CAPÍTULO 1 – ENQUADRAMENTO TEÓRICO E CONCETUAL
1.1. A teoria da Issue Salience
A teoria de Issue Salience já foi operacionalizada por vários investigadores (Petrocik, 1996; Sides, 2006; Kaplan, et. al., 2006; Sigelman e Buell, 2004; Bélangher e Meguid, 2008) e tem sido amplamente empregada em análises de comportamento eleitoral, possibilitando dessa forma a explicação sobre quais os temas são discutidas ou negligenciadas pelos candidatos em uma campanha eleitoral, bem como que influência as escolhas desses mesmos temas poderão ter nos resultados eleitorais (Opperman e Viehrig 2011; Wlezien, 2005).
Todavia este estudo em particular nunca antes havia sido elaborado, pois nunca antes se procurou estudar um partido que defendesse uma determinada ideologia, mas que, na verdade, desse uso de uma outra em campanha eleitoral. Além disso, a teoria Issue Salience foi aquela que nos pareceu mais exequível uma vez que esta teoria defende que o voto depende, essencialmente, das escolhas que são oferecidas pelos líderes políticos (Sides, 2006) e essas escolhas são pensadas e adequadas consoante o contexto político vivido naquele momento.
Os partidos enfatizam temas sobre as quais acham que irão obter vantagens e ao mesmo tempo, subestimam outros pelas quais sabem que o adversário não têm uma boa reputação (Bélanger e Meguid, 2008; Budge e Farlie, 1983; Petrocik, 1996).
A relevância dada a determinados temas tem consequências para a participação e satisfação dos cidadãos com a democracia (Reher, 2015), sendo por isso definida como a prioridade do problema partilhado pelos partidos e pelos eleitores num determinado momento, pois apesar do voto depender dos temas que os líderes políticos optam por salientar, depende também da proeminência que os tomadores de decisão oferecem às mesmas.
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Tanto o UKIP como o Brexit Party, são reconhecidos por apresentarem uma forte oposição à interação europeia, todavia, e tal como Ciuk e Yost (2016) nos dizem, existem partidos que usam a questão da UE como uma questão de segunda ordem que servirá para reforçar uma posição mais forte em outros temas, que possivelmente se tornarão centrais no partido. Claramente, esses novos temas terão alguma relação com a relevância da questão europeia para o sistema partidário, no entanto, no caso dos partidos em que Farage foi líder, encontramos uma grande disparidade na quantidade de destaque que é realmente concedida para esse tema, isto é, apesar de referir várias vezes a relevância que o tema tem para os dois partidos, na realidade, a saliência oferecida em momento de discurso não é assim tanta.
O facto de Farage optar por tornar a questão europeia como uma questão de segunda ordem poderá ainda estar relacionado com uma diferente problemática. O RU era reconhecido por ser um Estado-Membro em que as próprias elites políticas manifestavam relutância em relação à UE, portanto, sendo o UKIP um partido relativamente pequeno e o Brexit Party um partido recém-criado, era importante fazer algo para garantir a propriedade de emissão (Wagner, 2012). Para sustentar a propriedade sobre certos tópicos, Farage precisou enfatizar consistentemente temas sobre os quais ele considerava ter alguma vantagem comparativa.
Sobre as estratégias utilizadas em campanha seguimos agora a ideia de Häusermann e Kriesi (2015) ao considerarem a dimensão cultural e a transformação económica as dimensões de principal saliência entre o público. Em 2014, Farage ofereceu maior saliência à dimensão cultural. A oposição à integração europeia sempre foi importante para o UKIP, mas havia tornando-se mais popular em 2014. No entanto os dados afirmaram que essa saliência não era igualmente relevante para os apoiantes (McDonnell e Werner, 2019). Era por isso determinante fazer algo, oferecer ao público um novo tema e uma nova saliência. Assim, enquanto líder do UKIP, acreditamos que Farage alterou o discurso eurocético do partido para um discurso centrado na questão da problemática da imigração, abordagem esta, mais própria de um discurso populista. Os resultados indicaram uma proximidade muito maior entre os líderes populistas e os seus eleitores quando estes priorizavam nos seus discursos a questão da imigração (Mudde, 1999). Para não cair no erro de nos suportarmos em falsas conceções, importa ressalvar que o populismo não se
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resume apenas a esta questão, além de que, a mesma não é exclusiva dos partidos populistas de direita, no entanto, acreditamos que para o sucesso do UKIP em 2014, ela foi determinante.
Em 2019, enquanto líder do Brexit Party, Farage optou por dar menos relevância a esta questão tão salientada em 2014, oferecendo maior peso ao impasse do Brexit. Neste sentido, De Vries (2010) descobriu que, quando os temas são altamente salientes para os eleitores, elas têm maior probabilidade de ter um impacto nas posições dos partidos político. Ademais, os partidos de oposição são reconhecidos por darem uso de campanhas em que atribuem a culpa ao governo, mesmo que não tenham um conjunto completo de opções alternativas às políticas disponíveis. Segundo Pardos-Prado e Sagarzazu (2019) em tempos crise os partidos da oposição têm mais sucesso em moldar as perceções dos eleitores sobre as questões económicas do que os partidos governamentais.
Neste sentido, o caso de Farage é um ótimo exemplo de que os partidos podem procurar transformar a sua estratégia de uma campanha para a outra, uma vez que pode surgir um problema que está a ser vivenciado por uma enorme parte do eleitorado, obtendo assim uma forma de adquirir maior número de votos, que de outra forma, poderiam não conseguir (Sides, 2006). Este líder não se preocupou em fornecer respostas diferentes para uma determinada agenda de problemas, antes pelo contrário, tendo em conta o contexto vivido pelo público procurou concentrar a atenção em temas que considerou serem vantajosos para ele. Com o UKIP, a vantagem centrou-se com a imigração e com o Brexit Party, a grande vantagem foi o impasse em relação ao Brexit. Em qualquer um destes dois temas, Farage não encontrou competição partidária.
Estes são as motivos que nos levam a considerar que Farage, ao invés de ser um líder eurocético é, na verdade, um líder populista e segundo a literatura, os partidos populistas são os melhor capazes de responder à saliência pública (Plescia, et. al., 2019; Bos, et. al., 2011; Wagner e Meyer, 2014) e este líder foi capaz de convencer o eleitorado britânico de que seria a melhor opção entre os demais, tanto nas eleições de 2014 como nas de 2019.
Antes de passarmos para a análise propriamente dita, importa esclarecer os principais conceitos pelos quais nos debruçamos e, também um esclarecimento
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sobre os dois diferentes contextos vividos pelos britânicos na altura das duas últimas campanhas parlamentares europeias.