma seleta minoria de nós que se apresentam como centros – ou “hubs”, será altamente conectada" (WATTS, 2009, p.72). Como explica o próprio Barabási, "os conectores – nós que contém um número anomalamente grande de links – estão presentes em diversos sistemas complexos, que vão da economia à célula. São uma propriedade da maioria das redes, fato que intriga cientistas de disciplinas tão díspares quanto a biologia, a ciência da computação e a ecologia" (BARABÁSI, 2009, p.51). Os nós altamente conectados apresentados pelo modelo de Barabási e Albert têm um papel diferenciado nos processos de formação das redes: eles conseguem receber mais conexões do que os demais. Essa descrição abriu caminho para enfrentarmos a questão da diferença entre nós na formação de uma rede: se os nós não recebem conexões de uma maneira igualitária, quais seriam as condições para que alguns nós sejam mais conectados do que outros?
1.1.3 Redes sociais
nosso cérebro, e também nessas situações os links não são canais de transmissão, mas apenas associações. Sobre as redes sociais, Duncan Watts conta que "em lugar de encarar redes como simplesmente os canais pelos quais a influência se propaga segundo suas próprias regras, as redes em si foram tomadas como uma representação direta da influência" (WATTS, 2009, p.28). Com isso, Watts indica um caminho para a compreensão delas segundo aspectos que vão muito além da difusão de informação.
Depois do modelo matemático em que identificou a formação de redes de mundo pequeno, Watts procurou aprofundar-se nos aspectos sociológicos –
principalmente naqueles relacionados a agrupamentos e afinidades. Ele conta que a partir de 2000, em contato com outros pesquisadores de redes sociais, percebeu que havia ignorado algo tão simples quanto importante: "as pessoas se conhecem por causa das coisas que fazem ou, dito de modo mais genérico, dos contextos em que vivem" (ibid., p.78). A partir de então, incorporou a palavra 'contexto' em suas pesquisas – sobre ela, Watts afirma que "todas as coisas que fazemos, todas as características que nos definem, todas as atividades que empreendemos e que nos levam a conhecer pessoas e interagir, são contextos" (ibid., p.78). Dessa decisão, iniciou pesquisas sobre novos modelos de rede que consideram as condições sociais como características determinantes para a maneira como as pessoas se reconhecem: "imaginem que, em vez de indivíduos em uma população que se escolhessem entre si diretamente, esses indivíduos simplesmente optassem por juntar-se a um certo número de grupos ou, mais genericamente, por participar de um certo número de contextos" (ibid., p.79). Watts concluiu então que os processos de formação de redes sociais são determinados por nossas identidades sociais, e essas são definidas por contextos.
propõe uma representação bimodal: uma rede com dois tipos de nós – 'atores' e 'grupos', com atores conectados apenas a grupos e grupos apenas a atores (WATTS, 2009, p.88). Nesse modelo, considera uma noção de distância em função de agrupamentos por afiliação a diferentes contextos. Para exemplificar em uma descrição simplificada é possível apresentar o seguinte raciocínio: quanto mais afiliações em comum duas pessoas tiverem maior é a chance de se conhecerem. Em outro exemplo, Watts refere-se àquilo que os algoritmos da Amazon produzem ao nos indicar "pessoas que compraram esse livro também compraram..." (ibid., p.88).
O distanciamento das descrições abstratas e a aproximação de fatores contextuais tornaram as discussões no âmbito da Ciência das Redes mais próximas de conceitos de rede desenvolvidos em outras linhas de estudos sociais. Esse movimento corresponde a uma reaproximação, o campo fora criado a partir de referências que vinham sendo desenvolvidas em teorias matemáticas e sociológicas desde os anos 1960 e início dos anos 1970. O conceito de rede também foi aplicado em outras frentes de desenvolvimento das ciências sociais desde então. Entre elas, precisamos destacar aqui o trabalho de Manuel Castells nos anos 1980 e 1990: o sociólogo descreveu transformações na sociedade capitalista e a transição da sociedade industrial para uma sociedade-em-rede10. Castells tornou-se referência
em textos que tratam das transformações recentes do Capitalismo, em especial em relação às influências das tecnologias de informação e comunicação. É reconhecido como um dos autores que iniciaram estudos sobre a sociedade da informação – na qual o protagonismo de bens e produtos estaria sendo substituído por fluxos de informação e conhecimento.
