1.3 O SUAS E A TERAPIA OCUPACIONAL
1.3.2 A terapia ocupacional na assistência social
A inserção da terapia ocupacional na assistência social no Brasil possui um histórico permeado pela própria institucionalização da profissão no país. Desde os primeiros locais de atuação profissional, o terapeuta ocupacional foi solicitado a trabalhar em instituições socioassistenciais, particularmente aquelas de caráter filantrópico e caritativo, como APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), Sociedade Pestalozzi, asilos, entre outros. Segundo Maroto (1993), na década de 1980 os terapeutas ocupacionais estavam majoritariamente em instituições filantrópicas (44%), as quais eram ligadas principalmente à
Subárea – Terapia Ocupacional Social
ASSISTÊNCIA SOCIAL OUTRAS ÀREAS DE ATUAÇÃO JUSTIÇA EDUCAÇÃO Contexto Social
Grupos populacionais – crianças, jovens, adultos, idosos
Subáreas da Terapia Ocupacional. Exemplos: Saúde Mental, Reabilitação, Saúde e Trabalho etc.
assistência social em termos de seu financiamento (como APAEs, Sociedade Pestalozzi e outras), 35% em instituições públicas (como serviços de reabilitação para o trabalho, reabilitação física, etc.) e 21% em locais privados.
Como descrito anteriormente, as ações e instituições vinculadas à assistência social nas décadas de 1970 e 1980 tinham um caráter diferente dos dias de hoje, pois eram marcadas pelo assistencialismo, filantropia e caridade (COUTO, 2010). Naquele contexto, consequentemente, os terapeutas ocupacionais estavam também alocados nas instituições caritativas, pois as populações tradicionalmente atendidas pelos profissionais, como as pessoas com deficiências, tinham pouco reconhecimento sobre seus direitos sociais e os recursos/apoios que acessavam estavam nas iniciativas de caráter filantrópico e assistencialista. Este, dentre outros fatores, influenciou o imaginário acerca das práticas de trabalho revelando que as pessoas acompanhadas pelos terapeutas ocupacionais eram e ainda são, por vezes, caracterizadas pela dimensão da caridade e não pela dimensão dos direitos (MALFITANO; FERREIRA, 2011). Salienta-se que os serviços e programas voltados para atenção de pessoas com transtornos mentais tiveram uma organização distinta a esta mencionada, sendo as instituições financiadas prioritariamente pelo setor público.
Salienta-se que a Constituição de 1988, no processo de redemocratização do país, favoreceu a reconfiguração do lugar social de grupos-alvo para o atendimento da terapia ocupacional e consequentemente influenciou a atenção profissional destinada a eles. A partir do marco constitucional, estes sujeitos passaram a ter a oferta de serviços públicos diretos. No âmbito do sistema público de saúde, por exemplo, a incorporação destas populações “demarca também a ampliação das categorias profissionais necessárias para o funcionamento dos serviços” (MALFITANO; FERREIRA, 2011, p. 104).
Enfatiza-se que a inserção profissional dos terapeutas ocupacionais se deu historicamente na integração de equipes de ONGs, muitas das quais se constituíam anteriormente como entidades filantrópicas (lembrando que muitas delas contavam e contam com financiamento público). As ONGs representaram no Brasil um modelo de intervenção dominante na área social, com amplo financiamento do Estado, consistindo em um importante local de trabalho empregador de terapeutas ocupacionais (BORBA; LOPES, 2016). De forma geral, considera-se que a inserção dos terapeutas ocupacionais no sistema público (inicialmente de forma mais preponderante na saúde) e a presença dos profissionais historicamente em instituições privadas filantrópicas (ou não), sobretudo em ONGs, marcaram prioritariamente as características do ingresso profissional no âmbito das políticas
sociais, em especial na assistência social.
Neste contexto, os movimentos para a inserção regulamentada dos terapeutas ocupacionais nas políticas públicas de assistência social ocorreram na última década. Particularmente nos anos de 2010 e 2011, profissionais se engajaram em movimentos sociais e de representação da classe para se somar às lutas em prol de um novo contorno da política de assistência social, apresentando suas construções já realizadas e possibilidades técnico- profissionais para compor tais espaços.
