Antes de entrarmos na relação específica entre a Teologia e a universidade, cabe destacar que a institucionalização do ensino da Teologia é anterior à criação da universidade18 em si. O ensino da Teologia iniciou com Clemente de Alexandria (150-215) e Orígenes (185-254). Para Dreher (2004), Clemente buscou desenvolver uma Teologia baseada em conhecimentos filosóficos, procurando superar a tensão entre filosofia e fé na sua escola de catequese. Orígenes foi seu sucessor e transformou a escola em Escola de Teologia. De acordo com o autor, essa foi a primeira Escola de Teologia. Nela, reuniram-se copistas que escreveram e publicaram, fundamentando suas ideias no neoplatonismo. Em 529, fundou-se o primeiro mosteiro beneditino, no qual a biblioteca possuía um lugar central, onde foram reunidas as obras que puderam ser salvas dos bárbaros. Para Dreher (2004), da Antiguidade – de onde herdamos os textos patrísticos – à Idade Média, a Teologia, por intermédio da Igreja, edificou um longo processo de formação e institucionalização do ensino.19
A Teologia e a universidade possuem origens que podem ser
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Importa destacar que, no período medieval, dá-se grande importância à universidade. Para Bianchetti (2011, p. 22), a Idade Média “es un período en el que se habla mucho de universidad y poco de lo que podríamos caracterizar como educación básica e incluso de educación popular”.
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A palavra “universidade” provém do termo latino “Universitas” – termo designativo da corporação que tinha por ofício o trabalho intelectual. Para Vasconcelos e Sálvia (1978, p. 83), “seu escopo era a defesa de interesses comuns com regras próprias, hierarquia de membros, privilégios e isenções. [...] Elas tinham o ofício de investigar, entendido etimologicamente como in vestigium ire, ou seja, retomar os caminhos daqueles que no passado observaram, coletaram, refletiram para articular, comparar, incrementar e transmitir o acervo de conhecimentos recebidos”.
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A Igreja, durante o medievo, teve a primazia no mundo político e intelectual, além do religioso. Segundo Dreher (2004, p. 11), a Teologia expressou a pretensão de um domínio intelectual no mundo, como mãe das ciências. O método da escolástica fez da dialética “o princípio gerador da atividade intelectual europeia. Da Europa, ela foi exportada para os demais continentes”.
consideradas comuns. Passos (2006, p. 168) explica que “as sínteses produzidas nas universidades de modo particular a suma de Tomás de Aquino forneceram os parâmetros para as faculdades católicas do século seguinte”. O método da escolástica foi um fator importante para o surgimento da universidade. Dreher (2004, p. 9) afirma que, na Alta Idade Média, o conceito escolástica “pode ser comparado à expressão que usamos, quando dizemos: fazer escola”. De acordo com o autor, vários teólogos20, utilizando-se do método da escolástica, contribuíram para a valorização da racionalidade e não apenas da fé.
Soares e Passos (2008, p. 13) esclarecem que “a Universidade como lugar de produção e reprodução das ciências foi o espaço original da ciência teológica em seus primórdios.” Estabelecida essa vinculação, é importante ressaltar que, conforme Rossato (2005), o espaço universitário veio construindo-se em uma intrínseca relação com a Igreja, bem como cedendo lugar e criando condições para fazer da Teologia uma ciência superior às demais, instrumentalizando-a a serviço da Igreja no combate às heresias.
As primeiras universidades europeias foram católicas. De acordo com Zilles e Quadros (1993, p.10), “das 52 universidades criadas em 1400, 39 receberam a bula pontifícia de fundação”. A universidade de Paris, no século XII, surgiu com a responsabilidade de formação intelectual a serviço da Igreja21. Ao definir as funções dessa Instituição, o Papa Celestino III (papado: 1191 a 1198) desejava que se formassem
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Seguem abaixo alguns teólogos que, para Dreher (2004), marcaram a transição de uma teologia racionalizada, abrindo caminho para o surgimento da universidade:
Anselmo da Cantuária (1033/34-1109): concentrou-se na capacidade argumentativa da razão. Para ele, fé e razão permanecem unidas.
Pedro Lombardo (1100-1160): sua virtude estava em expor opiniões, sem tomar posição, possibilitando, assim, que o leitor possa, ele próprio, pensar e posicionar-se.
