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A Torá como deidade no Segundo Templo: Ed 1-6

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IV. Oração frente à Grandeza Divina (v 12-15)

3: Materialidade do livro e a invenção do aniconismo da Torá

3.6. Livros como objeto anicônicos

3.6.1. A Torá como deidade no Segundo Templo: Ed 1-6

No texto de Esdras, a Torá tem papel central, embora haja discussão sobre o que ela representa . Ao mesmo tempo que Esdras é escriba (רֵפֹס) experimentado na Torá de Moi423 -

sés (הֶׁשֹׁמ ת ַ֣רוֹתְבּ ֙ריִהָמ) em Ed 7.6, ele também é escriba (ר ַ֨פָס) da lei do Deus do céu (א ָ֜תָדּ הָּ֧לֱא־יִּדּ). As palavras dat (aram. תָדּ, lei, decreto) e Torá (heb. ה ָרוֹתּ, ensino, instrução) se con- fundem. Há algumas possibilidades: dat e Torá, dat ou Torá, dat igual Torá e dat como

Torá . Na história da pesquisa, a confusão teria sido resolvida, por Rolf Rendtorff, na divi424 -

são entre códigos legais e civis do Império Persa, dat, e lei religiosa, Torá . Entretanto, as 425

afirmações de Ed 7.25, 26 deixam os dois termos num mesmo plano, tornando convincen426 -

te a opinião que se tratam de um mesmo documento . 427

Outra questão discutida é da data de origem do escrito. A problemática está na relação com o texto de Ne 8, que sugere ser a Torá desconhecida. Entretanto, especialmente em Ed 1-6, parece que o texto já era conhecido e, inclusive, praticado (Cf. Ed 3.2; 6.18-22 etc). A discrepância é explicada, por Grabbe, de duas formas bem distintas: (1) pela ideologia do autor, que diz que Moisés havia escrito o Pentateuco há muito tempo; (2) pela realidade his- tórica, que o “livro de Moisés” foi algo que tomou forma no Período Persa . A representa428 -

ção ideológica ou histórica não é a única que a Torá toma no livro de Esdras-Neemias. Há a representação simbólica nas entrelinhas da narrativa que assinalaremos no tópico seguinte.

De qualquer forma, nesse estágio, é mais conveniente pensarmos na união entre Torá e

dat, visto que os dois são alinhados quando caracterizam Esdras, no texto do narrador (Ed

7.6, 10) e na sua apresentação na carta do rei, em aramaico (Ed 7.12). Se a hipótese estiver correta, a Torá já assume nesse texto uma dupla pertença, como representante substitutivo da lei de deidade e realeza. Ela é personificada aos propósitos da trama textual. De forma mais explícita, entretanto, ela é encontrada como deidade nas memórias de Esdras (Ed 1-6).

Cf. GRABBE, Lester. Ezra-Nehemiah. OTR. London, New York: Routledge, 1998

423

GRABBE, Ezra-Nehemiah, p. 140

424

Para o autor, a palavra dat não pode ser entendida como tradução de Torá. Cf. RENDTORFF, Rolf. Antigo

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Testamento: uma introdução. Santo André: Academia Cristã, 2009 [1983], p.111-112

Onde, inclusive, se afirma que o livro não era somente para Yehud, mas “para todo o povo da Transeufrate

426 -

nha” (ה ָ֔רֲהַנ רַ֣בֲעַבּ, lit. “além do rio”). Cf. Ed 7.25 GRABBE, Ezra-Nehemiah, p. 141

427

GRABBE, Ezra-Nehemiah, p. 146-147

Fried , sobre as memórias de Esdras (Ed 1-6), percebeu um padrão, entre o modelo 429

de construções de templos do Antigo Oriente Próximo e a reforma do templo em Esdras.

É interessante perceber que neste relato de construção do templo, se considerarmos o contexto canônico de 2Cr 36, que a única etapa realmente em falta é a entrada de Deus no 430

templo. A tese de Fried é que a cerimônia de consagração da muralha (Ne 12.31-43) seria uma interpolação de um segundo autor, que viria originalmente após Ne 8.1-2, 5-6: o relato

Antigo Oriente Próximo Esdras 1-6

A. História curta: Por que o

templo estava em ruínas? Faltando (ou em 2Cr 36).