Desde os primeiros debates, que resultariam no reconhecimento formal de quem seriam os trabalhadores do SUAS, um grupo de terapeutas ocupacionais se mobilizou para articular com o CNAS, o MDS e outros parceiros, a fim de participar de forma ativa e coletiva da implementação da PNAS (VIANNA, 2013). Em 2010, houve uma organização inicial de terapeutas ocupacionais para participar da Consulta Pública sobre a NOB/SUAS/2005, que teve a proposição da revisão da redação do documento, projetando uma NOB/SUAS para 2010. Os que se engajaram naquela tarefa fizeram uma análise do documento proposto pelo CNAS para enviar sugestões e contribuir com a revisão da NOB, participando dos processos de constituição e consolidação do SUAS (ALMEIDA, et al., 2012).
Posteriormente, no ano de 2011, houve uma maior mobilização de terapeutas ocupacionais de todas as regiões do país, com atuação e/ou interesse na assistência social, para o movimento de definição/reconhecimento dos trabalhadores do SUAS. Este processo aconteceu inicialmente para atender à Resolução número 172, de 2007, do CNAS, que indicava a formação de Mesas de Negociações da NOB-RH/SUAS como forma de conduzir a gestão do trabalho no SUAS. Elas teriam composição paritária entre gestores e prestadores de serviços (12 representantes) e trabalhadores dos setores público e privado (12 representantes). No entanto, para convocar os profissionais que participariam, elegendo consequentemente quem representaria os trabalhadores do SUAS nos espaços de debate/negociação, era necessário definir exatamente quais seriam as categorias (ALMEIDA, et al., 2012; BRASIL, 2007b).
Com o anúncio da Associação Brasileira de Terapeutas Ocupacionais (ABRATO) da demanda de definição dos profissionais no âmbito do SUAS e da realização de eventos da assistência social (estaduais, regionais e nacional) para o desenvolvimento deste processo, os terapeutas ocupacionais, particularmente membros do Projeto Metuia, depararam-se com a necessidade de integrar a discussão por identificarem diferentes atuações efetivadas historicamente no contexto da assistência social e por reconhecerem claramente a categoria
como parte integrante dos trabalhadores do SUAS. Diante da organização de profissionais, deflagrada e apoiada pela ABRATO, foram realizadas articulações entre terapeutas ocupacionais das diferentes regiões do país, possibilitando a visibilidade, entre eles, das diversificadas práticas, serviços e profissionais atuantes até então na assistência social, mesmo sem seu reconhecimento como categoria profissional nos termos da lei32.
Dessa forma, terapeutas ocupacionais, especialmente aqueles que atuavam na esfera da assistência social e da Terapia Ocupacional Social, mobilizaram-se para discutir e apresentar o trabalho desenvolvido no SUAS nos Encontros Regionais, Estaduais e no Encontro Nacional dos Trabalhadores do SUAS, que ocorreu nos dias 30 e 31 de março de 2011, em Brasília, e contou com aproximadamente 40 terapeutas ocupacionais participantes (ALMEIDA, et al., 2012; BRASIL, 2007b). Na plenária final do Encontro Nacional foram apresentadas as categorias profissionais33 reconhecidas como trabalhadores do SUAS e na
mesma ocasião foram apontados os desafios e complexidades do desenvolvimento do compromisso ético e político da atuação no SUAS para as categorias ali elencadas.
Os encaminhamentos deste evento subsidiaram a Resolução do CNAS, número 17, aprovada em 20 de junho de 2011, que ratificou a Norma Operacional Básica dos Recursos Humanos (NOB-RH), reconhecendo assim as categorias profissionais que poderiam compor as equipes de referência e/ou de gestão das unidades do SUAS. Entre as categorias, “a terapia ocupacional figurou como profissão que pode integrar as equipes de referência, respeitando-se a necessidade de estruturação e composição dos serviços a partir das particularidades locais e regionais, do território e das necessidades dos usuários” (ALMEIDA, et. al., 2012, p. 34; BRASIL, 2011c; BRASIL, 2011d).
