2 PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR NA PERSPECTIVA DA LEI 1.618/01: A
2.4 A tendência da previdência complementar pública
Embora o Art. 40, § 14 da Constituição Federal autorize a instituição do regime de previdência complementar pela União e seus entes federados desde 1998, ano em que referido parágrafo foi incluído no art. 40 da CF/88 pela Emenda Constitucional nº 20, levou-se mais de uma década para efetivar tal medida, muito embora a importância desta nova modalidade de organização previdenciária seja apontada como uma proposta adequada à recuperação da viabilidade econômica e atuarial dos regimes previdenciários reservados aos servidores públicos, bem como para tentar reduzir o déficit previdenciário. Antes mesmo da criação da Lei nº 12.618/2012, o estado de São Paulo foi o pioneiro a instituir a previdência complementar para os seus servidores no ano de 2011. Na data referida, foi criada a Fundação de Previdência Complementar do Estado de São Paulo – SP-PREVCOM, através da Lei Estadual nº 14.653/2011, a qual prevê abrangência não somente aos servidores efetivos do referido estado, mas também a servidores temporários, cargos em comissão e militares estaduais, conforme redação do Art. 1º da referida lei:
Art. 1º. Fica instituído, no âmbito do Estado de São Paulo, o regime de previdência complementar a que se refere o artigo 40, §§ 14 e 15, da Constituição Federal.
§ 1º - O regime de previdência complementar de que trata o “caput” deste artigo, de caráter facultativo, aplica-se aos que ingressarem no serviço público estadual a partir da data da publicação desta lei, e abrange:
1 - os titulares de cargos efetivos, assim considerados os servidores cujas atribuições, deveres e responsabilidades específicas estejam definidas em estatutos ou normas estatutárias e que tenham sido aprovados por meio de concurso público de provas ou de provas e
títulos ou de provas de seleção equivalentes;
2 - os titulares de cargos vitalícios ou efetivos da Administração direta, suas autarquias e fundações, da Assembleia Legislativa, do Tribunal de Contas e seus Conselheiros, das Universidades, do Poder Judiciário e seus membros, do Ministério Público e seus
membros, da Defensoria Pública e seus membros;
3 - os servidores ocupantes, exclusivamente, de cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração, bem como de outro cargo temporário ou de emprego junto à Administração direta,
suas autarquias e fundações, à Assembleia Legislativa, ao Tribunal de Contas, às Universidades, ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à Polícia Militar. (São Paulo, 2013)
Outra diferença marcante da previdência complementar do Estado de São Paulo é de que a entidade poderá através de convênio, oferecer seus planos e benefícios aos municípios paulistas desde que estes regulamentem através de lei municipal, para que os servidores municipais também possam aderir ao regime complementar, conforme consta o Art. 1º, § 3º da Lei Estadual nº 14.653/2011 (São Paulo, 2013): “[...] municípios do Estado de São Paulo, suas autarquias e fundações, desde que, autorizados por lei municipal, tenham firmado convênio de adesão e aderido a plano de benefícios previdenciários complementares administrados pela SP-PREVCOM.”
Nesse sentido, nota-se que a tendência de expansão da previdência complementar pública aos demais entes da federação é apenas uma questão de tempo e surge da necessidade de recuperar financeiramente os regimes próprios de previdência social reservado aos servidores públicos, tanto da União, como dos Estados e Municípios. Embora seja vastamente criticado por sindicatos e associações de servidores, por alegações de que o regime de previdência complementar traz inúmeros prejuízos à categoria dos servidores, é necessário esclarecer que toda esta modificação visa principalmente garantir a médio e longo prazo o adimplemento dos benefícios, manutenção dos regimes próprios de previdência social e equacionar as dívidas previdenciárias causadas pelo déficit histórico desses regimes.
Corroborando com as alegações positivas da instituição da previdência complementar, merece destaque o princípio da solidariedade, principal alicerce da organização previdenciária, o qual informa que o foco de atuação na área previdenciária deve estar sempre concentrado na realização do bem comum e na atuação em prol da coletividade dos segurados, inclusive para as futuras gerações de segurados, pois os contribuintes de hoje serão os beneficiários do amanhã e assim, sucessivamente e de forma economicamente equilibrada mantém-se aquele que é tido como um importante pacto estabelecido, de forma solidaria, entre
diferentes gerações, qual seja a possibilidade de inativação remunerada garantida pela previdência social.
CONCLUSÃO
O presente trabalho demonstra a necessidade do estado brasileiro em instituir a previdência complementar pública, visando sanar o déficit histórico dos regimes próprios de previdência social. Em abordagem inicial foi conceituado o sistema previdenciário brasileiro e os princípios que o regem, e diferenciado as modalidades de previdência complementar pública e privada.
