3. SAÚDE NA TELEVISÃO
3.1 A TELEVISÃO QUE TEMOS
Previsões sobre o fim da televisão já foram abundantemente alardeadas em tempos de crescimento das mídias digitais. Alarmistas, esses prognósticos não ecoam no presente trabalho. Pesquisas indicam que apesar da proliferação de novas formas, a televisão continua sendo o meio dominante na vida da maioria da população do Brasil. Cerca de 73% dos brasileiros assistem televisão diariamente, segundo a Pesquisa Brasileira de Mídia, 201534.
Ademais, a experiência histórica tem mostrado que os novos meios modificam as formas anteriores, mas não o substituem. Eles transformam o ambiente midiático de uma sociedade, reconfigurando-o continuamente (França, 2009, p. 28). Pesquisas
34 Pesquisa da Secretaria de Comunicação (Secom) do governo federal, publicada em 19/12/ de 2014. http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-
voltadas para o consumo, como a da Guerra das Telas, da Nielsen35, realizada em 2014 podem exemplificar algumas mudanças: 50% dos entrevistados no Brasil assistem programação ao vivo e interagem concomitantemente com as mídias sociais. Talvez transformar-se continuamente seja uma característica necessária da televisão que, desde o seu início, viu-se compelida a acompanhar mudanças sejam ligadas à tecnologia sejam relacionadas à vida social da qual faz parte e de cuja dinâmica participa.
Tampouco encontra ressonância nesse estudo a ideia gerada desde os primórdios do uso comercial da televisão de que a sua programação é, indiscutivelmente, de baixa qualidade. Complexa, esta polêmica cíclica por vezes acirra os polos em que se coloca, em um extremo, o aspecto mercadológico e o populismo cultural e, no outro, o elitismo (FREIRE FILHO, 2004, p. 108).
Trata-se de um campo estratégico em que as partes interessadas – politicos, órgãos regulamentares governamentais, organizações não governamentais, fãs, associações de telespectadores, jornalistas especializados, pesquisado- res acadêmicos, empresários, produtores, realizadores – pelejam, nem sempre em igualdade de condições, para impor e legitimar pressupostos e parâmetros valorativos, dentro de contextos históricos, culturais e politicos específicos. (FREIRE FILHO, 2004, p. 108).
Nascidas na década de 1950 no Brasil, essas concepções tradicionais da qualidade na televisão não são exclusivas da nossa sociedade. O modelo de Adorno e o modelo de McLuhan, assim denominados por Arlindo Machado (2003, p. 17), ilustram a complexidade da polêmica. Machado (2003) conta que, em 1954, Adorno escreveu um artigo em que atacava a televisão que, para ele, é congenitamente má, não importando o que ela efetivamente veicula. Para McLuhan a televisão é congeni- tamente boa, não importando o que ela efetivamente veicula.
Os adornianos atacam a televisão pelas mesmas razões que os mcluhanianos a defendem: por sua estrutura tecnológica e mercadológica ou por seu modelo abstrato genérico, coincidindo ambos na defesa do postulado básico de que a televisão não é lugar para produtos sérios (MACHADO, 2003, p.19).
Machado (2003) acrescenta que, por sorte, os tempos são outros. Uma nova mentalidade com relação à televisão está surgindo em várias partes do mundo e a
35 http:www.nielsen.com/br/pt/press-room/2015/69-dos-consumidores-globais-acredtam-que-
Capítulo 3 – Saúde na Televisão
televisão aos poucos sai do purgatório e “passa a ser encarada como indiscutível fato da cultura de nosso tempo” (MACHADO, 2003, p.21). Simone Rocha e Guilherme Sant'ana (2010, p.16) afirmam que “ a televisão se elevou ao plano das complexas relações sociais. Não por acaso, diversos autores36 a definem como constituinte e constituidora da cultura e do social”. Desse modo, reconhecemos que a produção televisiva é, sim, de qualidade heterogênea, mas queremos discuti-la para além da baixa qualidade.
E para que serve a televisão? Vera França (2006) enumera diversas funções. Uma delas é a sua inserção na vida social. A televisão é um veículo de informação e de socialização e compartilha um repertório coletivo tanto de temas quanto de vocabulário, representações e imagens. Isso faz com que o mundo comum se amplifique. A televisão também distrai, descansa, alivia as tensões do trabalho. Ou seja, ela é possibilidade de lazer e descanso no espaço doméstico, suscitando também conversações. Ao criar referências comuns, a televisão estabelece compartilhamentos e cumpre uma visão identitária. França (2006) observa que uma resposta marxista ortodoxa à questão da função da televisão ressaltaria os aspectos ideológicos, a saber, a manutenção da alienação e da dominação. A isso, a pesquisadora contrapõe que é preciso reagir a uma visão puramente instrumental da televisão.
Uma mudança significativa nas funções da televisão no final do século passado provavelmente tenha advindo dos novos formatos ou novos gêneros factuais híbridos incluindo o docudrama, o seriado-documentário e a série de programas de comportamento, competição, observação e transformação – todos agrupados sob o rótulo abrangente de TV-realidade (NUNN, 2009). Na televisão brasileira, talvez a primeira edição da Casa dos Artistas, em 2001 no SBT, tenha marcado, de fato, a entrada desses “novos” formatos. França (2006) reconhece que novos gêneros estariam cumprindo novas funções. Uma delas seria a de justiça, como fazem programas de caça aos bandidos. Ou ainda as funções terapêuticas (televisão de divã ou de aconselhamento) e psicológicas, presentes em programas como Big Brother. A pesquisadora, no entanto, não deixa de qualificá-las como “ funções questionáveis”.
Para não retornarmos à polêmica cíclica sobre a qualidade da televisão, vale citar o que Nunn (2009) descreve sobre esses novos gêneros:
os debates acalorados sobre esses programas na Grã-Bretanha repercutiram aqueles ocorridos em inúmeros outros países acerca do declínio dos valores da teledifusão, o desgaste da qualidade da programação e as preocupações éticas quanto ao uso de pessoas comuns nos programas do gênero realidade (MATHIJS et al apud NUNN, 2009, p. 91).
A televisão factual foi alterada pelo surgimento da TV-realidade nascida de um cenário em que a produção televisiva se transformava diante da proliferação dos canais e de novas práticas profissionais. Colaboraram também:
a importação de uma gramática recém-adaptada do entretenimento democratizado e sua interseção com a vida “ normal”, as opiniões e a performance de pessoas comuns na tela e, por último, mas não menos importante, a convergência dos formatos televisivos com as novas plataformas midiáticas (NUNN, 2009, p. 92, aspas do original).
Essas características mencionadas por Nunn (2009) serão abordadas adiante nesse trabalho, pois discutimos o formato híbrido do programa Bem Estar, objeto desta pesquisa, em que características de programas de estilo de vida misturam-se a estratégias jornalísticas. Antes, porém, abordaremos os programas sobre saúde na televisão brasileira.