O movimento das redes de interesses sociais seria, no entanto, insuficiente para explicar as práticas cotidianas da pesquisa. Autores como Latour (1979) e Callon (1989) defendem que o entendimento dos processos sociais de produção da ciência deve comportar a compreensão das práticas realizadas nos laboratórios. Busca-se rastrear as conexões entre o social e a produção da C&T, mas para isso é preciso salientar a simetria entre o social e a posição dos artefatos, das teorias e dos experimentos na produção da ciência e da tecnologia.
Neste sentido, Latour destaca o enfoque antropológico na análise das ciências e das técnicas, no sentido de se obter o efeito do estranhamento que se recomenda às pesquisas de outras civilizações. O pesquisador deve se posicionar como “o outro”. A partir da etnometodologia as ciências e as técnicas são investigadas no seu modo de construção, na rede de sua prática. É preciso acompanhar concretamente o modo como as redes se constroem, se produzem e se reproduzem. Segundo Teixeira (2001), a etnometodologia em Latour forneceu os instrumentos e as formas de evidenciar os problemas referentes à produção
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De acordo com os autores, dois modelos de bicicletas em disputa se sobressaíram entre tantos outros, cujas características correspondiam a dois grupos de interesse diferentes: um de homens esportistas, interessados em obter maior velocidade e o outro, no qual mulheres se inseriram como grupo relevante, cujo interesse estava focado na maior segurança, além da adequação aos trajes femininos da época. Este último modelo acabou predominando, mas a conformação das características de concepção da bicicleta foram se definindo não exatamente num processo linear, nem sob uma perspectiva de mercado e nem técnica. Houve desdobramentos aleatórios, através dos quais diferentes fatores se sobressaíram, mas ao final deste processo predominaram os interesses deste último grupo (necessidades de segurança).
científica, permitindo ainda entender como são desenvolvidas as táticas de enfrentamento de problemas e a sua articulação com as atividades e práticas do dia-a-dia. A partir desta prática metodológica foi possível detectar as relações existentes com grupos sociais externos ao laboratório, cuja dinâmica e relevância forneceu a idéia de “laboratório extenso” de Callon (1989) ou o “core set” (o grupo relevante estendido de Collins), e os processos nele desenvolvidos. A atenção voltou-se então para o modo como esses processos eram produzidos e atualizados.
Apesar de a etnometodologia destacar o laboratório como o locus por excelência para as observações, os processos de produção de científica jamais se esgotam a este local. As análises devem ainda fornecer pistas e ferramentas conceituais que permitam alcançar e dar conta dos processos sociedade afora. Por outro lado, as análises não se esgotam quando a “caixa-preta” da ciência e tecnologia é fechada, isto é, quando um problema científico ou tecnológico está aparentemente resolvido. Isso porque os usos, as definições e redefinições no interior das performances dos processos sócio-técnicos não se encerram nunca, estão sempre em transformação.
Latour (2000) procura evocar regras que sejam capazes de subsidiar o estudo da ciência em ação, estabelecendo uma metodologia comum aos pesquisadores da C&T que atuam sob esta mesma percepção. Tais regras devem dar conta da intensa movimentação entre os laboratórios, dos seus especialistas em seu interior e dos não-especialistas externos a ele, que se situam no seu entorno. Latour busca estabelecer um método que seja capaz de explicar como os conhecimentos produzidos nos laboratórios alteram as experiências dos não- especialistas em seus próprios mundos sociais. E, em contrapartida, como esses mundos sociais alteram o fazer nos laboratórios. A discussão do exercício de produção dessas cadeias conduz à noção de translação19 e ao tratamento dos laboratórios como centros de translação. Essa noção expressa a simetria entre os micro-processos que ocorrem no cotidiano das equipes cientificas e as negociações que envolvem um universo dilatado de elementos e questões, reunindo outros especialistas e não-especialistas. Expressa assim a permeabilidade entre o lugar onde se realizam as práticas da produção científica e tecnológica (o laboratório) e o seu entorno, materializando a possibilidade de se produzir análises simétricas e sócio- técnicas.
