CAPÍTULO 2 A ‘REVELAÇÃO’ COMO SOCIÓLOGO
III. A Universidade do Distrito Federal e o curso de ciências sociais
A UDF foi inaugurada em julho de 1935, resultado do esforço conjunto da Prefeitura do Rio de Janeiro, da Associação Brasileira de Educação, da Academia Brasileira de Ciências e, sobretudo, do diretor de Instrução Pública do então Distrito Federal, Anísio Teixeira. 50
A fundação da UDF esteve ligada à execução de um projeto de Reforma da Educação no Distrito Federal que tinha como propósito principal a integração orgânica entre os diferentes níveis de ensino. Tal projeto foi empreendido por Anísio Teixeira, entre os anos de 1931 e 1935, durante o mandato do prefeito Pedro Ernesto.51
Antes que nos concentremos no projeto da UDF vale a pena, rapidamente, destacar algumas características da gestão de Pedro Ernesto que explicitam o ambiente político no qual se realizou a reforma educacional que culminou com a fundação da Universidade. Destacaremos rapidamente quatro delas: 1) a base popular do seu governo, 2) a preocupação fundamentação científica do plano de ações políticas, 3) a busca por um acordo entre as classes populares, cientistas e intelectuais, 4) a defesa da autonomia administrativa do Distrito Federal.
49 Sobre a UDF verificar, além da bibliografia indicada, o livro de memórias de Hermes Lima. Grande amigo de Anísio
Teixeira, Lima foi diretor da Faculdade de Direito da UDF e dedicou um capítulo de seu livro à descrição desta experiência universitária (LIMA, 1974) Verificar também o trabalho de Maria Hermínia Tavares de ARRUDA (1989).
50 Anísio Spíndola Teixeira (1900-1971) nasceu em Catité na Bahia. Estudou nos Estados Unidos, graduando-se em
Educação pela Universidade de Columbia e ligando-se a John Dewey e Willian Killpatrick. Foi diretor geral do Departamento de Educação do Distrito Federal (1921) Na administração do prefeito Pedro Ernesto foi nomeado Diretor de Instrução, cargo no qual lançou um novo sistema de educação, da escola primária à universidade. De 1935 a 1945 foi perseguido pela ditadura de Vargas e, por isso, afastou-se da atuação pública. Em 1951 retomou suas atividades no plano federal a convite do Ministro da Educação Ernesto Simões, exercendo o cargo de Secretário Geral da Companhia de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Foi, depois, diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (1952-1964), membro do Conselho Federal de Educação (1962) e reitor da Universidade de Brasília (1963- 1964). (PENNA, 1987: 169)
51 Pedro Ernesto (1884-1942) era formado em Medicina pela Faculdade da Bahia. Tinha grande reputação como
cirurgião. Em 1922, associou-se em conspirações contra o Governo Federal. Em 1930, participou da Campanha de Getúlio Vargas à Presidência da República e do movimento político-militar que depôs Washington Luis. Tornou-se médico particular de Vargas. Em setembro de 1930, foi nomeado interventor do Distrito Federal. Desfrutou, até 1935, de enorme prestígio junto ao chefe do governo. A partir deste período foi, entretanto, acusado de manter relações com os membros da Aliança Nacional Libertadora. Em 1936, sob acusação de ser comunista, foi afastado da Prefeitura do Distrito Federal e permaneceu preso por alguns meses. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br
Pedro Ernesto foi um conhecido prefeito do Rio, compreendido como um dos primeiros líderes populistas da história política do Brasil. Um dos objetivos manifestos de sua plataforma de governo era incorporar os setores populares no conjunto das responsabilidades governamentais, sobretudo por meio da extensão dos serviços públicos. Fez, nesse sentido, uma administração dirigida principalmente para a melhoria dos serviços de saúde e educação. Reequipou as instalações hospitalares, criando, entre outras obras, o Hospital Miguel Couto, Getúlio Vargas e Carlos Chagas. Além disso, nomeou o educador Anísio Teixeira - considerado o representante mais democrático da Escola Nova no Brasil - para a Diretoria Geral de Instrução e o designou para a tarefa de realizar uma grande reforma do ensino na cidade.