Em A Sociedade em Rede, Castells (1999) apresenta uma abordagem
histórica do desenvolvimento do Capitalismo a partir da segunda metade do século 20, relacionando-o com a importância crescente das tecnologias de informação e
comunicação, que surgiram no cenário militar mas foram incorporadas em seguida por processos industriais, financeiros, comunicacionais, etc. Para tanto, observa o surgimento de novos modos de organização da produção industrial e fluxos de capitais, mas também identifica formas alternativas de relacionamentos decorrentes dessas mudanças. Nesses modos, as tecnologias têm papel fundamental na medida em que são responsáveis por suportar fluxos de informação que organizam os meios de produção. Como indica Castells, as tecnologias de informação não são apenas efeitos desse movimento mas também agentes nos processos de sua formação.
Para Castells, as redes não correspondem apenas a infraestruturas de telecomunicação, mas a formas de organização. Ele parte de uma definição simplificada do conceito: as redes seriam apenas um conjunto de nós interconectados (CASTELLS, 1999, p. 498). Assim, as considera como estruturas conceituais que podem servir para a descrição de muitos fenômenos distintos – nas quais os nós podem ser identificados como instituições, ou indivíduos, etc. Castells pode então apontar a circulação de fluxos de informação como característica da sociedade pós-industrial – na qual, os fluxos fluiriam sem seguir qualquer influência significativa de distância ou hierarquia entre nós. Essas redes não apresentariam centro ou comando, e por isso elas assemelhar-se-iam às redes distribuídas descritas pela Ciência das Redes. Apesar dessa ausência, Castells ressalta que existem relações de poder nas redes – para ele, o instrumento de poder nas sociedades-em-rede está na capacidade de estabelecer conexões (ibid., p.498). A informática – compreendida como conjunto de tecnologias de processamento e transmissão de informação, e seu desenvolvimento a partir da segunda metade do século 20, passam então a ter posição central nos processos de formação das sociedades.
dificuldade na escolha da palavra – ele afirma que seus diferentes usos podem resultar em certa ambiguidade (LATOUR, 2008, p.129). Para diferenciar sua aplicação, ele afirma que o termo não deve ser confundido com meios de transmissão, como redes de telefonia ou mesmo a Internet; na perspectiva da TAR, 'rede' remete a fluxos, alianças e associações – conceitos que envolvem a observação de interconexões sígnicas.
As redes da TAR são similares ao 'rizoma' proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari – conceito descrito por eles como um modelo de realização de multiplicidades (DELEUZE, GUATARRI; 1995). O rizoma é uma contraposição à ideia de árvore ou raiz – estruturas que fixam um ponto, uma ordem, uma hierarquia. As redes são sempre multiplicidades mas a descrição do rizoma incorpora uma dinâmica própria e filosófica – nele, um ponto pode ser conectado a qualquer outro. Conforme indicam Deleuze e Guatarri, "uma multiplicidade não tem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza" (ibid., v.1, p.16). As redes na TAR integram multiplicidades: atores que ao se conectarem transformam as mensagens por eles transportadas, e que podem ser pessoas ou dispositivos tecnológicos. Desse modo, enquanto Castells admite e ressalta a importância da tecnologia nos processos de organização social, a TAR vai além e a integra como parte indissociável da própria sociedade.
usuários enquanto escrevem em mídias sociais11. O teórico do hipertexto Jay David
Bolter argumenta que os computadores são tecnologias de escrita, mas a textualidade gerada pelas inscrições nos computadores conectados à Internet é muito diferente daquela que aprendemos em nossa convivência com os livros (BOLTER, 1991)12. Nas redes de computadores, os limites do texto ressurgem como
controvérsia – que nos leva a recordar as críticas a esses limites construídas por autores como Roland Barthes, Jacques Derrida, entre outros. Para essas críticas, e em um cenário de mutação das formas textuais, autores como Bolter e George Landow chamaram a atenção nos anos 1990 para a questão da hipertextualidade: a formação de redes textuais distribuídas e conectadas em sistemas digitais13.
