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3 “UM SERTÃO DA GRANDE ATLÂNTIDA”: A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA E JURÍDICA DA CAPITANIA DO CEARÁ

3.1 A terra: a conquista e o desafio do sertão

O espaço físico da capitania teve papel fundamental no exercício da administração e da justiça portuguesas. Ao mesmo tempo, a forma como foi montado o espaço social dependeu muito do método de conquista do território pelos colonizadores portugueses, fruto das ações de todo um conjunto de agentes históricos na região. As milícias que asseguravam o litoral e abriam caminhos no sertão; as populações indígenas que ocupavam anteriormente o território (e permaneceram, recuaram ou foram dizimadas); os religiosos de ordens ou do clero secular que se instalaram; os fazendeiros e criadores de gado - foram muitos os atores que modificaram o espaço, interagindo com as condições naturais e humanas da capitania, para chegar no estado em que se encontrava na segunda metade do século XVIII.

Jucá Neto (2012, p. 134) afirmou, acerca do Ceará do século XVII, que o espaço socialmente modificado não foi formado somente por meio das especificidades das ações dos envolvidos na organização espacial, ou seja, através das singularidades deles. O espaço da capitania seria uma síntese onde dialeticamente interagiram as ações múltiplas de vários agentes. É neste sentido que aqui também se compreende o cenário do Ceará do século XVIII. Apesar da conquista e da fixação dos colonos no litoral ter ocorrido cedo, o que, conforme Souza (2018, 29) serviu para assegurar a costa, a conquista do interior da capitania foi mais demorada e esteve atrelada à expansão da pecuária e à guerra contra os índios.

As ameaças e invasões estrangeiras, no litoral do Ceará do século XVII, tiveram impacto na infraestrutura da região. Segundo Souza (2018, p. 27), com a ocupação holandesa em diversas áreas produtoras de açúcar, foram erguidas fortificações nas regiões que atualmente correspondem a Fortaleza, Jericoacoara e Camocim, as quais eram mantidas por guarnições multirraciais, formadas por tropas pagas, advindas das regiões açucareiras. Com a retomada portuguesa, a antiga fortaleza holandesa foi ocupada para exercer o controle da costa da capitania.

Conforme Gomes (2010, p. 123), até as últimas décadas do século XVII, a presença portuguesa no Ceará esteve limitada a um posto militar avançado localizado na costa Leste - Oeste em espaço de missão jesuíta. A presença colonial, assim, nesse período, limitou-se principalmente a fortificações litorâneas e a expedições de missionários jesuítas. Foi, a partir de 1680, que se intensificaram as marchas dos vassalos do rei na foz do rio Jaguaribe, provenientes de outras áreas de colonização mais antigas, como Pernambuco, Rio Grande e Paraíba. Desse modo, aumentou o processo colonizador, estando este vinculado à expansão do gado e às guerras contra os indígenas, como já mencionado.

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Segundo Souza (2018, p. 28), as fortalezas tiveram um papel importante tanto no controle do litoral, quanto para as expedições de reconhecimento e batalha contra os índios do sertão. Como demonstra Souza (2018, p. 28), antes da expedição organizada pelo coronel Félix da Cunha Linhares, ao final do século XVII, o contato com os nativos ainda se dava por meio das missões, ou pelo comércio de produtos da região (madeira, âmbar e abastecimentos, como água doce, frutos e caças).

Entrar no sertão cearense não era tarefa simples. Além do clima semiárido, havia outros desafios. Segundo Souza (2018, p. 29), era preciso saber não somente sobre as terras, mas também sobre os locais de água e dos povos. A obtenção de informações ao longo dos anos, portanto, foi fundamental para a empreitada colonial. Souza (2019, p. 29) destaca expedições para o interior da capitania, as quais foram importantes para este fim: as expedições de Pero Coelho de Sousa (1604); do missionário jesuíta Francisco Pinto Luís Filgueiras (1603); e a documentação produzida pelos holandeses durante o período de invasão (1634-1654), sobretudo o diário de Matias Beck.