Vale lembrar que durante a gestão de Pedro Ernesto, Anísio Teixeira foi sempre muito atacado pela Igreja católica sob a acusação de ser materialista e comunista. Isso ocorria sob um clima de forte hostilidade entre lideranças católicas e os educadores que atuavam na defesa do ensino laico e gratuito. Porém, o Prefeito do Rio, malgrado os freqüentes ataques ao educador e às diretrizes da reforma por ele empreendida, manteve Anísio Teixeira no cargo com o respaldo e aprovação dos professores e das classes populares. (VICENZI, 1986: 8)
O forte apoio dos setores populares foi a razão pela qual, a despeito de suas crescentes críticas aos rumos do governo Vargas e dos ataques sofridos pelos católicos, fora tratado com alguma parcimônia pelo poder central. Mas isso durou apenas até abril de 1936, quando foi preso, afastado da Prefeitura, substituído pelo interventor Padre Olympio de Mello.
Lembremos também que Pedro Ernesto, durante o período em que esteve à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, acreditava que a solução de muitos dos problemas da cidade estava subordinada a um adequado conhecimento científico do meio social. Compreendia que o favorecimento da pesquisa científica, seguido da gestão técnica dos seus resultados, se apresentaria como instrumento precioso para orientar o plano de atendimento das necessidades da população.
Nesse sentido é que desejou reunir a elite técnica e científica com os setores populares para a discussão sistemática sobre as suas possíveis ações governamentais. Parecia crer que da colaboração efetiva entre trabalhadores, cientistas e intelectuais resultariam soluções mais eficazes para a cidade. O exemplo mais notório disso teria sido a fundação, por iniciativa do próprio prefeito, da União Trabalhista Humanitária, organização que tinha como objetivo congregar trabalhadores e
intelectuais para a troca de informações e para a orientação racional das ações políticas. (BARBOSA, 1996:26)
Finalmente, é importante ressaltar a luta de Pedro Ernesto para conquistar a autonomia administrativa do Distrito Federal. No início de 1933, participou da fundação do Partido Autonomista do Distrito Federal cujo principal ponto do programa era a luta pela autonomia política e administrativa do Distrito Federal. Sob sua liderança, o Partido Autonomista venceu as eleições para a Assembléia Constituinte de 1934 onde suas teses foram aprovadas. No ano seguinte, o partido obteve ampla vitória nas eleições para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, elegendo a maioria da bancada daquela casa. Os vereadores elegeram então Pedro Ernesto Prefeito do Rio de Janeiro, tornando-o o primeiro Prefeito eleito da história da cidade, ainda que indiretamente. Nesse caso, munido dos recursos da lei, com ampla base partidária e popular, garantira sua autonomia em relação às orientações do governo central. Conquistara assim uma posição singular no contexto político da época. Posição esta que garantiu os fundamentos para a experiência da UDF.
Veremos, com efeito, que Reforma Educacional do Distrito Federal realizada desde 1934 teve como fundamento a autonomia política e o pressuposto da aliança entre setores populares e a elite intelectual.
Houve, por parte de Anísio Teixeira, uma preocupação - independentemente da ideologia varguista e católica - com a formação intelectual dos setores populares, sobretudo, por meio da expansão e melhoramento da rede de ensino oficial.
Teixeira esforçou-se notavelmente por realizar uma aproximação dos níveis de escolaridade entre os filhos de operários e os filhos das elites. Procurou diminuir as distinções curriculares que separavam as escolas técnicas destinadas aos futuros operários, das escolas secundárias, para a qual se encaminhavam os alunos mais abastados que se preparavam para realizar cursos superiores. Com este propósito, elevou todo o ensino técnico profissional ao nível do secundário: várias cadeiras passaram a ser conjuntamente estudadas pelos alunos dos cursos técnicos e dos cursos preparatórios para a Universidade. Permitiu, assim, que todos pudessem pleitear o ingresso em graus superiores de ensino.