Pedro Abelardo (1079-1142): estava convencido de que o uso da razão é justificado e necessário. Enquanto Anselmo ensinava que precisamos crer para compreender, Abelardo ousou afirmar que precisamos compreender para crer. “O interesse de Abelardo estava voltado para a ciência e para o direito de fazer ciência, investigando” (DREHER, 2004, p. 19)
Bernardo de Claraval (1090-1153):participou, assim como Abelardo, das profundas mudanças que aconteceram na Europa do século XII.
Tomás de Aquino (1225-1274):não foi o primeiro teólogo a ocupar-se com Aristóteles, mas o primeiro a usar abrangentemente os escritos lógicos deste, metafísicos e aqueles dedicados àsciências naturais.
Guilherme de Ockham (1300-1349): Para ele, não é o intelecto que tem a primazia no ser humano, mas a vontade. Para o Estado e a sociedade, é decisiva a formação da vontade dos indivíduos, e não um dogma religioso.
21De acordo com Dreher (2004), Bolonha e Paris (1174) foram as primeiras universidades; Oxford (1214), Cambridge (1209), Pádua (1222), Nápoles (1224) Toulouse (1229), Coimbra (1288), Salamanca (1220) foram as seguintes.
teólogos para administrar e defender a Igreja. Para Rossato (2005, p. 26), “a Universidade de Paris foi constituída especialmente como uma universidade para o ensino da Teologia, a mãe das ciências”. Foi nessa universidade que os teólogos ganharam certo reconhecimento como corpo social. Na concepção deComblin (1969), a origem do corpo social dos teólogos apareceu mais concretamente na Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, foi onde se formou essa classe social nova, os doutores, os teólogos, destinados a desempenhar um papel importante na história eclesiástica a partir de então. Conforme o autor, até mesmo a Igreja começou a defender a ideia, a partir do IV Concílio de Latrão (1215), de que cada Igreja metropolitana mantivesse um teólogo que fosse responsável pela formação dos sacerdotes. O autor também ressalta que a Universidade de Paris promoveu certa separação entre a Teologia e a busca da santificação, ou seja, os teólogos deixaram de preocupar-se com sua própria santidade, com sua vida de fé e até mesmo com o povo, passando a dedicarem-se ao exercício e à conquista de poder dentro da Igreja
A Teologia assumiu a função de uma ciência “imperialista” – se assim podemos falar –, sob o manto da qual a produção do conhecimento tinha de se abrigar. De acordo com Nunes (1979), as universidades com seus estatutos, contemplando sua organização jurídica e graus acadêmicos, surgiram no seio da cristandade medieval. Sendo assim, não é possível separar a criação da universidade da instituição Igreja, pois o clero, juntamente com a nobreza, era o grupo dominante daquele momento histórico.22 Para o autor (1979, p. 212), “a nova instituição pedagógica medieval formou-se em conseqüência do desenvolvimento das escolas episcopais, dos novos métodos didáticos, do aumento do saber em virtude das traduções [...] e da proteção dada ao ensino por papas [...]”. Essas evidências históricas apontam-nos dois elementos: o fato de que a universidade nasceu de um processo simbiótico com a Igreja e, num segundo olhar, que essa simbiose proporcionou a produção – pela universidade – de um conhecimento útil a esta parcela do grupo dominante: o clero. Esse processo de instrumentalização manifestou-se pela criação do curso de Teologia como o primeiro curso instituído nessa universidade e, para isso, foi decisivo o fato da cosmovisão nesse período estar ancorada no
22 Mesmo considerando a estreita vinculação entre universidade e Igreja, cabe destacar que as universidades, para Vasconcelos e Sálvia (1978, p. 84), mais do que transmitir ensinamentos da Igreja, “se desenvolveram como um espaço para o aprofundamento do pensamento racional e da filosofia da tradição clássica.”
teocentrismo, estando implícito, nessa perspectiva, um ideal de homem. Assim sendo:
Durante todas as fases da Idade Média perdurou o ideal clássico quanto à formação da personalidade devendo observar-se [...] o propósito de se plasmar o perfeito cristão, o discípulo de Jesus Cristo que procura a felicidade eterna através da crença no Evangelho, da prática dos mandamentos, por meio do constante aumento da vida em estado de graça, da vida sobrenatural iniciada com o batismo (NUNES, 1979, p. 100).