Apesar dos conflitos, do clima semiárido e da ocorrência de secas, conforme Souza (2018, p. 30), o sertão do Ceará era, e ainda é, uma área adequada para as atividades agrícolas e criatórias. Afinal, é cortada por diversos rios, como Jaguaribe, Salgado, Ceará, Acaraú e Banabuiú, que proporciona pastos e água nos períodos chuvosos. Além disso, ainda que seus leitos sejam perenes e não navegáveis, as suas ribeiras ajudaram no processo de ocupação. A ocupação definitiva de terrenos mais internos, como a ribeira do Acaraú, só se deu com a instituição de fazendas de criação e sítios. Conforme Souza (2018, p. 27), as primeiras tropas militares a adentrarem o sertão das Ribeiras do Acaraú, na região norte do “Siará Grande”, fizeram-no para impedir ameaças de invasão estrangeiras, como a ocupação francesa na capitania do Maranhão (1604-1613) e a construção de um forte de colonizadores holandeses na barra do rio atualmente chamado de Ceará, em 1634.

Outro local de importante conquista no território colonial foi o da Ibiapaba. Conforme Souza (2018, p. 33-34), a ribeira do Acaraú era pouco conhecida inicialmente, mas a sua conquista era imprescindível para consolidar o caminho em direção ao Maranhão. Assim, após a restauração, uma das primeiras ações foi o estabelecimento de aldeamentos na costa, nas proximidades de Fortaleza e de Ibiapaba, sendo esta última local de uma missão jesuíta. Esta missão, por sua vez, era estratégica na conquista e evangelização dos povos da região, pois, assim, facilitava-se o trânsito a pé das tropas tanto para o Maranhão, quanto para Pernambuco. Nas últimas décadas do século XVII, as frentes de invasão acabaram conseguindo dilatar o espaço, devassando e escravizando os nativos que apresentassem oposição.

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No início do século XVIII vários territórios da capitania ainda não haviam sido conquistados. Por exemplo, conforme Oliveira (2018, p. 42), nas primeiras décadas do referido século, foram registradas diversas expedições de colonização nos sertões do Sul, denominados de Cariri Novo (termo designado para dirimir a semelhança com território também chamado Cariri, da Capitania da Paraíba). Houve, ainda, apoio dos Frades Capuchinhos no aldeamento de índios, dando maior eficácia ao processo de conquista da região. Ao final do século XVIII, segundo Oliveira (2018, p. 49) a região do Cariri Novo já tinha as melhores terras ocupadas por extensos canaviais e os territórios próximos às serras ocupados por engenhos puxados a bois e a burros.

De fato, o papel da pecuária na expansão foi central. Conforme Jucá Neto (2012, p. 134), ao final do século XVII e começo do século XVIII, devido a decisões régias portuguesas, reservou-se a faixa litorânea do nordeste brasileiro unicamente para a produção de açúcar. Assim, os criadores de gado, com suas boiadas, tiveram de mudar de local. Gerou-se uma separação geoeconômica: o criatório foi expulso para a região do sertão, enquanto o rico litoral ficou para a atividade açucareira.

A economia pecuarista, no decorrer do setecentos, conforme Jucá Neto (2012, p. 134), deu sentido à ocupação, apesar da baixa rentabilidade e produtividade. Pinheiro (2008, p.22-24), demonstrou o quanto a atividade pecuária e o combate aos índios foi importante na moldagem do território, por meio da análise da distribuição de sesmarias. Observou que, das 2.472 cartas/datas de sesmarias solicitadas (em um período de um século e meio), cerca de 91% traziam a justificativa de necessitar de terras para atividade pecuária. Ademais, Pinheiro (2008, p. 27-28) ressaltou a fundamentação dos pedidos: além da justificativa de tornar a terra produtiva, o próprio conflito com os indígenas foi utilizado como justificativa para a requisição de sesmarias. As alegações eram com base nos prejuízos que os sesmeiros tinham no combate com os índios, mas também por ter “limpado a terra”.

Dentro das sesmarias, por sua vez, conforme Jucá Neto (2012, p. 135), as fazendas eram posicionadas em pontos estratégicos, elevados e geralmente perto de fontes de água, como riachos ou rios. Além da sede da fazenda, havia o curral e os cercados para agricultura. Em algumas havia açudes e, raramente, uma capela.

Em termos de infraestrutura, mesmo nas condições do período, a capitania estava em condição de relativo abandono, quando comparada a outras regiões da colônia. Segundo Jucá Neto (2012, p. 148) isso aconteceu porque não havia razões econômicas e geopolíticas para maiores investimentos portugueses na capitania do Ceará. Primeiro, porque a baixa rentabilidade da pecuária não justificava um investimento de mais aparato técnico e de capital

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durante o século XVII, especialmente depois que se percebeu que não seria encontrado um "eldorado" de minas no sertão. Segundo, porque, para as instalações das vilas, não havia mais razões geopolíticas para se investir na região, considerando que a ameaça holandesa fora expulsa em 1654 e, além disso, havia outros caminhos para regiões de interesse, como a amazônica (por mar ou outras capitanias) que eram mais simples do que cruzar o sertão.

