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3 “UM SERTÃO DA GRANDE ATLÂNTIDA”: A ESTRUTURA ADMINISTRATIVA E JURÍDICA DA CAPITANIA DO CEARÁ

3.3 Os conflitos: atritos de poder e jurisdição

Neste tópico, destacam-se os conflitos ocorridos na capitania do Ceará durante o período do final do século XVIII. De certo modo, as disputas aqui citadas já foram mencionadas nos tópicos 3.1 e 3.2, considerando que se passam no território e envolvem as pessoas e instituições aludidas. O que se busca é apenas ressaltar, detalhando alguns pontos, para sistematizar as informações.

Mostram ser conflitos notórios da região, no período: a) as guerras entre as milícias e os índios, por territórios (sobretudo do sertão); b) os conflitos envolvendo os índios aldeados, os missionários religiosos e os proprietários locais (principalmente relativos a questões de abuso, escravização e trabalho); c) os conflitos de jurisdição e demais querelas políticas (como intrigas entre ouvidores, capitães-mores governadores e as câmaras municipais); e d) as demais brigas entre particulares (sobretudo rixas de família).

Sobre as milícias e as guerras de conquista das regiões do sertão já se tratou no tópico 3.1, considerando o quão esse assunto está vinculado à questão territorial e ao controle militar português.

Quanto ao último também não se entra tanto em detalhe, asseverando apenas que houve também no Ceará graves querelas entre particulares e contendas entre famílias, sobretudo entre os Feitosa e os Monte. Como explica Gomes (2010, p. 38), a partir da segunda década do século XVIII, verdadeiras guerras foram travadas entre as famílias Monte e Feitosa pela posse das terras do sertão do Jaguaribe.23 Os conflitos foram de tamanha proporção que envolveram numerosos contingentes de índios armados, de ambos os lados, assim como intervenções e alianças com personalidades políticas, como o primeiro ouvidor da capitania, José Mendes Machado (apelidado pela população de “tubarão”), o qual se demonstrou parcial de Francisco Alves Feitosa na contenda contra a família Monte.

O segundo ponto (acerca do conflito dos proprietários contra os missionários e os índios aldeados), porém, carece de mais contextualização, tendo em vista os conflitos jurídicos, políticos e administrativos que gerou. No tópico 3.2.1, “Os habitantes nativos: a população indígena”, tratou-se de quais eram as populações indígenas presentes na região, assim como se falou algumas das situações de abuso, sob a alçada do Diretório Pombalino, nas vilas de índios. Já no tópico 3.2.5, “Os ‘homens bons’: subordinação, poderes locais e as câmaras municipais”,

23 Para mais informações acerca dos conflitos entre os grandes proprietários das capitanias do Norte, sugere-se os

trabalhos de Carmen Margarida Oliveira Alveal, como o trabalho “ Senhores de pequenos mundos: disputas por terras e os limites do poder local na América Portuguesa” (ALVEAL, 2012).

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abordou-se o contexto da criação da Ouvidoria do Ceará, no início do século XVIII, e como as denúncias feitas pelos missionários religiosos foram importantes para suscitar a criação do órgão.

Conforme Pinheiro (2008, p. 39-41), a criação do órgão, entretanto, não foi suficiente para dirimir os abusos praticados contra as populações indígenas e, mesmo que o ouvidor tenha sido encarregado de apurar os crimes de morte ocorridos na última década, não possuía respaldo administrativo suficiente para a execução da tarefa. O que ocorreu, portanto, foi que se buscou apoio dos grandes proprietários e do capitão-mor governador. Esse fator acabou levando a uma situação contraditória: a responsabilidade para punir aqueles que abusavam do poder e praticavam crimes contra as populações indígenas foi transferida aos proprietários de terra locais, os quais, em considerável medida, eram os próprios responsáveis pelas condutas criminosas. Assim, mesmo com a determinação real, os proprietários de terra muito dificilmente estavam dispostos a punir seus pares e condutas como o “roubo” de mulheres indígenas para concubinato se tornaram largamente praticadas (fato que acabou gerando uma pastoral excomungando os proprietários que o fizessem).

Nesse contexto, houve desconfianças de parcialidade dos próprios ouvidores. Conforme Pinheiro (2008, p. 43-45), suspeitava-se que os ouvidores agiam apenas sob pressão do monarca, sendo coniventes com transgressões dos proprietários de terra e dos capitães-mores (sobre os quais tinham função de fiscalização, ainda que houvesse certa autonomia entre os cargos). Segundo Pinheiro (2008, p. 51) as constantes denúncias de abusos também geraram a nomeação de um juiz que tratasse especificamente da liberdade dos índios, o qual tinha como função analisar a legalidade da escravidão diante dos casos. Ressalta-se, porém, que não se questionava a escravidão em si, apenas se era ilegal ou não da forma como vinha sendo executada (se por meio de guerra injusta, por exemplo).

