CAPÍTULO I – A PRODUÇÃO TELEVISIVA
2. Produção televisiva – produtora de formas para olhares televisivos
2.2. A televisão Uma indústria cultural dependente
Aceitando o conceito de produção televisiva como indústria cultural pode-se sintetizar o conceito como a transformação de uma parte da cultura capaz de integrar um trabalho criativo numa matriz tecnológica e industrial para o transformar num produto destinado a ser vendido a um público massivo (Bustamante, 1999). Mas Bustamante recorda que este conceito tem sido convertido para o núcleo de teorias centradas no âmbito de compreender a produção e consumo da cultura de massas e, por esse motivo, importa definir que dentro da indústria cultural, os produtos e serviços culturais estão compostos por protótipos reprodutíveis, marcados por uma renovação permanente, de valorização aleatória (que se traduz em alto risco económico), com custos fixos elevados (criação e fabricação do master) e custos variáveis débeis (reprodução e distribuição) (Bustamante, 1999: 24). O âmbito principal da produção televisiva é a criação e “fabricação” de um programa televisivo onde a tecnologia é parte integrante desse processo. Como, por definição do conceito a nível fundamental (Bustamante, 1999), os custos fixos são elevados, a produção televisiva é especialmente sensível a pressões económicas, politicas e sociais. Pressões que se inserem nas teorias de dependência (Straubhaar, 2007).
Os países que estão em desenvolvimento são os mais expostos a teorias de dependência, porque as elites universais criaram sistemas políticos, grupos económicos e indústrias culturais viradas para o lucro e por isso estabelecem fortes relações com um núcleo de países em desenvolvimento (Straubhaar, 2007). As elites das indústrias
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culturais, em particular a televisão, têm tendência em criar e orientar mercados para o seu próprio interesse económico e ideológico. A BBC, como referência televisiva, contribui de forma direta e indireta na definição de competências profissionais, modelos de produção, modelos de programação, modelos de organização e de referências estéticas tornando-se consequentemente num grupo de media dominante em vários países. (Straubhaar, 2007; Lourenço, 2008, 2012).
A influência e o domínio dos grandes grupos de media dos países do Primeiro Mundo sobre o resto do mundo é notório através do fluxo de produção televisiva num só sentido (Straubhaar, 2007). Como exemplo, desde os inícios da televisão que a produção dos estúdios de Hollywood se dedica à produção de programas televisivos para as diversas estações e cadeias de televisão americanas e do resto do mundo (Cantor, 1971; Straubhaar, 2007). Hoje a produção continua em crescimento e a adquirir novas estratégias de fluxo produtivo a partir de uma maior oferta de canais televisivos e de novos serviços em streaming20 de televisão como a Netflix, a Amazon e a Hulu, que
produzem séries televisivas de grande qualidade reconhecida pela crítica especializada e pela audiência. Tim Goodman, crítico de televisão do Hollywood Report, afirma que produção televisiva está numa considerada segunda idade do ouro da produção televisiva com grandes realizadores e atores a migrar da grande tela do cinema para as séries televisivas21.
Para além de ser mais barato importar programas do que produzi-los, a falta de tecnologia, formação profissional e conhecimentos específicos - necessidades de uma indústria muito específica que é a televisão (Bustamante, 1999) - contribuíram para que a maioria dos países até aos anos 80’s estivessem dependentes da produção televisiva produzida pelas grandes indústrias de produção como Hollywood.
A mudança do paradigma na produção televisiva surge a partir da década de 80, devido à inovação tecnológica que desperta uma nova abordagem politica sobre a televisão nacional. Os sinais de mudança começam com o surgimento do satélite durante os anos 70’s ao proporcionar capacidade de expansão do sinal televisivo sem barreiras geográficas que limitavam o acesso da televisão a muitas regiões de diversos países. Isto
20Streaming é uma forma de transmissão de som e imagem (áudio e vídeo) através de uma rede qualquer de computadores sem a necessidade de efetuar downloads do que está se vendo e/ou ouvindo, pois neste método a máquina recebe as informações ao mesmo tempo em que as repassa ao usuário.
O nome Streaming deriva da palavra stream que significa pacotes, pois a máquina recebe as informações em forma de pacotes para serem remontados e transmitidos aos ouvintes.