Na Internet, computação e comunicação têm se tornado processos cada vez mais difíceis de distinguir. Quando Barabási começou um projeto de mapeamento da Web nos anos 1990, precisou construir um software para coletar hiperlinks de maneira similar aos primeiros serviços de busca que surgiam na mesma época (BARABÁSI, 2009). Naquele período, a Web era a aplicação dominante na Internet, os hiperlinks apenas marcações no código HTML que permitiam saltos entre blocos de texto, e os algoritmos criados para mapear conexões no ciberespaço eram limitados a colecionar essas marcações. Mas, as tecnologias de inscrição digital tornaram-se complexas, e a inscrição de hiperlinks passou a ser efeito de muitas outras conexões diferentes.
Desde os primeiros mecanismos de busca e o Google, temos visto surgirem novos sistemas algorítmicos para inscrição de diferentes tipos de associação entre blocos de dados. Isso, não como resultado da criação de uma tecnologia específica,
11 MATURANA e VARELA (1995) indicaram o conceito de 'acoplamento estrutural' para referir-se à integração sistêmica entre indivíduos de uma mesma espécie biológica. Aqui, adotamos o termo também ao considerarmos a integração entre sistemas humanos e tecnológicos.
12 Jay David Bolter é professor em novas mídias no Instituto de Tecnologia da Georgia (EUA). Publicou pesquisas sobre hipertexto, realidade aumentada e mídias digitais.
mas a partir da conexão de programações que geram inscrições em processos variados, como 'indexação', 'identificação', 'coleção', e assim por diante. Em meio ao uso cada vez mais constante de interfaces algoritmo-algoritmo, que permitem a troca de dados entre programas, os modos de interação e navegação distanciam-se da descrição da cena dominada pela Web nos anos 1990, como conjunto de links e páginas. No momento em que completa 25 anos, a Web não é mais a única protagonista entre as aplicações da Internet. Agora conta com a companhia de outros protocolos e mais plataformas, móveis e proprietárias. Enquanto usamos dispositivos conectados, cada movimento que fazemos pode gerar algum tipo de inscrição na rede, que por sua vez será utilizada para alimentar diferentes programas e gerar novas associações em um processo de composição de redes hipertextuais difícil de localizar. O interesse por esse tipo de programação pode ser a criação de novos serviços de informação personalizados de acordo com nossos hábitos, mas também pode estar relacionado a estratégias de mercado, ou ainda como parte de sistemas de vigilância. Para observadores da cibercultura, esse tipo de processos de associação é parte de um panorama multiconectado, ao qual estão associados diversos movimentos de constituição do social.
1.2 Comunicação em Rede
tanto em condições meteorológicas adversas quanto por erros de interpretação de seus operadores humanos. Nas décadas seguintes, a principal esperança para uma tecnologia mais eficiente consistia em transformar a eletricidade em meio transmissor, mas apenas na segunda metade do século 19 a telegrafia elétrica funcionaria com sucesso nos EUA e na Inglaterra (ibid., p.149). Para isso, a abertura ou o fechamento de um circuito transmitia mensagens codificadas em símbolos binários – essas também eram decodificadas por mediadores humanos.
Em A Informação, James Gleick (2013) relata que a presença dos cabos
telegráficos causou grande mudança conceitual: "os conceitos mais elementares estavam agora atuando como consequência da comunicação instantânea entre pontos separados por grandes distâncias14. Observadores culturais começaram a
dizer que o telégrafo estava 'aniquilando' o tempo e o espaço" (ibid., p.156). O telégrafo elétrico seria o principal meio de telecomunicação até o final daquele século, mas enquanto isso aumentaram esforços para a criação de um meio de transmissão de voz – essa tecnologia só seria patenteada por Graham Bell nos EUA em 1876. O telefone tornaria-se ainda mais presente que o telégrafo no cotidiano das cidades, e em um período de intensa urbanização – esses era um meio mais fácil de usar, sem necessidade de mediadores humanos para tradução de códigos15.