Havia, porém, outro fator de empecilho para o exercício dessa jurisdição: as distâncias. Como demonstrado em provisão do rei D. João, ao ouvidor geral da Capitania do Ceará24, Pedro Cardoso, em 1733, havia “ dificuldade que se considerara em a Junta das Missões na execução dela [a tarefa de julgar causas relativas à liberdade dos índios] pelas grandes distancias e longes daquele Governo, e prejuízo que se seguia as partes em irem responder perante o dito Ouvidor”.

A Junta das Missões era situada em Pernambuco e possuía a incumbência de julgar em última instância as transgressões praticadas pelos povos nativos ou contra os mesmos, o que

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impossibilitava a busca do juízo de várias pessoas que haviam sofrido danos. Neste documento, assim, o rei ordena que os ouvidores conheçam das causas da liberdade dos índios, dando apelação para a Junta das Missões de seu distrito, “o que hei por bem se pratique exceto pelo que toca apelar-se da Junta das Missões, porque a sua sentença deve ser final, de que vos aviso para que assim o executeis”.

Segundo Pinheiro (2008, p. 53), porém, essa ordem permaneceu como letra morta, de modo similar a outras legislações relativas ao tema, o que também ocorreu tanto na segunda metade do século XVIII, quanto no início do século XIX.

Desse modo, foi nesse contexto de ausência de um controle rígido do tratamento dos indígenas da região, que ocorreram diversos conflitos entre figuras locais, como os missionários e as câmaras municipais. Pinheiro (2008, p. 83) ressalta o intenso conflito entre a Câmara de Aquiraz e os missionários, no qual, por meio de representações da Câmara ao rei, relativas à fuga de escravos indígenas, tomava-se partido dos proprietários e se acusavam os missionários de serem coniventes com a fuga de escravos. De fato, ao analisar a carta do Juiz João de Freitas Guimarães e dos vereadores da Câmara do Aquiraz ao Rei D. João V, de 174825, verifica-se que se chegou a utilizar o argumento de que os missionários cometiam crime doloso ao acolher os escravos índios em suas aldeias ou missões, pois os escravos, ao fugirem, estavam espoliando e roubando seus legítimos proprietários.

Além das disputas entre as diferentes personalidades e oficiais quanto ao assunto, havia ainda uma dificuldade notória: a de adaptação da lei reinol às condições locais gerais, sobretudo aquelas já mencionadas relativas à implantação do Diretório no tópico 3.1. Como relata Pinheiro (2008, p. 209), um ano após a aplicação do Diretório, já se realizavam duas devassas envolvendo diretores de duas vilas do Ceará26. O diretor, que deveria exercer o papel de “civilizador”, muitas vezes, executava uma função similar à de feitor. Ademais, funções criadas com o objetivo de empoderar lideranças indígenas (como capitão-mor e mestre-de- campo) foram desmoralizadas e os poderes foram concentrados nas mãos dos diretores na prática.

Por fim, houve ainda inúmeros conflitos entre figuras públicas da capitania do Ceará, além daqueles relacionados à já mencionada questão indígena. Foram muitas as querelas

25 O documento tanto tratado por Pinheiro (2008, p. 83-84), quanto aqui analisado, é: AHU_CU_006, Cx. 5 D.324. 26 As devassas aqui mencionadas são relativas aos diretores João Caetano Moniz, da vila de Índios de Messejana

e Joaquim Pereira de Melo, da vila de Montemor-o-Novo. Os autos podem ser encontrados em documento datado de 28 de fevereiro de 1760 em: AHU_CU_006, Cx. 7, D. 472.

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de jurisdição entre os capitães-mores governadores da capitania e o Governo Geral, considerando a condição de submissão à Pernambuco, já abordada no tópico 3.2.5.

A subordinação à Pernambuco gerou um cenário de relações de tensão entre capitães-mores e governadores-gerais nas capitanias do Norte. Em estudo acerca da subordinação da capitania do Rio Grande do Norte à de Pernambuco, Fonseca (2018, p. 165- 166) afirmou que ora os capitães-mores ignoravam seus regimentos, ora exerciam jurisdição de outras autoridades, como aquelas dos governadores sediados em Pernambuco. Os governadores pernambucanos fizeram um trabalho firme e efetivo em subordinar as capitanias as quais administrava, buscando reduzir a alçada dos capitães-mores e centralizar jurisdição em seus ofícios. Entretanto, o controle não foi absoluto e não se pode dizer que a capitania do Rio Grande esteve dependente de Pernambuco durante todo o período de sua subordinação administrativa formal. Na verdade, durante a primeira metade do século XVIII, os capitães- mores conseguiram governar com relativa autonomia. Para este fim, diversas estratégias foram empregadas, como políticas de aproximação, conciliação, estratégias jurídicas e também manobras políticas.

