Cartograma 16: Zona de Urbanização Restrita 4 Plano Diretor (2006 2011)
2.1. A Copa do Mundo em Recife é em São Lourenço da Mata
2.1.2. A “Cidade da Copa”: Projeto de cidade, um projeto privado
2.1.2.3. A tessitura de um contexto de transformação
Como vimos, a definição de todos os aspectos relativos a forma de ocupação do terreno foi proposto pela iniciativa privada, partindo de uma proposta inicialmente empreendida pelo Governo do Estado e posteriormente viabilizada a partir de uma Parceria Público-Privada. O projeto assume um perfil claramente mercadológico, apoiado na ideia de City Marketing, e na consolidação de uma imagem moderna e sustentável, como forma de tornar o empreendimento e o local atrativos aos futuros investimentos.
Assim, além de legitimar os projetos políticos das “ações pró copa”, a proposta do projeto vem despertar uma nova dinâmica territorial, que ilustra da melhor forma a nova forma de atuação do capital, no processo de desconstrução, reconstrução e construção das nossas cidades, tornando evidente o protagonismo privado nas decisões e transformações do território.
Segundo NOVAIS (2012), a história recente do urbanismo e do planejamento urbano no Brasil, “revela a cidade sendo tratada como lugar da produção de desigualdades sociais”, a partir do momento em que incorpora os projetos urbanos – ou Master Project –, um modelo de intervenção pontual, como forma de intervir e não mais planejar as cidades.
A concentração e variedade de usos e os diversos aspectos que contribuem para a suposta qualidade ambiental da nova centralidade, apesar de propor criar uma cidade mais convidativa e humana, parece conduzir à um modelo excludente, a partir do
momento em que o planejamento e o ideário se encerram dentro dos limites da gleba, no perímetro de responsabilidade da empresa.
Apesar de territorialmente estar contida no município de São Lourenço da Mata, a “Cidade da Copa”, na verdade, em nada dialoga com o núcleo urbano consolidado, o centro histórico e com as áreas já ocupadas da cidade. Conforme coloca Rosenilda, moradora local e dona de comércio:
“Para a cidade de São Lourenço é uma coisa meio vazia, a Copa. Você diz “É na cidade de São Lourenço”, mas é tão distante a relação com a cidade, o centro de São Lourenço. Eu acho que não trouxe tanto benefício assim, pra cidade de São Lourenço, mas pro geral, pra Pernambuco, com certeza.
(Rosenilda, moradora do Bairro de São João e São Paulo, São Lourenço)
Apesar da localização estratégica – na confluência de quatro municípios – a gleba encontra-se ainda ilhada, não mantendo relação física com nenhuma outra “parte” estruturada das cidades, sendo inclusive rodeada pelo Rio Capibaribe e por grandes áreas de preservação ambiental (Cartograma 11 e Figura 18).
Figura 18: Vegetação no trecho entre a BR-232 e a Arena Pernambuco, na BR-408.
Fonte: Autora, 2014.
Enquanto proposta de nova centralidade urbana para o Desenvolvimento da Zona Oeste da Região Metropolitana, o projeto parece atender aos quesitos relacionados a diversidade de uso e ao poder de atração que já desperta, assim como as obras de mobilidade urbana a ele associadas já promovem a dinamização econômica de certas localidades, tal como ocorre com a duplicação da BR-408, que funcionou como força
motriz de uma transformação que extrapola o limite do município (Figura 19), chegando à cidades como Carpina e Paudalho.
Figura 19: Conectividade a partir da BR-408. Perspectiva de desenvolvimento para outros municípios.
Tendo em vista todas as qualidades atribuídas ao projeto, como bem coloca NOVAIS (2012):
No entanto, a emergência dos Projetos Urbanos, acompanhando os discursos sobre a atração de fluxos de capitais e competitividade na economia global, indica uma perspectiva diferente, relacionada ao interesse em garantir e sustentar o desenvolvimento local, ainda que sem maior atenção à maneira como os benefícios e os custos serão apropriados por diferentes segmentos da sociedade. (NOVAIS, 2012, p. 25)
Nessa perspectiva, no entanto, se por um lado existe na perspectiva do poder público municipal a preocupação em administrar as transformações econômicas que já se fazem mostrar no município, por outro lado, não parece haver preocupação em lançar diretrizes urbanísticas que venham de fato a incorporar a nova parcela de cidade, a cidade já consolidada ou mesmo minimizar as discrepâncias que surgem a partir da implantação de formas de ocupação que tendem a deixar claro o quão socialmente distintas são as parcelas de populações que vivem nesses espaços.
Segundo o Secretário de Planejamento, Ivaldo Beltrão, em entrevista para a nossa pesquisa:
“Existe a preocupação desde o início, em todas as reuniões das quais eu participei, de que a expansão da cidade ela não seja no sentido de excluir. Porque não faria sentido trazer uma cidade nova para uma cidade velha. Cada uma das cidades traz suas peculiaridades, mas interagindo.