Neste sentido, a produção contínua de conexões não implica, necessariamente, que a tradução abarque processos lineares. Ela antes envolve rupturas, alianças e conflitos. A
19 Teixeira (2001) preferiu traduzir o termo “translation” como “tradução” ao invés de “translação”, mas aqui será mantida a tradução corriqueira, como encontrada em textos em português.
translação, portanto, jamais é completamente descontextualizada, designando, a cada estudo, certa gama de processos e deixando de lado tantos outros. As translações não são formadas desde o princípio por elementos, categorias e lógicas pré-existentes de diferentes mundos sociais, já que Latour não acredita na existência de realidades pré-existentes, determinantes, esperando que sejam mobilizadas. As conexões entre os atores envolvidos - parlamentares, legisladores, grupos sociais e cientistas – ocorrem, ou não, sempre de modo distinto. São sempre possíveis, mas nunca absolutamente prováveis. Logo, as translações podem ser formadas por elementos diversos ou não. Cabe a cada estudo, a tarefa de procurar e identificar esses elementos, seus elos, as aproximações, as ligações transversais e as rupturas próprias a cada local. Portanto, se existe uma estrutura social que modela tais performances, ela é constituída caso a caso, ela nunca existe previamente.
Essa noção está relacionada com a teoria ator-rede, se é que é possível falar em teoria, já que “método” seria o termo mais adequado, segundo o próprio Latour. A percepção sócio- técnica presente na Teoria Ator-Rede considera que os seres humanos formam redes sociais, através das quais interagem entre si, mas também com uma infinidade de elementos materiais, sem haver previamente uma relação hierárquica entre estes. Assim como os seres humanos têm suas preferências – preferem interagir de certa forma e não de outra – os materiais ou artefatos que compõem as redes heterogêneas do social também têm suas preferências. Segundo Law (1992), máquinas, arquiteturas, roupas, textos – todos contribuem para o ordenamento do social. E se esses materiais desaparecessem, também desapareceria o que se chama “ordem social”. A Teoria Ator-Rede diz, então, que a ordem é um efeito gerado por meios heterogêneos. Ela não aceita o reducionismo de se estabelecer previamente a determinação de humanos sobre não humanos e vice-versa. Afirma ainda que não há razão para assumir, a priori, que objetos ou pessoas determinam o caráter da mudança ou da estabilidade social, em geral. Na realidade, em casos particulares, admite-se que relações sociais podem moldar máquinas, ou relações entre máquinas, seus correspondentes sociais (LAW, 1992).
A noção de rede refere-se a fluxos, circulações, alianças, movimentos em vez de remeter a uma entidade fixa ou instituições. Uma rede de atores não é redutível a um ator sozinho; ela é composta de séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agenciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionais atores da sociologia, que possuem atributos, categoria que exclui qualquer componente não- humano. Latour utiliza a noção de ator - algumas vezes fala em actantes - no sentido semiótico. Um ator ou actante se define como qualquer pessoa, instituição ou coisa que tenha
agência, isto é, produz efeitos no mundo e sobre ele. Na acepção de Latour, um actante é caracterizado pela heterogeneidade de sua composição, ele é antes, uma dupla articulação entre humanos e não-humanos e sua construção se faz em rede.
Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeitamente definidos, porque as entidades das quais ela é composta, sejam elas naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identidade e suas mútuas relações, trazendo novos elementos à rede. Essa definição implica uma ontologia de geometria variável das redes cujas conseqüências para os estudos em ciências devem ser seguidas a fim de não se deixar escapar as contribuições em relação aos estudos sociais em ciências quanto em relação aos estudos epistemológicos.
A rede, como um rizoma, é marcada pela transformação. O acento recai na ação, no trabalho de fabricação e transformação presente nas redes. Isso significa afirmar que interessa ao pesquisador seguir o trabalho de fabricação dos fatos, dos sujeitos, dos objetos. Na noção de rede, o que importa para Latour não é só a idéia de vínculo, de aliança, mas o que estes vínculos produzem, que efeitos decorrem de tais alianças. Para Latour, um ator é, portanto, tudo o que tem agência. Ele se define pelos efeitos de suas ações. Isso significa dizer que um ator não se define pelo que ele faz, mas pelos efeitos do que ele faz. Além disso, o ator não se confunde com o individuo, ele é heterogêneo, díspar, híbrido.
