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de fevereiro de 1999, domingo

UMA VIAGEM

Dia 28 de fevereiro de 1999, domingo

A cidade está monótona. Apenas o reboliço na praça continua. Puxa vida, a cidade está fi cando arrumada. Se Patativa pudesse ver, ia dizer: “Pra que tudo isso?” É, mas seu aniversário tem essa consequência positiva. A cidade ganha benefícios. Patativa diz não gostar dessa desculpa dos homens do poder para fazer o que lhes é dado pela obriga- ção. Ainda não sei como abordar na pesquisa essa relação dos poderes públicos com a publicização do poeta. Ao longo de sua trajetória, Patativa teve alguns “donos”, pessoas e entidades que pareciam querer se apoderar do símbolo. Talvez essa questão mereça destaque. Quem se apropria de Patativa do Assaré e de sua obra? Uma resposta possível:

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alguns de seus seguidores intelectuais e amigos; o Estado e suas secretarias de cultura; a mídia... No que consiste essa apropriação? O que há em Patativa que justifi que essa apropriação? São questões que merecerão atenção.

O certo – e esta é mais uma questão temática a ser abordada pela pesquisa – é que Patativa não é um ser comum. Foi a singularidade de Patativa do Assaré que me impul- sionou a pesquisar sobre ele. Mas, qual seria essa singularidade? Não é necessariamente a sua diferença entre a universalidade dos poetas eruditos nem dos poetas populares. Trata-se de uma especifi cidade única, que só se encontra nele, própria dele. Ou seja, o que leva alguns teóricos a estudar esse poeta popular? O que há nele que se sobressai aos demais? E por que se sobressai?

Deixo as questões nas anotações e parto para o meu segundo encontro com o poeta. Vou visitá-lo e ele me recebe com muita alegria. Já não sou um estranho naquele espaço: o grande poeta é meu amigo. Vou direto à cozinha cumprimentar dona Lúcia, que tam- bém já se mostra muito minha amiga. Quebro o protocolo e peço café. O café de dona Lúcia é melhor do que o do hotel. Aprendi com as pessoas do sertão2 que elas fi cam

mais a vontade quando suas visitas se fazem de casa. Com dona Lúcia não foi diferente. Patativa, por sua vez, adiantava-se em mesuras com a minha chegada.

De quando em vez lembrava-me do distanciamento que as metodologias apregoam. Minha incursão pelos laboratórios teatrais muito me ajudaram a separar essas coisas. Aliás, não há proximidade que desvende a natureza de um objeto de pesquisa. Sua na- tureza subjetiva, sua complexidade de sentidos e aquela já citada rede inextricável de signos não me deixam soçobrar diante das primeiras respostas, por mais fáceis que elas me cheguem. Irei a fundo nas questões.

Largo as elucubrações e lanço-me ao trabalho de coleta. Começo a conversar com Patativa e ele se solta. É uma conversa não-dirigida, sempre sobre sua vida. As gravações dirão o resto. Em síntese, ele falou do seu envolvimento na campanha de 1986, quando, após ver seu nome envolvido numa difamação a Tasso Jereissati, tratou de se defender, assumindo publicamente seu voto ao então candidato ao governo do Ceará. As ques- tões que tomo da conversa sobre política mostram um Patativa ambíguo. Talvez essa ‘ambiguidade’ seja fruto dos preconceitos com os quais eu já me encontro envolvido. O certo é que, ao se dizer eleitor de Tasso apenas para se livrar das acusações segundo as quais o teria chamado de comunista, Patativa também assume para si o uso da mentira como senha dos discursos de campanha.

Após recitar o poema feito para aquela ocasião, Patativa diz que se impressionou com o carisma que ele, Patativa, exercia sobre as pessoas. Ele disse: “Eu disse assim: ‘Camponeses, meus irmãos e operários da cidade/ é preciso dar as mãos e gritar por liberdade/ ... por si cada um formar um corpo comum/ operário e camponês e todos num mesmo abraço, votar no doutor Tasso, candidato de vocês’. E os camponeses me tratam assim, com uma fé, uma verdade, uma coisa, viu? Pensam que eu sou até profeta

2 Toda a minha infância e adolescência passei as duas férias do ano escolar em viagens pelo sertão centro- sul do Ceará, motivo pelo qual sempre me interessei por esse universo.

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das coisas, não sabem dizer, mas veja bem como eles faziam: me chamavam assim lá num particular, aquela roda de operários, de populares, viu? Perguntando sobre o Tasso. Ora, quem tá falando numa campanha, o jeito é...”, e aqui ele fi ca reticente, como que fosse dizer: “o jeito é mentir”, mas abandona a ideia. Continua: “eu dizia: olha, ele é o melhor do mundo. Vocês vão ver, ele vai ser eleito e vai ser um grande protetor dos camponeses. Eu nunca fui um político, mas desta vez eu fui um político da-na-do”.