Enfatiza-se que a Associação Brasileira de Terapeutas Ocupacionais (ABRATO), o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) e o Projeto Metuia tiveram papéis fundamentais na interlocução entre os profissionais e com os representantes do Ministério, Conselho e Associações, bem como na elaboração de materiais que contribuíram para a formalização do reconhecimento da categoria na assistência social (ALMEIDA, et al.,
32 Informações provenientes de conversa (realizada em 2019 no contexto da presente pesquisa) com a
pesquisadora e terapeuta ocupacional Marta Almeida Carvalho, que integrou algumas das etapas do processo de reconhecimento do terapeuta ocupacional como trabalhador do SUAS, como docente e membro do Metuia (USP-SP). Agradecemos a Profa. Marta pelos apoios e informações.
33 Categorias profissionais de nível superior que, preferencialmente, poderão atender as especificidades dos
serviços socioassistenciais: Antropólogo, Economista Doméstico, Pedagogo, Sociólogo, Terapeuta Ocupacional e Musicoterapeuta. Categorias profissionais de nível superior que, preferencialmente, poderão compor a gestão do SUAS: Assistente Social, Psicólogo, Advogado, Administrador, Antropólogo, Contador, Economista,
2012). Conforme salientam Borba et al. (2017), tal reconhecimento representou um avanço na condução da política, uma vez que o escopo da assistência social, dada a sua complexidade e multidimensionalidade, sempre foi construído por diferentes saberes e categorias, mas considerava apenas os assistentes sociais e os psicólogos como “necessários” às equipes de referência.
No caso de terapeutas ocupacionais, a oficialização reiterou uma ação profissional previamente existente no contexto dos serviços que acompanhou o percurso histórico da assistência social no Brasil e apresentou possibilidades para a categoria desenvolver um trabalho em consonância com as diretrizes da PNAS, oportunizando novos espaços de intervenção, nos diferentes serviços e níveis de proteção. Logo, além do avanço na formalização da atuação, o documento sugeriu um impulso para a expansão profissional e tornou mais evidente os desafios para aprimorar a qualidade da intervenção na área, dentre eles a preocupação com a formação para atuar no âmbito da política e dos diferentes serviços e perfis de população atendidos (ALMEIDA et al., 2012; ALMEIDA; SOARES, 2016; BORBA et al., 2017).
Cabe mencionar aqui que, dentre os profissionais indicados para o trabalho no SUAS, o terapeuta ocupacional suscitou incertezas quanto às habilidades de atuação para o desenvolvimento de ações que extrapolam os contextos clínicos, explicitado pela questão:
É possível um trabalho com enfoque não somente clínico e terapêutico desta categoria profissional? Tal dúvida está́ relacionada ao temor de que o SUAS, sucumbindo às forças conservadoras a que está sempre exposto, circunscreva-se ao enfoque comportamental, clínico e individualizado de abordagem das questões sociais da realidade brasileira. (TEIXEIRA, 2011, p. 131).
Acredita-se que a fundamentação teórico-metodológica proposta pela Terapia Ocupacional Social responderia a estas incertezas, apontando a possibilidade de um fazer profissional fora do setor saúde e que não se baseasse unicamente nas demandas individuais dos sujeitos. Almeida e Soares (2016) ponderam ainda, afirmando, entre outros elementos, que o uso de abordagens típicas da ótica liberal e filantrópica podem ser expressas em uma diversidade de práticas sociais, não apenas do terapeuta ocupacional.
Evidenciam-se as potencialidades dos terapeutas ocupacionais para avançar em relação aos desafios colocados, particularmente quando são considerados elementos de sua competência, tais como: habilidade para o desenvolvimento do trabalho em equipe e
atividades grupais, leitura da realidade social por meio de sua formação voltada para “alteridade, diversidade, cultura e a pluralidade”, competências relacionadas ao acolhimento e escuta, relações pautadas na autonomia e projetos emancipatórios, compromisso ético e político da inclusão social de grupos vulneráveis (ALMEIDA et al., 2012, p. 38). Enfatiza-se ainda a potencialidade profissional na inserção e fortalecimento do SUAS, na ação política que se faz tanto nas ações cotidianas nas unidades socioassistenciais, a partir da aproximação da realidade de indivíduos, coletivos e comunidades, como também no envolvimento nas construções macrossociais das políticas públicas.
