4. TUNA SOUSELENSE – UMA HISTÓRIA FEITA DE MEMÓRIAS
4.2. Para uma história da Tuna Souselense
4.2.1. A Tuna Souselense no despontar da Primeira República
A coincidência temporal entre a suposta data de fundação da Tuna Souselense, em 16 de outubro de 1910, e os acontecimentos que, onze dias antes, conduziram à queda do regime monárquico, justifica uma chamada de atenção para possíveis vínculos entre o advento desta tuna e a difusão do ideário republicano. A pesquisa revelou que, no início da sua atividade, a Tuna Souselense contou com o suporte de Alberto Álvaro Dias Pereira148, figura ligada ao regime republicano (entr. António Costa 2011a).
148 Alberto Álvaro Dias Pereira nasceu em 1891, em Souselas. Concluiu os cursos de Filosofia e de Matemática na Universidade de Coimbra, em 1912. Em Lisboa, fez depois o curso do magistério secundário e o Curso Superior de Letras. Foi reitor do liceu José Falcão em Coimbra e professor na Escola Industrial Avelar Brotero, na escola Normal Superior da Universidade de Coimbra e no Instituto Industrial e Comercial de Coimbra. Foi militante do Partido Republicano Português/Partido Democrático, deputado por Ponte de Lima e por Coimbra e governador civil de Braga a partir de 1919. Em 1936 foi afastado da carreira docente por ter participado num jantar de homenagem a Cunha Leal. Faleceu em 1984, em Alpiarça (Marques 2000, 338-9).
Num texto dedicado ao papel dos intelectuais na “popularização cultural republicana”149, Lia Ribeiro sustenta que a intervenção de figuras ligadas ao republicanismo nas produções culturais populares foi desenvolvida à luz de uma crença no valor da instrução e da educação como fatores de emancipação humana (Ribeiro 2003a, 257). A figura republicana mais destacada em Souselas foi precisamente Alberto Dias Pereira. Com efeito, no decurso do trabalho de campo empreendido nesta localidade, várias pessoas se referiram a este político e pedagogo como um influente apoiante da Tuna Souselense durante os seus primeiros anos. António Costa, músico da tuna a partir da década de 1920, aludiu da seguinte forma a esta figura:
Ah! Esse era um grande republicano. Até foi deputado, e governador civil, era uma pessoa com muito prestígio. O pai tinha uma farmácia, em Souselas, era o Dias Pereira [...]. Havia lá gente das duas fações, republicanos e monárquicos, mas o Dias Pereira foi uma pessoa muito... até legou à tuna uns terrenos, para fazerem lá uma sede. [...] Era uma pessoa que fazia muito bem aos mais necessitados (entr. António Costa 2011a).
De acordo com António Costa, Alberto Dias Pereira patrocinou a Tuna Souselense, não apenas por via da cedência de um espaço para a edificação da sua sede, mas também com apoios monetários destinados à organização de eventos e à aquisição de instrumentos musicais (entr. António Costa 2011a). Através da imprensa periódica coimbrã apenas ficamos a conhecer o papel desta figura no estímulo à “instrução” na localidade de Souselas:
A freguesia de Souselas, deste concelho, foi contemplada com 19:000$00 para a construção de dois edifícios; sendo 13:000$00 para a construção de um edifício para os dois sexos e uma escola infantil em Souselas e 6:000$00 para a construção de um edifício para a escola masculina do lugar da Marmeleira. Com os dois edifícios fica a freguesia de Souselas, no que diz respeito a instrução, muito bem servida. Seria injustiça não dizer que estes benefícios da mais alta importância são devidos aos esforços e boa vontade que o ilustre filho daquela freguesia, o Sr. Dr. Álvaro Dias Pereira tem empregado junto do Exmo. Sr. Ministro da Instrução (Gazeta de Coimbra de 25 de setembro de 1919, 1).
A pesquisa conduzida em periódicos não revelou qualquer informação sobre o possível mecenato exercido por Alberto Dias Pereira junto da Tuna Souselense. Contudo, uma referência à tuna publicada no jornal Gazeta de Coimbra destacou a sua participação num casamento realizado em Souselas, em 1925, no qual esta figura era o padrinho do noivo:
Na freguesia de Souzelas, deste concelho, consorciaram-se no dia 7 do corrente, o Sr. Lino Jorge dos Santos Júnior com a menina Maria da Piedade Fernandes. [...] Foram padrinhos, por parte do noivo,
149 A autora define “popularização cultural republicana” como um fenómeno de divulgação e vulgarização da cultura empreendido por figuras ligadas ao republicanismo junto das camadas populares da sociedade portuguesa (Ribeiro 2011, 17).