B. Decisão de construir: rei recebe

comando divino no primeiro ano. No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, YHWH despertou o espírito de Ciro (Ed 1.1-2).

C. Os materiais de construção são

comprados dos confins da terra. Madeira do Líbano, transportada por mar até Jafa (Ed 3.7).

D. Os alicerces são postos, o local

é preparado. No segundo ano de chegada e segundo mês… os construtores acabaram de colocar os alicerces do santuário de YHWH (Ed 3.10).

E. O templo está sendo

construído. está sendo reconstruído com pedras enormes e suas paredes estão sendo revestidas de madeira; o trabalho está sendo executado com diligência e progride (Carta de Tatanai; Ed 5.8).

F. Uma cerimônia para os estágios

posteriores é oferecida (p. ex., dedicação do altar).

No sétimo mês, Josué e Zorobabel puseram-se a construir o altar… e ofereceram sobre ele holocaustos a YHWH, holocaustos da manhã e da tarde, como está prescrito, com o número de holocaustos

cotidianos que está determinado para cada dia (Ed 3.1-4).

G. Descrição e declaração de que

o templo foi concluído. Este Templo foi construído no vigésimo terceiro dia do mês de Adar, no sexto ano do reinado do rei Dario (Ed 6.15).

H. Cerimônia de dedicação. Israelitas celebraram com alegria a dedicação do templo (Ed 6.16).

I. O Deus entra no templo. Faltando

J. Celebração de boas vindas ao

Deus em seu templo. J. Ofereceram, para a dedicação… cem touros, duzentos carneiros e quatrocentos cordeiros e, como sacrifício pelo pecado de todo o Israel, doze bodes (Ed 6.17).

K. Apresentação de presentes e

nomeação do pessoal do templo. Estabeleceram também os sacerdotes segundo suas categorias, e os levitas segundo suas classes, para o serviço do Templo de Deus, em Jerusalém (Ed 6.18).

L. Orações ou Maldições. L. Se alguém alterar este edito, arranque-se de sua casa uma viga de

madeira; ela será erguida e nela seja empalado; e sua casa seja convertida num montão de imundícies por causa dessa culpa. Que o Deus… abata todo rei e povo que ousar modificar ou destruir este Templo de Deus em Jerusalém (Carta de Dário; Ed 6.11-12).

FRIED, The Torá of God as God; Cf. também FRIED, Lisbeth. “Deus ex Machina and Plot Construction in

429

Ezra 1-6”. In: BODA, Mark J.; BEAL, Lissa M. Wray (eds.). Prophets, Prophecy and Ancient Israelite His-

toriography. Winona Lake: Eisenbrauns, 2013, 189-207

A forma também quebra na questão das cartas, que substituem a narrativa. Mas mantém o padrão.

da purificação dos sacerdotes, das pessoas, dos portões e da muralha. A razão de tal purifi- cação é obscura na redação atual, porque se purificar ali? Porque celebrar frente à muralha? A partir da comparação com a literatura do AOP, especialmente a dedicação do templo de Shamash em Ebabbar por Nabonidus, Fried demonstra que o caminho do objeto sagrado era ungido, para santificação. O mesmo é observado em 2Sm 6.12-13, quando o caminho da arca é purificado para a chegada em Jerusalém. A consagração dos muros seria para a pas- sagem de Esdras com a Torá, uma manifestação física da presença de Javé.

É interessante, neste aspecto, perceber que a palavra שׁו ֹ֛רְדִל, fazendo referência à Torá de YHWH (hrb. הָ֖והְי ת ֥ ַרוֹתּ) em Ed 7.10, normalmente é traduzida por perscrutar (BJ, “inqui- rir” na RV), estudar (NBP) ou buscar (ARA, ARC), mas pode também ter conotação oracu- lar . Embora hajam dificuldades com os diferentes estratos literários de Ed 7 e Ne 8 , é 431 432

notável a convergência imagética entre a concepção da Torá nos dois textos. Assim, há ves- tígios da caracterização da Torá enquanto deidade anicônica no texto de Esdras, se obser- varmos especialmente a estrutura do relato, comparada às construções do templo. Há caráter oracular, que conotaria a figura divina, também no textos de Ed 7.10. Podemos então assen- tir com a caracterização da Torá como deidade em Ed 1-6.

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