Temos uma longa conversa e ele fala de temas como educação e cultura, sempre enaltecendo seu autodidatismo e seu aprendizado pela prática. Para ele, o livro é quem ensina. Despreza a gramática em favor dos livros que contam as histórias. Ele acreditava que o dizer dos livros leva ao conhecimento do fazer. Dizer é fazer e fazer é conhecer. As técnicas, mesmo as das gramáticas, se aprendem no dia-a-dia, fazendo, testando e lendo.

Só depois eu saberia que essa parte da conversa com Patativa me levaria a identifi car sua organização e sistematização teórica em Austin, notadamente no seu livro Quando

dizer é fazer. Agora sei que entender Patativa, seu mundo, sua lira e seu modo de agir

no mundo implicará o entendimento do conceito de performance, que em Zumthor quer dizer “a ação complexa pela qual uma mensagem poética é simultaneamente, aqui e agora, transmitida e percebida3”, mas que precisarei me aprofundar muito nesse campo

temático se quiser desvendar o “dizer é fazer” de Patativa.

Um outro ponto da conversa gira em torno do seu processo de criação. Ele é quem escolhe o tema4. Fala de A triste partida, mas só enaltece o canto na voz de Luiz Gonza-

ga. Esses arroubos de modéstia são sempre recorrentes. Aliás, uma boa forma de traba- lhar vida e obra de Patativa é se deter sobre os temas recorrentes tanto na sua produção poética como nas suas falas e entrevistas. Nas entrevistas, ele parece recorrer sempre à naturalidade de sua produção poética, ao não comércio de sua lira, à sua simplicidade de sertanejo e pai de família, à Serra de Santana e Assaré como espaços idílicos, a sua paciência com as coisas e com os visitantes, entre outros. Quando o interlocutor é ins- truído e mais informado, ele rebusca a linguagem e parece medir as palavras. Sabe dar o tom das falas.

Mas, voltando ao domingo em Assaré, interrompi o que chamei de primeira etapa da conversa matutina para ver como andavam os preparativos para a festa dos 90 anos. Estou na praça e noto um vaivém por todo lado. Vou ver o Memorial e me impressiono com o volume de coisas a serem feitas. Fotografo. São vários setores e atividades. Muitas madeiras se agigantam em formas que eu ainda não sei defi nir, mas já vejo um painel com fotos do poeta e alguns de seus poemas. André, o criador e executor, parece em êx- tase, como um diretor cenográfi co a preparar um cenário para ontem. O pó da madeira espalhada dá o tom da trabalheira. Lascas de madeira saltam num balé alucinante, como

3 ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.

4 Patativa não se deixa levar facilmente pelos seus interlocutores. Ele guia a entrevista. Começou a falar da construção de A triste partida para se livrar de uma pergunta sobre política. Nesses casos, ele sempre usa o clichê: “minha canção é um privilégio dado pela natureza, eu faço naturalmente, geralmente quando estou trabalhando no roçado”. Dito isso, falou do processo de criação.

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se quisessem dar forma a um sonho. Sim, estou diante de uma fábrica de sonhos. De re- pente imaginei patativa, o pássaro, construindo seu ninho, à espera de seu sonho de ser mãe de outras patativinhas. O criador desse “ninho” artifi cial é André Sacarlazari, que depois saberia pelo encarregado dos equipamentos de som e vídeo ser um “torturador”, em busca da perfeição. Melhor seria dizer, em busca da criação artística.

Pois bem, o Memorial: ele ainda daria muito trabalho até o dia da festa. A dedicação de cada um daqueles homens – assessorados por uma mulher miúda como um bem-te- vi, de nome Bilica, não menos dedicada – e o respeito que tiveram ao deixar que eu ca- minhasse e fotografasse aquela ofi cina poética muito me comoveu. Saí minutos depois e nem ousei agradecer para não atrapalhar.

Pela primeira vez me comovi com o burburinho de tudo aquilo. Repito: a praça e seus arredores, assim como o Memorial, mais pareciam um set de gravações de um fi lme. Um grande cenário tomava forma em todas as direções. Já passava do meio-dia quando resolvi voltar para o hotel, mas depois de três quarteirões andados resolvi voltar. Ora, afi nal, o que é que eu vim fazer aqui, senão registrar todas essas imagens? Voltei e só agora percebi que a Igreja Matriz, quase lotada, rezava uma missa de corpo presente. Os presentes pareciam ausentes, com as atenções voltadas para os arredores da praça. A vida real e as representações de um tempo mítico por vir me impressionaram.