o Sr. Dr. Alberto Dias Pereira, reitor do Liceu José Falcão, e a menina Amélia Georgina dos Santos, filha do chefe da estação da Mealhada, e por parte da noiva, o Sr. António Jorge dos Santos, chefe da estação de Taveiro, e sua esposa a Sr.ª Maria Fernandes Diniz. Em seguida ao acto foi servido em casa da noiva um lauto jantar, onde se contavam 58 talheres. A Tuna Souselense, tendo uma grande consideração e estima pelos noivos, foi ali felicitá-los, executando vários trechos do seu vasto repertório (Gazeta de Coimbra de 17 de fevereiro de 1925, 1).
Esta notícia constitui a única referência à Tuna Souselense encontrada em periódicos publicados durante a década de 1920. A omissão de referências à participação da tuna em eventos locais como a festa em honra de Nossa Senhora do Rosário, realizada anualmente em Souselas150, pode indiciar a interrupção da sua atividade. Na década seguinte volta a haver registos em periódicos, dando conta da comparência de uma delegação da tuna no funeral de um proprietário local (Gazeta de Coimbra de 25 de novembro de 1930, 2) e da realização de um baile na sede da tuna (Diário de Coimbra de 14 de março de 1936, 2). Em 1936, o Diário de Coimbra publicou um texto a respeito do funeral de um músico da tuna, do qual foi possível extrair algumas informações relevantes:
Faleceu no último sábado o nosso muito dedicado amigo Alberto Ferreira [...] O seu funeral constituiu uma imponente manifestação de pesar. Era por todos estimado pelas suas belas qualidades. De carácter recto e bondoso de coração, mocidade em flor, lá foi a enterrar um jovem rapaz que apenas contava 17 primaveras e quando da sua vida tanto havia a esperar. Sócio reorganizador da antiga Tuna Souzelense, de que era um grande elemento, teve a acompanha-lo à sua última jazida todos os sócios do novo grupo, indo a bandeira da tuna coberta de crepes a cobrir a urna. [...] No cemitério foi a urna aberta e lançadas sobre o corpo do inditoso Alberto as últimas flores e proferidas algumas brilhantes palavras à beira da campa pelo mestre da tuna, Sr. Adriano Santos Silva (Diário de Coimbra de 19 de novembro de 1936, 2).
Esta notícia revela que a atividade da tuna durante os seus primeiros anos foi intermitente: assumindo que Alberto Ferreira (1919-1936) foi um dos reorganizadores da “antiga Tuna Souzelense”, admite-se que a organização do “novo grupo” tenha ocorrido no decurso da década de 1930. O texto exprime ainda que, à data da sua publicação, a tuna era dirigida por Adriano Santos Silva151, identificado como “mestre
150 Em 1921 a tuna não integrou a programação destas festividades, no âmbito da qual se apresentaram a Filarmónica Taveirense e o Rancho das Tricanas de Souselas, acompanhado pela Tuna de Brasfemes, localidade adjacente (Gazeta de Coimbra de 20 de outubro de 1921, 1), pelo que se presume que não se encontrava ativa neste ano. De acordo com o testemunho de António Costa, as tunas de Souselas e Brasfemes alimentaram durante vários anos um ambiente de rivalidade entre si (entr. António Costa 2011a).
151 Adriano Santos Silva foi identificado por vários habitantes da localidade de Souselas na “fotografia dos fundadores” (à esquerda, na primeira fila). Nesta imagem, aparece acompanhado de uma guitarra. Aparece também em fotografias da orquestra-jazz Danúbio Azul, composta por elementos da tuna e em atividade no período compreendido entre 1939 e 1942, como violoncelista (AF-JCF2). Foi “carteiro rural” na estação de Souselas (Diário de Coimbra de 4 de setembro de 1940) e exerceu funções enquanto presidente da Junta de Freguesia desta localidade.
da tuna”. O único documento datado de 1937 é uma fotografia152 na qual a tuna aparece integrada num cortejo, atrás de um grupo de crianças (AF-JCF1).
As referências à “antiga Tuna” e à reorganização do “novo grupo” revelam que a atividade da tuna sofreu interrupções. Não são conhecidas as razões que conduziram à(s) descontinuidade(s) da sua atividade durante a segunda e terceira décadas do século XX. Um dos possíveis argumentos prende-se com a falta de elementos para integrarem o grupo. Como referido anteriormente, a Tuna Souselense era composta exclusivamente por indivíduos do sexo masculino, pelo que é provável que a Primeira Guerra Mundial, na qual participaram homens desta localidade, tenha produzido um impacte considerável na demografia local153 contribuindo, desta forma, para o esmorecimento ou, inclusive, para a suspensão da atividade da tuna durante vários anos.