A previdência pública brasileira possui caráter obrigatório e organiza-se através do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), o qual abrange aos trabalhadores da iniciativa privada, tendo como gestor o Instituto Nacional de Seguridade Social - INSS, e também pelo Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), destinado exclusivamente aos servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, Estados e municípios, administrados pelos próprios governos.
O Regime de Previdência Complementar privada, por sua vez, comporta modalidades distintas de organização, na modalidade aberta, o resultado visado é principalmente o lucro, pois se trata de atividade de exploração econômica, desenvolvida por entidades abertas de previdência complementar, podendo ter adesão de qualquer trabalhador que possua interesse em contribuir. Já a modalidade de previdência complementar fechada, diferencia-se por atingir categoria específica de trabalhadores, não visa exclusivamente lucro financeiro, mas sim um resultado positivo para a sustentabilidade do fundo de pensão da classe de trabalhadores participantes. Paralelamente, a Constituição Federal prevê a instituição de previdência complementar também para os servidores públicos, previsão essa que, conforme a pesquisa demonstra, já está sendo efetivada na esfera federal e também em alguns estados da federação.
Todo enfoque relacionado à previdência pública e privada do sistema brasileiro de previdência esta inserido na Constituição Federal e leis federais que regulamentam o seu funcionamento em específico.
Para corroborar e subsidiar acerca dos regimes previdenciários a pesquisa busca suporte em alguns dos mais importantes princípios previdenciários, qual seja o princípio da solidariedade e ao princípio do equilíbrio financeiro e atuarial. O primeiro de suma importância, pois está relacionado à funcionalidade da previdência pública que necessita da solidariedade de seus segurados para que possam sustentar o funcionamento do regime previdenciário por inúmeras e sucessivas gerações. Na mesma perspectiva pode-se afirmar que para um regime previdenciário possuir boa e eficiente gestão e não seja abalado pelo déficit de recursos, há de se respeitar o princípio do equilíbrio financeiro e atuarial, o qual visa entre outros objetivos, principalmente que as despesas sejam inferiores ao total de arrecadação do regime, para assim evitar o comprometimento aos cofres público se garantir a saudável manutenção do sistema.
A Lei Federal nº 12.618/2012, por sua vez, instituiu o regime de previdência complementar dos servidores públicos titulares de cargos efetivos da União, conforme previsão constitucional e visando estabelecer o valor teto do regime geral de previdência social – RGPS como valor limite dos benefícios aos regimes próprios. A referida autorizou a criação de entidades fechadas de previdência complementar denominadas Funpresp, as quais serão responsáveis pela gestão dos recursos e manutenção dos planos de benefícios dos servidores que aderirem ao novo regime. Destaca-se que a previdência complementar instituída para atender o servidor público tem como principal característica a adesão facultativa dos segurados do regime próprio de previdência social. Cabe observar que os servidores públicos nomeados até data anterior a publicação da referida lei permanecerão vinculados a antiga regra, podendo, contudo, facultativamente, aderir ao novo modelo.
Pode-se concluir desse modo que, visando diminuir os danos causados pelo déficit financeiro dos regimes próprios de previdência social, a nova previdência complementar dos servidores públicos, apresenta uma caracterização diferenciada aos regimes próprios de previdência social, especialmente porque, ao menos para
os servidores que ingressarem no serviço público a partir da sua instituição, os benefícios previdenciários concedidos pelos regimes próprios dos servidores ficarão limitados ao teto dos benefícios concedidos pelo RGPS, sendo que estes servidores para complementar o valor de sua renda poderão aderir facultativamente aos planos de previdência complementar, oferecidos pelas entidades fechadas Funpresp. Nota- se que há uma clara tendência de que os Estados e municípios também adotem a previdência complementar aos seus servidores, aos moldes do Estado de São Paulo, o qual instituiu o referido regime antes mesmo da União.
Por fim, cabe ressaltar que mesmo com a instituição deste regime de previdência complementar, o mesmo somente irá encontrar-se em pleno funcionamento após esgotarem-se todos os benefícios de aposentadorias e pensões da ultima geração de servidores que ingressaram no serviço público antes da publicação da lei, ou seja, implantação total dessa nova sistemática de aposentação para o servidor público brasileiro, provavelmente levará várias décadas, assim, as máculas financeiras geradas por um regime que, dentre inúmeros outros fatores, negligenciou na observância de importantes princípios previdenciários, garantindo privilégios na aposentação dos servidores públicos, ainda serão suportadas por longos anos pelo erário público brasileiro.
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