CAPÍTULO IV – GÉNERO TELEVISIVO
4. Formas e Géneros televisivos Breves apontamentos
Muitos críticos consideram que a expansão da oferta de canais televisivos, com o aparecimento da televisão digital, deu origem a programações híbridas, levando a considerar a noção genérica de formas puras desatualizada (Mittell, 2004: xii). A expansão da oferta televisiva e, consequentemente, o incremento de produção televisiva com uma oferta de novas formas resultante de misturas de formas televisivas já existentes dá origem a uma nova abordagem do género televisivo defendida por Jason Mittell (idem).
O género televisivo, como a forma televisiva, detentora de códigos culturais e sociais, importa como categoria cultural. O género é abordado em quase todas as facetas da televisão, como na organização empresarial, decisões políticas, discursos políticos, práticas de audiência, técnicas de produção, estética textual e tendências históricas (idem). Tendencialmente o género televisivo é usado pelos académicos para delinear projetos de investigação e organizar ensino e os críticos jornalistas confiam no género para localizar programas dentro de um quadro comum (idem: xii). É um sistema de catalogação bastante útil para os três âmbitos da televisão que são a oferta, a produção e o consumo (Cassetti e Chio, 1999).
Enquadrando o género televisivo no âmbito da produção televisiva, Mittell considera que a catalogação de formas por género é fundamental na organização de práticas de produção (2004: xii). No âmbito da receção, o género serve para organizar audiências,
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analisar práticas de fãs, orientar preferências pessoais, enquadrar práticas de visualização e outras estratégias que também são úteis para a produção televisiva.
A teoria do género defendida por MIttell situa distinções de género e categorias como processos ativos incorporados por dentro e constitutivos de políticas culturais, apontando como se desenvolve e se molda à nossa cultura e como as facetas menos examinadas, como os géneros, importam. (idem). A abordagem do género televisivo protagonizada por Mittell tem em conta as categorizações da oferta que, devido à expansão do discurso televisivo, deram origem a diversos canais temáticos, os valores estéticos e técnicos da produção televisiva com um posicionamento claro sobre a estética televisiva e a relevante contextualização histórica do género produzido. Como o género televisivo está num processo de fluxo contínuo, já anteriormente observado por Raymond Williams nas misturas e novas formas televisivas (1974: 69), é importante a análise do género num contexto histórico.
A análise do género nos diversos contextos é de grande utilidade para a produção televisiva, de fluxo ou não, porque permite elaborar um modelo de produção tendo em conta a complexidade cultural e social contida no género televisivo.
Nesse contexto, o Talk-show televisivo, programa regularmente produzido em fluxo, considerado uma criação da radiodifusão do século XX (Timberg, 2004: 18), é hoje um género que resulta da convergência de informação e entretenimento, e da ficção e realidade (idem: 191). Um género englobado no que Robert Erler (2004) define como TV talk, resultado de uma forma de conversa que Erving Goffman (1981) definiu como Fresh talk – conversa aparentemente espontânea mas que pode ser muito bem planeada e encenada. Erler distinguiu três amplos subgéneros de TV talk, que são: as conversas de informação, de entretenimento e de situação social (2004: 196). O mesmo autor considera que a retorica produzida num TV Talk, resultado de uma estrutura em particular ou um padrão, se torna num formato. Os formatos sustentados na retórica da conversa são o programa de variedades com apresentador/anfitrião, o painel de discussão, o programa de entrevistas, o espetáculo satírico e o monólogo educativo (idem: 197). O texto destes formatos é influenciado por convenções da indústria televisiva, que dividem o dia televisivo em manhã cedo (early morning), durante o dia (day-time), princípio da noite (evening prime time) e noite (late-night).
Considerando o Talk-show como um género pertencente ao Tv Talk, os diferentes formatos identificados por Erler (2004) tem em comum três elementos que são o estúdio de televisão, o apresentador/anfitrião e a entrevista (Bruun, 1999). Ao contrário dos programas de entrevista, o Talk-show é um programa estruturado em torno da conversa e é caracterizado por Timberg (2004) com quatro princípios: o primeiro é que o Talk-show televisivo está ancorado no apresentador/anfitrião, que é a na generalidade a imagem do programa, e que segundo Erler, a capacidade de mudar ou executar
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diferentes modos de retóricas em rápida sucessão são uma das principais habilidades de um apresentador de um Talk-show (2004: 197); o segundo princípio é que a conversa, seja em direto, gravada ou mostrada em repetições, é sempre mantida na ilusão do tempo presente; o terceiro princípio é que o Talk-show é um produto que compete com outros produtos televisivos; o quarto princípio é que o dar e receber deve ser sempre espontâneo mesmo que seja altamente estruturado (Timberg, 2004).