Identificam-se esforços coletivos de terapeutas ocupacionais, articuladores e apoiadores (Associações e Conselhos de Classe, em parceria com docentes e profissionais de diferentes regiões do país) para balizar a prática profissional nas diretrizes da PNAS e do SUAS, por meio de produção de cartilhas e materiais informativos direcionados à categoria, organizando parâmetros referenciais para a ação de terapeutas ocupacionais nas diferentes unidades socioassistenciais do SUAS, em seus distintos níveis de proteção social (CHAGAS et al., 2015; GOMES et al., 2013).
Além disso, verificou-se exemplos de produções acadêmicas dos últimos anos demonstrando esforços dos profissionais no sentido de atualizar as experiências e construções sobre a ação profissional nesse novo desenho da política de assistência social. Destaca-se que parte dessas produções aborda práticas profissionais contextualizadas em unidades específicas vinculadas ao SUAS, como Unidades de Acolhimento, Centro Pop e CRAS ou populações específicas (por exemplo, pessoas com deficiência intelectual) (LUVIZARO; GALHEIGO, 2011; SILVA, et al., 2017; BORBA et al., 2017; SURJUS, 2017); e outras publicações trazem contribuições no resgate histórico da construção da área desde a constituição das políticas sociais até os contornos atuais da profissão (ALMEIDA; SOARES, 2016; VIANNA, 2013; ARAÚJO; OLIVEIRA; PATRÍCIO, 2011).
No âmbito da prática profissional para o trabalho no SUAS, Almeida e colaboradores (2012), com base em experiências de trabalho no SUAS a partir de projetos de extensão universitária em parceria com políticas municipais de assistência social, destacaram a pertinência dessa ação, bem como os desafios em aprofundar os conhecimentos relativos aos processos sociais na violação de direitos e consequentemente qualificar a atuação profissional. Vianna (2013) contribuiu com a descrição do protagonismo dos profissionais nos debates para a definição dos trabalhadores no SUAS, desenvolvendo uma narrativa sobre o processo de reconhecimento dos profissionais na área. Já Araújo, Oliveira e Patrício (2011),
fundamentados pelo aparato das políticas socioassistenciais, descreveram como se organizam as práticas de terapeutas ocupacionais no SUAS por meio das percepções de cinco terapeutas ocupacionais atuantes no município de Belém, Pará. Os autores destacaram desafios em relação à formação graduada, na inserção profissional e no reconhecimento identitário frente a outras questões.
Considerando as produções acadêmicas, nota-se a inexistência de dados compilados sobre a inserção e práticas dos terapeutas ocupacionais neste setor. Em termos numéricos, o SUAS abarcava em seu cadastro do Censo SUAS 1.438 terapeutas ocupacionais trabalhando em serviços socioassistenciais em 2017, o que demonstra a relevância de se obter mais informações acerca dos 9% dos terapeutas ocupacionais brasileiros que atuam na assistência social no país34. Entende-se que identificar as características dos profissionais e a forma como
os terapeutas ocupacionais, no contexto nacional, vêm se inserindo e se vinculando às equipes, aos diferentes serviços e níveis de proteção do SUAS, poderá fornecer parâmetros de compreensão acerca das fragilidades, potencialidades e dos desafios da participação da categoria na política social, podendo contribuir ainda com estratégias para ampliação da participação desta categoria profissional no âmbito do SUAS. Tendo em vista tal contexto, os objetivos gerais elencados para o presente estudo foram: identificar, descrever e analisar as características da inserção profissional e práticas de terapeutas ocupacionais em unidades socioassistenciais que compõem a rede SUAS.
34 Dado calculado a partir do número de profissionais terapeutas ocupacionais cadastrados no país, segundo o
sitio eletrônico do COFFITO, com dados de 2017 (atualizado em agosto de 2017): 16.245 terapeutas
ocupacionais no país (Disponível em: http://coffito-
br.implanta.net.br/portaltransparencia/#publico/Conteudos?id=7a78081c-cba0-47bd-b0c7-6e374c661418. Acesso em: 02 de janeiro de 2019).
2 PERCURSO METODOLÓGICO