Além disso, não menores foram os conflitos mais estritamente locais, protagonizando ouvidores, proprietários, câmaras municipais e capitães-mores. Guilherme de Studart (2004, p. 331), por exemplo, trata do conflito entre o capitão-mor João Batista Montaury e o ouvidor André Ferreira, o qual é bem verificável nos documentos do Arquivo Histórico Ultramarino. As duas figuras eram, no caso, João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury, nomeado capitão-Mor do Ceará em 19 de maio de 1781, tendo recebido o cargo no ano seguinte; e André Ferreira de Almeida Guimarães, empossado como ouvidor da comarca em 26 de maio de 1782.

Os detalhes do conflito entre as duas figuras públicas fogem ao escopo desta pesquisa, entretanto cabe chamar atenção para um ocorrido por este ter envolvido a Inquisição. Em ofício de 15 de fevereiro de 178527, do capitão-mor Montaury para o secretário de estado dos Negócios da marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, além de outros assuntos e denúncias, acusa-se o ouvidor André Ferreira de ter-se recusado a entregar preso do Santo Ofício o qual estava na cadeia de Fortaleza. Segundo narra o capitão-mor, havia um preso pertencente ao Santo Ofício chamado “Manuel Gonçalvez” na cadeia de Fortaleza - homem branco, preso na freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, sob as ordens delegadas pelo Santo Ofício e seus comissários. Não chega a especificar as culpas, apenas indica que estas são

58 “pertencentes ao conhecimento do mesmo Tribunal da Inquisição” e havia sido remetido o preso com sumário e documentos entregues ao Vigário Geral, Padre Felix Saraiva Leão.

Estando, assim, na mesma cadeia que “outros presos deste Ouvidor”, na ocasião de um “arrombamento” da prisão, Manuel Gonçalves havia fugido com outros homens, sendo, porém, recapturado (o que ressaltou o capitão-mor ter ocorrido em função de suas próprias tropas, não estando o ouvidor presente). Entretanto, quando o Vigário Geral e, posteriormente, o escrivão Clemente Tavares da Luz levou a rogatória, por escrito, solicitando a entrega do prisioneiro para envio para Pernambuco, o ouvidor o teria recebido mal e, além disso, ficado com o documento e se recusado a entregar o preso, conforme informado pelo Vigário Geral. O episódio, assim, é narrado como despotismo e ofensa ao Santo Ofício.

Studart (2004, p. 374-376) comenta o caso sugerindo ter sido uma manobra do capitão-mor Montaury para atrair a ira do tribunal da Inquisição para o seu inimigo político, tendo o ouvidor dado ensejo à acusação por não ter permitido o envio do preso sem algumas formalidades. Pouco efeito, porém, surtiram as intrigas e Studart (2004, p. 375) afirma ignorar que curso levou a situação do preso Manoel Gonçalves.

Mesmo tendo-se empregado pesquisa mais profunda sobre o que teria ocorrido com Manoel Gonçalves e qual seria seu crime, não foi localizado um processo ou mais documentos.28 Apesar disso, mesmo sem saber o que ocorreu posteriormente no caso concreto, o episódio já se mostra importante, afinal demonstra como os poderes locais não somente tinham certa noção acerca da competência, dos procedimentos e formalidades do Santo Ofício, mas também se utilizavam das incertezas nos mesmos. Aqui, a força e a reputação do Santo Ofício foram utilizadas no contexto das intrigas locais, buscando o capitão-mor a perseguição de seu inimigo político por suposto desrespeito à Inquisição.

Demonstrou-se, assim, um pouco da natureza dos principais conflitos da região durante o século XVIII.

28 Em consulta a base de processos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, com o filtro da Inquisição de Lisboa,

o único Manoel Gonçalves (com tentativas variando a grafia do nome) encontrado em um período e local similares aos do evento foi um Manuel Gonçalves, de 21 anos, preso por bigamia, natural de Santo Antônio no Bispado da Bahia28. Não foi encontrada, porém, menção à freguesia de São Gonçalo na Serra dos Cocos ou

alguma outra informação mais conclusiva que demonstrasse conexão entre os casos. Foi também consultado o “Índice Incompleto do Promotor” de nº 32828, para verificar se era possível localizar a denúncia, porém, apesar

de localizados muitos acusados com esse nome, não havia, novamente, nenhuma informação conclusiva o suficiente para averiguar que se tratava do mesmo homem.

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