Com ele, as linhas de cabos para telecomunicação foram expandidas e a economia de escala provocada pela disseminação do serviço torná-lo-ia cada vez mais barato. Isso foi possível com a interconexão dos aparelhos, Bell concluiu que os telefones não poderiam ser vendidos aos pares e criou a primeira central com telefonistas. Foi a interligação entre várias centrais que criou uma grande rede multicentralizada de telefonia, o primeiro sistema parcialmente distribuído capaz de acoplar pessoas por voz à distância. Essa estrutura estabeleceria as bases conceituais para a futura
14 James Gleick é historiador e autor de livros sobre o desenvolvimento científico e tecnológico. [http://around.com/]
expansão dos sistemas de comunicação digital, como argumenta a teórica das mídias Lucia Santaella: "o grande pivô desse lugar sem lugar das redes telemáticas não é apenas o computador, mas é também nada mais nada menos do que o telefone, esse primeiro e grande meio interativo, aquele mesmo que, junto com o automóvel, o aeroplano e o rádio, funcionou, na primeira metade deste século, como um símbolo da vida moderna" (SANTAELLA, 1996, p. 12).
O telefone foi protagonista no século 20, mas durante o período outras formas menos interativas e com maior capacidade de difusão alcançariam ainda mais status. As primeiras transmissões de rádio aconteceram no início do século 20, e as transmissões regulares a partir da década de 1920, e pouco depois o rádio e a televisão ganhariam importância ao tornarem-se aparelhos comuns no cenário urbano – ambos, como fonte de informação e entretenimento. As tecnologias de radiodifusão apresentavam configurações diferentes daquelas utilizadas em sistemas de telegrafia e telefonia: nelas, ondas são propagadas pelo espaço para transmitir diferentes tipos de signos – no rádio, para áudio; na televisão, para áudio e imagens em movimento. Essas ondas visam atingir aparelhos de recepção que não têm a capacidade de enviar sinais de resposta. Assim como aconteceu com a telegrafia e a telefonia, as emissoras de rádio e televisão também seriam interconectadas, mas de acordo com as características dessas tecnologias, em organizações que assumiram a forma de cadeias: estruturas que levam sinais em sentido único, sem permitir fluxos de emissão e resposta. No processo de transmissão, agentes humanos atuam na posição lógica de emissores – isso, enquanto as mensagens são criadas e preparadas para distribuição. Algumas iniciativas na história do desenvolvimento dessas tecnologias tentaram criar alternativas a essa arquitetura tecnológica, mas em razão de dinâmicas próprias da sociedade da época essas não sobreviveram16. Desta maneira, esse tipo de
configuração pode ser descrito como um tipo de rede unidirecional e hierárquica –
algo muito diferente das redes que caracterizariam a comunicação digital décadas depois. Esse tipo de sistema de distribuição informacional, então, ajudou a compor as características que permitiram a Marshall McLuhan classificá-los como "meios quentes": eles não exigem participação ativa no processo de produção de sentido para as mensagens recebidas pelos usuários (de acordo com conceito apresentado em MCLUHAN, 2007). Isso, em contraste com a frieza do telefone: um meio altamente interativo, dependente da interação de seus usuários.