De acordo com António Costa a tuna estava ativa no início da década de 1920. Em ambas as entrevistas realizadas, este músico nascido em 1910 afirmou ter integrado transitoriamente este grupo quando tinha aproximadamente 12 anos, ou seja, por volta de 1922 (entr. António Costa 2011a; 2011b). Nesta fase, e segundo este ex-elemento, a tuna era composta por cerca de trinta pessoas, com idades compreendidas entre os 15 e os 60 anos, muitas das quais ligadas por vínculos familiares (entr. António Costa 2011b). Na sua maioria, exerciam profissões relacionadas com a atividade ferroviária, a agricultura ou a construção civil (entr. António Costa 2011a). Apesar de saber ler notação musical, a maior parte destes músicos era analfabeta.
António Costa revela que, numa fase em que o analfabetismo atingia mais de três quartos da população souselense154, o papel formativo desempenhado pela tuna possibilitou aos seus membros, alguns deles analfabetos, o desenvolvimento de competências de literacia musical. A centralidade conferida pelos
152 Neste registo observa-se a presença de duas bandeiras, uma das quais será, eventualmente, a bandeira da Tuna Souselense. É ainda possível identificar alguns instrumentos: uma viola-banjo, uma guitarra e um violoncelo (AF- JCF1).
153 Os dados do recenseamento de 1920 refletem um decréscimo da população souselense masculina na ordem dos 3,4%, comparativamente a 1911 (Dir. Geral de Estatística 1923, 76-77). No relatório resultante deste recenseamento são apontadas as duas principais causas para o decréscimo da população portuguesa entre 1911 e 1920, nomeadamente “a epidemia da gripe pneumónica em 1918 e a guerra” (idem, vii). As notícias publicadas na imprensa periódica de Coimbra manifestam que a participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial teve um impacte considerável na localidade de Souselas. Em junho de 1917, a Gazeta de Coimbra publicou uma nota sobre um souselense morto em combate em França (Gazeta de Coimbra de 23 de junho de 1917, 1). No mês seguinte, o mesmo periódico publicou uma nota do comité de Secours aux Militaires et Civils Portugais Prisonniers de Guerre, instalado em Lausanne, na qual figurava o nome de um souselense, soldado do Regimento de Infantaria 35, feito prisioneiro na frente francesa (ibid., 11 de agosto de 1917, 3). Em setembro, a lista de praças que “fazendo parte do corpo expedicionário portuguez em França, foram consideradas desaparecidas” inclui o nome de outro souselense (ibid., 11 de setembro de 1917, 2). Em novembro, há notícia de dois souselenses capturados em campos de concentração alemães (ibid., 10 de novembro de 1917, 2) e, no início de 1918, a lista dos prisioneiros no campo de concentração de Dülmen, na Alemanha, inclui o nome de um jovem militar natural de Souselas (ibid., 2 de fevereiro de 1918, 1).
154 O recenseamento de 1920 exprime um decréscimo da taxa de analfabetismo da população da freguesia de Souselas, relativamente aos dados de 1911. Todavia, cerca de 77% dos souselenses eram ainda iletrados (Dir. Geral de Estatística 1923, 76-77) circunstância que, de acordo com António Costa, se reproduzia no contexto da Tuna (entr. António Costa). A taxa de analfabetismo calculada para o país em dezembro de 1920 era de 65,2% (idem, ibidem).
elementos da tuna à leitura de notação musical (entr. António Costa 2011a) manifesta a importância do papel da música no desígnio da elevação através da ilustração, caro à ideia de ‘progresso’ difundida pelo movimento republicano a partir do final do século XIX.
A maior parte das pessoas, poucas sabiam ler... a música lá liam, e era tudo por música. Liam música! É verdade. Havia disso lá. [...] Também havia rapazes já com uma certa cultura, com a instrução primária. Poucos havia com o estudo secundário, era só aquele ensino básico que agora se usa, era primeira classe, segunda classe... era a primária, sabe? (entr. António Costa 2011a).
Apesar de a Tuna ser constituída exclusivamente por homens podemos descortinar, na sombra, a presença de mulheres. Ao longo do trabalho de campo junto de souselenses que acompanharam a atividade da tuna tornou-se percetível a existência de papéis diferenciados e diferenciadores de género: os homens tocavam instrumentos, reuniam-se para ensaiar e subiam ao palco para as apresentações públicas do grupo; por sua vez, as mulheres preparavam os espaços destinados às atuações, confecionavam e reparavam as fardas dos músicos e providenciavam a sua alimentação (entr. António Costa 2011a). Admitia-se, portanto, que a participação das mulheres na atividade da tuna representasse uma extensão de um papel essencialmente doméstico.
