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NEOKANTIANA E NEOCRITICISTA

5.3. Manuel Ferreira Deusdado e a Pedagogia da Redenção

5.3.4. A unidade do ensino e a “psicopedagogia” de Deusdado

Conforme indicamos já de início, o magistério de Deusdado foi caracte- rizado por profunda reflexão sobre o papel da psicologia moderna na edu- cação. Já em 1888, quando da publicação de seus Ensaios de Philosophia

Actual, Deusdado afirma este aspecto de modernidade que a filosofia crítica

ou neokantiana oferece à reflexão filosófica. Ao final dos mesmos Ensaios de- clara que «devemos de preferência procurar na Crítica da razão theorica toda a importancia da grande reforma devida á iniciativa de Kant; para a moral é egualmente n’ella que se deve buscar o valor durável do criticismo»201. É,

pois, com este espírito, que o nosso autor aplicará sua filosofia a todas as áreas fundamentais do conhecimento e da educação. Aqui, de modo muito especial, à Psicologia nascente, à qual é dedicado praticamente todo livro, que, ao todo, soma sete capítulos ou ensaios.

A Psicologia não é, para Deusdado, uma ciência moderna qualquer a se desenvolver; ela promete dar conta dos múltiplos aspectos da subjetivida- de. Ora, justamente a unidade entre o mundo subjetivo e objetivo é o que garante a unidade das ciências. Com efeito, a psicologia moderna não se interessa mais pelo estudo da alma como coisa em si, – pela doutrina do criticismo kantiano, as ciências não se dirigem às coisas em si – mas aos fatos da consciência, ao estudo da sensibilidade, das faculdades e da sucessão dos fenómenos da vida anímica. A síntese entre a experiência sensível e as catego- rias a priori da consciência constitui o domínio próprio à sua concepção de ciência psicológica. O condicionamento da ciência à experiência do mundo material, herança do criticismo confessado, preserva a vida do sujeito contra todo tipo de materialismo ou sensualismo.

É ainda sob o prisma da Psicologia que se justifica o capítulo terceiro dos referidos Ensaios. Nele, aborda-se a religião, mais especificamente, temas como a existência de Deus, a providência e o mal: «O sentimento religioso, moral e esthetico, são caracteres indeléveis que separam a psychologia huma- na da psychologia animal»202. O tratamento da religião segue o ideal de razão

prática kantiano. Efetivamente, o conhecimento científico é condicionado

p. XXII.

200 Ibidem, pp. XXII-XXIII.

201 Idem, Ensaios de Philosophia Actual, Lisboa, Typographia de Eduardo Roza, 1888, p. 269. 202 Ibidem, p. 126.

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Redenção e Escatologia. Estudos de Filosofia, Religião, Literatura e Arte na Cultura Portuguesa pelo mundo material, mas o sentimento do infinito abre-nos à dimensão da liberdade e do espírito que é onde se situa o problema de Deus e da religião.

O capítulo quinto, assim como o terceiro, é um estudo um pouco fora de lugar, se não fosse uma vez mais o prisma adotado por Deusdado, que dá unidade ao conjunto dos capítulos. O autor discute temas de linguagem, antecipando o relevo dado ao assunto por importantes vertentes do pen- samento posterior. Como sua perspectiva é psicológica, aborda igualmente problemas da fala. Como facto psicológico, a linguagem implica emoção e pensamento: «O homem é um ser sensível e emocionavel antes de ser racio- cinante, por isso a poesia appareceu antes da philosophia»203.

É forçoso reconhecer que este conjunto de temas desta primeira obra de Deusdado prepara seu itinerário filosófico fundamental. De um lado, a pers- pectiva crítica de origem kantiana e tudo o que ela implica em termos de concepção da ciência, da ética, da religião. De outro, a matéria de seu ideal de educação, que não somente deve ser moderna, no sentido de assumir as conquistas da filosofia e da ciência contemporâneas, mas também que exige um novo conhecimento do homem, com base na psicologia moderna.

O opúsculo «Psychologia Aplicada à Educação», de 1892, revela a apre- ciação mais detalhada de nosso filósofo dos novos rumos da Psicologia do final do século XIX, que pretendia atingir o estatuto de ciência, conforme os cânones que então se consolidavam.

A psychologia póde ser, como a physiologia ou como a chimica, classificada em diferentes ramos. Assim ha uma psychologia humana, limitada aos phenomenos noologicos do homem, e uma psychologia comparada, que aproxima pela analyse os fenômenos das diferentes raças dos diversos tempos, comparando até a inteligência dos ani- maes com a do homem; há uma psychologia pathologica que des- creve as modificações que a doença produz na alma humana, etc. De todos estes differentes aspectos que revestem a psychologia, de todos eles havemos de tirar lição em favor da psychologia pedagógica.204

Por outro lado, no parágrafo acima, Deusdado expõe a necessidade de se aplicar a nova psychologia, assim como a tradicional, à educação. No decor- rer do opúsculo, nosso autor sintetiza e discute brevemente os mais diversos escritores da área, a começar por Kant, enquanto referencial remoto para as novas correntes da Educação e também da própria psicologia moderna. Deusdado, logo em seguida, atribui a Herbart, influenciado por Kant, um projeto de educação mais “realizável”. E é ao filósofo francês contemporâ- neo, Henri François Marion, que Deusdado afirma dever, mais diretamente,

203 Ibidem, p. 197.

204 Idem, Psicologia Aplicada à Educação, Lisboa, Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1892,

80 A Metafísica Pluralista Deísta e Teísta da Criação, Queda e Redenção a inspiração de seu opúsculo: «É a sciencia da educação em geral sob o ponto de vista theorico e histórico como se ensina nas universidades alemãs, e como a ensina H. Marion na faculdade de Lettras de Paris, que nós desejamos ti- midamente expor n’este curso»205.