Ao mesmo tempo em que a idéia de redes e de ator-rede parece ser algo intangível, fluído do ponto de vista prático, por haver pouco a antecipar sobre atributos vinculados a estes elementos, por outro, Latour prescreve como um ator-rede tende a agir dentro de relações de produção de C&T. A rede sócio-técnica é constituída por cinco anéis que se entrelaçam. Abramovay (2008) destaca que as atividades dos cientistas nesta rede, de acordo com Latour, consistem basicamente em:
a) mobilizar o mundo por meio de um conjunto de instrumentos materiais, sejam eles
ratos de laboratório, reatores nucleares, bases de dados estatísticos, arquivos históricos, seqüências genômicas ou campos de experimentação agronômica;
b) construir a autonomia, ou seja, buscar um conjunto de colegas e de instituições que
vão constituir a audiência especializada dos cientistas. “Nós, cientistas, não temos clientes, só temos colegas, nossos caros colegas” (LATOUR, 1995). A credibilidade de um resultado científico supõe colegas que possam julgá-lo: “Um especialista isolado é uma contradição nos termos” (LATOUR, 2001);
c) formar alianças e buscar aliados: industriais, políticos, membros da burocracia
governamental, que passam a tomar parte nas próprias polêmicas científicas (como os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), células-tronco, energia nuclear, ondas eletromagnéticas emitidas pelos aparelhos celulares, contribuição dos biocombustíveis para a redução do aquecimento global, níveis de desmatamento da Amazônia etc).
d) responder por relações importantes com a opinião pública, com a representação social não formalizada e que se traduz pela imprensa, por associações de interesse tópico e localizado. Da mesma forma que as dimensões anteriormente citadas, esta exige dos cientistas um conjunto de competências específicas. Opiniões exteriores ao âmago da atividade científica não são irrelevantes. Os cientistas reconhecem, hoje mais do que nunca, a importância da capacidade de negociar para que possam legitimar frente a opinião pública e autoridades, a continuidade de suas pesquisas;
e) elaborar conceitos, categorias, teorias, hipóteses e métodos para demonstrar suas idéias. Ao fazerem isto, constituem os laços e os nós que permitem a mobilização do mundo, a construção da audiência junto a colegas, as alianças para a obtenção dos mais variados tipos de apoio e a legitimidade da pesquisa frente à demanda da opinião pública. (p. 6-7)
Segundo Latour, estas atividades relacionadas ao cientista e que colocariam “as ciências em democracia” não seriam propriamente instruções normativas, mas reflexo da maneira como a atividade científica hoje, de fato, se organiza. O cientista seria uma espécie de gestor de rede e caso ele e sua equipe desprezarem qualquer das cinco dimensões acima, o resultado seria o abandono ou isolamento, sendo relegados à periferia da rede. O esforço do cientista, por outro lado, é fazer com que os diversos anéis desta rede passem por ele, o que exige uma atuação – científica – em cada um destes campos. Sob tal perspectiva, a exposição ao debate público não é uma conseqüência, uma opção ou um acréscimo cívico às atividades do laboratório, mas parte do que a ciência é.
A abordagem Ator-Rede permite encontrar uma série de possibilidades, e não somente a econômica, quanto à lógica de interferência e influência no modo de se produzir conhecimento. Permite ainda descrever uma série de relações, possíveis de identificar somente na análise micro-sociológica. Tal perspectiva é incompatível com modelos ou elementos estruturais pré-concebidos através dos quais a realidade deve ser submetida e enquadrada. Somente a partir de estudos de caso é possível concluir quais seriam os agentes e elementos determinantes nos mecanismos de produção do conhecimento, bem como a lógica que rege estes processos.
Deriva deste aspecto, no entanto, uma das principais críticas a esta vertente do construtivismo, que alega a não existência de relações de poder e influência previamente constituídas. Segundo Dagnino, um dos elementos desta insuficiência da Teoria Ator-Rede está no fato de as “pesquisas conduzidas no âmbito do construtivismo estar focadas em casos particulares de desenvolvimento tecnológico, sem referir-se ao contexto social maior no qual (...) estão inseridos e [que] desempenham um papel politicamente significativo”(p. 72, 2006b).
A perspectiva micro-social na obra de Latour, sem dúvida, permitiu a abertura da caixa-preta dos processos de ciência e tecnologia, até então considerados seqüências lógicas cognitivas não influenciadas pelo contexto a seu redor. Se por um lado tal perspectiva avançou ao destrinchar as tramas inerentes aos processos de produção de C&T, por outro perdeu a dimensão média e macro destes processos, omitindo relações e condições sociais e políticas historicamente constituídas. Mesmo considerando as conexões mais estendidas que se observam entre o pesquisador envolvido com seus afazeres no laboratório com aqueles não especialistas que se situam no entorno de tais produções, a lógica das conexões entre as dimensões macro e micro estão ausentes no pensamento construtivista de linhagem relativista, como a obra de Latour. Por mais que as redes sócio-técnicas se constituam de forma diferenciada, a partir de uma dinâmica particular, não é possível afirmar que não haja, subjacentes a estes processos, substratos econômicos, sócio-culturais e políticos, historicamente constituídos interferindo na dinâmica de tais processos, sob a forma, do ponto de vista analítico, de variáveis independentes.