No que se refere ao professorado, Teixeira procurou, sobretudo, melhorar a formação técnica e científica dos docentes. A qualificação de professores, especialmente os primários, era uma das metas prioritárias de sua ação. Tanto que, em 1947, exatamente doze anos após a
experiência de Reforma no Rio de Janeiro, numa confissão comovida, demonstrava que os professores foram fonte de gratificação profissional emocional do seu empenho:
Fui diretor de ensino no Rio com a absoluta convicção de que não passava de um servente - um servente-mor, talvez - dos que realmente faziam o ensino. (..,) Como diretor, isto é, servente, ficava gratificado quando criava para uma professora primária condições um pouco melhores de ensino...52
De fato, para melhorar o ensino dos professores Teixeira fundou o Instituto de Educação (mais tarde incorporado a UDF) e o equipou com laboratórios e escolas de aplicação. Fundou também o Instituto de Pesquisas Educacionais, que fora dirigido por Delgado de Carvalho e cuja função era, entre outras coisas, recolher dados sobre a realidade educacional do Distrito Federal para que servissem de subsídio para a ação educacional. (MARIANI, 1982: 171)
A preocupação com a excelência da formação profissional e humana de professores, com a elevação da cultura intelectual e científica (sobretudo dos setores populares) na cidade do Rio de Janeiro e com a pesquisa aplicada à política pública parecia conduzir Anísio Teixeira e o prefeito Pedro Ernesto diretamente à idéia da formação de um centro superior de estudos.
Com efeito, a fundação da UDF foi um episódio singular na vida universitária brasileira e se integrou aos objetivos gerais da reforma do ensino no Rio de Janeiro. Teixeira a concebia como um coroamento da reforma. (TEIXEIRA, 1934: 24)
Na perspectiva de Teixeira, com a fundação da nova Universidade não se desejava, tão somente, preparar quadros formados por indivíduos com domínio do saber existente e da experiência humana acumulada. Desejava-se, principalmente, criar um ambiente de saber, facilitador da participação de todos na formação intelectual da experiência humana, especialmente os professores. (FÁVERO, 1977)
Dois traços são característicos da concepção particular de universidade sustentada por Anísio Teixeira. (TEIXEIRA, 1997) Em primeiro lugar, o educador compreendia que o ambiente universitário deveria manter absoluta autonomia perante a Igreja e o Estado. A função do Estado deveria ser tão simplesmente zelar para que se mantivesse absoluta liberdade na produção e difusão do conhecimento.
52 Carta de Anísio Teixeira a Gilberto Freyre, datada de 2 de fevereiro de 1946. Acervo do Centro de Documentação da
Em segundo lugar, Teixeira acreditava que a UDF poderia efetivamente colaborar para uma coordenação intelectual que irradiasse o conhecimento humano entre diferentes camadas da sociedade. Uma coordenação universitária evitaria o autodidatismo, o conhecimento como mero fator de diferenciação social, o isolamento dos intelectuais, a segregação cultural da população.
A cultura brasileira se ressente, sobretudo, da falta de quadros regulares para sua formação. Em países de tradição universitária, a cultura isola, diferencia, separa. E isso por que? Porque os processos para adquiri-la são tão pessoais e tão diversos, e os esforços para desenvolve-la tão hostilizados e tão difíceis, que o homem culto, à medida que se cultiva, mais se desenraiza, mais se afasta do meio comum, e mais se afirma nos exclusivismos e particularismos de sua luta pessoal pelo saber. (TEIXEIRA,
1997: 126)
Nesse sentido, a criação da UDF fora compreendida como possibilidade de permitir uma integração maior entre os níveis básico, secundário e superior no âmbito da cidade do Rio de Janeiro. Para Teixeira, caberia à instituição universitária cultivar e manter aceso o interesse pelo mundo técnico, científico, literário e filosófico entre os diferentes extratos sociais da vida carioca.
A universidade deveria ser como um foco de irradiação de uma nova mentalidade científica. Por meio da formação universitária, milhares de professores e profissionais liberais poderiam esparramar e estimular os avanços da vida intelectual e científica. Tratava-se, pois, de velar para que a curiosidade humana não se extinguisse e, desse modo, garantir o progresso técnico e científico:
São as universidades que fazem hoje, com efeito, a vida marchar. Nada as substitui. Nada as dispensa. Nenhuma outra instituição é assombrosamente útil. (TEIXEIRA, 1997: 125)
Notemos que, dentro desta perspectiva, o desenvolvimento da ciência era essencialmente ligado à democratização do acesso à cultura. Estas, as condições ideais para o progresso nacional, segundo Teixeira. Notemos que se trata, a princípio, de um projeto universitário muito distinto da Universidade de São Paulo (USP), cujo ‘leitmotiv’ foi essencialmente a formulação de elites intelectuais e políticas capazes de orientar o povo. (CARDOSO, 1982) É, pois, possível que o populismo de Pedro Ernesto oferecesse uma base política para uma experiência de institucionalização universitária bastante diversa daquela realizada em São Paulo.
