Nessa cosmovisão medieval, na qual Deus era o centro, a dimensão temporal era subsumida pela espiritual, ou seja, o objeto do conhecimento dos intelectuais da época era o mundo transcendente. Andery e outros (2007, p. 158) relatam que, ao admitir que o governo era de origem divina, que a legislação do Estado era para o bem do povo e que deveria haver uma submissão do governo em relação à Igreja, “Santo Tomás defende uma postura de passividade e obediência da sociedade frente à situação vigente”.
Teologia e Igreja compuseram, assim, uma relação íntima. A Igreja sustentava-se na sua tradição fundamentada em verdades ou dogmas de fé. Fischer (2008) salienta que a Teologia é mais ampla do que os dogmas, porém estes pressupõem um trabalho teológico. Para o autor, nem tudo o que temos de Teologia tornou-se dogma, porém,
o surgimento e o desenvolvimento dos dogmas não podem ser entendidos nem apresentados sem que se conheça a Teologia ou as Teologias que levaram à sua elaboração. Por isso, disse Harnack, o horizonte da história dos dogmas deve ser o mais amplo possível. De fato, sua “história dos dogmas” é uma monumental história da Teologia das épocas caracterizadas pelo cristianismo dogmático (FISCHER, 2008, p. 88).
Cabe, aqui, ressaltar que o grande papel e finalidade da Teologia medieval era fortalecer a instituição Igreja. Conforme Schuch Jr, (1998, p. 29):
Destaca-se como a religião, sempre associada à educação, transforma suas crenças originais a fim de adaptá-las aos interesses das classes dominantes e exigências do poder. A regra parece ser a mesma que compatibilizava a escravidão com o amor ao próximo e a igualdade dos homens perante Deus, pregadas pelo cristianismo.
Religião, produção do conhecimento (educação) e dominação compõem um conjunto de fatores indissociáveis na constituição do medievo. A crença era elemento fundamental para a dominação do povo
e legitimação dos interesses eclesiais. O método da escolástica14 cumpria um papel importante na fixação das crenças necessárias à manutenção do poder eclesial. O processo de fixação da crença ocorria a partir da ênfase na memorização, pois o método da leitura e, posteriormente, da própria memorização desses textos teológicos, pressupunha que o processo de fixação dos conhecimentos iria promover um bom comportamento dos indivíduos que, ao agirem, a memória faria o papel de alerta às atitudes. De acordo com Le Goff (1984), a memória estava estreitamente ligada à religião. Ao estabelecer-se como ideologia dominante, a Teologia cristã fez surgir uma memória coletiva, ou seja, “o essencial vem da difusão do cristianismo como religião e como ideologia dominante” (LE GOFF, 1984, p. 24). Essa ideologia precisava, portanto, ser assimilada como um sistema de crenças legitimatórias de uma determinada ordem, no caso medieval, a ordem teocêntrica, na qual o mundo imanente é subsumido pelo mundo transcendente por intermédio de uma instituição terrena.
Com relação às crenças legitimatórias, Bourdieu (2005) discorre sobre os sistemas simbólicos como legitimadores do poder dominante; afirma que Weber e Marx entendiam que a religião cumpre uma função conservadora da ordem social, contribuindo para a legitimação do poder dos dominantes e para a domesticação dos dominados. “A religião contribui para a imposição (dissimulada) dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo e, em particular, do mundo social” (BOURDIEU, 2005, p. 35). Para Dreher (2004) a doutrina cristã era vista como um sistema pronto e acabado, revestida de santidade e de um caráter imutável. A função do teólogo era a de, com muita sutileza e com meios adequados, penetrar e comprovar a lógica e a racionalidade desse sistema. Conforme refere o autor, “a Escolástica desconhecia aquilo que designamos de pesquisa teológica. Ela não fez o esforço de nos aproximar das origens da Igreja e de transmiti-las de maneira atualizada e objetiva às novas condições e situações” Eis a importância de contextualizarmos esse papel da Teologia no medievo, relacionando- a com a posição ocupada pela mais importante instituição religiosa da época, a Igreja Católica.
A concepção teocêntrica que dava superioridade ao mundo
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A denominação “escolástica” era usada para designar os professores das ciências nas escolas superiores. Segundo Dreher (2004), na Alta Idade Média, o conceito ganhou outro significado, que pode ser comparado à expressão que usamos, quando dizemos “fazer escola”. O que caracterizava esse ensino era que gerações inteiras ficavam presas à opinião de um único mestre. Na Idade Média Tardia, o método escolástico determinou todo o ensino teológico, todo o ensino da ciência.
transcendente em relação ao mundo terreno era a ideologia construída e disseminada pelos grandes teólogos desse tempo. Todavia, a defesa de tal matriz teológica ocorria porque a Igreja estava numa situação sociopolítico-econômica altamente confortável, gozando de tal hegemonia a ponto de não haver necessidade de intervenção que provocasse mudanças ou transformações nas relações de produção vigentes. A vida dos integrantes do clero, juntamente com a nobreza, da Alta Idade Medieval era marcada pela fartura em oposição às condições rudimentares e miseráveis dos servos. Bourdieu (2005, p. 53) afirma que, em uma sociedade segmentada, a estrutura dos sistemas de representações e práticas religiosas próprias aos diferentes grupos ou classes acabou por favorecer à “perpetuação e para a reprodução da ordem social ao contribuir para consagrá-la, ou seja, sancioná-la e santificá-la”.