21 http://observador.pt/especiais/séries-dominaram-o-ano-de-2014-idade-de-ouro-da-televisao-
continua-em-2015/ e http://www.dn.pt/inicio/tv/interior.aspx?content_id=4540976 (acedido em junho
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possibilitou que um programa produzido e emitido na Califórnia pudesse ser visto em Moscovo, retirando por isso limitações físicas à expansão da televisão. A grande potencialidade de distribuição de sinal televisivo que o satélite passou a oferecer. Isto fez com que países de grandes dimensões como a ex-URSS começassem a investir na distribuição televisiva por satélite (Straubhaar, 2007: 74).
A distribuição do sinal televisivo a abranger maiores camadas de população foi um incremento para o aumento da produção televisiva de âmbito nacional. Este aumento de produção é essencialmente verificado a partir da década de 90 como resultado de uma oferta tecnológica mais barata (Bruun, 1999; Cádima, 1999; Herreros, 2011) e de uma consciência social e política por parte dos governos na importância da produção televisiva nacional como veículo difusor da identidade cultural e de valores sociais, económicos e políticos associados (Bustamante, 1999; Straubhaar, 2004). As estratégias que os países começaram a desenvolver para o aumento da produção nacional passaram essencialmente pela imposição de quotas de produção, em especial no Prime- time. Esta estratégia tem resultado no crescimento de hábitos de consumo de produção nacional, aumento na qualidade da produção televisiva e consequentemente num reconhecimento dessa mesma qualidade através de prémios internacionais, como é exemplo das telenovelas portuguesas, género televisivo com grandes audiências em Portugal e que durante muitos anos era exclusivo da importação de produção essencialmente brasileira.
A influência das dependências na produção de estéticas televisivas
O estudo de Chul Heo (2004) sobre produção televisiva da Coreia do Sul durante a crise nacional de 1997 coloca em evidência as mudanças de forma/conteúdo na oferta televisiva - modelos de produção carentes de meios técnicos e de cuidados estéticos, mudanças estruturais dentro das organizações televisivas coreanas com funções a serem dispensáveis na produção, entre outros fatores - motivado pelas dificuldades que o país passou durante o processo de resgate do Fundo Monetário Internacional a que esteve sujeito. O estudo, ao pontuar sobre a crise televisiva na Coreia do Sul, destaca a importância da produção televisiva como meio difusor da identidade cultural e que simultaneamente é dependente de fatores sociais, políticos e económicos na produção de estéticas televisivas.
O autor deste estudo apresenta em primeiro lugar uma descrição dos processos que levaram ao aparecimento da televisão sul coreana, revelando que esta surgiu com a influência do modelo americano, ou seja num conceito de patrocinador do programa com base na popularidade das audiências. Importa no entanto referir que a implantação da rádio na Coreia do Sul tinha sido feita pelo Japão em 1927, para legitimar a colonização japonesa. Por esse motivo o modelo de broadcast foi, até ao aparecimento
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da televisão, uma ferramenta de governamentalização. Esta herança resultou num modelo de televisão controlado por uma rígida ideologia governamental, mas com liberdade comercial (Heo, 2004: 111)
A influência americana na difusão da televisão surge em 1956 pelas mãos da RCA. A estratégia da KOCAD (Korean RCA Distribution) era a de vender televisores. A estação televisiva acabou por fechar ao fim de um ano porque apenas tinham conseguido vender três mil televisores. Falhado o objetivo económico surge o interesse político. Como se vivia uma cultura de medo, promovida pelos Estados Unidos numa campanha anti comunista em defesa da democracia, surge a televisão - American Forces Korea Network, AFKN-TV - com a tarefa de difundir os valores culturais americanos. A dependência política da televisão Coreana mantém-se com a ditadura do General Park Chug-Hee que reconhece na televisão grande potencial na promoção de valores nacionalistas, apoiando por isso o nascimento da primeira estação televisiva nacional - Korean Broadcast Station, KBS-TV - com um sistema de financiamento misto por publicidade e taxa obrigatória para quem tem televisor. Durante o regime do General, a indústria televisiva tem um grande impulso ao promover uma aliança entre o estado e grupos económicos emergentes que controlavam a imprensa, fazendo nascer duas televisões privadas - TBC-TV em 1964 - pelas mãos da Samsung Group e a - Munwha Broadcasting System, MBS-TV em 1969 - pela Fundation of Chung-Soo (Heo, 2004:113). Numa primeira análise a implementação da televisão na Coreia do Sul reflete as dinâmicas políticas, económicas e culturais de um país parcialmente industrializado, mas que em todo o caso ainda é controlado por países centrais com o objetivo de atrair novos mercados potenciais, evidenciando a teoria da dependência - que afirma que muitas vezes para que um país possa obter independência política este vê-se enredado numa série de relações dependentes (Straubhaar, 2007: 56).