As práticas e processos comunicacionais desenvolvidos com a radiodifusão se caracterizaram pela transmissão de mensagens padronizadas a públicos amplos e indiferenciados – situações que nos acostumamos a identificar como parte da 'comunicação de massa'. Essa tornou-se uma cena dominante até o início dos anos 1980, período em que novos dispositivos eletrônicos, portáteis ou para uso residencial permitiram surgir outros modos de criação e distribuição de signos: videocassete, fotocopiadoras, tocadores de áudio – ou Walkman, e os primeiros
videogames, por exemplo. Nesse cenário, aprendemos a lidar com produção e compartilhamento – algo que não estávamos habituados enquanto éramos apenas receptores diante dos meios de radiodifusão. Em Cultura das Mídias, Santaella
(1996) reúne uma coletânea de artigos em que descreve mudanças nos hábitos e relacionamentos que caracterizaram aquele período, em especial relacionados às características das mídias e suas implicações na cultura. Segundo explica a autora, "essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e consumo individualizados, em oposição ao consumo massivo" (SANTAELLA, 2003b, p.27). O período serviu como preparação para a alta disponibilidade de signos na cibercultura, de acordo com a autora, eles "nos arrancaram da inércia da recepção de mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento" (ibid., p.27).
grupos que interagem em sistemas suportados por plataformas digitais. Nos anos 1980, os microcomputadores tornaram-se sucesso comercial, com os Apple Macintosh e PCs – máquinas fabricadas por diversas empresas a partir de um padrão compartilhado. Mas, diante das limitações tecnológicas dos modens, a interconexão deles com os meios de telecomunicação ainda era só uma possibilidade promissora. Naqueles anos, a interligação de computadores em redes digitais de alta velocidade era restrita apenas a universidades, algumas empresas e centros de pesquisa.
A disseminação dos microcomputadores nos anos 1980 configurou uma etapa de transição para o cenário de computação onipresente em formação nos anos 2010. Antes deles, os computadores eram grandes máquinas responsáveis por centralizar o processamento de dados em corporações, depois tornaram-se instrumentos miniaturizados para conexão entre humanos e redes computacionais. Enquanto aprendemos a lidar com informação distribuída – música, vídeo, videogame, software; também nos acostumávamos à condição de produtores de informação, com equipamentos de gravação de áudio e vídeo, microcomputadores e aplicativos especializados. Em meio a tudo isso, as condições necessárias para a existência da cultura de massas eram pouco a pouco substituídas por outras, que nos levariam à cibercultura – configuração em que se destacam novas formas de comunicação em configurações dinâmicas e digitais.
Nos anos 1990 com a World Wide Web, parte dos signos que antes
permaneciam dispersos em suportes guardados em escritórios e residências –
centralizada da informação massiva. Várias tecnologias comprovam a falência da centralidade dos media de massa: de videotextos, os BBSs, a rede mundial Internet em todas as suas particularidades (Web, Wap, chats, listas, newsgroups, MUDs...). Em todos esses novos novos medias estão embutidas noções de interatividade e de descentralização da informação [...]" (LEMOS, 2010, p. 68).
1.2.1 Computação e comunicação
No final da Segunda Guerra Mundial, Claude Shannon foi contratado pela Bell para trabalhar nos laboratórios da empresa – ele ajudaria no desenvolvimento de novas tecnologias de telecomunicação (conforme narrativa em GLEICK, 2013). No início dos anos 1950 já reconhecido por sua teoria matemática da informação, Shannon fez parte de uma série de conferências sobre a Cibernética, e nela teve companhia dos fundadores da ciência como Norbert Wiener, Heinz von Foerster e John von Neumann, entre outros. Em 1951, ele apresentou ao grupo um experimento intrigante: composto por uma caixa com divisórias móveis que dividiam seu espaço interno para formar diferentes labirintos nos quais uma barra era movida por motor. Por parecer viva, a barra foi apelidada de o 'rato' de Shannon (ibid., p.258). Sob a caixa, uma série de relés podiam memorizar os movimentos – relés são interruptores eletromecânicos e podem abrir ou fechar um circuito elétrico como faziam os mecanismos originais de telégrafo; e eram dispostos de maneira a registrar quatro posições: norte-sul-leste-oeste. Quando ligado, o aparelho registrava o movimento da barra – essa, seguia um método tentativa-e-erro para encontrar a saída do labirinto. No momento em que se iniciava uma segunda tentativa de resolução, a caixa já havia registrado o caminho correto e o rato era capaz de encontrar o fim sem nenhum erro – quando desligada, a caixa perdia a memória. Com o experimento, Shannon tentava demonstrar o potencial para o desenvolvimento futuro de mecanismos de inscrição e memória digital.