Dessa forma, o discurso ideológico, produzido e legitimado pela Teologia, buscava, por intermédio da concepção determinista de mundo, canalizar todos os anseios de felicidade e plenitude para o mundo divino pós-morte. Herdando uma tradição platônica, os teólogos defendiam a supremacia da alma em relação ao corpo e, portanto, o sacrifício e aascese do corpo transformar-se-iam em benefício e riqueza para a alma. O discurso teológico vigente estava imbuído da ideia de que, para um cristão, a felicidade é um dom de Deus, não obstante o homem deve procurá-la por intermédio da purificação da alma. Com base nas obras de Santo Agostinho, Novaes (1997) destaca que, para purificar sua alma, o homem precisa, obrigatoriamente, reconhecer a condição miserável da humanidade contraída com o pecado original. A ascese foi muito importante também para os platônicos e neoplatônicos, que influenciaram profundamente Agostinho.15
Para Santo Agostinho, o verdadeiro caminho para a felicidade não é humano, provém do Absoluto, de Deus. E onde está o “Absoluto”? Onde ele faz-se compreender? A compreensão desse Absoluto está no discurso teológico da Igreja. Havia, portanto, a tentativa de canalizar o anseio pela felicidade, por meio da busca da purificação do indivíduo para Deus, pela mediação da Igreja. Esse discurso e essa concepção teológica tinham por objetivo desvincular
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Os conceitos abordados por Santo Agostinho devem ser compreendidos à luz da Teoria das Ideias de Platão. Ao analisar a obra “Cidade de Deus” de Agostinho, Franco Jr (1984) considera que a cidade de Deus guarda relação com o mundo das ideias de Platão, pois contrapõe a existência de uma realidade concreta à de uma realidade transcendente, espiritual, perfeita. Na cidade terrena, ohomem é o cidadão, e a Igreja representa a cidade de Deus, devendo, por isso, governar e ter superioridade sobre o Estado.
totalmente o indivíduo da produção social de sua existência, dando a este mundo material apenas uma função reparadora dos pecados. E aí o sacrifício apresenta-se como o principal caminho à reparação. Para Rubano e Moroz (2007) ressaltam Agostinho defende a ideia de que Deus tem poder absoluto sobre tudo o que ocorre no universo, e isso produz um espírito de acomodação e aceitação do que acontece no mundo, inclusive a aceitação do escravismo.
É nesse contexto que, na estruturação de um sistema simbólico, Bourdieu (2005) assinala que a religião exerce um efeito de consagração, convertendo em limites legais os limites e as barreiras econômicas e políticas efetivas, e contribui para a manipulação simbólica das aspirações que tende a assegurar o ajustamento das vivências às oportunidades objetivas. Dessa forma:
Inculca um sistema de práticas e representações consagradas cuja estrutura reproduz sobre uma forma transfigurada, e portanto irreconhecível, a estrutura das relações econômicas e sociais vigentes em uma determinada formação social (BOURDIEU, 2005, p. 46).
A Teologia exerceu, portanto, um papel fundamental na construção de um imaginário social, conseguindo fornecer à Igreja um
status legitimado por um sistema simbólico. Segundo Rubano e Moroz
(2007), a vida intelectual do medievo ficou subordinada à Igreja.16 Essa simbiose entre filosofia, Teologia e catolicismo proporcionou um grande acúmulo teórico e metodológico, provindo da própria escolástica, que exerceu influência nas áreas do conhecimento que surgiram posteriormente. Segundo explica Passos (2006, p. 167), “em termos epistemológicos, há uma racionalidade fundada na metafísica que dita as regras do jogo do conhecimento, sustentando de modo basilar todo seu edifício”. É um campo do conhecimento que ganhou corpo, estruturou-se numa perspectiva de perpetuação.
Para esse sistema manter-se indefinidamente era fundamental um projeto pedagógico de transmissão e inculcação dessas crenças. É, por
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O clero católico era quem dominava a habilidade da leitura e da escrita, controlando o sistema educacional formal no medievo, o que fez com que o monopólio do saber estivesse nas mãos da Igreja. Diante disso, de acordo com Andery e outros (2007, p. 142), todo o campo da produção do conhecimento contemplando a Teologia, a filosofia e a ciência estava permeado pela religião. Havia um domínio muito forte que se fazia sentir “na medida em que estes (os conhecimentos produzidos) não poderia em hipótese alguma contradizer as ideias religiosas” (ANDERY et al., 2007, p. 142).
isso, que os estabelecimentos eclesiásticos medievais como abadias, catedrais e paróquias deveriam manter uma escola para a formação dos jovens. Conforme Rossato (2005), quando a Igreja sentiu necessidade de formar seus clérigos, iniciou a fundação dos seminários, as escolas catedrais ou episcopais, as quais se constituíram na primeira fase da universidade, a qual seria, em consequência, colocada sob a tutela da Igreja.