Assim, Jucá Neto (2012, p. 148-149) argumenta não ser difícil afirmar que o Ceará ocupou uma posição periférica no conjunto de interesses econômicos e geopolíticos portugueses, estando à margem das ações que envolveram investimentos tecnológicos e de adequação do espaço das capitanias. Até o final do século XVIII, só há registro de quatro engenheiros na capitania e, mesmo assim, também há apontamentos de que quase nada propuseram. Evidência também do desinteresse na capitania e seu caráter secundário nos planos portugueses é que até mesmo a cartografia do território foi tardia, tendo ocorrido mais plenamente entre 1799 e 1822.

A seguinte planta da vila de Fortaleza da década de trinta do século XVIII demonstra o aspecto simples da vila, mesmo sendo esta localidade litorânea e de conquista anterior. De acordo com as legendas da própria imagem, pode-se ver a Igreja matriz, a casa do capitão mor, assim como o forte rudimentar na parte superior direita.

Imagem 1 - Planta da Vila Nova da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (1730)

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Em descrição escrita da mesma vila, supostamente escrita pelo coronel dos engenheiros Silva Paulet12 (1898, p.16), no início do século XIX, afirma-se haver assento do governo, um batalhão de tropas regulares, um juiz de fora que era auditor da tropa e um juiz de alfândega presentes no território. Segundo o documento, existia uma casa de câmara arruinada, não haveria cadeia civil, servindo-se as autoridades civis de uma cadeia militar, o que trazia uma série de problemas de procedimento. A vila é descrita, ainda, como pobre, de comércio diminuto (menor do que o de Aracati), porto sofrível e de edificações simples, não havendo uma única casa de sobrado. Denota-se, portanto, infraestrutura precária, mesmo em uma vila do litoral.

Os sertões da Capitania do Ceará eram uma área de mais difícil moradia, onde ocorriam várias secas e, dadas as distâncias e conflitos dentro do território, muitos locais eram de difícil acesso. Conforme Carvalho (2015, p. 17) o conceito de "sertão" surgiu em Portugal, datando pelo menos do século XV e não sendo utilizado apenas para as terras da América, mas também para lugares desconhecidos na África. No contexto da América portuguesa adquiriu uma conotação de designar todo território ainda não colonizado. Como indica Carvalho (2015, p. 17), a palavra aparece em documentos das visitações inquisitoriais já no século XVI, perpassando, na verdade, toda a documentação colonial, para designar um local de aspecto inóspito, de difícil acesso e violento.

Na historiografia, como afirma Carvalho (2015, p. 17) o termo ganhou diversos significados, mas mantendo o sentido geral de um local "vazio, inculto, desabitado, distante do litoral, de natureza inóspita e sem lei". Assim, vem atrelado a uma carga simbólica de um "lugar de ninguém", longe da presença de toda a civilização. Por conseguinte, tornou-se a representação de um local onde estariam distantes as leis e a justiça.

Essa noção aparece, de fato, nos documentos dessa pesquisa. No processo de Francisco Ludovico Pereira13, por exemplo, na carta do capitão-mor governador Antônio José Victoriano da Fonseca ao comissário do Santo Ofício Henrique Gaio (fl. 4), é feita a queixa da “facilidade com que nesses sertões escapam” os criminosos "passando-se de uns para outros distritos". Denotam-se, assim, dificuldades na aplicação da justiça, decorrentes das distâncias.

Demonstraram-se, portanto, as características do território da capitania do Ceará e um pouco do seu processo de conquista, fortemente atrelado à atividade pecuária e à guerra

12 O “supostamente” aqui faz referência à dúvida na autoria proposta pelo Barão de Studart em nota de

transcrição do documento, em (PAULET, 1898, p. 31-33) e que seria, na verdade, do ouvidor Rodrigues de Carvalho.

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contra as populações indígenas. Nos tópicos a seguir, tira-se o foco do cenário para abordar os atores e seus conflitos, ou seja, as pessoas, as instituições e seus conflitos.