A reprodução deste modelo de diferenciação social, segundo papéis de género, efetivou-se através do processo de aprendizagem. O músico que venho a citar, que acompanhou a tuna no início da década de 1920 e, depois, a partir de meados da década de 1930, identificou um denominador comum a ambas as fases de atividade: o conjunto dos aprendizes aos quais a Tuna facultava formação musical para, posteriormente, integrarem o grupo, incluía apenas rapazes (entr. António Costa 2011a). A análise do panorama português ao nível educativo durante o século XX poderá, a meu ver, fornecer informações interessantes para a compreensão deste fenómeno. O regime de coeducação dos sexos (ou ensino misto) introduzido durante a Primeira República teve uma duração efémera, pois foi revogado já no período do Estado Novo (1933-1974) não conseguindo, portanto, impor-se à ideologia conservadora dominante da época, que apontou quase sempre para um regime de separação de sexos. As clivagens mais relevantes prendem-se com o “papel social” das mulheres e com questões de moralidade (Nóvoa 2005, 75).
A sede da Tuna
Como acima mencionei, Alberto Álvaro Dias Pereira cedeu um terreno para a construção de uma sede que, contudo, não chegou a ser edificada. De acordo com António Costa a tuna ensaiava num edifício devoluto, mais tarde recuperado para a instalação da escola primária de Souselas (entr. António Costa 2011b). Em contactos informais, alguns souselenses sustentaram que os ensaios se realizavam em fábricas, armazéns, nas casas dos próprios músicos ou em propriedades de famílias abastadas que, desta forma, apoiavam a atividade da tuna; outros, porém, mencionaram a “casa da música” ou a “casa do
ensaio”, um celeiro localizado junto à igreja de Souselas155. Segundo estas pessoas, era neste espaço que os músicos da tuna se reuniam para ensaiar, no final da década de 1930. Algumas notícias publicadas no jornal Diário de Coimbra remetem para a existência de uma sede da Tuna Souselense, na qual se realizaram bailes (Diário de Coimbra de 14 de março de 1936, 2) e sessões solenes (ibid., 28 de novembro de 1939). Todavia, na investigação que desenvolvi não encontrei quaisquer dados que permitam identificar a sua localização.
O repertório da Tuna
As fontes documentais relativas à atividade da Tuna Souselense nos seus primeiros vinte e oito anos de atividade (eventualmente pontuados por interrupções) não permitem senão um breve apontamento a respeito do repertório praticado durante este período. As pautas localizadas no arquivo da instituição e em acervos conservados por descendentes de músicos da tuna156 incluem apenas partes instrumentais isoladas, na sua maioria não datadas e sem indicação do instrumento a que se referem ou do conjunto instrumental em que estavam integradas. De acordo com António Costa, o predomínio de cordofones verificável na “fotografia dos fundadores”, que supostamente remonta a 1910, manteve-se nas décadas seguintes, durante as quais este músico integrou a tuna (entr. António Costa 2011b).
Apenas três das nove pautas inventariadas para este período estão datadas. A mais antiga, à qual me referi anteriormente, está datada de 1909. A segunda peça, Valsa Tesoro Mio, datada de 1914, não tem indicação de instrumento (AP-MS). A terceira, intitulada Meditando, é também uma valsa, assinada por António Dias Cação, flautista da Tuna, em 1932 (AP-ADC). Foi ainda localizada a parte de “primeiro bandolim” de uma gavotte intitulada Gavote Longe á Mái que, embora não esteja datada, contém o timbre da “Tuna Souzelense - Souzelas”157 (AP-MS). O mesmo se aplica a um conjunto de seis manuscritos com os títulos O Académico (ordinário), Dança de Romaria, Fonte dos Amores, Padeira d’Aljubarrota (valsa) e
Canção da Figueira (idem). O diminuto número de pautas disponíveis não permite compreender quais
os géneros musicais mais representados no repertório da tuna. Porém, António Costa revelou que este grupo iniciava os seus concertos com um hino, apresentando em seguida um programa para o qual convergia música de diferentes domínios:
A tuna tinha um hino especial. Depois tocavam-se peças de autores, até. É claro, não aqueles mais avançados. [...] Naquele tempo era mais música portuguesa [...] A maior parte eram populares, e algumas também clássicas, de autores consagrados, não é? É claro... sabe que a Valsa Danúbio Azul
155 Este celeiro era propriedade de Alfredo Augusto dos Santos, descrito pelos souselenses e pela imprensa regional como um “grande proprietário”. Ocupou o cargo de presidente da Direção da Tuna Souselense em 1939 (Diário de Coimbra de 10 de abril de 1939) e em 1940 (ibid., 20 de janeiro de 1940).