Rigorosamente, a oportunidade legal para a criação da UDF surgiu com a promulgação da Constituição de 1934, que outorgou a autonomia administrativa ao Distrito Federal. (BARBOSA, 1996: 50)
Na verdade, houve uma polêmica relativa à legitimidade jurídica da instituição. Havia, pois, um confronto entre a legislação que garantia a autonomia administrativa conquistada pelo Distrito Federal e o Estatuto das Universidades Brasileiras, instituído pelo decreto Federal de 1931, que preconizava a submissão das Universidades à União. Essa polêmica perdurou durante todo o período de existência da Universidade até o seu fechamento em 1939 e ameaçou, até mesmo, o reconhecimento dos diplomas dos alunos formados em 1938.
O fato é que a instauração da Universidade fora, em 1935, permitida por Getúlio Vargas, a despeito do problema jurídico que estava em sua origem. Possivelmente, no início de 1935, o presidente temeu contrariar os interesses do prefeito do Distrito Federal por receio de perder seu apoio popular.
Anísio Teixeira foi reitor da UDF, mas se afastou em novembro de 1935 devido à acusação de participação no que se convencionou chamar de ‘Intentona Comunista’. Para evitar embaraço político e possíveis conseqüências desfavoráveis para a Universidade e para a Secretaria de Educação do Distrito Federal, deixou suas funções e viveu uma espécie de auto-exílio na Bahia.53
O afastamento de Anísio Teixeira da Universidade e da Diretoria de Instrução certamente abalara Freyre. Como vimos é exatamente após a Intentona Comunista e a demissão do educador que Freyre escreveu para Fernando de Azevedo sobre suas pretensões de criar no Recife um Instituto de Pesquisas Sociais.
53 A correspondência entre Anísio Teixeira e Pedro Ernesto está disponível na Fundação Getúlio Vargas/
CPDOC/Arquivo Anísio Teixeira e pelo site http://www.prossiga.br/anisioteixeira/cartas. Numa das cartas escritas por Anísio Teixeira ao prefeito do Rio, o educador justifica seu afastamento da Diretoria de Instrução da Prefeitura e nega que tenha participado da ‘Intentona Comunista’: Pela conversa que tive, ontem, com vossa excelência, pude perceber
que a minha permanência na Secretaria de Educação e Cultura do Distrito Federal constituía embaraço político para o governo de Vossa Excelência. (...) não é possível aceitar minha exoneração sem a ressalva de que ela não envolve, de modo algum, a confissão, que se poderia supor implícita, de participação, por qualquer modo, nos últimos movimentos de insurreição ocorridos no país. Não sendo político e sim educador, sou, por doutrina, adverso a movimentos de violência cuja eficiência contexto e sempre contestei. (...) Sou, por convicção, contrário a essa trágica confiança na violência que vem se espalhando pelo mundo, em virtude de um conflito de interesses que só pode ser resolvido, ao meu ver, pela educação no sentido largo do termo. (...) Conservo, em meio a toda a confusão momentânea, as minhas convicções democráticas, as mesmas que dirigiram e orientaram todo meu esforço, em quatro anos de trabalho e lutas incessantes, pelo progresso educativo do Distrito Federal e reivindico, mais uma vez, para essa obra que e do magistério do Distrito Federal, e não somente minha, o seu caráter absolutamente republicano e constitucional e a sua intransigente imparcialidade democrática e doutrinária.
Vale lembrar que Freyre conheceu Anísio Teixeira alguns dias após o Golpe de 30, quando estava de passagem pela Bahia, antes do embarque em direção a Portugal com Estácio Coimbra. Certamente não sabia, mas encontrava ali um grande companheiro, fundamental em momentos importantes de sua carreira 54
É mesmo possível que Freyre tenha se identificado de modo especial com o projeto da Universidade do Distrito Federal. Foi, pelo menos, isso que deixou entrever na introdução à primeira edição do livro Sociologia: uma introdução aos seus princípios. Ali, se referiu a experiência universitária da UDF como a única tentativa séria de universidade que até hoje se esboçou no Rio
de Janeiro. (FREYRE, 1945: 68) Do mesmo modo, referiu-se a Anísio Teixeira como figura admirável de renovador do ensino no Brasil. (FREYRE, 1945: 67)
Desde o conflito que se convencionou denominar de ‘Intentona Comunista’ - em novembro de 1935 - a Universidade fora alvo de uma série de ataques por parte do Governo Federal que passara a vê-la como um covil de conspiradores. Isso resultou no afastamento de Anísio Teixeira da reitoria.