Este último princípio significa que o modelo de produção de um Talk-show é por norma composto por uma vastíssima equipa de produtores, argumentistas, cenógrafos, artistas gráficos, caracterização, cabeleireiro, guarda-roupa, para além da equipa de câmaras e outro staff técnico (idem, 2004: 4).
Na generalidade, a produção televisiva, sempre com a intenção de penetrar na “cultura” da audiência, procura produzir conteúdos que tenham uma ligação emocional com o espetador e por esse motivo, como Kevin Reilly (2011) salientou111, as empresas de media procuram inovar e para isso olham para as audiências de uma forma multidimensional. Esta multi dimensão tem como principal objetivo conquistar audiências, e as estéticas comunicacionais que as televisões desenvolvem nos conteúdos televisivos resultam por vezes em formas inovadoras ou misturas de géneros.
Como exemplo, o Talk-show late-night, Daily Show com Jon Stewart produzido para o canal por cabo americano Comedy Central, subsidiário da gigante dos media broadcasting e cabo americano Viacom. O programa foi emitido pela primeira vez em 1996 e foi apresentado, entre 1996 e 1998, por Kraig Kiborn. O Daily Show passou a ser apresentado a partir de 1999, e até 2015, por Jon Stewart112 que instituiu um carácter muito especial ao programa, tornando-o um caso de estudo em media. O Daily-Show está caracterizado num mix de géneros de comédia, notícias e talk-show. É um programa que através da sátira e da ironia se tornou numa referência de análise crítica política na América e em cultura de media. É um programa reconhecido pelo seu trabalho em romper com o absurdo do sistema político americano e dos meios de comunicação, ao promover responsabilidade, prestação de contas e um discurso de sensatez.
O Daily-Show é produzido num modelo de produção em estúdio com múltiplas câmaras em fluxo não contemporâneo. Na cenografia do programa predominam a cor azul- escura com alguns apontamentos de vermelho com fundos cenográficos decorados com mapas do mundo estilizados e redações de informação com pouco detalhe, remetendo formalmente o espaço cenográfico para programas de informação. O volume do espaço televisivo é composto por grafismos de primeira e segunda ordem espacial com um
111Mip.com, 2011 - http://www.youtube.com/watch?v=YEsTy6zxtg0 (acedido em julho 2015) 112Jon Stewart anunciou no início de 2015 que ia abandonar o programa -
http://observador.pt/2015/02/11/jon-stewart-deixa-de-apresentar-o-daily-show/ (acedido em maio 2015)
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tratamento no seu desenho que reforça a interpretação visual de um programa de informação. A leitura dos headlines, a ordem de prioridades bem estabelecida, a hierarquia bem definida de apresentação, composto por apresentador (anfitrião de talk- show/jornalista/humorista), repórteres, correspondentes e convidados e uma visualização com uma escala de planos e composição da imagem, dentro e fora do estúdio, bem definida, remete no seu todo para a forma de notícias. O género de programas de notícias e de informação, num sentido mais amplo, é a leitura e catalogação imediata que se tem do late night-show americano. Mas a organização do texto televisivo do programa é mais complexo ao misturar géneros narrativos através do humor e sátira, com géneros não-narrativos contextualizados em temas de atualidade informativa da vida política, social e económica americana. Esta mistura de forma/conteúdo de géneros televisivos, com a fronteira que separa informação do entretenimento pouco definida, produz expectativas na audiência de alguma complexidade cultural e social.
Comparando o programa de entretenimento Daily News com programas de informativos verificam-se as subtilezas possíveis de serem produzidas nas formas televisivas.
O Daily-Show é um exemplo de programa televisivo que se enquadra no ensaio de Raymond Williams (1974), onde a Televisão, como forma televisiva que se renova
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através de pequenas variações do texto televisivo, se torna percursora de géneros híbridos. Para Williams, a tecnologia é um dos principais fatores no desenvolvimento de novas formas (idem). Para Mittell (2004), as ferramentas que a televisão usa como sistemas produtores de estéticas são as mesmas que o cinema ou mesmo a literatura usam. O que o autor considera de relevante diferença entre estas e a televisão é que nesta última tanto os produtores como a audiência não atribuem valor estético autoral à televisão e é por esse motivo que a mistura regular de géneros narrativos com não narrativos não adquire nos novos géneros televisivos modelos de autoria como são evocados nos géneros literários e cinematográficos (idem) e simultaneamente, mesmo que possam ocorrer a produção de formas aberrantes ou diversas de texto televisivo, em geral, público e produção funcionam dentro de uma estrutura bastante previsível de expectativas enquadradas em convenções de género conhecidas (LIvingston e Hunt, 2001: 6).
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