156 Refiro-me aos seguintes acervos: AP-ADC e AP-MS.
157 Até 1936 as publicações periódicas apresentaram a grafia “Souzelas” e “Souzelense” . A partir de 1938, a maioria dos textos a que acedi referem-se a “Souselas” e “Souselense”. Todavia, ambas as grafias coexistem, pelo menos até 1940.
era do Strauss? Havia peças de Strauss, que a gente tocava, na tuna... Não aquelas muito complicadas, mas às vezes... (entr. António Costa 2011b)
De acordo com este entrevistado, a maioria das pautas em que se baseava o repertório da tuna era adquirida em casas comerciais especializadas na produção e comercialização de partituras158 (entr. António Costa 2011a), sendo as restantes transcritas pelo maestro ou pelos instrumentistas do grupo.
4.2.2. “O primeiro maestro”: Manuel Eliseu e a reorganização da Tuna Souselense, em
1938
Os testemunhos dos souselenses que entrevistei convergem na sustentação que Manuel Eliseu159 foi o “primeiro maestro” da Tuna Souselense, facto impossível de acontecer uma vez que, à data de fundação deste grupo musical, esta figura tinha apenas três anos de idade. A colaboração deste maestro está documentada a partir de 1938, em fotografias e periódicos, e relaciona-se com a organização do Rancho Infantil Souselense, conforme explicitarei de seguida.
A partir de 1938, com o início da correspondência de um souselense (que não foi possível identificar) com o Diário de Coimbra (27 de janeiro de 1938, 2), as referências à tuna neste periódico local tornam- se mais frequentes. Uma nota publicada em março deste ano deu conta da eleição de uma nova direção160, deixando antever a existência de um corpo diretivo antecedente. Esta notícia revela o nome do maestro e sugere o restabelecimento da atividade musical da tuna:
Este corpo directivo vai dar grande incremento a tal organismo musical, esperando-se dentro em breve que a Tuna Souzelense se possa apresentar em público, dando alguns concêrtos, sob a hábil regência do Sr. Manuel Eliseu, dessa cidade. Os componentes desta Tuna mostram-se cheios de boa vontade e animados do maior espírito trabalhador, o que vem facilitar a obra dos seus directores. Há
158 Esta informação configurou o ponto de partida para o estudo de caso sobre a Casa Olímpio Medina que apresentei no capítulo anterior.
159 Manuel José Pessoa Eliseu (n. Coimbra 1907; m. Coimbra 1978) iniciou a sua atividade musical aos 8 anos de idade, como instrumentista da Filarmónica União Taveirense. Em 1926, após vários anos de aprendizagem como autodidata, submeteu-se a provas de executante e chefe de orquestra, por exigência da Associação de Classe dos Músicos Portugueses (ACMP), sem a autorização da qual não poderia exercer atividade profissional. Após a aprovação da ACMP, Eliseu iniciou um percurso artístico marcado pela participação em diversas orquestras, como violinista e maestro. Integrou vários grupos musicais vocacionados para a animação de hotéis. Entre as décadas de 1930 e 1960 fundou e dirigiu várias orquestras, nomeadamente a Coimbra Orquestra Jazz, a Orquestra Conimbricense (também designada em documentos da época Elyseu Orquestra Jazz), a Taveirense Orquestra Jazz, a Orquestra Barbosa Ribeiro e a Orquestra Variedades (Diário de Coimbra de 24 de dezembro de 1975). Dirigiu a Filarmónica de Penela e a Tuna Souselense. Eliseu destacou-se como compositor e arranjador de obras musicais para os diversos grupos que fundou e dirigiu. Colaborou regularmente com a Casa Olímpio Medina, sediada em Coimbra, que editou várias composições musicais da sua autoria. Desempenhou o cargo de professor de música na delegação da FNAT de Coimbra, tendo a seu cargo a direção artística de diversos grupos musicais com os quais se apresentou em eventos organizados por estruturas corporativas como as Casas do Povo, os Centros de Recreio Popular ou os Centros de Alegria no Trabalho. Nas décadas de 1960 e 1970 foi responsável pela orientação de grupos como a Orquestra da Sociedade Central de Cervejas e o Grupo Recreativo do Pessoal das Fábricas Triunfo. Entre 1963 e 1972 dirigiu o Grupo de Variedades da delegação da FNAT de Coimbra.