Então o projeto que se pensa para a cidade da copa, que chamamos dessa forma, é que ela seja uma cidade moderna, uma cidade sustentável sobre alguns aspectos, mas que ela não seja uma cidade separada de São Lourenço. São Lourenço centro, por exemplo. Ora, a gente não pode ter um estádio, uma cidade da copa ali embaixo e, logo aqui perto, não ter nenhum tipo de investimento. Por mais simples que ele seja, vamos pensar na área de saúde, que você possa criar postos médicos, fazer pavimentação, criar um posto policial, você possa criar alguns serviços que as pessoas também se sintam contempladas com o desenvolvimento do outro lado.”
(Sec. Ivaldo Beltrão, em entrevista concedida no dia 03/07/2014)
Aparentemente já tendo isso claro, como principal ação por parte do município, temos ações de cunho social sendo elaboradas com foco na capacitação profissional, como forma de integrar a população com a “Cidade da Copa”, através principalmente do trabalho, conforme aponta a Secretária de Comunicação social e institucional do Município:
“Todas as ações dele [o prefeito] são pensada nas pessoas de baixa renda. Que é aquela pessoa que se você não educar e não der oportunidade pra essas pessoas, são aquelas que mais na frente vão te causar mais dor de cabeça pelas desigualdades social. Então, e o que ele faz? Ele começa com a capacitação dessas pessoas, pra que essas pessoas comessem a trabalhar ao redor de tudo que acontece ao redor dela. Porque se aquela pessoa de baixa renda está vendo que a cidade está crescendo, por que ela não está crescendo junto?”
(Sec. Renata Gondim, em entrevista concedida no dia 07/07/2014)
Essencial, mas insuficiente, do ponto de vista das desigualdades urbanas, tal medida aponta para um horizonte onde a dualização social e a fragmentação espacial (LAGO, 2000), se tornam cada vez mais evidentes na cidade, a partir do negligenciamento da sua função enquanto regulador do espaço urbano na garantia do cumprimento de sua função social (Estatuto da Cidade) e privilegia o papel do capital imobiliário na relação entre reestruturação econômica e mudanças espaciais (SOUZA, 2013).
Conforme já foi colocado anteriormente, o fato é que, os impactos para a cidade vão além da construção da nova centralidade em si, “cidade” que ainda nem começou a ser construída. Nesse sentido, temos como objetivo contribuir na compreensão dos impactos dessa grande intervenção urbana, sob a perspectiva da consolidação de uma
nova dinâmica imobiliária que encontrou na cidade condições de mercado convidativas ao desenvolvimento do setor.
Para tanto, o próximo capítulo apresentará o ambiente encontrado pelo mercado imobiliário em São Lourenço da Mata, aqui posto como favorável ao desenvolvimento de uma nova dinâmica imobiliária, expondo três aspectos fundamentais:
(i) A flexibilização urbanística, a partir das alterações do zoneamento e dos parâmetros urbanísticos do Plano Diretor, empreendidas pelo Governo Municipal;
(ii) Alguns números que possam tentar ilustrar o déficit habitacional do município; (iii) Aspectos do Programa Minha Casa, Minha Vida.
A contextualização desse ambiente se faz essencial para o entendimento das análises postas na última etapa deste trabalho.
“A principal responsabilidade do urbanismo e do planejamento urbano é desenvolver – na medida em que a política e a ação pública o permita – cidades que sejam um lugar conveniente para que essa grande variedade de planos, idéias e oportunidades extraoficiais floresça, juntamente com o florescimento dos empreendimentos públicos.” (JACOBS, 2009. p. 267)
3 | VIABILIZANDO MUDANÇAS E CONSTRUINDO A
OPORTUNIDADE.
Como apresentamos ao longo do capítulo anterior, a “nova dinâmica territorial” de que falamos, se construiu a partir da definição da realização da Copa do Mundo de 2014 em Recife e da decisão de implantação da Arena Pernambuco junto a proposta de construção da nova centralidade urbana, a “Cidade da Copa”, em São Lourenço.
Para viabilizar a construção desta nova centralidade, no entanto, uma série de obras complementares tiveram que ser implementadas pelo Poder Público Estadual, enquanto medidas relacionadas a legislação urbanística Municipal eram empreendidas pela prefeitura para viabilizar tanto o projeto, quanto os demais investimentos esperados para a cidade. E é a partir desse momento que o setor imobiliário passou a ter expressiva atuação no município, contribuindo ainda para a manutenção da ideia de desenvolvimento e crescimento da cidade.
Nesse contexto, não faria sentido analisar a nova dinâmica imobiliária que se instala na região, sem antes perpassarmos pelos aspectos que tornaram possível e até promissora a transformação do município em um novo território de atuação do capital imobiliário. Para tanto, abordamos nestes capítulo os três aspectos considerados fundamentais diante do cenário de crescimento na oferta de novas moradias encontrado em São Lourenço da Mata:
(i) A Flexibilização Urbanística e a grande disponibilidade de terras (ii) Demanda Reprimida
(iii) Programa Minha Casa, Minha Vida