Maria Tetê, mulher e esposa, está para Joge Sutinga, o homem, considerado no seu lugar e função de sujeito e indivíduo do sexo masculino, assim como a terra de traba-
lho está para Joge Sutinga, o agricultor, o roceiro. O projeto de vida de Joge Sutinga,
o seu futuro como homem e chefe de família, pressupõe que ele alcance sucesso no desempenho de duas operações. Em primeiro lugar, a de produzir fartura e garantir os meios de sobrevivência através de seu trabalho com a terra, gerando por meio dela os recursos necessários não só à simples manutenção como também à melhoria das condições de vida do casal. Pelo menos é essa expectativa apontada na sua fala, que retomamos mais uma vez: “Já quage tenho certeza/ De nois miorá depois/.../Repare a felicidade/ Correndo atrás de nois dois”.
Observe-se que a melhoria das condições de vida é parte essencial do programa dele e da mulher. Basta lembrar que o coronel desvirtua a conduta conjugal de Maria, cor- tejando-a por meio de benefícios materiais. Não percamos a oportunidade de destacar mais uma vez o humor e a ironia envolvidos no episódio das sucessivas prendas ganhas por Maria e apresentadas como objetos perdidos que foram achados por ela. No caso, Sutinga cria um bordão com o qual pretende afi rmar a retidão dos seus juízos uma vez que jamais duvida sem provas visíveis da honestidade dos outros. Diz ele com alguma insistência: “Só acredito naquilo/ Que vejo prova legá”.
A ironia é robusta porque a sentença é dita à medida em que vão desfi lando diante de seus olhos as evidências da traição que ele, no entanto, não consegue discernir. Com isso, o bordão, ao invés de signifi car um traço de caráter louvável, uma vez inserido no con- texto serve apenas para escárnio do seu autor. Essa frase revela a ingenuidade de alguém que se mostra orgulhoso de um comportamento que o está levando à ruína. Um pouco mais de malícia faria Sutinga entender que a aparência quase sempre serve para encobrir a verdade, e por isso não podemos chegar a ela unicamente pelo testemunho dos olhos.
Essa mesma sequência de fatos ganha um arremate em outra fi na ironia. Vendo Maria Tetê com tamanha sorte e cumulada de enfeites, Joge suspira: “Inté dinhêro ela achô./ E com tanta coisa achada,/ Têtê andava enfeitada/ Que nem muié de dotô”. O leitor logo percebe a carga de ambiguidade que vai nessas palavras. O comentário de que sua mu- lher de tão enfeitada, anda parecendo muié de dotô, feito como uma exclamação, mero recurso de estilo com intuito comparativo, serve para descrever, no entanto, à revelia do personagem, o que de fato está acontecendo: a Maria Tetê virou mesmo mulher do doutor. Curiosamente, a verdade revelada na fala tem um alcance maior do que foi a intenção do seu enunciador, pois suas palavras revelam mais do que ele próprio sabe.
A segunda operação que Joge Sutinga deve desempenhar com sucesso para realizar seu sonho de felicidade situa-se no plano da constituição da família, na esfera da vida conjugal, e consistiria em lançar no ventre de sua mulher sua semente, gerando um fi lho que faria perdurar no tempo o seu sangue. Essas duas operações correm de forma para- lela, são intervenções que mantêm uma estreita correlação entre si. Numa ponta está a dimensão econômica, a relação do agricultor com a terra; na outra a dimensão afetiva e
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sentimental, a relação de Sutinga com a mulher e os eventuais fi lhos. Ambos esses feitos se complementam e sua realização representaria o êxito de Joge Sutinga como sujeito, cidadão, trabalhador e homem, seu triunfo sobre os limites e em certo sentido sobre a própria morte. Num caso, produzindo alimentos que mantém os corpos vivos; no ou- tro, lançando as bases de uma descendência que o perpetuaria para além dos limites de sua existência individual. Esta ventura e esta glória lhe são negadas, ou talvez, dizendo melhor, subtraídas ou furtadas. Aliás, é com o verbo furtar que ele descreve a atitude da mulher procurando se esconder quando teve sua falta descoberta: “Na cama toda imbruiada/ O corpo todo cuberto/ E a cara também ocurta,/ Como pessoa qui furta/ E o rôbo vai discuberto”.
A derrota do personagem decorre do fracasso nessas duas frentes. São duas esferas que funcionam numa relação especular entre si, como se cada uma tivesse na outra o seu duplo. Esse jogo de espelhos entre essas duas instâncias se realiza por meio da fi guração de um mesmo conteúdo, de uma mesma incongruência, a situação social e política do agregado, em dois signifi cantes ou dois símbolos distintos: a mulher e a terra.
Daí resulta uma espécie de equação que podemos assim formular: o patrão tem a pro- priedade de uma, então com facilidade pode ter a posse da outra. O agregado, que não tem propriedade, o elemento garantidor das condições de plena cidadania, não vencerá na dis- puta pela posse da outra. Sem propriedade, é como se lhe fossem negados ou imensamente difi cultados os meios para a sustentação estável de uma relação com mulher e fi lhos.