Mas é principalmente a partir de novembro de 1937, com a instauração do Estado Novo, que a intervenção federal foi severa. Logo após o Golpe de novembro, Getúlio Vargas depôs o reitor Afonso Penna e nomeou como interventor o Padre Olympio de Melo. A nomeação do padre representou, em certo sentido, a vitória dos setores conservadores sobre o projeto democratizante de Anísio Teixeira.
Diante das circunstâncias, seguiu-se um longo período de instabilidade administrativa na UDF. Depois de Olympio de Melo, assumiram sucessivamente a reitoria Alceu Amoroso Lima, José Baetta Vianna e Luiz Camilo de Oliveira Netto.
A rigor, o que se verificou a partir de 1937 foi um longo preparo para a dissolução da instituição até que, finalmente, em 1939 um decreto do governo federal fechou a Universidade e transferiu seus cursos para a Universidade do Brasil.55
54 Importante registrar a parceria de ambos no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (órgão ligado ao MEC),
quando, no período compreendido entre o final dos anos 50 e a primeira metade dos anos 60, Freyre dirigiu o Centro Regional de Pesquisas Educacionais do Recife. O estudo das relações pessoais e profissionais entre estas duas grandes figuras da vida intelectual brasileira precisa ser ainda realizado. Pode ser, pois, revelador, das estreitas relações entre Sociologia e Educação. Tal estudo poderá também elucidar alguns aspectos significativos das relações de ambos com a burocracia estatal brasileira.
55 A Universidade do Brasil, fundada em 1935 por Capanema, pretendia impor um modelo de ensino superior para a
nação. Sua fundação foi um projeto grandioso e centralizador, a partir do qual se pretendia controlar a qualidade do ensino universitário no Brasil. (www.cpdoc.fgv.br) Mario de Andrade, em carta a Gustavo Capanema, não deixou de lamentar o fechamento da UDF: Não pude me curvar às razões dadas por você para isso: lastimo dolorosamente que se
Antes de seu fechamento, um dos mais notáveis modos de atingir a UDF foi a promulgação do Decreto 24 que impedia o acúmulo de funções no serviço público a que nos referimos no tópico anterior. Como grande parte dos professores da UDF ocupava cargos em outras instituições de ensino, o quadro docente fora esvaziado. Foi o caso de Cecília Meirelles, por exemplo, que teve que abrir mão das aulas na Universidade para permanecer no ensino primário.
Com efeito, um relatório de Capanema acerca da situação da Universidade, apresentado ao Presidente da República numa reunião ocorrida em 28 de junho de 1938, recomendava o fechamento da instituição por não estar de acordo com leis federais. O Ministro invocou o litígio jurídico que estava na origem da Universidade: para ele, não era possível manter uma instituição de ensino superior insubmissa às leis federais. Nesse sentido, para Capanema, a manutenção da instituição nesta condição (considerada ilegal) era um indicativo de indisciplina:
‘Senhor presidente’, escreve ele, ‘o Estado Novo se assenta num princípio essencial: a disciplina. Em nome deste princípio, e partido do suposto que ‘uma universidade, mesmo que a mais modesta, uma vez que seja de fato uma universidade, é uma instituição nacional, de alcance, de influência, de sentidos nacionais, propõe-se a incorporação dos cursos da UDF à Universidade Federal. (SCHWARTZMAN, 2000:229)
A partir desta breve revisão, constatamos que a fundação da UDF representou emblematicamente um momento de transição no campo intelectual brasileiro. Seus fundadores procuraram, por meio da autonomia política em relação ao governo federal, superar a visão do diploma superior como meio de distinção de uma elite. Desejaram tornar a universidade organicamente ligada às escolas, capaz de formar professores habilitados para iniciar crianças e jovens no gosto pela ciência. Seria como uma espécie de ponto de expansão da cultura científica na