Embora não aborde diretamente no referido opúsculo o tomismo, noutro lugar, ao apresentar o pensamento do tomista Tiago Sinibaldi, Deusdado reconhece que a unidade da educação cristã tem sua fonte na força da reli- gião que redime o homem e o conduz à felicidade. Esta ideia norteadora da redenção humana é promovida pela educação tomista, tal como a concebe Sinibaldi em livro que traduz a verdade cristã proposta neste novo momento do pensamento português:

O sr. Sinibaldi afirma que escreveu este livro unicamente por obe- diência ao seu dever pois que não deve deixar os espíritos juvenis cheios de boa fé, entregues á jactancia do erro a que facilmente suc- cumbiram, se não estiverem fortificados com noções precisas, claras e justas. Com efeito, diz elle, repelida a idéa de Deus infinitamente bom e infinitamente justo, desconhecida ou rejeitada a espiritualida- de da alma, a sua imortalidade e responsabilidade – é inútil procu- rarmos ser felizes n’esta e na outra vid.206

Efetivamente, este é o projeto do próprio Deusdado: pôr a educação a serviço da virtude, como defendera Aristóteles, mas sobretudo, a serviço da fé, cuja finalidade é a própria redenção humana.

Por isso mesmo, na parte final do opúsculo de que tratávamos, Deusdado dirige duras críticas à difundida concepção pedagógica de Spencer, por não levar em conta nem o dever nem a virtude. Trata-se-ia, segundo a caracteri- zação bastante aguda de Deusdado, de um consequencialismo naturalista e egoísta, como se depreende, por exemplo, da seguinte passagem:

Este systema de educação parece-me senão contrario, pelo menos absolutamente extranho á moral. De facto ele não se ocupa e não se preocupa senão das vantagens ou dos inconvenientes que podem ou devem resultar do procedimento, e não alimenta o espírito senão de interesse pessoal, e reduz a educação á prudência e ao egoísmo bem entendido207.

E ainda:

205 Ibidem, p. 7.

206 Idem, «Esboço Histórico da Philosophia em Portugal no Século XIX», in J. M. da Cunha

Seixas, Principios Geraes de Philosophia, Lisboa, Imprensa Lucas, 1897, p. XXV.

207 Idem, Psicologia Aplicada à Educação, Lisboa, Imprensa de Lucas Evangelista Torres, 1892,

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Redenção e Escatologia. Estudos de Filosofia, Religião, Literatura e Arte na Cultura Portuguesa

O fim da educação para Spencer é conduzir o homem a governar- -se a si mesmo. O bem é reduzido ao útil, e a obrigação a um simples calculo. A lei moral não é mesmo mencionada ao lado das leis phy- sicas, a palavra dever não é lá pronunciada, o mérito ou o demérito não se discutem208.

Em contraposição ao naturalismo exclusivo, a conclusão do opúsculo re- toma como referencial para educação a doutrina clássica das virtudes, que, segundo Deusdado, equilibraria nossa dimensão natural com nossa dimen- são moral, doutrina essa aqui explicada com vocabulário renovado pela psi- cologia da época:

O conjunto da vida psychologica humana no seu desenvolvimen- to passa por tres phases, que a educação deve acompanhar. Cada uma d’estas syntheses do espírito humano, actividade, sensibilidade e in- telligencia percorre esses tres graus, que se podem chamar instinctivo,

volitivo e habitual. [grifo de Deusdado]209.

E pouco mais adiante, Deusdado expõe o processo de aperfeiçoamento do educando, com foco na formação dos hábitos:

O educador não deve jamais esquecer que a alma do seu educando passa da phase instinctiva á reflectida e d’esta á habitual, e que o seu escopo é favorecer permanentemente as inclinações boas, enfraque- cendo as nocivas…210

Vejamos, por fim, como nos belos termos de Deusdado, nas últimas pági- nas do mesmo opúsculo, o proveito do automatismo dos hábitos não resulta em eliminação da liberdade e da responsabilidade:

Com o instincto, estavamos no domínio da natureza simples, com a vontade elevamo-nos á verdadeira vida humana, á moralidade, ao alvedrio augusto, que confere ao homem o sentimento da dignidade; estudando o habito penetramos n’uma phase de actividade que par- ticipa das duas outras, é por assim dizer uma synthese da natureza e da humanidade, do instincto e da vontade: consuetudo est quase altera

natura211.

208 Ibidem, pp. 18-19. 209 Ibidem, p. 19. 210 Ibidem, p. 21. 211 Ibidem, p. 24.

82 A Metafísica Pluralista Deísta e Teísta da Criação, Queda e Redenção Há neste parágrafo muito de Kant, e um pouco de Aristóteles, mas há sobretudo a concepção de um educador que não pode se afastar do ideal mesmo da educação, que se identifica com a dignidade mesma do homem: a síntese entre natureza e humanidade.

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