É evidente que aqui nós chegamos ao patamar de uma leitura em nível profundo, mas não arbitrária. Essa superposição está construída no texto. Em Maria Tetê existe, ao lado de uma cadeia de signifi cados que avança de forma linear com os elementos es- tabelecendo entre si uma relação fundada na contiguidade, outras cadeias semânticas e metafóricas formadas por relação vertical entre elementos distanciados. Essa leitura ver- tical integradora e complementar à leitura horizontal pode nos revelar a complexidade dos símbolos, assim como todo o alcance e a riqueza do texto.
A sociedade rural nordestina, em sua confi guração social e política, resultante da polarização no plano econômico entre os extremos, do fazendeiro e do agregado, pro- jeta essa sua estrutura numa ordem sexual dominada pelo macho proprietário. Quando Joge Sutinga se vê como alguém que retorna do estrangeiro para o seio de uma recepção acolhedora, está colocando o seu destino em termos de ser ou não aceito como fi lho, membro legítimo de uma comunidade construída sobre bases do sangue – outra vez a ironia. Esse é o sentido do percurso paradigmático do fi lho peregrino que volta ao lar e pode ser tanto acolhido como repelido pelo poder local, ou seja, por quem está situado no alto da hierarquia política do território-berço; no caso presente, esse patrão, que é visto também como um pai. Mas esse sonho e essa crença revelam-se ilusórios. O poder, sob suas formas sutis e variadas, o expulsa, e ele agora de fato – e não apenas fi gurada- mente – vai para terra estrangeira. Quando imaginava que fi nalmente iria retornar do seu desterro, que nada mais é do que sua condição de pré-cidadania, de homem dester- ritorializado, no sentido mais concreto da expressão, quando julgava haver cumprido o tempo de sua expiação no degredo, eis que o vetor do destino aponta na direção inversa, e
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Cláudio Henrique Sales Andrade
é agora que ele, na verdade, parte para o exílio.
Para fi nalizar, faço menção a alguns elementos que me parecem apontar para a possi- bilidade de uma leitura psicanalítica que pode complementar as demais análises já feitas. Acredito que todas essas perspectivas de leitura se complementam e corroboram a tese de que a motivação para a ruptura dos laços com a terra natal, em Maria Tetê, é de natureza híbrida, possuindo determinações afetivas, morais, econômicas, sexuais e políticas.
Podemos dizer que o embate entre Joge e Virgulino é uma luta fálica pois, vista com atenção, possui ressonâncias do mito de Édipo. Basta que se observe a circunstância cheia de implicações simbólicas de Joge, a certa altura, tomar o seu adversário como um pai. Ora, quando esse pai entra em conjunção com Maria Tetê, faz dela sua mulher, e se o inconsciente está reconhecendo certo homem como pai, a esposa dele tornar-se-á mãe. E assim Joge, casado com Maria, entra em estado de incesto, pois pelas reviravoltas do enredo Tetê converteu-se de cônjuge em sua mãe. É quando emerge das profundezas do inconsciente o fantasma do incesto, criando uma atmosfera sobrecarregada de tensão. E para escapar às consequências danosas da violação de um tabu, o personagem faz o mes- mo que Édipo: tenta escapar à terrível maldição evadindo-se do território confl agrado.
O incesto, seja em sua simples iminência, seja em sua perpetuação, institui uma pe- riculosíssima tensão e confl ito entre desejo e território, na medida em que a partilha do mesmo espaço geográfi co converte-se em elemento propiciador à infração da norma. Por isso, a abstenção ou a cessação do incesto requerem imediatamente a renúncia à partilha do território comum, restando apenas como solução a saída rumo ao exílio. Mas observe-se que a tomada dessa decisão implica a perda para o adversário do troféu da luta. Permanece no território quem tem a força ou o poder para impor o seu desejo e a sua vontade. Daí a dimensão fálica desse embate. O que simbolicamente tiver o falo mais poderoso é aquele que terá direito a permanecer e expulsar o rival. E assim, por outro caminho, chegamos à conjunção simbólica entre o domínio do território e a posse da mulher, que já fora apontada atrás.
Uma última observação sobre o humorismo em Maria Tetê. A relação de empatia do autor com o personagem, nesse poema, determina um tipo de humor que muito curiosa- mente não provoca em nós leitores apenas distanciamento, mas parece combinar a toma- da de distância, efeito natural do riso, a um sentimento de compaixão. Talvez isso decorra do fato de a voz narrativa estar atrelada ao personagem fazendo com que o leitor tenha necessariamente de assumi-la no processo da leitura, recurso que resulta humanizador. Por força da empatia gerada no texto, quando rimos de Joge Sutinga, sentimos que estamos a rir um pouco de nós mesmos, identifi cados com o que de humano universal existe na sua dor. Comove-nos a sua perplexidade, pois quem não fi caria, como ele, também perplexo ao descobrir que a vida o mais das vezes pune antes a inocência do que a culpa?
Em Maria Tetê, a motivação híbrida constitui um ganho extraordinário. O drama afetivo e sentimental combina-se de forma sutil com o motivo da luta pela terra. A in- triga desenvolve-se preferencialmente no âmbito da afetividade, dentro de uma rede de relações socais na qual desejo, compromisso, venalidade e poder se confl ituam, tendo como pano de fundo uma determinada estrutura econômica, social e política que, no
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entanto, é aludida de forma discreta, sutil, sem ênfase em sua articulação com a esfera da vida sentimental. Tratado dessa maneira, incorporado ao drama sem alarme, o elemento econômico perde peso, mas ganha complexidade e alcance.