O processo de instrumentalização do conhecimento ocorreu quando essa cosmovisão dominante, esse ideal de homem – convergente com o da nobreza – transferiu-se para as instituições de ensino. Bourdieu (2005, p. 70) evidencia que há uma relação indissociável entre a ordem no mundo político terreno e a “ordem” construída pela Igreja a partir de uma origem transcendente. “A Igreja contribui para a ordem política, ou para o reforço simbólico das divisões desta ordem, pela consecução de sua função específica, qual seja a de contribuir para a manutenção da ordem simbólica”. Bourdieu, ao falar da inculcação dos esquemas de percepção, pensamento e ação, conferidos às estruturas políticas, afirma que essa inculcação exerceu o papel de naturalizar as estruturas e o consenso acerca da ordem do mundo. Há uma inculcação de esquemas de pensamento comuns. O autor cita a cosmologia aristotélica como um esquema de pensamento inculcado no mundo ocidental, que passou a constituir-se como o sistema simbólico legitimador da ordem, que hierarquicamente se desloca, desde o Absoluto (primeiro motor móvel), passando pelo Papa, cardeais, príncipes, vassalos e até a natureza orgânica. É um sistema simbólico eterno e imutável. Bourdieu acredita que a Igreja mantém a ordem simbólica não pela imposição de uma ordem mística, mas sim pela transmutação para uma ordem lógica. Há, então, um processo de naturalização das relações de ordem por meio da instauração de uma “correspondência entre a hierarquia cosmológica e a hierarquia social ou eclesiástica e também pela imposição de um modo de pensamento hierárquico, que reconhece a existência de pontos privilegiados no espaço cósmico e político” (BOURDIEU, 2005, p. 71). Essa tentativa de naturalizar a hierarquia e inculcar uma cosmovisão necessitou da institucionalização de um processo pedagógico, por isso que o curso de
Teologia se tornou o carro chefe da universidade nascente no período medieval. Constatamos que a universidade e, mais precisamente, o curso de Teologia, foi estruturando-se de forma que respondesse ao contexto de uma época, contexto marcado pela hegemonia da Igreja que impunha sua doutrina. Para Comblin (1969, p. 81):
Interessava-lhe mais a doutrina do que a ciência. [...] A finalidade da Teologia foi a de conhecer todas as proposições reveladas e as proposições vinculadas à revelação. [...] Para com os intelectuais e o seu espírito crítico, a atitude da Teologia clássica não podia ser outra que a de desconfiança. [...] A Teologia escolástica é um auxiliar utilíssimo para as definições da realidade sobrenatural.
Desde o medievo, o campo de conhecimento da Teologia esteve a serviço da Igreja, voltando-se ao sobrenatural e tendo nos intelectuais e cientistas declarados ou potenciais inimigos. A preocupação dos teólogos era combater as ideias que contrariassem os dogmas23 cristãos. Dessa forma:
A Teologia escolástica se preocupou cada vez menos com a sua conciliação com as ciências e a filosofia naturais. [...] Sua única relação com as ciências naturais e as filosofias modernas será a relação do Magistério: condenar as conclusões falsas e incompatíveis com o dogma cristão (COMBLIN, 1969, p.13).
Essa condenação das ideias incompatíveis com o dogma cristão precisava também de uma organização lógica, por isso é também preciso considerar que, no período medieval, buscaram estruturar a Teologia como ciência. Fato esse que verificamos, principalmente, quando analisamos o pensamento de Agostinho e Tomás de Aquino. Havia um
23 De acordo com Fischer (2008, p. 87), “dogmas podem ser compreendidos como definições teológicas formais de enunciados fundamentais da verdade cristã, proclamadas por concílios universais ou, na Igreja Católica Romana, desde meados do século XIX, também por papas”. São enunciados fundamentais normativos que comprometem a todos(as), dentro da própria igreja. Para o autor, são verdades doutrinárias definidas pela Igreja como expressões legítimas e necessárias da fé. Nesse sentido, o conceito de “dogma” tem seu lugar apropriado nas igrejas que representam o cristianismo dogmático, ou seja, as Igrejas Ortodoxas e a Católica Romana.
distanciamento e reprovação para com o pensamento científico naturalista que se opunha às verdades da fé, porém buscava-se, no método científico, a lógica da racionalidade para explicar e atender aos interesses de legitimação das verdades da Igreja.
2.4 A MISSÃO DA TEOLOGIA INSTITUCIONALIZADA NA