Deixei-me levar por aquelas impressões. Depois me distanciaria delas para melhor compreensão. Conseguiria? O cenário daquele sertão ignoto, em processo de maquia- gem por um cenário artifi cial, ia dando lugar a um cenário real outro. Um auto de natal, daqueles que retratam o sertão dramatizado por João Cabral de Melo Neto. Entre cânti- cos fúnebres estilizados e sons do neoforró, atravessei a praça, de volta ao Memorial. Do alto da praça vi, fi nalizando o corredor da casa sempre aberta de Patativa, sua silhueta contra a luz. Um ícone de sombra, com jeito de índice, sentado numa cadeira de con- tornos indefi nidos se defi nia na minha retina como uma imagem, uma quase miragem. Deixei de olhá-lo antes que aquela imagem se aclarasse e eu perdesse aquela visão fantás- tica como seus cantos. Retornei ao plano real.

A vida é assim, cheia de contradições. Homens no Memorial velando e em vigília para fazer nascer uma memória que sempre esteve viva e, do outro lado, homens velando e em vigília para manter viva uma memória que acaba de se apagar. Ambos os rituais necessários e cheios de sentido. Os caminhos e lugares da memória são complexos. É por isso que a memória, no singular, é sempre plural. Um capítulo da minha tese será lugar

da e de memória. Fico a imaginar como Patativa, um habitante desse sertão real, fi cava

a imaginar um sertão imaginal. Mas o sertão não é imaginal porque o queremos que ele assim o seja. O real sertanejo é mais fantástico e mais fabuloso do que sua realidade. “Não são apenas as narrativas fabulosas que são extraordinárias e extravagantes e muitas vezes, para nós, incríveis, mas a própria realidade que se apresenta como uma realidade alucinada.”5

Dirijo-me a uma mercearia com a intenção clara de tomar uma cerveja. Cruzo com o André Scralazari e um dos artistas que preparam o Memorial. Vão carregados de água e lanches. No bar, homens bebem. Prefi ro me dirigir ao lado do comércio que vende

5 LAPLANTINE; TRINDADE. O que é imaginário. São Paulo: Brasiliense, 1997. (Coleção Primeiros Pas-

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mantimentos e lá tomo a primeira cerveja em lata. Seu Djacir, dono do estabelecimento, muito tímido e de pouca conversa, vai respondendo às minhas poucas perguntas. De vez em quando fala das festas anteriores. Depois de quatro latinhas – da metade em diante carregadas de muita conversa – a grande surpresa que as cidades do sertão sempre nos reservam. Ao tentar pagar a conta, seu Djacir, decidido, se nega a receber e ainda insiste em me levar ao hotel. Tira seu carrinho novo da garagem e me leva. Tentei disfarçar meu embaraço com a gentileza, mas acho que ele percebeu. Ele me deixou no hotel por volta das duas da tarde, trocamos gentilezas, nos despedimos e fui tomar banho.

Mais uma sessão de leitura e anotações se seguiu até a tardinha, regada a suco de laranja, posto que senti-me ruim com as cervejas.

Às cinco horas estava na casa de Patativa, conversando, quando uma equipe do “Jor- nal Hoje6” chegou para uma conversa com o poeta. Apresentei-o aos jornalistas e ele se

soltou a falar. Antes, porém, demonstrando impaciência, foi rude com o jornalista. “O senhor ainda faz versos de cabeça?” perguntou Luciano Almeida. “Claro, se eu não fi zer de cabeça vou fazer com os pés? Rimos todos, menos Patativa e o próprio Luciano, que retrucou ruborizado: “Eu estou perguntando é se o senhor faz versos de cor”. Patativa preferiu não responder e atendeu à reportagem com desinteresse até a metade da con- versa.

Muita ambiguidade cerca a relação de Patativa com a mídia. Ele, que teve a me- diação do rádio nas primeiras apresentações públicas e até foi motivo de um fi lme de Rosemberg Cariry, fala da mídia com ressalvas e tem comportamentos diferentes com as reportagens. Contou-me que seu encontro com a reportagem do jornal O Povo, dias antes, foi muito bom. Sua performance na reportagem de Ana Terra para o Globo Rural foi das melhores, aparentando intimidade com a repórter. Com a reportagem daquele domingo, Patativa foi quase hostil. No entanto, concordou em acompanhar a equipe à Serra de Santana, na manhã seguinte.

A propósito dessa viagem, eu já havia sido convidado pelo poeta a acompanhá-lo e tive o convite reafi rmado na presença da equipe do jornal. Aceitei e marquei encontro para as sete da manhã do dia seguinte. Optei por deixar os jornalistas a sós com Patativa. Despedi-me, sob protestos do poeta, e saí, prometendo voltar à noite.