andares inteiros de grandes prédios e exigiam, para serem programados, a conexão de seus circuitos, por meio de cabos, em um painel inspirado nos padrões telefônicos. Eram verdadeiros brutamontes, dinossauros mantidos em isolamento do mundo dos leigos" (SANTAELLA, 1996, p. 203). Elas não tinham capacidade de memória, o registro dos dados utilizava tecnologias rudimentares como cartões perfurados. A evolução da memória digital só foi possível a partir do surgimento de dispositivos de gravação e leitura magnética, a partir da criação das fitas e primeiros discos rígidos no final da década de 1950. Com eles, os computadores ganharam capacidade de armazenamento não-volátil – com dados que não são perdidos ao retirarmos a fonte de energia.
Novos processos de inscrição foram desenvolvidos simultaneamente a novas maneiras de interação homem-máquina: os primeiros terminais interativos surgiram nos anos 1960 e permitiam a técnicos acessarem a central de processamento da máquina via linhas de instrução digitadas em teclados e visualizadas em monitores. "Mas foi só nos anos 1970 que o uso das telas foi generalizado e, desde então, tela e teclado tornaram-se partes tão integrantes do computador a ponto de confundirem-se com ele" (ibid., p. 203). A criação do time-sharing – dispositivo de compartilhamento de tempo, tornou possível que vários programadores trabalhassem simultaneamente, e com ele surgiram também os primeiros sistemas de troca de mensagens, necessários para permitir comunicação entre eles. A troca de dados entre computadores distintos – com o objetivo de compartilhar recursos computacionais, seria o próximo passo para um melhor aproveitamento das máquinas. Para isso, o caminho de desenvolvimento escolhido foi o aproveitamento de meios de telecomunicação já existentes – para transmitir dados a grandes distâncias sem a necessidade de criação de uma nova infraestrutura.
parcialmente destruído por um ataque inimigo. As informações seriam transformadas em pequenos pacotes de dados, que poderiam seguir diferentes caminhos até serem reconstruídas por computadores no destino. A rede criada a partir da proposta de Baran começou a funcionar no final dos anos 1960, e no início dos anos 1970 interligava computadores em algumas das principais universidades norte-americanas.
A Arpanet foi a origem do que conhecemos hoje como 'Internet', que surgiu efetivamente como sistema internacional quando a rede original foi integrada a outras na década de 1980. Esse processo começou em 1983, quando surgiram as primeiras redes baseadas na família TCP/IP, que reúne protocolo de conexão – o IP, e de transmissão de dados – o TCP. Os protocolos permitiram a interconexão de redes distintas e a formação de um sistema integrado de comunicação, ativo a partir de um modelo descentralizado para comunicação de dados. Em 1988, os EUA decidiram abrir a tecnologia para uso comercial e isso permitiu a conexão de computadores em empresas e residências que antes só contavam com modens e meios limitados para transmissão. No início dos anos 1990, a entidade governamental responsável pela gestão da rede transferiu a operação para corporações norte-americanas, com isso criou as condições para sua expansão.
A família de protocolos TCP/IP (NETWORK WORKING GROUP, 2001) é o fundamento tecnológico da organização característica da Internet: uma rede dinâmica e distribuída. A rede não apresenta um controle central, mas essa ausência não significa que não exista nenhuma forma de controle: para mantê-la em funcionamento e em evolução, a descentralização exige uma organização política capaz de manter sua unidade. Em Protocol , Alexander Galloway (2004) apresenta o
conceito de protocolo como conjunto de padrões que estabelecem regras para conexão em redes, cuja existência apresenta aspectos técnicos e políticos17. A
descrição apresentada por Galloway não confirma afirmações comuns sobre a