Como a televisão era controlada por ideologias governamentais a produção televisiva nacional tinha um texto televisivo que apelava a nacionalismos sustentados por narrativas onde o herói nacional é aquele que trabalha mais de 12 horas por dia, de segunda a sábado, a baixo custo. É, no entanto, interessante observar que a narrativa muda com o crescimento económico do país, substituindo o operário que trabalha mais de doze horas diárias pelo executivo proprietário de um carro topo de gama estrangeiro. Os conteúdos televisivos passam a ser séries dramáticas onde o luxo impera e programas de entretenimento apelando ao consumismo (Heo, 2004).
Mas em Dezembro de 1997 explode a grande crise económica e a Coreia do Sul é resgatada pelo FMI. As empresas abrem falência, há despedimentos em massa, a classe média quase desaparece. As regras duras impostas pelo FMI obrigam a grandes restruturações na televisão broadcast, que foi considerada uma das causas da grave crise económica, e a Korean Broadcaster Association emite uma sugestão de “se criar
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um nível de entretenimento que evite o sensacionalismo e o consumismo” (Heo, 2004). A produção televisiva, muito dependente de receitas publicitárias, procura de imediato produzir programas adequados à nova realidade da audiência coreana. As séries dramáticas de luxo e os grandes shows Musicais, são substituídos por programas educativos, comédias de situação produzidos em estúdio, talk-shows e magazines com a participação das audiências nos programas. A produção torna-se mais vertical, substituindo a produção externa por produção com meios técnicos e operacionais próprios conseguindo com isso uma grande poupança monetária. Esta mudança de paradigma na produção televisiva sul coreana revela que a indústria criadora e fabricante, inserida na indústria cultural, está economicamente mais exposta devido a custos fixos elevados que a caracterizam (Bustamante, 1999). A produção nacional, mesmo podendo estar em condições de dependência - como recursos de baixo rendimento, falta de infraestrutura industrial ou falta de apoio governamental - é, mesmo assim, muitas vezes preferida pela audiência (Straubhaar, 2007: 66).
Outro dado interessante são as mudanças estéticas da produção nacional. Os programas televisivos, que antes do resgate do FMI eram carregados de grandes efeitos visuais, começam a ser produzidos com técnicas menos sofisticadas, resultando numa imagem televisiva empobrecida, que segundo o autor, remetia para a década anterior, com características como: As iluminações cuidadas que caracterizavam os ambientes das séries televisivas são substituídas por luzes duras de tons neutros; Os sons Musicais deixam de ser suaves e sofisticados passando a ser energéticos com ritmos populares; As sequências de planos ritmados, com variedade de escalas e pontos de vista de planos, são substituídos por plana sequência composta por planos gerais longos (Heo, 2004: 134). As estações de televisão começam a produzir séries ficcionais, com modelos de produção que têm a preocupação de adaptar guiões com menos personagens, e a produzir nos seus estúdios com meios humanos e técnico de produção internos. Esta racionalização permitiu uma poupança entre os 50% e 70% no total de custos de produção, não evitando uma perda na qualidade de produção. (Heo, 2004). Este recuo na qualidade produzida, resultado de quebras de receitas comerciais e de cortes orçamentais remetem para Paul Kerr (1990) que considera a qualidade proporcional ao volume de dinheiro gasto na produção de um programa (Kerr, 1990: 47) e autores como Geoff Mulgan (1990) e Charlotte Brunsdon (1990) que afirmam que o uso de atores de renome e adaptação de importantes textos literários ou peças teatrais reconhecidas agregam qualidade na produção de um programa de televisão (Mulgan, 1990; Brunsdon, 1990).
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2.3. Produção televisiva. Uma indústria de práticas globalizadas (estéticas ao serviço